A Múmia! Um Conto do Século XXII - Volume I - Introdução

[iii]Há muito tempo eu tenho desejado escrever um romance, mas eu não pude determinar sobre o que ele devia ser. Eu não podia suportar qualquer coisa banal e não sabia o que fazer por um herói. Heróis são geralmente muito parecidos, tão monótonos, tão terrivelmente insípidos – tão completamente irmãos de uma raça, com a semelhança de família tão surpreendentemente forte – “Isso não será apropriado para mim,” pensei, enquanto eu passeava indiferentemente até um beco sombreado, em uma bela trade de junho: “Eu preciso ter aluma coisa nova, alguma coisa completamente fora do caminho batido: - mas o que? - sim, essa era a questão. Em vão eu torturo meu cérebro – em vão eu busquei o [iv]depósito de minha memória: eu não podia pensar em coisa alguma que não fora pensada antes.”
É muito estranho” disse eu, enquanto andava mais rápido, como se esperasse que a rapidez de meu movimento sacudiria a lentidão de minha imaginação. Era tudo em vão! Eu bati em minha testa e chamei a Sagacidade à minha assistência, mas a divindade maligna era surda à minha súplica. “Certamente,” pensei eu, “a mina profunda da imaginação não pode estar esgotada; deve haver algumas novas ideias restantes, se eu pudesse encontrá-las.” Encontrá-las, contudo, era a dificuldade.
Dessa maneira, perdida em meditação, eu caminhei adiante até que alcancei o topo de uma colina, e uma perspectiva esplêndida estourou sobre mim. Um vale fértil ricamente arborizado, decorado com muitas vilas e romântico chalés, e regado por um nobre rio, que feria lentamente seu preguiçoso curso para frente, espalhava-se sobre meus pés; e elevadas colinas dilatando-se aos céus, seus cumes perdidos nas nuvens, limitadas pelo horizonte. O sol estava pondo-se em todo seu esplendor, e seus raios persistentes davam aquelas tonalidades brilhantes e massas profundas de sombras à paisagem que algumas vezes [v]produzem um efeito tão mágico. Era bastante uma cena de Claude Lorraine; e, para mais completamente desfrutá-la, eu entrei em um campo de feno e sentei-me em um banco de areia coberto de grama. O dia tinha estado abafado; e a briza da tarde, enquanto ela murmurava através da folhagem, eu sentia fria e refrescante. “É um mundo adorável,” pensei eu, “a despeito de tudo que os cínicos possam dizer contra ele. Nossas próprias paixões trazem miséria sobre nossas cabeças, e então nós protestamos contra o mundo, embora unicamente nós estejamos em falta. Por que eu deveria buscar perambular pelas regiões da ficção? Por que não desfrutar tranquilamente das bençãos que os Céu concedeu-me?
Eu sentia-me bastante indolente para responder a minhas próprias questões; uma quietude deliciosa arrastou-se sobre meus sentidos, e o caos elevado de minhas ideias foi embalado ao repouso. Um carvalho majestoso estendia seus braços nodosos em dignidade taciturna acima de minha cabeça; miríades de insetos ocupados zumbiam ao redor de mim; e madressilvas e rosas selvagens, pendendo de cada cerca viva, misturavam seus perfumes com aquele de feno recém-cortado. Eu reclinei-me languidamente sobre minha cama coberta de grama, ouvindo o zum-zum indistinto da vila distante, e sentido aquele [vi]delicioso sentido de dispensa de cuidado, o qual o murmúrio fraco de alvoroço longínquo dá ao espírito cansado, quando subitamente os sinos começaram um badalar alegre – as notas animadas agora intensificando-se ruidosamente sobre o ouvido, depois se abatendo gentilmente para longe com a briza retirante, e então novamente retornando com doçura adicionada. Eu ouvi com deleite sua melodia, até que a suavidade delas pareceu aumentar; os sons tornaram-se gradualmente mais e mais fracos; a paisagem desapareceu da minha vista: um breve langor arrastou-se sobre mim: em resumo, eu adormeci.
Não seria de nenhuma utilidade ir dormir sem sonhar; e, adequadamente, eu mal fechara meus olhos quando, pareceu-me, um espírito colocou-se de pé diante de mim. Sua cabeça estava coroada de flores; suas asas azul celeste agitavam-se na briza, e uma roupagem leve, como o vapor veloso que pendia sobre o cume de uma montanha, flutuava em volta dele. Em sua mão, ele segurava um pergaminho, e sua voz soava suave e doce como a melódia liquida do rouxinol.
Tome isto,” disse ele, sorrindo benignamente; “é a Crônica de uma época futura. Narre-a [vii]em uma história. Isso gratificará seus desejos, quanto a dar-te um herói totalmente diferente de qualquer herói que alguma vez apareceu antes. Você hesita.” ele continuou, novamente sorrindo, e considerando-me seriamente: “Eu leio seus pensamentos, e vejo que você teme esboçar as cenas sobre as quais você deve escrever. Porque você imagina que elas devam ser diferentes daquelas com as quais você está familiarizada. Essa é uma desconfiança natural: de fato as cenas serão diferentes daquelas que você agora contempla; a inteira face da sociedade estará mudada: novos governos terão surgido; descobertas estranhas terão sido realizadas; e mais estranhos modos de vida adotados. A curiosidade e pesquisa sem descanso do homem então o terão capacitado a erguer o véu de muito que é, no presente (para ele, pelo menos), um mistério; e seus poderes (tanto quanto à ação mecânica quanto ao conhecimento intelectual) serão grandemente alargados. Mas, mesmo então, na plenitude de suas aptidões, ele será feito consciente da enfermidade de sua natureza, e será culpado de muitos absurdos que, em seu estado menos iluminado, ele se sentiria envergonhado de cometer.”
[viii]“Para ninguém senão para você mesma essa visão foi revelada: não tema contemplá-la. Embora estranha, ela pode ser integralmente entendida, pois muito ainda restará para conectar aquela época futura com o presente. Os impulsos e sentimentos da criatura humana devem, pela maior parte, ser semelhantes em todas as épocas; hábitos variam mas a natureza persiste; e as mesmas paixões foram delineadas, a mesma fraqueza ridicularizada, por Aristófanes, Plauto e Terêncio, como em tempos posteriores foram descritas por Shakespeare e Molière; e como serão nos tempos sobre os quais você deve escrever, - por autores ainda desconhecidos.”
Mas você ainda hesita; você objeta que a novidade das ilusões confundem você. Esse é um tipo bastante novo de delicadeza; como autores raramente se preocupam a tornarem-se familiarizados com um assunto antes que eles comecem a escrever sobre ele. Contudo, uma vez que você é tão escrupulosa, eu tentarei, se possível, auxiliar-te. Assim eu fiz.
Assim eu fiz; e vi, como em um espelho mágico, as cenas e personagens, os quais eu agora deverei esforçar-me para passar diante dos olhos do leitor.


Próximo capítulo


ORIGINAL:
LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.iii-viii. Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n9/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


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