Introdução
[1]No
ano de 2126 a Inglaterra desfrutava de paz e tranquilidade sob o
domínio absoluto de uma soberana feminina. Numerosas mudanças
ocorreram por alguns séculos no estado político do país, e várias
formas de governo foram sucessivamente adotadas e destruídas, até
que, como geralmente é o caso após revoluções violentas, todos
eles estabeleceram-se
em uma monarquia absoluta. A religião do país era tão
mutável quanto seu governo; e, no final, pela adoção do
Catolicismo, parecia [2]ter
chegado a quase o mesmo resultado; despotismo no estado, de fato,
naturalmente produz despotismo na religião; a fé implícita e
obediência passiva requeridas em um caso, sendo os melhores de todos
os possíveis preparativos para a submissão absoluta tanto na mente
quanto no corpo necessário no outro.
Em tempos mais antigos, a Inglaterra tinha sido abençoada com um governo misto e uma religião tolerante, sob os quais o povo desfrutara de tanta liberdade quanto talvez alguma vez eles possam fazer, consistentemente com sua prosperidade e felicidade. Mas não está na natureza da mente humana ficar contente: nós sempre precisamos ou ter esperança ou temer; e as coisas à distância parecem tão muito mais belas do que elas parecem quando nos aproximamos delas, que nós sempre imaginamos o que nós não temos, infinitamente superior a qualquer coisa que nós temos: e negligenciamos prazeres dentro de nosso alcance, para buscarmos outros, os quais, como ignes fatui, esquivam-se de nosso alcance no momento mesmo em que nós pensamos tê-los alcançado.
Dessa maneira era com o povo da Inglaterra:- Não satisfeitos com serem ricos e prósperos, [3]eles ansiavam por alguma coisa a mais. A abundância de riqueza originou projetos selvagens e especulações gigantes; e, embora muitos falhassem, contudo, conforme alguns sucederam, a enormidade das somas ganhas pelos projetores, incitou outros a buscarem a mesma carreira. Novos países foram descobertos e civilizados; a terra inteira foi trazida ao mais elevado nível de cultura; cada canto dela foi explorado; montanhas foram aplainadas, minas foram escavadas, e o globo exaurido até o seu centro. Nem o ar, nem o mar não escaparam, e toda a natureza foi compelida a submeter-se à irresistível supremacia do Homem.
Entretanto, o povo da Inglaterra não estava satisfeito:- permitidos a satisfazerem cada desejo até que a indulgência sucedesse à saciedade, eles ainda estavam infelizes; talvez, precisamente porque eles não tinham mais dificuldades a encontrar. A educação tornou-se universal, e os termos técnicos de ciências de difícil compreensão, familiares à mecânica mais baixa; enquanto questões de religião, política e metafísica, agitadas por eles diariamente, supriam aquele estímulo, pelo qual as mentes deles, enfraquecias por [4]cultura excessiva, constantemente imploravam. As consequências podem ser prontamente concebidas. Era impossível para aqueles que estudavam profundamente quem tinham de laborar pelo pão diário; e não tendo tempo para fazerem a si mesmos mestres de qualquer assunto dado, eles apenas aprendiam o suficiente de todos para os tornar discutidores e descontentes. As cabeças deles estavam cheias de palavras às quais eles não afixavam ideias precisas, e o pouco senso com o qual o céu abençoara-os foi perdido debaixo de uma massa de conhecimento não digerido e mal aplicado.
Presunção inevitavelmente leva a rebelião. A consequência natural da turba considerando a si mesma tão sábia quanto seus governantes foi que eles tomaram a primeira oportunidade conveniente que se ofereceu para empurrarem esses governantes supracitados de seus assentos. Uma aristocracia foi estabelecida e, mais tarde, uma democracia; mas ambas compartilharam do mesmo destino; pois os líderes de cada uma, por sua vez, descobriram que os instrumentos dos quais eles fizeram uso para subir, logo se tornaram ingovernáveis. O povo provara das doçuras do poder, eles aprenderam sua própria força, eles foram iluminados; e, [5]imaginando que eles entenderam a arte de governar tão bem quanto seus antigos diretores, eles não viram razão porque, após se livrarem do controle de um mestre, eles deveriam depois se submeterem ao domínio de muitos. “Nós estamos livres,” disseram eles, “nós não reconhecemos leis senão aquelas da natureza e daqueles que nós estamos tão competentes para julgar quanto nossos pretensos mestres. No que eles são superiores a nós mesmos? A natureza tem sido tão beneficente para nós quanto para eles, e nós temos tido as mesmas vantagens de educação. Então por que nós deveríamos trabalhar duro para lhes dar conforto? Nós somos capazes de governar a nós mesmos. Por que nós deveríamos pagá-los para nos governar? Por que deveríamos ser excluídos de prazeres mentais e condenados a trabalho manual? Não são nossos gostos tão refinados quanto os deles, e nossas mentes tão altamente cultivadas? Nós asseveraremos nossa independência e jogaremos fora o jugo. Se qualquer homem deseja luxos, que ele labore para os procurar para si mesmo. Nós não seremos mais escravos; nós todos seremos mestres.”
Dessa maneira eles raciocinaram, e dessa maneira eles agiram, até que governo após governo tendo sido [6]derrubado, a anarquia completa prevaleceu; e o povo começou a descobrir, contudo, ai de mim!, muito tarde, que havia pouco prazer em serem mestres quando não havia súditos; e que era impossível desfrutar de prazeres intelectuais, considerando que cada homem era compelido a laborar por seu próprio pão diário. Contudo, isso era inevitável, pois, como a igualdade perfeita foi declarada, é claro que ninguém condescenderia a trabalhar por seu vizinho; e cada coisa era feita de maneira ruim; como, por mais habilidoso que qualquer homem seja em qualquer arte ou profissão particulares, é bastante impossível que ele possa distinguir-se em todas.
Enquanto isso, o povo, embora eles escassamente soubessem porque, quem amarrados à ideia de igualdade daquela libertação da labuta, descobriam, para a infinita surpresa deles, que os fardos deles aumentaram dez vezes, considerando que seus confortos inexplicavelmente diminuíram na mesma proporção. As bençãos da civilização estavam, de fato rapidamente, escapulindo deles. Cada homem ficou com medo de que os suados meios de existência deviam ser arrancados de sua posse; pois, como todas as leis tinham sido abolidas, o [7]forte tiranizava o fraco, e a mais iluminada nação no mundo estava em perigo iminente de degenerar em uma horda de bárbaros rapaces.
Esse estado de coisas não podia continuar; descobrindo a partir da experiência que a igualdade perfeita não era exatamente a mais invejável forma de governo, eles começaram a suspeitar de que uma divisão de trabalho e uma distinção de classes eram absolutamente necessárias para a civilização; e procuraram sua antiga nobreza, para tentar reestabelecer alguma coisa como ordem para a sociedade. Esses personagens ilustres logo foram encontrados: aqueles que não emigraram, retiraram-se para suas propriedades no campo, onde, rodeados por seus dependentes e os poucos amigos que permaneceram fiéis a eles, eles desfrutavam de otium cum dignitate, e consolavam a si mesmos pela perda de sua antiga grandeza, maldizendo o mais virilmente aqueles que os privaram dela.
Entre esse número, estava a descendência linear da última família real, e para ela o povo agora resolvia, humilde e incondicionalmente, [8]oferecer a coroa; imaginando, com a veemência e inconsistência usuais das comoções populares, que um governo arbitrário deve ser o melhor para eles, como sendo o reverso mesmo daquele de sujos os males eles há pouco tão forçosamente experienciaram.
Contudo, o príncipe a quem a delegação do povo fez essa oferta aconteceu de não ser ambicioso. Como outro Cincinato, ele colocou toda sua felicidade no cultivo de uma pequena fazenda e teve prudência suficiente para rejeitar uma grandeza que ele sentia dever ser comprada pelo sacrifício de sua paz. Os delegados ficaram em desespero diante da recusa dele; e ele insistiram novamente em seu pedido com cada argumento que a dificuldade de sua situação podia inspirar. Eles pintaram em cores brilhantes os horrores da anarquia que prevalecia, a miséria do reino, o desespero do povo e, finalmente encerraram seus argumentos com um solene apelo ao Céu, para que, se ele persistisse em sua recusa, a miséria futura do povo poderia cair sobre a cabeça dele. O príncipe continuou inflexível; e os delegados estavam [9]preparando-se para se retirar, quando a filha do príncipe, quem estivera presente durante toda a entrevista, precipitou-se e evitou a retirada deles:- “Fiquem! Eu serei a Rainha de vocês,” bradou ela energicamente; “Eu salvarei meu país, ou perecerei na tentativa!”
A princesa era uma bela mulher, de aproximadamente vinte e seis anos; e, nesse momento, os olhos dela brilhantes com entusiasmo, as bochechas dela brilhantes, a face e figura inteiras dela exalando dignidade a partir do propósito elevado da alma dela, ela parecia aos delegados quase como um ser sobrenatural; e, considerando a oferta dela como uma inspiração direta do Céu, eles trouxeram-na em triunfo à multidão reunida que aguardava o retorno deles: considerando que as pessoas, sempre apanhadas pela novidade, e desejosas de qualquer mudança para as libertar da miséria que elas estavam suportando, saudaram o aparecimento dela com alegria e, por unanimidade, proclamaram-na a Rainha deles.
A nova soberana logo descobriu que a tarefa que ela aceitara era uma tarefa difícil; mas, afortunadamente acontecendo de possuir senso comum e prudência, unidos a uma disposição firme e ativa, ela [10]efetuou a tempo restaurar a ordem, e confirmar seu próprio poder, visto que ela contribuía para a felicidade do povo dela. A face do reino mudou rapidamente – a melhoria da segurança produzida – e os nobres autoexilados da antiga dinastia reunindo-se em torno da nova Rainha, ela escolheu entre eles os mais sábios e experientes como seus conselheiros e, com a ajuda deles, compôs um excelente código de leis. Esse livro foi aberto para o reino inteiro; e, os casos sendo decididos pelo princípio em vez do precedente, o litígio era quase desconhecido: pois, conforme as leis eram completa e claramente explicadas, assim como a serem entendidas por todos, poucos se atreviam a agir em violação delas, a punição sendo certa de se seguir à detecção; e todos os prazeres agonizantes de uma ação judicial foram inteiramente destruídos, como todos sabiam, no momento em que os fatos fossem declarados, como inevitavelmente terminariam. Essa renovação da idade de ouro continuou por vários anos sem interrupção, o povo estando encantado demais com os confortos pessoais dos quais eles desfrutavam, para reclamar dos erros inseparáveis [11]de todas as instituições humanas; considerando que a lembrança do que eles sofreram durante o reino da anarquia, fazia-os tremer diante de uma mudança, e pacientemente se submetiam a inconveniências insignificantes para evitarem o risco de males certos.
Essa geração passou, e com ela morreu, não apenas a recordação dos infortúnios passados do reino, mas também o espírito de satisfação que eles engendraram. Uma nova raça surgiu, quem, com a ignorância e presunção da inexperiência, encontrava defeito em cada coisa que eles não entendiam, e acusavam a Rainha e seus ministros de senilidade, meramente porque eles não realizavam impossibilidades. Contudo, o governo estava muito firmemente estabelecido para ser facilmente abalado. A economia judiciosa da Rainha enchera seu tesouro com riquezas; as suas regulações prudentes estenderam o comércio de seus súditos a uma extensão quase inacreditável; enquanto que sua disposição firme e decidida tornaram-na universalmente respeitada tanto em casa quanto no exterior. Portanto, os descontentes foram intimidados à submissão, e obrigados, a despeito deles mesmos, a descansar [12]satisfeitos com rosnar para o governo que eles não eram suficientemente forte para perturbar. Por essa época, a Rainha morreu, e o estado de coisas experienciou uma mudança importante.
Mencionou-se anteriormente que a religião do país alterara-se com seu governo. Ateísmo, liberdade racional e fanatismo seguiram-se um ao outro em sucessão regular; e o povo descobriu, por experiência fatal, que perseguição e intolerância assimilavam-se tão naturalmente como descrença com superstição. Um governo firme parecia requerer uma religião estabelecida; e a multidão, sempre em extremos, arrojava-se do excesso de liberdade à intolerância. A fé Católica foi restaurada, novos santos canonizados, e confessores indicados nas famílias de cada pessoa de distinção. Contudo, esses sacerdotes estavam muito longe de possuírem o poder que eles possuíram em tempos antigos. Os olhos estiveram abertos por muito tempo para serem facilmente fechados novamente. A educação continuava entre as classes inferiores; e embora, no tempo que essa história começa, ela estava saindo de moda com [13]pessoas de classe, a sua influência era sentida até por aqueles mais imbuídos de preconceito contra ela. Durante o reino da Rainha falecida, as mentes do público, não tendo quaisquer assuntos de estado com os quais se ocuparem, direcionaram-se para as melhorias das artes e ciências; e tantas novas invenções foram atacadas, tantas maravilhosas descobertas feitas e tantas invenções engenhosas colocadas em execução, que a pobre Natureza parecia estar degradada de seu trono, e o homem usurpador ter avançado para suprir o lugar dela.
Antes que a Rainha morresse, ela escolheu a sobrinha dela, Cláudia, para a suceder; e, como ela promulgou que nenhum de suas sucessoras deveria casar, ela ordenou que todas as futuras rainhas deveriam ser escolhidas pelo povo, a partir dos membros femininos da família dela que poderiam estar entre vinte e vinte e cinco de idade, à época do trono tornando-se vago. Cada homem em toda parte do reino que alcançara a idade de vinte e um, devia ter uma voz na eleição; mas, como foi presumido, poderia ser inconveniente convocar esses numerosos eleitores em um lugar, [14]foi acordado que cada dez mil deveriam escolher um delegado para seguir para Londres para os representar, e que a maioria desses delegados deveria eleger a Rainha. Contudo, parecia provável para todas as mentes pensantes que esse esquema, como o mais verossímil em teoria, apresentaria algumas dificuldades quando ele fosse colocado em prática; mas com essas, a antiga Rainha nunca se incomodou em pensar. Ela preparou-se contra qualquer distúrbio imediato pela escolha de sua própria sucessora e deixou à posteridade cuidar de si mesma.
A Rainha Cláudia foi um daqueles soberanos fainéant, de quem é extremamente difícil escrever a história, pela razão simples, mas incontestável, de que eles nunca realizam qualquer ação digna de ser registrada. Mas, como ela raramente fazia qualquer mal, embora ela não fizesse muito bem, ela efetuou escapar quer de censura ou de aplauso violentos; e, em resumo, para atravessar a vida muito decentemente, sem fazer muito alvoroço sobre isso. Ela continuou com os mesmos conselheiros que tinham sido empregados por sua predecessora, indicando os filhos, quando os pais [15]morriam, para evitar problema. Ela deixou as leis como as encontrou pela mesma razão; e, em resumo, deixou os assuntos de governo continuarem quietamente, e tão exatamente na mesma rotina que antes, de maneira que, por dois ou três após sua sucessão, o povo escassamente ficou consciente de que qualquer mudança ocorrera.
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TRADUÇÃO:
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