A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo II – O Homem que estava indo a Lugar nenhum

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[15]A cabine na qual eu encontrava-me era pequena e bastante desarrumada. Um homem bastante jovem com um cabelo linhoso, um hirsuto bigode cor de palha e um lábio inferior caído, estava sentado e segurando meu pulso. Por um minuto, nós encaramos um ao outro sem falar. Ele tinha olhos cinzentos aquosos, estranhamente vazios de expressão. Então, por cima da cabeça, veio um som como o de uma férrea armação de cama sendo batida, e o baixo rosnado raivoso de algum grande animal. Ao mesmo tempo, o homem falava. Ele repetiu a questão dele, -

Como se sente agora?”

Eu acho que disse que me sentia bem. Eu não podia me lembrar de como eu chegara ali. Ele deve ter visto a questão em meu rosto, pois minha voz estava inacessível para mim.

Você foi recolhido em um bote, faminto. O nome do bote era o ‘Lady Vain,’ e existiam manchas de sangue na amurada.”

[16]Ao mesmo tempo, meu olho capturou minha mão, magra, de modo que parecia como uma suja bolsa de pele cheia de ossos frouxos, e todo o assunto do bote retornou a mim.

Aceite um pouco disto,” disse ele, e deu-me uma dose de alguma coisa escarlate, gelada.

Tinha o gosto de sangue e fez-me sentir mais forte.

Você estava com sorte,” disse ele, “ser recolhido por uma embarcação com um médico a bordo.” Ele falou com uma articulação babante, com o fantasma de uma balbuciação.

Que embarcação é esta?” Eu disse lentamente, rouco de meu longo silêncio.

É um pequeno navio mercante de Arica e Callao. Eu nunca perguntei no começo de onde ele veio, - da terra dos tolos nascidos, eu acho. Eu mesmo sou um passageiro, de Arica. O asno bobo que o possui, - ele é o capitão dele também, chamado de Davies, - ele perdeu o certificado dele, ou alguma coisa. Você conhece o tipo de homem, - chama a coisa de ‘Ipecacuanha,’ de todos os nomes bobos, infernais; embora, quando há muito de um mar sem qualquer vento, ele certamente age de acordo.”

(Então o barulho acima da cabeça começou novamente, um [17]resmungo rosnante e uma voz de ser humanos, juntos. Então outra voz, dizendo a algum “idiota esquecido pelo céu” para desistir.)

Você estava quase morto,” disse o interlocutor. “Era uma coisa muito próxima. De fato. Mas agora eu coloquei alguma coisa dentro de você. Nota seus braços doloridos? Injeções. Você esteve insensível por quase trinta horas.”

Eu pensava lentamente. (Agora eu fui distraído pelo latido de um número de cães.) “Eu estou elegível para comida sólida?” Perguntei.

Graças a mim,” ele disse. “Agora mesmo o carneiro está cozinhando.”

Sim,” eu disse com confiança; “eu poderia comer um pouco de carneiro.”

Mas,” disse ele com uma hesitação momentânea, “eu estou morrendo de curiosidade para saber como você veio a ficar sozinho naquele bote. Maldito seja esse uivo!” Eu pensei que detectei uma certa suspeita nos olhos dele.

Subitamente, ele deixou a cabine, e eu ouvi-o em uma controvérsia violenta com alguém, quem, parecia-me, falar sem sentido para ele. A coisa parece como se acabasse em golpes, mas nisso eu pensei que meus ouvidos estavam enganados. [18]Então, ele berrou com os cães e retornou à cabine.

Bem?” disse ele na soleira da porta. “Você estava precisamente começando a contar-me.”

Eu contei-lhe meu nome, Edward Prendick, e como eu me adaptara à História Natural como um alívio do entediamento da minha independência confortável.

Ele pareceu interessado nisso. “Eu mesmo estudei alguma ciência. Eu estudei minha Biologia no Colégio Universitário, - saindo do ovário da minhoca e da rádula do caracol, e tudo isso. Senhor! São dez anos. Mas prossiga! Prossiga! Conte-me sobre o bote.”

Evidentemente, ele estava satisfeito com a franqueza da minha história, a qual eu contei em sentenças suficientemente concisas, pois sentia-me horrivelmente fraco; e, quando ela estava terminada, ele retornou imediatamente ao tópico da História Natural e aos seus próprios estudos biológicos. Ele começou a questionar-me rigorosamente sobre a Tottenham Court Road e a Gower Street. “O Caplatzi ainda está florescendo? Que mercado era aquele!” Evidentemente, ele fora uma estudante de medicina muito ordinário e flutuou incontinentemente para o tópicos dos salões musicais. Ele contou-me algumas anedotas. [19]“Abandonei tudo isso,” ele disse, “há dez anos. Quão alegre tudo isso costumava ser! Mas eu fiz de mim mesmo um jovem asno, - joguei-me fora antes que tivesse vinte e um. Eu ouso dizer, está tudo diferente agora. Mas eu tenho de procurar aquele asno de cozinheiro, e ver se ele terminou com seu carneiro.”

O rosnado acima da cabeça foi renovado e com tanta ira selvagem que me assustou. “O que é isso?” Eu chamei por ele, mas a porta fechara. Ele voltou novamente com o carneiro cozido, e eu fiquei tão excitado pelo cheiro apetitoso dele que esqueci do barulho da fera que e perturbara.

Após um dia de sono e alimentação alternados, eu estava tão recuperado para ser capaz de deixar meu beliche e ir à escotilha, e ver os mares verdes tentando manter o ritmo conosco. Eu julguei que a escuna estava navegando à frente do vento. Montgomery – esse era o nome do homem de cabelo linhoso – entrou novamente enquanto eu estava de pé ali, e pedi algumas roupas a ele. Ele emprestou-me algumas coisas de algodão dele mesmo, pois aquelas que eu usara no bote foram jogadas ao mar. Elas ficaram bastante frouxas em mim, pois ele era grande e longo em seus membros. Casualmente ele contou-me que [20]o capitão estava três quartos bêbado em sua própria cabine. Enquanto eu aceitava as roupas, eu comecei a perguntar-lhe algumas questões sobre o destino do navio. Ele disse que o navio estava destinado ao Havaí, mas que ele devia desembarcar primeiro.

Onde?” eu disse.

É uma ilha, onde eu vivo. Até onde eu sei, ela nunca recebeu um nome.”

Ele encarou-me com seu lábio inferior caído, e pareceu subitamente tão voluntariamente estúpido que surgiu em minha mente que ele desejava evitar minhas questões. Eu tive a prudência de não perguntar mais nada.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.15-20. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/15/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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