A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo III – O Rosto Estranho

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[21]Nós deixamos a cabine e encontramos um homem na escotilha, obstruindo o caminho. Ele estava de pé na escada com suas costas para nós, espiando através da borda do alçapão. Ele era, eu pude ver, um homem deformado, baixo, largo e desajeitado; com costas tortas, um pescoço peludo e uma cabeça afundada entre os ombros. Ele estava vestido em um sarja azul-escura e tinha um cabelo negro peculiarmente grosso, áspero. Eu ouvi os cães ocultos rosnando furiosamente e, imediatamente, ele abaixou-se, vindo em contado com a mão que eu coloquei para o afastar de mim. Ele virou-se com rapidez animal.

De alguma maneria indefinível, o rosto negro mostrou-se para mim desta maneira e chocou-me profundamente. Ele era um rosto notavelmente deformado. A parte facial projetada, formando alguma coisa vagamente sugestiva de um focinho, e a imensa boca meio aberta mostrava dentes brancos tão grandes quanto eu nunca [22]vira em uma boca humana. Seu olhos estavam injetados de sangue nos cantos, com escassamente um aro de círculo branco em volta das pupilas de cor de avelã. Havia um brilho de excitação no rosto dele.

Confuso você!” Disse Montgomery. “Por que o diabo não tira você do caminho?”

O homem de rosto negro colocou-se de lado sem uma palavra. Eu subi para a escotilha, encarando-o instintivamente enquanto eu subia. Montgomery permaneceu na base por um momento. “Você não tem negócios aqui, você sabe,” ele disse em um tom deliberado. “Seu lugar é adiante.”

O homem de rosto negro encolheu-se.Eles – não me aceitarão à frente.” Ele falou lentamente, com uma qualidade rouca, estanha, em sua voz.

Não te aceitarão à frente!” Disse Montgomery, em uma voz ameaçadora. “Mas eu digo a você para ir!” ele estava à beira de dizer algo mais, então, subitamente, olhou acima para mim e seguiu-me escada acima.

Eu parei no meio do caminho através do alçapão, olhando para trás, ainda atônito além da medida diante da feiura grotesca dessa criatura de rosto negro. Eu nunca tinha contemplado um [23]rosto tão repulsivo e extraordinário antes, e contudo – se a contradição é crível – eu experienciei ao mesmo tempo um estranho sentimento de que, de alguma maneira, eu já tinha encontrado exatamente as características e gestos que agora me assombram. Mais tarde, ocorreu-me que provavelmente eu o vira enquanto eu era erguido a bordo; e contudo, isso escassamente satisfez minha suspeitara de uma familiaridade prévia. Contudo, como alguém poderia ter colocado os olhos sobre um rosto tão singular e, todavia, ter esquecido a ocasião precisa, passava minha imaginação.

O movimento de Montgomery para me seguir libertou minha atenção, e eu virei e olhei a minha volta para o convés cheio da pequena escuna. Eu já estava quase preparado, pelos sons que ouvira, para o que via. Certamente, eu nunca observei um convés tão sujo. Ele estava desarrumado com migalhas de cenoura, pedaços de coisa verde e sujeira indescritível. Presos ao mastro principal estavam um número de horríveis cães para caçar veados, que agora começavam a pular e latir para mim e, perto da mezena, um imenso puma estava restringido por uma jaula de ferro pequena demais até para lhe dar espaço para virar. Mais além, sob o baluarte do estibordo, ficavam algumas grandes caixas contendo um [24]número de coelhos, e uma lhama solitária estava apertada em uma mera caixa de uma jaula adiante. Os cães estavam amordaçados por tiras de couro. O único ser humano no convés era um marinheiro magro e silencioso ao timão.

As velas da proa e da popa, remendadas e sujas, estavam esticadas diante do vento e, lá alto acima da pequena embarcação, pareciam carregar cada vela que ela tinha. O céu estava limpo, o sol do meio dia baixo no céu ocidental; ondas longas, rematadas com espuma pela briza, estavam correndo conosco. Nós passamos do timoneiro para o trilho sobre a amurada do navio e vimos a água chegar espumando sob a popa, e as bolhas dançando e desaparecendo em sua esteira. Eu virei-me e analisei a extensão repugnante da embarcação.

Isto é uma menagerie oceânica?” Eu disse.

Parece que é,” disse Montgomery.

Para que são essas feras? Negociar, curiosidade? O capitão pensa que ele as venderá em algum lugar dos mares do Sul?”

Parece, não parece?Disse Montgomery e, novamente, virou-se na direção do rasto do navio.

Subitamente, nós ouvimos um ganido e uma salva de furiosa blasfêmia a partir do alçapão da escotilha, e o homem deformado com o rosto negro [25]subiu apressadamente. Ele foi imediatamente seguido por um homem pesado de cabelos vermelhos em um boné branco. À visão do primeiro, os cães para caçar veados, todos os quais tinham cansado de latir para mim por essa hora, tornaram-se furiosamente excitados, uivando e pulando contra as correntes deles. O negro hesitou diante deles, e isso deu ao homem de cabelo vermelho tempo para subir com ele e dar-lhe um tremendo golpe entre as omoplatas. O pobre-diabo caiu com um boi abatido, e rolou na sujeira em meio aos cães furiosamente excitados. Foi sorte para ele que eles estavam amordaçados. O homem de cabelo vermelho deu um uivo de exultação e permaneceu cambaleante e, como parecia para mim, em perigo sério de, ou ir para trás, alçapão da escotilha a abaixo; ou adiante, sobre sua vítima.

Tão logo o segundo homem aparecera, Montgomery avançou.Firme ai!ele gritou, em um tom de protesto. Alguns marinheiros apareceram no castelo de proa. O homem de rosto negro, uivando em uma voz singular, rolava para cá e para lá sob os pés dos cães. Ninguém tentou ajudá-lo. As bestas fizeram seu melhor para o afligir, dando cabeçadas com suas focinheiras [26]nele. Houve uma rápida dança de seus seus ágeis corpos de figuras cinzentas sobre a figura desajeitada prostrada. O marinheiros gritavam à frente, como se isso fosse um esporte admirável. Montgomery deu uma exclamação irada e desceu a passos largos o convés, e eu seguiu-o. O homem de rosto negro revirado e vacilante para frente, avançando e inclinando-se sobre a amuradas pelos principais reforços, onde ele permaneceu, ofegante e olhando fixamente sobre os ombros para os cães. O homem de cabelos vermelhos ria um riso satisfeito.

Olhe aqui, Capitão,” disse Montgomery, com sua balbuciação um pouco acentuada, agarrando os ombros do homem de cabelo vermelho, “isso não costuma acontecer!”

Eu fiquei de pé atrás de Montgomery. O capitão deu meia volta e considerou-o com os olhos aborrecidos e solenes de um homem bêbado. “O que não costuma acontecer?” ele disse, e acrescentou, após olhar com sono para o rosto de Montgomery por um minuto, “Maldito cirurgião!”

Com um movimento súbito ele sacudiu seu braço livre, e, após duas tentativas ineficazes, enfiou seus pulsos sardentos em seus bolsos laterais.

Esse homem é um passageiro,” disse [27]Montgomery. “Eu aconselharia você a manter suas mãos longe dele.”

Vá para o inferno!” Disse o capitão, alto. Ele virou-se subitamente e cambaleou para o lado. “Eu faço o que eu gosto em minha própria embarcação,” ele disse.

Eu penso que Montgomery podia tê-lo abandonado então, vendo que o bruto estava bêbado; mas ele apenas tornou-se uma sombra mais pálida e seguiu o capitão até a amurada.

Veja aqui você, Capitão,” ele disse; “que esse meu homem não deve ser maltratado. Ele sempre tem sido escarnecido desde que veio abordo.”

Por um minuto, os vapores alcoólicos deixam o capitão sem fala. “Maldito cirurgião!”, era tudo que ele considerava necessário.

Eu pude ver que Montgomery tinha um daqueles temperamentos lentos, obstinados, que se aquecerão dia após dia a um calor branco, e nunca mais se esfriarão ao perdão; eu também vi que essa desavença tinha estado crescendo por algum tempo. “O homem está bêbado,” eu disse, talvez oficialmente; “você não agirá bem.”

Montgomery deu uma torção horrenda para seu lábio inferior.Ele sempre está bêbado. Você [28]pensa que isso desculpa o assalto dele aos seus passageiros?

Meu navio,” começou o capitão, agitando suas mãos na direção das jaulas, “era uma embarcação limpa. Olhe para ele agora!” Era certamente qualquer coisa menos limpa. “Tripulação,” continuou o capitão, “limpa, respeitável tripulação.”

Você concordou em levar os animais.”

Eu gostaria que nunca tivesse colocado meus olhos em sua ilha infernal. Qual diabo – quer feras para uma ilha como aquela? Então, aquele seu homem – entendido que ele era um homem. Ele é um lunático; e ele não tinha negócios à popa. Você pensa que a inteira embarcação condenada pertence a você?”

Seus marinheiros começaram a escarnecer do pobre-diabo tão logo ele embarcou.

Isso é exatamente o que ele é – ele é um diabo! Um diabo horrendo! Meus homens não podem suportá-lo. Eu não posso suportá-lo. Nenhum de nós podem suportá-lo. Nem você, tampouco!

Montgomery virou-se.Você deixa aquele homem sozinho, de qualquer maneira,ele disse, acenando com a cabeça enquanto falava.

Mas agora o capitão pretendia brigar. Ele levantou a voz. “Se ele chegar a essa extremidade da [29]embarcação novamente eu cortarei as entranhas dele para fora, eu digo a você. Quem é você, para me dizer o que eu devo fazer? Eu digo a você, eu sou o capitão deste navio, - capitão e proprietário. Eu sou a lei aqui, eu dito a você, a lei e os profetas. Eu negociei para levar um homem e seu assistente de e para Arica, e trazer de volta alguns animais. Eu nunca negociei para levar um diabo louco e um cirurgião estúpido, um -”

Bem, não se importe do que ele chamou Montgomery. Eu vi que o segundo deu um passo adiante e interrompeu. “Ele está bêbado,” disse eu. O capitão começou com alguma injúria ainda mais desagradável do que a última. “Cale-se!” Eu disse, virando-me bruscamente para ele, pois eu vira perigo no rosto branco de Montgomery. Com isso, eu trouxe o aguaceiro sobre mim.

No entanto, eu fiquei feliz em evitar o que estava incomumente perto de uma briga, mesmo ao preço da má vontade bêbada do capitão. Eu não penso que alguma vez tenha ouvido tanta linguagem vil sair, em um fluxo contínuo, dos lábios de qualquer homem antes, embora eu tenha frequentado companhias frequentemente excêntricas. Eu descobri algo dela difícil de suportar, embora eu seja um homem de temperamento suave; [30]mas certamente, quando eu disse para o capitão “cale-se”, eu esquecera de que era meramente um fragmento de um resto de naufrágio humano, separado de meus recursos e com minha passagem não paga; um mero dependente casual da magnanimidade, ou empreendimento especulativo da embarcação. Ele lembrou-me disso com considerável vigor, mas, de qualquer maneira, eu evitei uma briga.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.21-30. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/21/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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