A Ilha do Doutor Moreau – Capítulo IV – No Corrimão da Escuna

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[31]Naquela noite, a terra foi avistada após o pôr do sol, e a escuna flutuou para ela. Montgomery declarou que aquela era o destino dele. Ela estava longe demais para ver quaisquer detalhes; parecia-me então um remendo mais baixo de azul sombrio no incerto mar azul acinzentado. Uma faixa quase vertical de fumaça subia a partir dela para o céu. O capitão não estava no convés quando ela foi avistada. Após ele ter desafogado a ira dele sobre mim, ele cambaleou para baixo, e eu entendo que ele foi dormir no piso de sua própria cabine. O imediato praticamente assumiu o comando. Ele era o indivíduo magro, taciturno, que nós viramos ao manche. Aparentemente ele estava com uma disposição ruim com Montgomery. Ele não deu a menor atenção a nenhum nós. Nós jantamos com ele em um silêncio amuado, após alguns esforços ineficazes de minha parte para conversar. Chocou-me também que os homens consideravam minha companhia e dos animais dele de uma [32]maneira singularmente hostil. Eu achei Montgomery muito reticente sobre seu propósito com essas criaturas e sobre seu destino; e, embora eu ficasse sensível de uma crescente curiosidade quanto a ambos, eu não o pressionei.

Nós permanecemos conversando no tombadilho superior até que o céu ficou cheio de estrelas. Exceto por um som ocasional no castelo de proa iluminado por amarelo, e um movimento de animais de vez em quando, a noite estava muio quieta. O puma deitava-se agachado, observando-nos com olhos brilhantes; um monte negro no canto de sua jaula. Montgomery produziu alguns cigarros. Ele falava de Londres para mim em um tom de reminiscência meio dolorosa, fazendo todo o tipo de questões sobre mudanças que ocorreram. Ele falava como um homem que amara sua vida ali e que fora súbita e irrevogavelmente removido dali. Eu tagarelava sobre isso e aquilo tão bem quanto podia. Todo o tempo, a estranheza dela estava moldando a si mesma em minha mente; e, enquanto eu falava, eu espreitava seu rosto estranho e pálido à luz sombria da lanterna da caixa da bússola atrás de mim. Em seguida, eu olhava para o mar escuro, onde a obscuridade da pequena ilha dele estava escondida.

Esse homem, isso me pareceu, emergiu da [33]Imensidade meramente para salvar minha vida. Amanhã ele ficaria de lado e desapareceria novamente da minha existência. Mesmo se isso tivesse ocorrido sobre circunstâncias banais, isso teria me tornado um pouco pensativo; mas, em primeiro lugar, havia a singularidade de um homem educado vivendo nessa desconhecida pequena ilha e, junto com isso, a natureza extraordinária de sua bagagem. Eu encontrei-me repetindo a questão do capitão, o que ele queria com as feras? Também, por que ele fingira que elas não eram dele quando eu comentei sobre elas pela primeira vez? Então, novamente, seu assistente pessoal era de uma qualidade bizarra que me impressionara profundamente. Essas circunstâncias jogavam uma névoa de mistério em torno do homem. Elas assumiram o controle da minha imaginação, e embaçaram minha língua.

Por volta da meia-noite, nossa conversa sobre Londres diminuiu e nós permanecemos de pé, lado a lado, inclinando-nos sobre a amurada e encarando sonhadoramente através do mar silente e iluminado por estrelas, cada um perseguindo seus próprios pensamentos. Era a atmosfera para sentimento, e eu comecei por minha gratidão.

Se eu posso dizer isto,” disse eu, após um tempo, “você salvou minha vida.”

[34]“Sorte,” ele respondeu. “Apenas sorte.”

Eu prefiro agradecer ao agente acessível.”

Não agradeça a ninguém. Você tinha a necessidade, e eu tinha o conhecimento; eu injetei-te e alimentei-te tanto quanto eu podia ter coletado um espécime. Eu estava entediado e desejava alguma coisa para fazer. Se eu estivesse estado cansado naquele dia, ou não tivesse gostado da sua cara, bem – é uma questão curiosa onde você estaria agora!”

Isso desanimou um pouco o meu humor. “De qualquer maneira,” eu comecei.

É sorte, eu digo a você,” ele interrompeu, “como tudo na vida de um homem. Somente os asnos não costumam ver! Por que eu estou aqui agora, um exilado da civilização, em vez de um homem feliz desfrutando de todos os prazeres de Londres? Simplesmente porque, há onze anos – eu perdi minha cabeça por dez minutos em uma noite de nevoeiro.”

Ele parou. “Sim?” disse eu.

Isso é tudo.”

Nós recaímos no silêncio. Logo ele riu. “Há alguma coisa nessa luz de estrelas que solta a língua de alguém. Eu sou um asno, e, contudo, de alguma maneira, eu gostaria de contar a você.”

[35]“O que quer que você me conte, você pode confiar em mim para manter para mim mesmo – se é assim.

Ele estava a ponto de começar e, então, sacudiu sua cabeça, duvidosamente.

Não,” disse eu. “É tudo o mesmo para mim. Afinal, é melhor você manter o seus segredos. Não há nada ganho, senão um pouco de alívio, se eu não respeito sua confiança. Se eu não o fizer – bem?”

Ele grunhiu indecisamente. Eu senti que eu o tinha em uma desvantagem, surpreendera-o em um humor de indiscrição; e, para dizer a verdade, eu não estava curioso para aprender o que poderia ter expulso um jovem estudante de medicina de Londres. Eu tenho uma imaginação. Eu dei de ombros e afastei-me. Sobre o trilho da amurada, inclinava-se uma silenciosa figura negra, observando as estrelas. Era o estranho assistente de Montgomery. Ele olhou por cima de seu sombro rapidamente com meu movimento, em seguida, olhou para longe novamente.

Pode ser uma coisa pequena para você, talvez, mas veio como um golpe súbito para mim. A única luz próxima de nós era uma lanterna no timão. O rosto da criatura modificou-se por um breve instante, para fora da obscuridade do popa na direção dessa iluminação, e eu vi que os olhos que [36]me encaravam brilharam com uma luz verde pálida. Nessa ocasião, eu não sabia que uma luminosidade avermelhada, pelo menos, não é incomum em olhos humanos. A coisa chegou-me como uma inumanidade forte. Aquela figura negra, com seus olhos de fogo derrubou-se através de todos os meus pesamentos e sentimentos adultos e, por um momento, os horrores esquecidos da infância voltaram a minha mente. Em seguida, o efeito passou como chegou. Uma rude figura negra de um homem, uma figura de nenhuma importância particular, pendia sobre trilho da amurada contra a luz das estrelas, e eu descobri que Montgomery estava falando comigo.

Eu estou pensando em me deitar, então,” disse ele, “se você já teve o suficiente disso.”

Eu respondi-lhe inconscientemente. Ele desceu e desejou-me boa noite à porta de minha cabine.

Naquela noite eu tive alguns sonhos muito desagradáveis. A lua minguante levantou-se tarde. Sua luz atingiu um espectral raio branco através de minha cabine, e produziu uma forma sombria sobre a bordagem perto de meu beliche. Então, os cães de caçar veados acordaram e começaram a uivar e ladrar; de maneira que eu sonhei irregularmente, e escassamente dormi até a aproximação do amanhecer.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.31-36. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/31/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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