[54]O leitor talvez entenderá que, primeiramente, tudo era tão estranho sobre mim, e minha posição foi o resultado de aventuras tão inesperadas, que eu não tive discernimento da estranheza relativa desta ou daquela coisa. Eu segui a lhama praia acima, e fui alcançado por Montgomery, quem me disse para não entrar na cercada de pedra. Então eu notei que o puma e a pilha de pacote foram posicionados do lado de fora da entrada para esse quadrângulo.
Eu virei-me e vi que agora a lancha tinha sido descarregada, colocada para fora novamente e estava sendo encalhada, e o homem de cabelo branco estava caminhando em nossa direção.
“E agora surge o problema deste hóspede não convidado. O que nós devemos fazer com ele?”
“Ele conhece alguma coisa de ciência,” disse Montgomery.
“Eu estou com coceira para começar a trabalhar novamente – com [55]esse material novo,” disse o homem de cabelo branco, acenando com a cabeça na direção da cercada. Os olhos dele tornaram-se mais brilhantes.
“Eu ouso dizer que você está,” disse Montgomery, em qualquer coisa, menos um tom cordial.
“Nós não podemos enviá-lo lá e não podemos dispensar o tempo para lhe construir uma nova cabana. E certamente não podemos aceitá-lo em nossa confiança agora mesmo.”
“Eu estou em suas mãos,” disse eu. Eu não tinha ideia do que ele quis dizer com “lá.”
“Eu estive pensando nas mesmas coisas,” Montgomery respondeu. “Há meu quarto com a porta externa –”
“É isso,” disse o velho, prontamente, olhando para Montgomery; e nós três todos caminhamos na direção da cercada. “Eu sinto muito por fazer um mistério, Sr. Prendick; mas você lembrar-se-á de que não foi convidado. Nosso pequeno estabelecimento aqui contém mais ou menos um segredo, é um tipo de câmara de barba azul, de fato. Nada muito terrível, realmente, para um homem são; mas exatamente agora, como nós não conhecemos você –”
“Decididamente,” disse, “eu deveria ser um tolo para me ofender diante de qualquer falta de confiança.”
[56]Ele torceu sua pesada boca em um sorriso fraco, – ele era uma daquelas pessoas saturninas quem sorriam com os cantos da boca para baixo, – e curvou seu reconhecimento de minha complacência. A entrada principal para a cercada nós passamos; era um pesado portão de madeira, estruturado em ferro e trancado, com a carga da lancha empilhada do lado de fora dele, e, no canto, nós chegamos a uma pequena soleira de porta que eu anteriormente não observara. O homem de cabelo branco tirou um maço de chaves do bolso de sua jaqueta azul oleosa, abriu essa porta e entrou. As chaves dele e o fechamento elaborado do lugar, mesmo enquanto ele ainda estava sob o olho dele, ocorreram-me como peculiares. Eu segui-lhe e encontrei-me em um pequeno aposento, simples mas não desconfortavelmente mobilhado, e com sua porta interna, a qual estava levemente entreaberta, abrindo-se para dentro de um pátio pavimentado. Essa porta interior, Montgomery imediatamente fechou. Uma rede para dormir estava pendurada através do canto mais escuro do cômodo, e uma pequena janela sem vidro, defendida por uma barra de ferro, olhava para fora, na direção do mar.
Este, o homem de cabelo branco disse-me, que devia ser o meu aposento; e a porta interna, a qual, “por medo de acidentes,” ele disse, ele trancaria pelo [57]outro lado, era meu limite interno. Ele chamou minha atenção para uma conveniente espreguiçadeira diante da janela, e para um conjunto de velhos livros, - eu encontrei principalmente obras cirúrgicas e edições clássicas de clássicos latinos e gregos (línguas que não consigo ler com qualquer conforto), em uma prateleira perto da rede para dormir. Ele deixou o quarto pela porta exterior, como se para evitar abrir novamente a interior.
“Nós usualmente temos nossas refeições aqui,” disse Montgomery e, em seguida, como se em dúvida, saiu em procura do outro. “Moreau!” Eu ouvi ele chamá-lo, e, por um momento, eu não penso que eu notei. Então, enquanto eu manuseava os livros na estante, surgiu na consciência: Onde eu ouvi o nome Moreau antes? Eu sentei-me diante da janela, retirei os biscoitos eu ainda me restavam e comi-os com um apetite excelente. Moreau!
Através da janela eu vi um daqueles incompreensíveis homens de branco, arrastando um caixote através da praia. Logo a moldura da janela escondeu-lhe. Então, eu ouvi uma chave inserida e virada na fechadura atrás de mim. Após um pouco de tempo, eu ouvi, através da porta trancada, o barulho dos cães para caçar veado, que agora tinham sido [58]trazidos para cima a partir da praia. Eles não estava latindo, mas cheirando e rosnando de uma maneira curiosa. Eu pude ouvir o rápido tamborilar dos pés deles e a voz de Montgomery acalmando-os.
Eu fiquei muito impressionado pelo elaborado segredo daqueles dois homens com respeito aos conteúdos do lugar, e, por algum tempo, eu fiquei pensando nisso e na familiaridade inexplicável do nome Moreau; mas tão estranha é a memória humana que, na ocasião, eu não pude me lembrar daquele nome bem conhecido em sua própria conexão. A partir disso, meus pensamentos foram para a estranheza indefinível do homem deformada na praia. Eu nunca vi uma semelhante andadura, movimentos tão estranhos conforme ele puxava a caixa. Eu lembrei-me de que nenhum desses homens falou comigo, embora a maior parte deles eu descobri olhando para mim, em um momento ou outro, de uma maneira particularmente furtiva, bem diferente do olhar franco do selvagem não sofisticado. De fato, todos eles pareciam notavelmente taciturnos e, quando eles falavam, dotados de vozes muito estranhas. O que estava errado com eles? Então eu lembrei dos olhos do desajeitado assistente de Montgomery.
Exatamente enquanto eu pensava nele, ele entrou. [59]Agora ele estava vestido de branco e carregava uma pequena bandeja com um pouco de café e vegetais cozidos sobre ela. Eu dificilmente pude reprimir um recuo estremecido enquanto ele vinha, curvando-se amavelmente, e colocava a bandeja diante de mim sobre a mesa. Então, o espanto paralisou-me. Sob seus pegajosos caxos de cabelo negros, eu vi seu ouvido; ele saltou subitamente sobre mim perto do meu rosto. O homem tinha orelhas pontudas, cobertas com um fino pelo marrom!
“Seu café da manhã, sair,” ele disse.
Eu encarei o rosto dele sem tentar respondê-lo. Ele virou-se e caminhou na direção da porta, considerando-me estranhamente sobre seu ombro. Eu segui-lhe para fora com meus olhos; e, enquanto eu assim o fazia, por algum estranho truque de cerebração inconsciente, ali surgiu dentro de minha cabeça a frase, “As Cavernas de Moreau” – era isso? “O Moreau -” Ah! Isso enviou minha memória de volta dez anos. “Os Horrores de Moreau!” A frase flutuou solta, por um momento, em minha mente e, em seguida, eu vi-a em letras vermelhas sobre um pequeno panfleto amarelo-claro, para ler o que faria alguém tremer e rastejar. Então, eu lembrei distintamente de tudo sobre isso. Aquele panfleto há muito esquecido retornou com vividez surpreendente a [60]minha mente. Eu fora então um mero rapaz, e Moreau tinha, eu suponho, aproximadamente cinquenta anos, - um proeminente e magistral fisiologista, bem conhecido em círculos científicos por sua extraordinária imaginação e sua franqueza brutal em discussões.
Era esse o mesmo Moreau? Ele publicara alguns fatos muito surpreendentes em conexão com a transfusão de sangue e, em adição, era conhecido estar fazendo trabalho valioso sobre crescimentos mórbidos. Então, subitamente, a carreira dele foi encerrada. Ele teve de deixar a Inglaterra. Um jornalista obteve acesso ao seu laboratório na função do assistente de laboratório, com a intenção deliberada de fazer revelações sensacionais; e, com a ajuda de um acidente chocante (se aquilo foi um acidente), seu panfleto macabro tornou-se notório. No dia de sua publicação, um cão miserável, esfolado e de outra maneira mutilado, escapou da casa de Moreau. Foi na temporada de bobagens, e um editor proeminente, um primo do assistente de laboratório temporário, apelou à consciência da nação. Não foi a primeira vez que a consciência voltou-se contra os métodos de pesquisa. O doutor simplesmente foi expulso aos gritos. Pode ser que ele [61]merecesse ser; mas eu ainda penso que o suporte tímido de seus companheiros investigadores e o abandono dele pela grande sociedade dos trabalhadores científicos foi uma coisa vergonhosa. Ainda assim, alguns de seus experimentos, pelo relato do jornalista, eram desenfreadamente cruéis. Ele podia ter comprado sua paz social com o abandono de suas investigações; mas, aparentemente, ele preferiu as segundas, como a maioria dos homens preferiria, uma vez caídos sob o feitiço irresistível da pequisa. Ele era solteiro e, de fato, não tinha nada, senão seu próprio interesse para considerar.
Eu senti-me convencido de que esse devia ser o mesmo homem. Tudo apontava para isso. Vinha a mim para que fim o puma e os outros animais – os quais agora tinha sido trazidos, com outra bagagem, para dentro da cercada atrás da casa – estavam destinados; e um curioso odor fraco, o hálito de alguma coisa familiar, um odor que estivera no pano de fundo de minha consciência subitamente veio a frente, para o primeiro plano de meus pensamentos. Era o odor anticéptico da sala de dissecação. Eu ouvi o puma rosnando através da parede, e um dos cães latiu como tivesse sido atingido.
Contudo, certa e especialmente para outro [62]cientista, não havia nada tão horrível em vivissecção quanto a ser responsável por seu segredo; e, por algum estranho salto em meus pensamentos, as orelhas pontudas e olhos luminosos do assistente de Montgomery retornaram novamente diante de mim com a definição mais penetrante. Eu encarei diante de mim, para o mar verde, espumando sob uma brisa refrescante, e deixei essas e outras memórias estranhas dos últimos dias perseguirem umas as outras através de minha mente.
O que tudo isso podia significar? Uma cercada trancada em uma ilha solitária, um vivissector notório e esses homens aleijados e distorcidos?
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.54-62. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/54/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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