A Ilha do Doutor Moreau – Capítulo V – O Homem que não tinha Nenhum Lugar para ir

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[37]No começo da manhã (era a segunda manhã após minha recuperação e, eu acredito, a quarta após eu ter sido recolhido), eu despertei através de uma avenida de sonhos tumultuosos, - sonhos de armas de fogo e multidões barulhentas, - e tornei-me consciente de um grito rouco acima de mim. Eu esfreguei meus olhos e deitei ouvindo o barulho, duvidoso por pouco tempo de minha localização. Então surgiu uma súbita pancadinha de pés descalços, o som de objetos pesados sendo jogados de um lado para outro, um rangido violento e o chocalhar de correntes. Eu ouvi o açoite da água enquanto a embarcação era subitamente trazida de volta, e uma onda amarela esverdeada coberta de espuma flutuava através da pequena janela circular e deixava-a fluindo. Eu imediatamente coloquei minhas roupas e fui ao convés.

Enquanto subia a escada, eu vi, contra o céu corado – pois o sol estava apenas subindo –, as [38]costas largas e o cabelo vermelho do capitão, e, sobre o ombro dele, o puma girando a partir de um equipamento amarrado à retranca da vela do mastro principal.

O pobre bruto parecia horrivelmente assustado e agachava-se na base de sua pequena jaula.

Ao mar com eles!” gritava o capitão. “Ao mar com eles! Nós teremos uma embarcação limpa logo [após] o faturamento inteiro deles.”

Ele colocou-se de pé em meu caminho, de maneira que eu tive de forçosamente bater de leve no ombro dele para chegar ao convés. Ele virou-se, com um súbito movimento, e cambaleou por uns poucos passos para me encarar. Eu não precisei de olho especialista para dizer que o homem ainda estava bêbado.

Olá!” disse ele, estupidamente; e com uma luz surgindo em seus olhos, “Por que, é Senhor – Senhor?”

Prendick,” disse eu.

Pendick, amaldiçoado seja!” disse ele. “Cale-se, - esse é o seu nome. Senhor Cale-se.”

Não era bom responder ao bruto; mas eu certamente não esperava por seu próximo movimento. Ele estendeu sua mão para a passarela perto da qual Montgomery estava conversando com um maciço homem de cabelo cinzento em flanela azul suja, quem, aparentemente, há pouco veio a bordo.

[39]“Por aqui, Senhor Cale-se, Amaldiçoado Seja! Por aqui!” Rugiu o capitão.

Montgomery e seu colega viraram-se enquanto ele falava.

O que você quer dizer?” Eu disse.

Por aqui, Senhor Cale-se, Amaldiçoado Seja, - isto é o que eu quero dizer! Ao mar, Senhor Cale-se, - e exatamente! Nós estamos limpando a embarcação, - limpando toda a abençoada embarcação; e ao mar você vai!”

Eu encarei-o confuso. Então me ocorreu que isso era exatamente a coisa que eu queria. A perspectiva perdida de uma jornada como passageiro único desse beberrão briguento não era algo sobre o qual chorar. Eu voltei para Montgomery.

Não posso aceitar você,” disse o colega de Montgomery, concisamente.

Você não pode me aceitar!” disse eu, horrorizado. Ele tinha o rosto mais quadrado e resoluto sobre o qual eu alguma vez colocara meus olhos.

Veja aqui,” e comecei, virando-me para o capitão.

Ao mar!” disse o capitão. “Este navio não é para feras e canibais e piores do que feras, não mais. Ao mar você vai, [40]Senhor Cale-se. Se eles não podem recebê-lo, você vai ao mar. Mas, de qualquer maneira, você vai – com seus amigos. Eu terminei com essa bendita ilha para sempre, ámen! Eu já tive o suficiente disso.”

Mas, Montgomery,” eu apelei.

Ele distorceu seu lábio inferior, e sacudiu sua cabeça sem esperança para o homem de cabelo cinza atrás dele, para indicar sua impotência para me ajudar.

Eu verei para você, logo,” disse o capitão.

Então começou uma curiosa altercação de três extremidades. Alternativamente, eu apelava para um e outro dos três homens, - primeiro ao homem de cabelo cinzento, para me deixar desembarcar e, em seguida, para o capitão bêbado, para me manter a bordo. Eu até berrei súplicas para os marinheiros. Montgomery não disse uma palavra, apenas balançava a cabeça. “Você irá ao mar, eu digo a você,” era o refrão do capitão. “Que se dane o direito! Eu sou rei aqui.” Finalmente, eu preciso confessar, minha voz subitamente definhou no meio de uma vigorosa ameaça. Eu senti um gosto de petulância histérica, fui à popa e olhei tristemente para o nada.

[41]Entrementes, os marinheiros progrediram rapidamente com a tarefa de desembarcarem os pacotes e os animas enjaulados. Uma grande lancha, com dois puxões permanentes, estendia-se sob o capo da escuna, e dentro dele, o estranho sortimento de bens era virado. Não ocasião, eu não vi as mãos da ilha que estavam recebendo os pacotes, pois o casco da lancha estava oculto de mim pelo lado da escuna. Nem Montgomery nem seu assistente prestaram a menor atenção em mim, mas ocuparam-se na assistência e direção de quatro ou cinco marinheiros que estavam descarregando os bens. O capitão avançou interferindo antes que assistindo. Eu estava alternadamente desesperado e afoito. Uma ou duas vezes eu permaneci esperando pelas coisas realizarem-se, eu não pude resistir ao impulso para rir do meu dilema miserável. Eu senti-me completamente miserável pela falta de café da manhã. A fome e uma falta de corpúsculos sanguíneos tomam toda a coragem de um homem. Eu percebi muito claramente que não tinha quer a estamina para resistir ao que o capitão escolhesse fazer para me expulsar, que para me forçar sobre Montgomery e seu assistente. Assim eu esperei passivamente [42]o destino; e o trabalho de transferência das possessões de Montgomery para a lancha prosseguia como se eu não existisse.

Logo aquele trabalho estava terminado e então surgiu uma luta. Eu fui arrastado, resistindo suficientemente fraco, para a passarela. Mesmo então eu notei a estranheza das faces marrons dos homens que estavam com Montgomery na lancha; mas a lancha estava agora completamente carregada e foi empurrada precipitadamente. Uma abertura em ampliação de água verde apareceu sob mim, e eu retrocedi com toda a minha força para evitar cair impetuosamente. As mãos na lancha bradaram ironicamente, e eu ouvi Montgomery amaldiçoá-las; e então o capitão, o imediato e um dos marinheiros ajudando-lhe, correram comigo em direção à popa.

O bote do “Lady Vain” estivera sirgando atrás; estava meio cheio de água, não tinha remos, e estava muito desabastecido. Eu recusei-me a ir a bordo dele, e lancei-me em plena extensão no convés. No fim, eles viraram-me dentro dele por uma corda (pois eles não tinha nenhuma escada de popa) e então eles deixaram-me à deriva. Eu flutuei lentamente a partir da escuna. Em um tipo de estupor, eu [43]assisti a todas as mãos tomarem os aprestos do navio e, lenta, mas certamente, ela virou-se para o vento; as velas esvoaçadas e, em seguida, inchadas conforme o vento chegava nelas. Eu encarei seu lado batido pelo vento seguindo afiadamente na minha direção; e em seguida ela passou meu alcance de visão.

Eu não virei minha cabeça para a seguir. Primeiramente, eu escassamente pude acreditar no que acontecera. Eu encolhi-me na base do bote, atordoado, e encarando inexpressivamente para o mar vago e oleoso. Então compreendi que eu estava em meu pequeno inferno de mim mesmo novamente, agora, meio inundado; e olhando para trás, através da amurada, eu vi a escuna erguendo-se longe de mim, com o capitão de cabelos vermelhos zombando de mim sobre o o corrimão e, virando-me na direção da ilha, eu vi o bote de bordo tornado-se menor enquanto ele aproximava-se da praia.

Abruptamente, a crueldade desse abandono tornou-se clara para mim. Eu não tinha meios de alcançar a terra, a menos que eu devesse arriscar flutuar para lá. Eu ainda estava fraco, você deve lembrar, de minha exposição no bote; eu estava vazio e muito fraco, ou eu deveria ter mais coração. Mas como acontecia, eu subitamente comecei a soluçar e chorar, como eu nunca fizera desde que eu fui uma criança pequena. [44]As lágrimas desciam o meu rosto. Em uma paixão de desespero, eu golpeei a água no fundo do bote e chutei selvagemente a amurada. Eu supliquei alto para Deus para me deixar morrer.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.37-44. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/37/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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