[208]Quando já era manhã e eles levantaram-se, o dia estava tão belo quanto ontem, e o povo estava ainda mais feliz do que então eles estiveram. Todos exceto Birdalone, e ela ficou silenciosa e abatida, mesmo quando emergiu da água fresca para dentro da doçura do bosque no solstício de verão. Durante a noite, ela sonhou que estava completamente sozinha no Castelo da Busca, e que sua antiga senhora vinha a ela, a partir do Bote de Expedição, para a levar para longe, trazê-la a bordo, despi-la de suas vestimentas ricas e sentar-se encarando-a, fazendo caretas feias para ela; e ela pensou que sabia que os amigos dela estavam todos perdidos e mortos, e ela não tinha ninguém para dela se apiedar ou defendê-la. Então, de alguma maneira, estavam elas duas, a bruxa e ela, no meio da Ilha do Nada, e a bruxa aproximou-se dela e estava exatamente prestes a sussurrar no ouvido dela alguma coisa de horror incomensurável, quando ela acordou; e o sol estava brilhante do lado de fora da brancura sombreada da cabana dela; as sombras das folhas estavam dançando no chão dela; o vento da manhã estava farfalhando os galhos das árvores, e a ondulação do riacho estava tilintando bem perto. Primeiramente, Birdalone ficou alegre de que ela tinha acordado do que era apenas um sonho; mas logo ela sentiu o peso de sua saudade e disse a si mesma que, quando eles retornassem ao castelo, eles deveriam encontrar notícias, e que ela deveria saber se seus amigos estavam de fato mortos, ou [209]se eles retornaram vivos e bem. E então ela pensou dentro de si mesma, suponha que os três campeões e suas amadas estivessem perdidos e mortos, como ela faria com aqueles que foram deixados com ela, como Sir Aymeris, Leonard, o sacerdote, e as mulheres dela? E a alma dela modificou-se com asco de uma vida tão vazia como aquela seria; e contudo ela culpava a si mesma de que ela era tão pouco amigável com aqueles amigos menos importantes, a quem verdadeiramente ela amava por causa do amor dela pelos mais importantes. Assim, como dito acima, ela ficou perturbada e silenciosa em meio a alegria dos outros.
Isso viu Sir Aymeris, o castelão; e, quando eles tinham tomado café da manhã e estavam chegando aos cavalos, ele veio a ela e disse: ‘Senhora, o dia ainda é jovem, e se nós tomarmos um desvio por um caminho do qual eu tenho conhecimento, nós deveremos ver lugares novos para ti, e talvez alguma coisa maravilhosa e, contudo, chegar em casa a tempo no castelo. Tu desejarias?’
Birdalone ainda estava um pouco perturbada, mas ela não sabia como dizer não a ele, embora, de coração, ela desejaria de bom grado ter voltado para o castelo pelo caminho mais curto. Assim, o povo trouxe a ela o seu palafrém, e ele cavalgaram por seus caminhos, o castelão sempre ao lado dela. E de fato, por belos caminhos eles seguiram, tão alegre tudo estava em volta deles que, pouco a pouco, a alegria de Birdalone retornou a ela, e ela aproveitou isso ao máximo para ficar de aparência tão feliz quanto ela podia ficar.
Agora eles cavalgaram bela e suavemente por matagal e bosquete e clareira da floresta, seguindo acima o córrego supracitado pela maior parte, até que, finalmente, as árvores faltam-lhes subitamente, e eles emergiram [210]em uma ampla planície verde, inteiramente não construída, até onde os olhos podiam ver, e além dela, os cumes das colinas e montanhas azuis erguendo-se alto além deles.
Quando os olhos de Birdalone contemplaram essa nova coisa, de um súbito toda preocupação a deixou, e ela soltou sua rédea cair, bateu as palmas juntas e gritou: ‘Oh! Mas tu és linda, Oh terra, tu és linda!’ Então ela sentou-se contemplando fixamente a paisagem, enquanto o de cabelos grisalhos virou-se e sorriu para ela, bem satisfeito do deleite dela.
Após um tempo ela disse: ‘E nós poderíamos chegar mais perto?’ ‘Sim, seguramente, o mais perto que tu desejares.’ ‘Ah!’ Ela disse ‘se apenas eu estivesse só em meio a ela, e fosse uma parte dela, como uma vez eu fui da floresta!’
Assim, para lá eles cavalgaram através do prado não colhido, e ali viram veado e corça, e vacas selvagens, e grande abundância de cervos menores, mas de feras domesticadas nenhuma; e as colinas eram como uma muralha diante deles. Mas, conforme se aproximavam, eles viram onde a dita muralha de colinas estava fendida por um vale estreito e inclinado, que prosseguia direto de lado a lado a posição das colinas; o dito vale era apenas um pouco gramado, e as rochas nuas eram negras como corvos. Quando tinham avançado um pouco mais além, eles podiam ver que o chão perto do pé das colinas subia em pequenos montes de areia e cumes, mas esse eram menos e em menor quantidade em volta da entrada daquele vale. Logo eles também encontraram um riacho que corria para fora do dito vale, e Sir Aymeris disse que essa era a água perto da qual eles deitaram na última noite; embora aqui ele fosse de fato pequeno.
[211]Agora, quando eles tinham cavalgado umas cinco milhas através da planície, ele chegaram àqueles pequenos montes de terra na boca do vale. Sir Aymeris conduziu Birdalone até o topo de um dos mais altos deles e, a partir daquele lugar, eles puderam olhar para dentro daquele vale e ver como ele se arejava para longe na direção das montanhas, como uma rua sombria; pois ele não era apenas pouco gramado, mas, além disso, não havia nem árvore nem arbusto ali. Além disso, espalhadas por toda a volta dos pés do vale ficavam grandes pedras, as quais pareciam como se alguma vez tivessem sido colocadas em algum tipo de ordem; e isso ainda mais, visto que elas não eram negras como as rochas do lado do vale, mas de um tom cinza pálido, de maneira que elas pareciam até como imensas ovelhas dos gigantes, alimentando-se do vale.
Então falou Birdalone: ‘Verdadeiramente, senhor cavaleiro, tu disseste apenas a verdade que eu deveria ser coisas novas e estranhas. Mas devemos nós entrar um pouco neste vale hoje?’ ‘Não, senhora,’ disse Sir Aymeris, ‘nem amanhã, nem qualquer dia não compelidos; nem devemos nós chegar mais perto do que agora nós estamos.’ ‘Por que não?’ disse Birdalone, ‘pois isso me parece como um portão das montanhas; e satisfeita eu ficava nas montanhas.’
‘Senhora,’ disse o castelão, ‘perigoso demais seria cavalgar no vale, o qual, como tu dizes, é o portão mesmo das montanhas. Pois o dito vale, o qual é chamado de Vale Negro das Greywethers, tem um nome ruim pela assombração de criaturas inumanas, contra as quais, até nossos homens de armas, não poderiam produzir defesa. E, se qualquer um pudesse escapar delas, atravessar os portões e chegar às [212] montanhas, eu não tenho conhecimento de que diabos e coisas estranhas existem na terra das montanhas, mas, de uma verdade, há homens ferozes e selvagens, suficientemente semelhantes a diabos, quem não conhecem paz, e matam tudo aquilo que chega até eles, mas, que eles sejam mortos por eles mesmos.’
‘Bem,’ disse Birdalone, ‘então hoje, pelo menos, nós não entramos no vale; mas tu conheces alguns contos desses lugares selvagens?’ ‘Muitos eu tenho ouvido,’ disse ele, ‘mas eu sou um menestrel ruim e não devo estragá-los ao contar. Peça-os de Sir Leonard, nosso sacerdote, ele conhece-os melhor que os outros, e tem uma língua devidamente formada para os contar.’
Birdalone não respondeu a isso; ela apenas virou a cabeça de seu cavalo e cavalgou o pequeno monte de areia abaixo, e assim eles chegaram a sua companhia, e todos seguiram seus caminhos para o Castelo da Busca.
Nada lhes aconteceu em seu caminho para casa; mas, quão mais perto eles chegavam do castelo, mais pensativa se tornava Birdalone, e, embora ela escondesse, quando eles chegaram ao portão, ela escassamente tinha seu humor; pois era como se ela pensasse ter alguém saindo correndo e gritando: ‘Novidade, novidade! Eles chegaram.’
De maneira nenhuma isso assim aconteceu; eles não chegaram mais [hoje] do que o fizeram no Dia do Destino. E um pouco depois eles estavam dentro dos portões. Era noite, e Birdalone arrastou-se cansadamente para seus aposentos, foi para cama e, assim cansada, ela adormeceu imediatamente e não sonhou.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 208-212. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/208/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
Nenhum comentário:
Postar um comentário