A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo I – No Bote do “Lady Vain”

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[9]Eu não me proponho a acrescentar coisa alguma ao que já foi escrito relativo à perda do “Lady Vain.” Como todo o mundo sabe, ele colidiu com um objeto abandonado dez dias depois de ter saído de Callao. O escaler, com sete da tripulação, foi apanhado dezoito dias depois, pela canhoneira H.M. “Myrtle,” e a história de privações terríveis tornou-se bastante bem conhecida como o caso muito mais horrível do “Medusa.” Mas eu tenho de acrescentar à história publicada do “Lady Vain” outra, possivelmente tão horrível e muito mais estranha. Até agora, tem-se suposto que os quatro homens que estavam no bote pereceram, mas isso está incorreto. Eu tenho [10]a melhor evidência para essa asserção: eu fui um dos quatro homens.

Mas, em primeiro lugar, eu devo declarar que nunca houve quatro homens no bote, - o número era três. Constans, quem foi “visto pelo capitão ao pular dentro do gig,”1 felizmente para nós e infelizmente para ele, não nos alcançou. Ele desceu a partir de um emaranhado de cordas sob os esteios do gurupés esmagado, alguma pequena corda capturou o calcanhar dele enquanto ele desembaraçava-se, e ele pendeu por um momento de cabeça para baixo, em seguida caiu e atingiu um bloco ou um mastro flutuando na água. Nós arrancamos na direção dele, mas ele nunca emergiu.

Eu digo felizmente para nós que ele nunca nos alcançou e quase poderia dizer felizmente para ele mesmo; pois nós tínhamos apenas um pequeno barril de água e alguns biscoitos encharcados do navio conosco, tão súbito tinha sido o alarme, tão despreparado o navio [estava] para qualquer desastre. Nós pensávamos que o povo na lancha estaria melhor provisionado (embora pareça que eles não estavam) e nós tentamos chamá-los. Eles não conseguiram ouvir-nos e, na manhã seguinte, quando a garoa clareou, - o que [11]não foi antes de passado o meio-dia, - nós não podíamos ver nada deles. Nós não podíamos ficar de pé para olhar à nossa volta, por causa da oscilação do bote. Os dois outros homens que até agora escaparam comigo eram um homem chamado de Helmar, uma passageiro como eu mesmo, e um marinheiro cujo o nome eu não conheço, - um baixo homem robusto, com gaguejado.

Nós ficamos à deriva famintos e, após nossa água ter chegado a um fim, atormentados por uma sede intolerável, por oito dias ao todo. Após o segundo dia, o mar baixou lentamente a uma calma sem movimento. É bastante impossível para o leitor ordinário imaginar aqueles oito dias. Felizmente para ele mesmo, ele não tem nada em sua memória com o que imaginar. Após o primeiro dia, nós falamos pouco um com o outro, deitamos em nossos lugares no bote e encaramos o horizonte, ou assistimos, com os olhos que se tornavam maiores e mais abatidos a cada dia, a miséria e a fraqueza progredindo sobre nossos companheiros. O sol tornou-se impiedoso. A água terminou no quarto dia, e nós já estávamos pensando em coisas estranhas e dizendo-as com nossos olhos; mas, eu considero, era o sexto dia antes que Helmar desse voz à coisa [12]na qual todos nós estávamos pensando. Eu lembro que nossas vozes estavam secas e finas, de maneira que nos inclinamos um na direção do outro e poupamos nossas palavras. Eu posicionei-me contra isso com toda minha força, era antes por fugir de bote e perecer juntos em meio aos tubarões que nos seguiam; mas, quando Helmar disse que, se a proposta dele fosse aceita, nós deveríamos ter bebido, o marinheiro mudou de ideia.

Eu não escolheria aleatoriamente, contudo, e à noite o marinheiro sussurrou para Helmar de novo e de novo, e eu sentei na proa com meu canivete em minha mão, embora eu duvidasse de que eu tinha a disposição em mim para lutar. Pela manhã eu concordei com a proposta de Helmar, e nós entregamos meio centavos para encontrar o homem excedente. O quinhão caiu sobre o marinheiro; mas ele era o mais forte de nós e não se conformaria com isso. Ele atacou Helmar com suas mãos. Eles agarraram-se e quase ficaram de pé. Eu arrastei-me através do bote até eles, pretendendo ajudar Helmar agarrando a perna do marinheiro; mas o marinheiro cambaleou com o balanço do bote, e os dois caíram sobre a amurada e rolaram juntos pela borda fora. Eles afundaram como pedras. Eu lembro-me de rir disso, e [13]ponderando porque eu ria. O riso pegou-me subitamente, como uma coisa a partir de fora.

Eu deitei-me sobre um dos bancos do bote por não sei quanto tempo, pensando que, se tivesse a força, eu beberia a água do mar e enlouqueceria para morrer rapidamente. E, mesmo enquanto deitava-me ali, eu vi, com não mais interesse do que se tivesse sido uma pintura, uma vela surgir através do horizonte. Minha mente deve ter ficado vagando e, contudo, eu lembro-me de tudo que aconteceu, bastante distintamente. Eu lembro-me de como minha cabeça oscilou com as ondas e de como o horizonte, com a vela acima dele, dançou para cima e para baixo; mas também lembro distintamente de que eu tive a convicção de que estava morto e que considerei que piada era que eles deveriam chegar atrasados por tão pouco para me alcançar em meu corpo.

Por um período sem fim, como me pareceu, eu deitei com minha cabeça sobre o banco do bote, observando a escuna (ela era uma pequena embarcação, escuna equipada de proa à popa) surgir no mar. Ela continuava alinhavando para lá e para cá em um compasso em expansão, pois ela estava velejando morta ao vento. Nunca entrou em minha cabeça tentar atrair atenção, e eu não me lembro [14]distintamente de coisa alguma após a vista do lado dela até que me encontrei em uma pequena cabine de popa. Há uma sombria meia memória de ser erguido ao passadiço, e de um grande semblante vermelho coberto com sardas e circundado com cabelo vermelho encarando-se sobre as amuradas. Eu também tive uma impressão desconectada de um rosto negro, com olhos extraordinários, próximo a mim; mas isso eu pensei que fosse um pesadelo, até que o encontrei novamente. Eu imagino que me recordo de alguma coisa sendo derramada entre meus dentes; e isso é tudo.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp.9-14. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/n14/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[10]Daily News, 17 de março de 1887.

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