A Múmia! Um Conto do Século XXII - Volume I - Capítulo II

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[16]A indolente Claudia já reinara por três anos na mais profunda tranquilidade; e o ano de 2127 também estava começando a rolar placidamente para o fim, quando, cedo em sua primavera, a paz do reino foi interrompida, e o Conselho da Rainha jogado em uma mais angustiante consternação pela inteligência de que Roderick, Rei da Irlanda, desembarcara no Pais de Gales, na vanguarda de um exército invasor, e os descontentes de cada parte do reino estavam afluindo para o seu estandarte.

A crise foi alarmante. O reino pacífico [17]da Rainha falecida e a inércia da atual ocasionaram o exército permanente da Inglaterra ser um brinquedo esplêndido, mantido antes para exibição do que para uso; e a educação universal tornara suas partes componentes pedantes raciocinadores em vez de agentes ativos. De fato, não era ocorrência incomum ver um regimento jogado em confusão em um dia de revista, em consequência das ordens do general não exatamente coincidindo com as noções entretidas de táticas militares pelos soldados, quem, enquanto discutindo o ponto, completamente se esqueciam do que eles foram ordenados a realizar. Razoavelmente, pouco podia ser esperado de um exército dessa forma constituído, mas o espírito nativo do inglêses, e o ódio deles por estrangeiros, erguiam-se triunfantes sobre qualquer obstáculo; e os soldados de modo unânime professavam a si mesmos prontos a obedecerem às ordens do conselho, e a morrerem em defesa de sua Rainha e do governo, se necessário.

Contudo, infelizmente, o Conselho não estava em condição de dar ordens. Esse grupo digno e sábio até então conseguiram gerenciar seus assuntos muito confortavelmente, ao referirem-se, [18]em todos os casos de dúvida e dificuldade, às decisões tomadas no reino da Rainha falecida; mas isso era bastante sem precedentes, e, consequentemente, os ilustres legisladores estavam completamente perdidos quanto ao que era melhor a ser feito. Entrementes o inimigo, quem não tinha semelhantes escrúpulos contra os quais lutar, entrara nos subúrbios de Londres e, atacando o palácio da Rainha em Hammersmith Street, sobre os bancos do Tamisa, inevitavelmente teria tomado Sua Majestade prisioneira, não houvesse essa ofensa fatal sido evitada pela coragem e atividade de Edmund Montagu, um capitão da guarda pessoal da Rainha, quem obtivera sua delegação através do interesse do tio-avô da Rainha, o velho Duque de Cornwall, apenas um pouco tempo antes.

Esse jovem herói felizmente teve o comando da guarda à ocasião do ataque inimigo, e, por sua decisão e presença de mente, ele sucedeu em animar seus soldados para defender o posto entregue ao comando deles até que uma formação de tropas regulares sob o comando do Duque de Exeter, um oficial veterano da Rainha falecida, chegou em seu auxílio e forçou os invasores a retirarem-se.

[19]O Duque de Exeter era um bom soldado e um homem sensível. Ele percebeu o perigo para seu país e, como outro Washington, deixou sua amada aposentadoria para o salvar da destruição. Os conselheiros da Rainha de bom grado se submeterem às suas ordens. Eles sentiam sua própria fraqueza e, alegremente, desistiram de seus domínios no governo para mãos melhor qualificadas para os guiar. Igualmente, a rainha ficou feliz de livrar-se de toda responsabilidade; e o Duque de Exeter, apontando o jovem Montagu, com a conduta do qual ele ficara muito satisfeito, segundo em comando, logo, por uma sucessão de medidas vigorosas e consistentes; expulsou o inimigo do reino: a retirada deles de fato sendo precipitada pelas notícias que Roderick recebeu de uma insurreição tendo irrompido em Dublin durante a sua ausência.

Enquanto essas comoções intestinas estavam agitando a Inglaterra, os imperadores da Grécia e da Alemanha, quem há muito invejavam a prosperidade de “a pequena ilha circundada pelo mar,” tomaram a oportunidade para declararem guerra contra ela; e Claudia apenas se encontrou liberta de inimigos domésticos [20]para lutar com estrangeiros. Contudo, o exército dela, encorajado pelo sucesso, professou-se pronto para enfrentar qualquer inimigo, e ele partiu para a Alemanha, com espíritos elevados sob o comando do General Montagu; a idade do Duque de Exeter e as enfermidades fazendo ele declinar de deixar a Inglaterra.

O jovem general era o filho de um baronete no Oeste da Inglaterra, e, tão rápido quanto fora sua promoção na corte, em hipótese alguma, ela foi maior do que ele merecia. O rosto e figura dele eram tais como a imaginação se delicia em retratar como um herói da antiguidade; e a personalidade dele harmonizava-se bem com as graças majestáticas de sua pessoa. Altivo e dominante em seu temperamento – a ambição era seu Deus, e o amor à glória, sua mais forte paixão; ainda assim seu orgulho próprio tinha uma nobreza nele, e seus soldados amavam-no, embora eles o temessem.

Muito diferente era o temperamento do seu irmão mais jovem, Edric, cuja disposição romântica e viragem contemplativa de mente frequentemente excitavam o ridículo de seus amigos. Como usual, em casos similares, a perseguição que ele suportava apenas ligava-o [21]mais intimamente às suas opiniões peculiares e determinava-o a sustentá-las com a consistência de um mártir, enquanto ele isolava a si mesmo da sociedade, e desprezava a opinião do mundo, porque ele considerava que ela estava contra ele; supondo a si mesmo capaz de resistir a qualquer espécie de tentação, simplesmente porque, até agora, ele não tinha encontrado nada adequado para o tentar. Pessoas mais velhas e mais experientes cometeram o mesmo erro.

Talvez a diferença impressionante percebida no temperamento desses dois rapazes poderia ser ocasionada mais por educação do que natureza. Até o período da obtenção de Edmund de sua delegação, eles ambos residiram inteiramente na residência de campo de seu pai, Sir Ambrose, onde o cuidado pela instrução deles foi confiado ao Dr. Entwerfen, um entusiasta alemão, quem uma propensão azarada para tentar experimentos banira de sua terra nativa. Contudo, esse filósofo era infelizmente mais habilidoso no conhecimento das ciências do que naquele do coração humano; e o espírito elevado de Edmund, a despeito de seu controle, logo buscou um companheiro mais [22]conveniente em Padre Morris, confessor do Duque de Cornwall, quem residia na vizinhança; e quem, tendo sido um guerreiro em sua juventude, estava bem-adaptado para simpatizar com os sentimentos de um jovem aspirante à glória militar.

O confessor era um homem inteligente e bem informado, e sentindo-se lisonjeado pelo carinho que Edmund mostrava por sua companhia, ele devotou todas as suas horas de tempo livre à instrução de seu jovem amigo, deixando o Dr. Entwerfen para se ocupar inteiramente com Edric, cuja a disposição harmonizava-se melhor com a sua própria. Sir Ambrose ficou bem satisfeito com a mudança; Edmund sempre fora seu filho favorito e, possuindo o feliz privilégio dos favoritos, não encontrou dificuldades em persuadir seu pai de que, o que quer que fosse que ele preferisse, era o melhor e mais prudente plano que possivelmente poderia ter sido adotado. Dessa maneira, ele planejou, no tempo devido, para conseguir permissão para entrar no exército e, sendo naturalmente ardente e empreendedor, o sucesso até agora acompanhava todos os seus esforços.

Cavalheiros do interior sempre foram reconhecidos [23]formando uma classe perfeitamente distinta de todas as outras classes da comunidade; ali existindo alguma coisa na mera circunstância de um homem vivendo inteiramente em consequência de sua própria propriedade, a qual nunca falha em produzir um efeito peculiar sobre a mente. De fato, um Fidalgo rural inglês é quase um pequeno monarca: cercado por seus feodários e dependentes, ele raramente, exceto em consequência de ocasiões de cerimônia, encontra-se com qualquer superior, ou até um igual a si mesmo; e ele torna-se o sol de seu próprio sistema, ao redor de quem o médico, o pároco, e o advogado desse vilarejo deslizam como planetas assistentes.

A despeito de todas as mudanças que ocorreram no estado político, moral e religioso da Inglaterra, essa casta permaneceu a mesma; e Sir Ambrose ficava tão animado nesses sentimentos quanto precipitado era seu temperamento, tão violentos seus prejuízos quanto os de quaisquer de seus predecessores. Não obstante, ele era muito superior à generalidade de sua classe e, em meio a inumeráveis outras boas qualidades, era um mestre indulgente e um pai afetuoso. O ponto fraco dele, - pois, ai de mim! Onde nós deveríamos encontrar um personagem sem [24]um, - era ocasionalmente um desejo para mostrar como implicitamente ele podia ser obedecido: embora, no geral, ele fosse fácil para falhar, e era apenas quando excitado por oposição, que a teimosia natural de sua disposição mostrava-se. A glória militar de Edmund era lisonjeira para seu orgulho parental, e os olhos dele brilhariam com deleite à simples menção do nome de seu querido.

Em comum com a maioria das pessoas da classe dele, Sir Ambrose Montagu considerava a regularidade uma virtude cardeal; e, em seus próprios hábitos, ele era tão invariável e exato quanto o maquinário que realizava as principais operações domésticas em sua mansão. A cada dia, após o jantar, à mesma hora, ele seguia regularmente para sua biblioteca, onde Abelard, um velho mordomo, quem se tornara grisalho sob o seu serviço, tão regularmente lhe presenteava com um esplêndido narguilé, o qual ele fumava com satisfação infinita; enquanto Davis, seu administrador, relatava-lhe tudo que ocorrera relativo aos assuntos da fazenda durante o dia, e recebia ordens para tudo o que deveria ocorrer no dia seguinte.

Em uma bela tarde de junho de 2127, Davis não [25]estava engajado com o interesse acostumado; e a fumaça do narguilé, em vez de ser gentilmente soprada com seu ar usual de satisfação calma, rapidamente se erguia em volumes, ou se afundava inteiramente para longe, enquanto Sir Ambrose aparecia alternadamente excitado por forte sentimento, ou perdido em meditação. Afeição parental ocasionava essa agitação inusitada; cartas foram recebidas de Edmund, anunciando-lhe estar na véspera da batalha com um exército muito superior ao seu próprio, e a impaciência com a qual o pai adorador esperava por inteligência do evento, pode ser mais facilmente imaginada do que descrita. Ainda assim a força do hábito prevalecia, e a hora acostumada encontrou-lhe com seus assistentes fieis, Davis e Abelard, em seus postos usuais na biblioteca.

O valoroso baronete estava acima dos setenta; e seu longo cabelo branco pendia em cachos sobre os ombros, enquanto ele sentava-se em sua confortável poltrona elástica, repousando um cotovelo sobre a mesa diante dele. Seus traços tinham sido muito belos, e sua compleição ainda retinha aquela aparência de saúde e clareza, o que, em uma [26]velhice simples, é a indicação certa de uma vida bem despendida. Seu semblante, embora inteligente, não era marcado pelos traços de paixões tempestuosas; as preocupações e problemas da vida pareciam ter passado gentilmente sobre ele, e a satisfação suavizara as rugas que a idade podia ter feito em sua testa; enquanto a alta e magra figura do Sr. Davis, enquanto ele reverentemente permanecia de pé inclinado-se adiante, seu chapéu na mão, e sua inteira conduta expressando uma mistura singular de precisão e respeito habitual, contrastava fortemente com a aparência dignificada de seu mestre.

As janelas da biblioteca abriram-se ao chão, e olhavam para fora, sobre um belo terraço, sombreado por uma varanda, suportada por treliça, ao redor da qual, rosas entrelaçadas envolviam-se com videiras. Abaixo, estendia-se um sorridente vale, lindamente arborizado, e regado ao longo por um majestoso rio lentamente ondulante; agora perdido em meio a folhagem que se espalhava das árvores que pendiam sobre os bancos de areia e, sem seguida, adiante brilhando novamente à luz como um lago de prata líquida. Além, erguiam-se colinas, majestaticamente altaneiras, aos céus, seu contorno claro agora distintamente marcado pelo sol [27]poente, enquanto ele lentamente se afundava atrás delas, derramando suas brilhantes matizes de púrpura e ouro sobre seus lados de vegetação rasteira; enquanto alguns de seus raios brilhantes até penetravam através da sombra folhada da varanda, e dançavam como relâmpago de verão sobre a superfície de um espelho de aço polido que pendiam diretamente na face de Sir Ambrose.

Que tarde adorável!” exclamou o valoroso baronete, encarando com um olhos encantados a rica paisagem diante dele; “frequentemente, enquanto eu olho essa cena, eu acho que cada vez que eu a vejo eu descubro alguma nova beleza. Quão excelentemente a tonalidade dourada do sol, [que] é jogada sobre os topos das árvores, é aliviada pelas massas profundas da sobre abaixo! Esse era o bosque favorito de Edmund, pobre rapaz!” e o pai ansioso suspirou, enquanto ele soprava seu narguilé.

É uma bela tarde,” disse Davis, curvando-se, “e se agrada a vossa excelência, eu penso que é melhor colocar o aparato de segadura a vapor em movimento amanhã. Se o sol deve ser tão quente amanhã como ele foi hoje, eu estou certo [28]de que o feno produzira sem absolutamente o uso das lupas incandescentes.”

Faça como você quiser, Davis,” retornou seu mestre, soprando violentamente a fumaça de seu tubo, “eu deixo-o inteiramente para você.”

E vossa excelência não pensa que fosse melhor dar à cevada um pouco de chuva? Ela ficará toda queimada, se este clima deve continuar; e se vossa excelência aprovar, isso pode ser feito imediatamente, pois eu vi uma bela nuvem negra de aparência carregada navegando por perto justamente agora, e eu posso tirar a máquina elétrica em cinco minutos para a fazer descer, se vossa excelência considerar adequado.”

Eu já disse a você que eu dou minha permissão para fazer como você quiser, Davis,” devolveu o baronete, soprando volumes de fumaça de seu narguilé. “Inunde os campos, se você desejar, para que você não mais me incomode como nada mais sobre o assunto.”

Mas eu não gostaria de agir sem a plena convicção de vossa excelência,” prosseguiu o mordomo persistente. “Vossa excelência deve estar consciente da aridez do solo e da impossibilidade que existe de um desenvolvimento apropriado das [29]plantas incipientes, a menos que elas sejam suprimidas com uma quantidade adequada de umidade.”

Você é muito irracional, Davis,” disse Sir Ambrose; “a maior parte de sua profissão ficaria satisfeita em ser permitida ter sua liberdade de ação; mas você -”

Desculpe-me minha interrupção, vossa excelência,” exclamou Davis, curvando-se profundamente; “mas eu não posso suportar ser considerado que eu fosse capaz de persuadir vossa excelência a tomar quaisquer passos que vossa excelência não pudesse aprovar completamente. Agora, quando à geminação e ao amadurecimento -”

Meu bom companheiro!” exclamou Sir Ambrose, sorrindo diante da energia com a qual Davis falava – sua figura magra oscilando para trás e para frente sob a luz do sol, e seu desejo diligente para convencer seu mestre, quase privando sua voz de seu usual tom solene e sentencioso: “Minha mente está ocupada demais para pensar nessas coisas agora, assim, eu concedo-te liberdade completa e desembaraçada para queimar, secar ou inundar meus campos, conforme você possa considerar adequado; empoderando você para tomar todos os passos necessários para geminar ou amadurecer milho em qualquer parte de minha propriedade, apenas prometendo que você [30]não me perturbe mais sobre o assunto; e assim, boa noite.”

Isso sendo dito em um tom de voz que Davis não se atreve a desobedecer, ele lentamente se retirou, aparentemente tão incomodado em ter seu próprio caminho, como algumas pessoas ficam ao serem confrontadas; quando, subitamente, um brilhante lampejo de luz cintilou no espelho polido do baronete. “Ah! O que foi isso?” Exclamou Sir Ambrose, erguendo-se subitamente, e arremessando seu cachimbo ao chão.

Ele encarou ansiosamente o espelho por uns poucos segundos em ansiedade sem fôlego, inclinando-se para frente em uma atitude de escuta, e não se atrevendo a mexer-se, como se ele temesse que o menor movimento pudesse destruir a ilusão agradável. O clarão foi repetido de novo e de nodo em sucessão rápida, enquanto um estrondo de sinos de prata começou a badalar suas voltas em melodia líquida. “Graças a Deus! Graças a Deus!” exclamou o idoso baronete, afundando-se em seus joelhos, e apertando as mãos juntas, enquanto grandes lágrimas rapidamente rolavam em seu rosto abaixo, “Meu Edmundo dominou! Meu Edmundo está a salvo!”

Os servos fiéis de Sir Ambrose [31]seguiram o exemplo do mestre deles, e, por alguns minutos, todo o grupo parecia perdido em uma silente ação de graças; os sinos prateados continuavam com sua doçura harmoniosa, através de distensões mais e mais doces, até que, gradualmente, eles dissipavam-se no ouvido. Sir Ambrose despertou subitamente seus joelhos conforme a melódia parava e, desejando Abelard para convocar Edric e o Padre Morris, quem então estava com o jovem filósofo em seu escritório, ele apressou-se sobre o terraço, seguido por Davis, para examinar um telégrafo posicionado sobre um monte a uma pequena distância, assim como a ser visto de uma extremidade dele: a luz e a música recém-mencionadas, sendo um sinal sempre dado quando alguma informação importante estava prestes a ser transmitida.

Agora o sol afundara-se atrás das colinas, e as sombras da noite estavam rapidamente se aproximando enquanto o baronete, com olhos tensos, observava os vários movimentos da máquina. “Um, dois e seis!” disse ele; “sim, isso significa que ele venceu uma batalha e está salvo. Meu coração contou-me isso, quando eu vi o lampejo do sinal. Meu querido Edmund! - dois, quatro e oito – ele [32]subjugou os alemães e tomou o todo da bela província da França. Seis, seis e quatro – ai de mim! Meu olhos débeis estão muito fracos para enxergarem distintamente. Davies, olhe, eu imploro a você! O sinal está mudando antes que nós descubramos seu significado! Por misericórdia, olhe antes que seja tarde demais! Ai de mim! Ai de mim! Eu tinha esquecido de que seus olhos são tão fracos quanto os meus próprios. Oh, Davies! Onde está Edric? Por que ele não está aqui para ajudar seu pobre velho pai em um momento como este?”

Mas Edric estava ocupado de outra maneira. Após a partida de Edmund para o continente, a atenção do Padre Morris tinha sido dirigida para seu irmão, e a mente de Edric, a qual há muito ansiara por alimento mais forte do que a que ela podia obter do Dr. Entfwerfen de boa natureza, expandiu-se rapidamente debaixo da cultura concedida a ela. Há muito ele fora apaixonado por estudos abstratos e especulações visionárias, mas eles agora formavam o único prazer de sua existência; e ele perseguia-as com uma avidez que tornava todos os assuntos ordinários da vida parecerem sem sabor e insípidos. Uma ideia, sugerida pelo [33]Padre Morris em uma de suas conferências, quanto à possibilidade de reanimação de um corpo morto, forçosamente tomou posse da mente dele. Sua imaginação aqueceu-se devido a longa demora sobre o mesmo tema; e um estranho, selvagem e indefinível desejo para conversar com um espírito desencorporado assombrava-o incessantemente. Por algum tempo ele enterrou essa ansiedade febril em seu próprio peito, e tentou, em vão, dominá-la; mas ela parecia pender sobre seus passos, apresentar-se diante dele onde quer que ele fosse, e, em resumo, persegui-lo com a malignidade de um demônio.

Qual é o problema com você, Edric?” disse o Padre Morris para seu adepto, o dia nos já mencionamos. “Você está tão mudado, eu escassamente conheço você, e os seus olhos têm uma expressão selvagem absolutamente terrível.”

De fato, eu estou meio maluco,” devolveu Edric, com um sorriso melancólico; “e ainda assim, talvez, você rirá quando eu contar a você a razão de minha inquietação: para dizer a verdade, a conversa que nós tivemos juntos no outro dia a ocasionou. Você convenceu-me tão claramente da [34]possibilidade de ressurreição de um corpo morto, que, desde aquele momento, eu tenho sido atormentado por um desejo sério de me comunicar com alguém quem tenha sido um habitante da tumba. Eu estaria inclinado a conhecer os segredos do túmulo, e verificar se o espírito fica acorrentado, após a morte, à sua cobertura terrena de barro, condenado até o dia da ressurreição final a pairar sobre a massa podre de corrupção que uma vez o contivera; ou se as últimas agonias da morte livram-no de seus vínculos mortais, e deixam-no flutuando, livre como o ar, nas regiões brilhantes do espaço etéreo?”

Você conhece minha opinião,” disse o sacerdote.

Eu conheço,” respondeu o pupilo; “mas perdoe-me se eu acrescentar – eu não me sinto satisfeito com isso: de fato, o meu caráter não é de ficar satisfeito com a construção de minha fé sobre aquela de outro homem. Eu gostaria de ver e julgar por mim mesmo.”

Eu não culpo você,” prosseguiu o Padre Morris; “um ser racional não deveria acreditar em nada que ele não pudesse provar; e, para remover suas dúvidas, eu aconselharia a você entrar no adro da igreja ao lado, onde você pode testar [35]a bateria galvânica do Dr. Entwerfen de cinquenta cirurgiões de potência, (a qual, você de admitir, certamente é suficientemente forte para reanimar o morto,) em um corpo que então ---”

Espere! Espere!” clamou Edric, estremecendo. “Meu sangue congela em minhas veias, diante do pensamento de adro de igreja: - suas palavras lembram-me de um sonho horrível que eu tive na última noite, o qual, mesmo agora, habita em minha mente, e resiste a todos os esforços que eu faço para me livrar dele.”

Conte-o, então,” disse o confessor severamente; “pois, quando a imaginação está possuída por fantasias horríveis, ela é aliviada ao falar sobre elas com outra pessoa.”

Eu pensei,” disse Edric, “que eu estava perambulando por um espesso bosque sombrio, através do qual eu tive a máxima dificuldade para abrir meu caminho. As árvores negras, franzindo a testa em majestade medonha acima da minha cabeça, combinadas juntas em massas, assim como aquase para obstruírem meu caminho. Subitamente, uma luz terrível brilhou sobre mim, e eu vi, aos meus pés, um ossário horrível, onde o moribundo mistura-se terrivelmente com o morto. Os infelizes vivos miseráveis virados e contorcidos [36]com dor, esforçando-se em vão para escaparem da massa putrescência empilhada sobre eles. Eu vi os olhos dele rolarem em agonia – eu assisti à distorção de suas feições, e, fazendo um esforço violento para socorrer um, quem quase se arrastara para meus pés, eu recuei com horror, enquanto eu descobria que o braço que eu agarrei amolecia-se ao meu toque, e uma repugnante massa de corrupção cedia debaixo de meu dedos! - Tremendo, eu acordei – um suor frio pendendo sobre minhas sobrancelhas, e cada nervo excitado com agonia convulsiva.”

Meros terrores visionários,” disse o padre. “Você permitiu à sua imaginação permanecer em um assunto até que ele se tornou mórbido.

Não é estranho,” continuou Edric, aparentemente perseguindo a corrente de seus próprios pensamentos, “que a mente deva ansiar tão sinceramente por aquilo diante do que o corpo treme; e ainda assim, como pode uma massa de mera matéria, a qual nós vemos afundar-se em corrupção no momento em que o espírito é retirado dela, tremer? Como ela pode até sentir? Eu escassamente posso analisar minhas próprias sensações; mas parece-me que dois espíritos separados e distintos espírito animam a massa de cera que [37]compõe o corpo humano. O primeiro, a centelha meramente vital que dá vida e movimento, e a qual nós compartilhamos em comum com os brutos, e até vegetais; e o outro, espírito eterno divino, o que nós propriamente denominamos de alma, e o qual é uma emanação direta de Deus mesmo, apenas concedido sobre o homem.”

Em minha opinião,” disse o Padre Morris, “os órgãos do pensamento, da reflexão, da imaginação e da razão são materiais; e, enquanto o corpo permanecer incorrupto, tudo pode ser restaurado, com a condição de que a circulação possa ser renovada: pois esse eu considero o princípio essencialmente necessário para colocar a máquina animal em movimento.

Eu confesso,” continuou Edric, “todos nós sabemos que circulação e a ação dos pulmões estão inseparavelmente conectadas e que, se a primeira for impedida, a morte deve seguir-se. Quão frequentemente corpos aparentemente mortos são recuperados por fricção, a qual produz circulação e a dilatação dos pulmões com ar, a qual restaura sua ação. Se a ideia estiver correta, de que a alma deixa o corpo no instante que o que nós chamamos de morte ocorre, [38]como podem essas instâncias de ressurreição serem explicadas? Você considera que a alma pode ser revocada ao corpo após ela uma vez o ter abandonado? Ou que ela paira sobre ele no ar, anexada a ele por ligaduras invisíveis, pronta para ser atraída de volta para sua antiga situação, quando o corpo deve retornar às suas funções vitais? Certamente não pode permanecer em um estado dormente, e ser despertada com o corpo; pois isso seria inconsistente com a ideia mesma de um espírito incorpóreo.”
Se você pudesse superar sua relutância infantil para tentar um experimento sobre um corpo,” disse o Padre Morris, “suas dúvidas seriam colocadas em repouso. Pois, se você pudesse ter sucesso em reanimar um corpo morto que há muito fora sepultado, de modo que ele poderia desfrutar de suas faculdades de raciocínio em completa perfeição, minha opinião seria inteiramente estabelecida.”
Mas onde eu deverei achar um corpo, o qual deveria ter estado morto por um tempo suficiente para evitar a possibilidade dele estar apenas em um transe, e o qual, ainda assim, não começou a se decompor? - Pois mesmo se eu pudesse conquistar a repugnância que eu sinto diante do [39]pensamento de tocar em uma semelhante massa de mortalidade gélida, como aquela apresentada no meu sonho, de acordo com nossa teoria, os órgãos devem estar perfeitos, ou o experimento não será completo.”
O que você pensa de tentar operar sobre uma múmia? Você sabe, uma câmara recentemente foi descoberta na grande pirâmide, a qual se supõe ser a tumba real de Quéops; e onde, diz-se, as múmias do grande rei e os principais personagens de sua casa foram encontrados em um estado de preservação perfeita.”
Mas múmias estão tão embrulhadas.”
Não aquelas de reis e príncipes. Você sabe, todos os viajantes, tanto antigos como modernos, que lhes viram concordam, que elas estão envoltas meramente em dobras de linho vermelho e branco, cada distinto dedo da mão e mesmo cada dedo do pé; dessa maneira, se você pudesse ter sucesso em ressuscitar Quéops, você nem mesmo necessitaria tocar o corpo; enquanto a vestimenta na qual ele está envolto, absolutamente, não dificultaria seus movimentos.”
A ideia é factível, como você corretamente diz, se ela puder ser colocada em execução, deixará [40]o assunto em paz para sempre. Eu também devo gosta de visitar as pirâmides, aqueles celebrados monumentos da antiguidade, cuja origem está perdida na obscuridade de épocas mais sombrias, e as quais parecem ter sido poupadas pela devastadora mão do Tempo, propositalmente para perplexar o instruído.”
O Dr. Entwerfen tinha estado presente durante toda essa conversa, embora ele estivesse tão ocupado com alguns experimentos filosóficos, de maneira que ele não se juntou a ela; contudo, excitado pela palavra “pirâmide,” ele agora começava.
Você está certo,” clamou ele, com entusiasmo, “elas são, de fato, um mistério que intrigou as eras para desenvolver – vá para o Egito, e eu acompanharei você. Eu sinto uma voz interior convocar-me para o lugar. Sim, nós exploraremos esses monumentos, e quem pode dizer senão que nós podemos ser os favorecidos mortais destinados a erguer o véu místico que por tanto tempo os tem coberto? Nós podemos ser ordenados a reviver as múmias deles, e forçá-las a revelar os segredos de sua prisão. Foi Quéops que ergueu as pirâmides a partir da areia pela ciência, e Quéops, pela [41]força da ciência, devera ser obrigado a revelar a origem delas.”
Eu estou feliz,” continuou o Padre Morris, “em descobrir que as opiniões do Dr. Entwerfen coincidem tão exatamente com a minha própria, e que ele terá a gentileza de acompanhar sua expedição. Você gostará de um companheiro quem possa entrar em seus sentimentos e participar de suas esperanças. Meus votos monásticos acorrentam-me a este local, ou eu alegremente emprestaria minha humilde ajuda para realizar uma tão valiosa descoberta.
Bem, bem, nós facilmente podemos imaginar isso,” exclamou o Dr. Entwerfen, impacientemente; “Mas embora você não possa ir, nós podemos: e – e – quando nós devemos partir, Edric, querido?”
Fique, fique!” respondeu Edric, sorrindo diante da impetuosidade do doutor; “embora eu confesse que eu deva gostar de visitar o Egito, contudo, há muitas coisas a serem consideradas antes que uma expedição semelhante possa ser tentada. Eu devo obter o consentimento de meu pai. Eu devo -”
Aqui uma gentil batida na porta interrompeu o argumento de Edric; e fez o doutor, cujos nervos estavam bastante suscetíveis, a saltar dois ou [42]três jardas em um susto:- enquanto o Padre Morris, com seu usual ar de compostura abriu a porta para o intruso indesejável.
Era o velho Abelard, o mordomo. Meio envergonhado do terror não filosófico que ele demonstrara, o doutor sentiu-se feliz de ser capaz de esconder suas emoções sob a aparência de raiva, e perguntou de maneira rabugenta qual era o assunto. “Eu não te disse uma centena de vezes,” continuou ele, “que eu não gosto de ser interrompido em meus estudos! E que nada é mais desagradável do que ter sua atenção distraída quando ela tinha sido fixada sobre uma questão de importância!”
Eu não tento contestar o axioma que você há pouco apresentou,” retornou Abelard, falando em uma lenta maneira precisa, como se ele pesasse cada sílaba antes que ele a arrastasse adiante: “pois fatos inegáveis não admitem contradição. Contudo, como a mensagem com a qual eu agora estou de pé responsabilizado no presente momento, relaciona-se ao Mestre Edric e ao reverendo Padre Morris, em vez de a você mesmo, eu humildemente opino que nenhuma culpa pode se vincular a mim, por causa da [43]interrupção não premeditada da qual você me alega culpável.”
E o que você tem a dizer para mim?” perguntou Edric.
Que o valoroso cavalheiro, seu respeitável progenitor, requisita imediatamente que você ponha em exercício seus poderes locomotivos para se juntar a ele no terraço, para o fim de que lá suas faculdades visuais superiores possam proporcionar alívio à ansiedade mental sob a qual ele atualmente labora, ao auxiliá-lo a desenvolver a inteligência transmitida a ele pela máquina telegráfica.”
O quê!” Exclamou Edric, ansiosamente, e em seguida, sem esperar uma resposta, ele lançou-se adiante e, em uns poucos segundos, estava ao lado de seu pai: enquanto o Padre Morris seguia-o com rapidez quase igual.
Abelard encarou-os com espanto: “Há algo muito surpreendente,” disse ele, dirigindo-se ao Dr. Entwerfen, “na efervescência dos espíritos animais durante a juventude. Eu laboro sobre uma completa acatalepsia sobre o [44]tema; eu devo considerar que ela deve surgir a partir da excessiva elasticidade dos nervos. As ideias atingem -” mas aqui, acontecendo infelizmente de olhar para cima, ele também foi atingido ao descobrir que o Dr. Entwerfen também desaparecera: e, estando relutante em desperdiçar sua eloquência sobre o ar vazio, ele partiu, lenta e solenemente, contudo, de acordo com seu costume, para se juntar ao partido reunido no terraço.


Próximo capítulo


ORIGINAL:
LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.16-44. Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n30/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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