[58]Em uma brilhante manhã de maio, a luz do sol, às cinco horas da manhã, estava derramando-se dentro de um quarto que se voltava para o leste na ancestral casa dos Aquilas. Neste quarto, Felix, o mais velhos dos três filhos do Barão, estava dormindo. Os raios de luz passavam sobre a cabeça dele e iluminavam um espaço quadrado na oposta parede caiada, onde, em meio à luz brilhante, pendia uma cruz de marfim. Havia apenas duas vidraças na janela, cada uma de não mais do que duas ou três polegadas quadradas, o resto da janela estando fechada por fortes persianas de carvalho, espessas o suficiente para resistirem à pancada de uma flecha.
Durante o dia uma dessas, pelo menos, teria sido aberta para permitir ar e luz. Elas não exatamente se encontram, e um raio de luz do sol, em adição àquele que vem através das vidraças minúsculas, entrava pela aberta. Apenas uma janela na casa continha mais do que duas de semelhantes vidraças (ela ficava na sala de estar da baronesa), e a maioria [59]delas não tinha nenhuma em absoluto. O vidro deixado pelos antigos em suas habitações há muito fora usado ou quebrado, e os fragmentos que permaneceram eram preciosos demais para serem colocados em quartos ordinários. Quando grandes pedaços eram descobertos, eles eram levados para os palácios dos príncipes, e até esses eram apenas frugalmente supridos, de maneira que dizer “ele tem vidro na janela” era equivalente a “ele pertence às classes superiores.”
No recesso da janela ficava um tinteiro, o qual recentemente estivera em uso, pois uma pena estendia-se ao lado dele, e uma folha de pergaminho parcialmente coberta com escrita. A tinta era espessa e muito escura, feita de carvão em pó, deixando uma escrita levemente em relevo, a qual podia ser percebida pelo dedo ao roçar levemente sobre ela. Sob a janela, no chão descoberto, ficava um baú aberto, no qual havia vários pergaminhos e livros semelhantes, e a partir do qual, evidentemente, a folha no recesso fora tomada. Esse baú, embora pequeno, era extremamente pesado e forte, sendo talhado com cinzel e goiva a partir de um bloco sólido de carvalho. Exceto por alguns sulcos paralelos, não houve tentativa de ornamentação sobre ele. A tampa, na qual não possuía dobradiças, mas levantava-se completamente em separado, estava inclinada contra a parede. Também era de carvalho, algumas polegadas de espessura, e ajustada sobre o baú por um tipo de um encaixe nas extremidades.
Em vez de uma fechadura, o baú era fechado por uma comprida tira de couro de boi, a qual agora se estende em uma espiral no chão. Encerrada por voltas e voltas, torcidas e entrelaçadas, e finalmente amarrado com um especial e secreto nó (as extremidades ficando [60]escondidas), a tira de couro guardava os conteúdos do baú de olhos curiosos ou mãos ladras. É claro, com machado ou faca facilmente o nó poderia ser cortado, mas ninguém poderia obter acesso ao quarto exceto os retentores da casa, e qual deles, mesmo se desleal, atrever-se-ia a empregar semelhantes meios na visão da punição certa que deveria seguir-se? Ocupar-se-iam horas para desfazer o nó, e então ele não poderia ser amarrado exatamente da mesma maneira, de modo que o uso real da tira era assegurar ao proprietário de que não se interferiu com seus tesouros em sua ausência. Fechaduras tais como as que eram feitas eram da mais desajeitada construção. Elas não eram tão difíceis de roubar quanto a tira de desamarrar, e o custo delas, ou melhor, a dificuldade de conseguir um artífice que poderia manufaturá-las, confinava o seu uso aos líderes das grandes casas. O baú do Barão era trancada, e o dele apenas, na residência.
Além de pergaminhos, os quais eram os mais próximos do topo, como os mais usados, havia três livros, muito desgastados e decaídos, os quais foram preservados, mais por acidente do que por cuidado, das bibliotecas dos antigos. Um era uma história resumida de Roma, o outro um relato similar da história inglesa, o terceiro, uma cartilha de ciência ou conhecimento; todos os três, de fato, sendo livros que, em meio aos antigos, eram usados para ensinarem crianças e os quais, pelos homens daqueles dias, teriam sido deixados de lado com desdém.
Expostos por anos em casas decadentes, chuva e mofo [61]mancharam e macularam as páginas deles; as capas deterioram-se nessas centenas de anos, e agora eram providas por uma larga camada de couro mole com amplas margens demasiado sobrepostas às extremidades; muitas das páginas estavam bastante perdidas, e outras rasgadas por manuseio sem cuidado. O resumo da história romana fora chamuscado por um incêndio na floresta, e as extremidades carbonizadas das folhas caíram em buracos semicirculares. Todavia, ao ponderar sobre elas, Felix tinha, por assim dizer, reconstruído muito do que era propriedade comum (e portanto desvalorizado) de todos quando eles foram impressos.
Os pergaminhos continham as anotações dele, e o resultado de seus pensamentos; eles também estavam cheios de extratos de volumes decadentes jazendo totalmente negligenciados nas casas de outros nobres. A maioria desses era de extrema antiguidade, pois, quando os antigos partiram, os livros modernos que ele compuseram foram deixados em casas decadentes à merce do clima, apodreceram ou foram destruídos por frequentes incêndios na floresta. Mas aqueles que foram preservados pelos antigos em museus escaparam por um tempo, e alguns desses ainda permaneceram em despensas e cantos, nos quais eles eram ocasionalmente trazidos adiante pelos servos para maior conveniência no acendimento de fogos. Os jovens nobres, inteiramente dedicados à caça, às intrigas amorosas e à guerra oprimiam Felix Aquila com ridículo quando eles descobriam-no debruçando-se sobre essas relíquias e, sendo de um espírito orgulhoso e suscetível, eles até agora sucederam em que ele abandonasse a busca aberta de semelhantes estudos, e roubavam o conhecimento dele por olhadelas [62]inquietas quando não havia ninguém por perto. Como entre os antigos conhecimento era estimado sobre todas as coisas, assim agora, por uma espécie de contraste, era de todas as coisas a mais desprezada.
Sob os livros, em um canto do baú, ficava uma bolsa de couro contendo quatro soberanos, tais como eram usados pelos antigos, e dezoito peças do moderno dinheiro de prata, os degradados centavos do dia, não muito mais da metade do qual era prata, e o resto era liga. As moedas de ouro foram encontradas enquanto cavando buracos para os pilares da nova paliçada e, pela lei, deveriam ter sido entregues ao tesouro do Príncipe. Todo o ouro descoberto, quer em forma de moeda ou joalheria, era propriedade do Príncipe, quem se supõe pagar por seu valor em moeda.
Como o valor atual da moeda era apenas metade de seu valor nominal (e algumas vezes menos), a transação ficava grandemente em favor do tesouro. Tal era a escassez de ouro que a lei era estritamente aplicada, e houvesse a menor suspeita do fato, a casa teria sido revistada dos porões ao teto. Aprisionamento e multa teriam sido o destino inevitável de Felix, e a família muito provavelmente teria sofrido pela falta de um de seus membros. Mas, independente e determinado ao último grau, Felix corria qualquer risco em vez de renunciar ao que ele encontrara, e que ele considerara seu mesmo. Essa independência inflexível e orgulho de espírito, junto com desdém escassamente oculto pelos outros, resultara no quase isolamento dele [63]da juventude de sua idade, e causaram-lhe ser considerado com antipatia pelos anciãos. Ele era raramente, se alguma vez, convidado para se juntar à caça, e ainda mais raramente convidado para as festividades e entretenimentos providos nas casas adjacentes, ou para os maiores entretenimentos dos nobres superiores. Muito rápido para se ofender, onde nada era realmente pretendido, ele imaginava que muitos nutriam-lhe má vontade quem escassamente lhe dera um pensamento temporário. Ele não podia perdoar as piadas grosseiras proferidas sobre sua aparência pessoal por homens de constituição mais pesadas, quem desprezam um rapaz tão delgado.
Ele preferiria ficar sozinho a juntar-se à companhia deles, e não competiria em nenhum dos esportes deles, de maneira que, quando sua ausência na arena fosse notada, era atribuída a fraqueza ou covardia. Essas imputações doíam-lhe muito, levando-o a cismar-se dentro de si mesmo. Ele nunca era visto nos pátios ou antessalas no palácio, nem seguindo a comitiva do Príncipe, como era o costume dos jovens nobres. A servilidade da corte irritava-o e enojava-o; o ânsia do forte para carregar uma almofada ou buscar um cachorro aborreciam-no.
Havia aqueles que observariam a ausência dele da multidão nas antessalas. No meio de tanta intriga e esforço contínuo por poder, homens astutos, por um lado, sempre estavam em alerta para o que, eles imaginavam, provar-se-iam instrumentos com vontade; e, por outro lado, os conselheiros do Príncipe mantinham um olho vigilantes sobre a disposição de todos da menor consequência; de maneira que, embora com apenas vinte e cinco anos, Felix já estava [64]em duas listas, aquela do palácio, de pessoas cujas as visões, se não traiçoeiras, eram duvidosas, e a outra, nas mãos de um possível aspirante, como um descontente e, portanto, útil homem. Felix estava inteiramente ignorante de que ele atraíra tanta observação. Ele supunha a si mesmo simplesmente desprezado e ignorado; ele não acalentava nenhuma traição, não tinha a menor simpatia com qualquer aspirante, mantinha-se totalmente à distância da intriga, e seus devaneios, se eles fossem ambiciosos, diziam respeito apenas a ele mesmo.
Mas os mais preciosos tesouros no baú eram oito ou dez pequenas folhas de pergaminho, cada uma delicadamente enrolada e fechada com uma fita, cartas da Aurora Thyma, quem também lhe dera a cruz de marfim na parede. Era de feitura antiga, uma relíquia do mundo antigo. Uma bússola, umas poucas pequenas ferramentas (valiosas porque preservadas por tantos anos, e não agora para serem obtidas por qualquer consideração), e uma lente de aumento, também uma relíquia dos antigos, completavam os conteúdos do baú.
Sob uma mesa baixa ao lado do estrado da cama, ficavam um sílex e aço e gravetos, e uma lamparina a óleo de barro, não destinada a ser carregada de um lado para o outro. Ali, também ficava a faca dele, com uma empunhadura feita de chifre de bode, usada por todos no cinto, e seu machado de floresta, uma pequena ferramenta, mas extremamente útil nos bosques, sem a qual, de fato, o progresso era frequentemente impossível. Essas ficavam no cinto, o qual, como ele estava despido, ele jogara sobre a mesa, junto com sua bolsa, na qual havia uma dúzia de moedas de cobre, não muito regulares em forma, e estampadas apenas em um lado. A mesa era formada por duas curtas pranchas cortadas, escassamente alisadas, [65]erguidas sobre pranchas semelhantes (na borda) em cada extremidade, de fato, uma forma longa.
A partir de uma estaca fixada na parede pendia um disco de bronze por um fino cordão de couro; esse disco, polido ao último grau, respondia como um espelho. A única outra peça de mobília, se assim ela pode ser chamada, era um bloco de madeira ao lado da mesa, usado como uma cadeira. No canto, entre a mesa e a janela, erguia-se um longo arco de teixo, e uma aljava cheia de flechas prontos para uso imediato, ao lado dos quais três ou quatro feixes jaziam sobre o chão. Uma besta pendiam de uma estaca de madeira; o arco era de madeira, e, portanto, não muito poderoso; dardos e setas de cabeça quadrada estavam espalhados descuidadamente sobre o chão sob ele.
Seis ou sete dardos mais finos, usados para arremesso com a mão, como lanças, ficavam em outro canto da porta, e duas mais robustas lanças de porco. Perto da parede, um monte de redes estendia-se em confusão aparente, algumas usadas para perdizes, algumas de barbante grosso para galinha-do-mato; outra, estendendo-se um pouco à parte, para peixes. Próximas dessas, as partes componentes de duas armadilhas para perus estavam espalhadas em volta, junto com um pequeno escudo ou alvo circular, tais como aqueles que são usados por espadachins, laços de arame, e, em uma caixa aberta, vários cinzéis, goivas e outras ferramentas.
Um tubo de sopro estava fixado por três estacas, de maneira que ele não pudesse empenar-se, um chifre de caça pendia de outra, e, sobre o chão, ficavam um número de flechas em vários estágios de manufatura, algumas amarradas à haste de endireitamento, algumas com penas já anexadas, e algumas dificilmente dadas a forma a partir da [66]tora de faia ou anciã. Um monte de peles enchia o terceiro canto, e em meio a elas haviam numerosos chifres de veados machos, e dois de vaca branca, todavia nenhum do muito temido e muito desejado touro branco. Também havia umas poucas penas de pavão, raras e difíceis de conseguir, e destinadas a Aurora.
Em volta de um de pé da cama ficava um longo rolo de fino couro cru – um lasso, e sobre outro ficava suspenso uma touca de ferro ou capacete sem viseira.
Não havia nem espada ou lança. De fato, de todas as armas e instrumentos, nenhum parecia em uso, a julgar pela poeira que se amontoava sobre eles, e as pontas enferrujadas, exceto o arco e a besta e um das lanças para javali. A cama mesma era muito baixa, construída de madeira, grossa e sólida; as roupas eram do mais grosseiro linho e lã; havia peles para esquentar no inverno, mas essas não eram requeridas em maio. Não havia carpete, nem qualquer substituto para ele; as paredes estavam caiadas, forro não havia nenhum: as vigas comidas por vermes estavam visíveis, e a viga mestra. Mas sob a mesa havia uma grande tigela de barro, cheias de orquídeas da campina, jacintos silvestres e um punhado de espinheiros-alvares em flor.
O chapéu dele, largo na aba, ficava no chão; seu gibão ficava sobre o bloco ou assento de madeira, com as longas calças justas, as quais mostravam cada músculo dos membros, e perto delas altos calçados de curtido mas não enegrecido couro. Seu curto manto pendia de uma estaca de madeira contra a parede, a qual era fixada com uma ampla cavilha de carvalho. O pergaminho no recesso da janela, no qual ele estivera [67]trabalhando exatamente antes de se retrair, estava coberto com esboços rudes, evidentemente seções de um projeto para uma embarcação ou galé impulsionada por remos.
O ponto quadrado de luz sobre a parede lentamente movia-se conforme o sol subia, até que a cruz de marfim foi deixada na sombra, mas o sonhador dormia, desatento, também, do chilrear dos tragos sob as cornijas, e do chamado do cuco não muito distante.
ORIGINAL:
JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.58-67. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/58/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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