[67]Logo surgiu ali o som de um eixo de rodas rangendo, o qual se tornava cada vez mais e mais alto conforme o vagão aproximava-se, até que beirava um guincho. O adormecido moveu-se com dificuldade, mas, reconhecendo o barulho mesmo em seus sonhos, não despertou. Os sons horríveis pararam; havia o som de vozes, como se duas pessoas, um fora e outra dentro da muralha, estivessem chamando uma a outra; um portão abriu-se, e o carroção passou sob a janela mesma do quarto. Mesmo o hábito não poderia permitir a Felix suportar um barulho tão penetrante quando quase em seus ouvidos. Ele sentou-se por um minuto e encarou o quadrado de luz na parede para adivinhar a hora do dia por sua posição.
Em um minuto ou dois, o chiado do eixo de rodas cessou, enquanto o carroção alcançava os armazéns, e ele imediatamente retornou ao travesseiro. Do lado de fora, exatamente sob a janela, ali passava uma estrada ou caminho, a qual em [68]parte dividia a cercada em duas porções; a moradia e seus escritórios ficando em um lado, os celeiros e armazéns no outro. Mas, a umas poucas jardas do quarto dele, um forte portão na muralha da cercada dava entrada a essa estrada. Era chamado de Portão de Ácer, porque uma pequena árvore de ácer crescia próximo a ele do lado de fora. A muralha, a qual cercava o lugar todo a uma distância de oito ou dez jardas dos prédios, era de tijolos, e de aproximadamente nove pés de altura com um fosso do lado de fora.
Estava parcialmente fortificado, e parcialmente com abertura para flechas, e uma banqueta de terra batida corria em volta na parte de dentro, de modo que os defensores poderiam disparar dardos e flechas através das canhoneiras, e descerem para preparar um suprimento fresco. Em cada canto ficava uma grande plataforma, onde um número considerável de homens poderia permanecer e comandar as abordagens; não havia, contudo, bastiões ou torres de flanco. Sobre o teto da moradia uma plataforma similar fora preparada, protegida por um parapeito; a partir da altura do qual a cercada inteira podia ser divisada.
Outra plataforma, embora de uma altura menor, ficava sobre o teto dos alojamentos dos retentores, assim posicionada como para especialmente comandar o segundo portão. Entrando no Portão de Ácer, a moradia ficava à direita, e os celeiros e armazéns gerais à esquerda, os últimos construídos em três lados de uma praça. Mais adiante, no mesmo lado, ficavam os estábulos, e, próximo a eles, a forja e as oficinas. Além desses, novamente, ficavam os alojamentos dos retentores e trabalhadores, próximos dos quais, no canto, ficava o [69]Portão Sul, a partir do qual a Estrada Sul levava aos estábulos de gado, fazendas e, do lado de fora, para o sul.
Do lado direito, após a moradia e conectada com ela, vinham as reservas do administrador, onde as ferramentas de ferro e semelhantes artigos valiosos de metal eram guardados. Então, após uma passagem coberta, a cozinha e o salão gerais, sob um teto com a casa. A casa fronteava a estrada na direção oposta; havia um estreito relvado verde entre ela e o entorno fechado, ou muralha, e diante do grande salão e cozinhas uma quadra coberta com cascalho. Essa era separada do relvado por paliçadas, de modo que a gente da casa desfrutava de privacidade e, todavia, ficava perto de seus servos. O lugar era chamado de Casa Antiga, pois ele datava de volta ao tempo dos antigos, e os Aquilas eram orgulhosos da designação simples de sua residência fortificada.
A janela de Felix fiava quase no exato oposto à entrada para a área do armazém ou celeiro, de maneira que o carroção, após ultrapassá-la, tinha de prosseguir apenas por pouca distância e então, virando à esquerda, parava diante das portas do armazém. Esse carroção era baixo, construído apenas para o transporte de bens, de prancha talhada escassamente alisada, e as rodas eram sólidas; cortadas, de fato, a partir do topo de um olmo. A menos que continuamente untado o chiado de semelhantes rodas é terrível, e os carreteiros frequentemente se esquecem de seus chifres de graxa.
Muito do trabalho da fazenda, tal como a carroça de feno e milho em tempo de colheita, era feito sobre trenós; os carroções (havia apenas poucos deles) sendo reservados para [70]jornadas mais longas em estradas irregulares. Esse carroção, carregado de lã, um pouco da tosquia da temporada, vinha a quatro ou cinco milhas a partir de uma cabana relativamente remota, ou curral de ovelhas, aos pés das colinas. Nas construções em volta da área do celeiro eram armazenados não apenas o milho e a farinha requeridos pelos retentores (os quais, a qualquer momento, poderiam tornar-se uma guarnição sitiada), mas os produtos mais valiosos da propriedade, a lã, peles, e couro curtido das covas de curtição, além de uma grande quantidade de bacon e carne salgada; de fato, qualquer artigo possível que poderia ser necessário.
Essas construções eram unidas com pinos de madeira, por conta da escassez de ferro, e eram todas (a moradia incluída) cobertas com telhas vermelhas. Casas menores, cabanas e barracões à distância eram de palha, mas em uma cercada as telhas eram necessárias, com medo de que, no caso de um ataque, fogo devesse ser jogado.
Uma meia-hora depois, às seis horas, o vigia soprou seu chifre tão alto quanto possível por uns dois ou três minutos, o som vazio ecoando através do lugar. Ele voluntariou-se para o relógio de sol na muralha, sendo uma manhã de verão; no inverno ele era guiado pela posição das estrelas e, frequentemente, quando sol ou estrelas estavam obscurecidos, prosseguia por suposição. O chifre da casa era soprado três vezes ao dia: às seis da manhã, como um sinal para que o dia começasse; ao meio-dia, como um sinal para o almoço; e às seis da noite, como um sinal de que o dia (exceto em tempo de colheita) terminou. Os vigias caminhava em sua ronda em torno da cercada durante toda a noite, desobrigados a cada três horas, [71]armados com lanças, e assistidos por mastins. Durante o dia, um era suficiente, e seu posto ficava então usualmente (embora não sempre) na parte mais alta do teto.
O chifre despertou novamente Felix; era a nota pela qual ele fora acostumado a erguer-se por anos. Ele abriu as persianas de carvalho, e a luz do sol e a briza fresca da manhã de maio entraram livremente no quarto. Agora havia o murmúrio de vozes de fora, homens descarregando a lã, homens nas oficinas e nos celeiros, e outros esperando à porta do armazém do mordomo pelas ferramentas, as quais ele entregava a eles. O ferro sendo tão escasso, as ferramentas eram uma tentação, eram cuidadosamente trancadas a cada noite e entregues novamente pela manhã.
Felix foi à cruz de marfim e beijou-a em recordação afetuosa de Aurora, e então olhou na direção da janela aberta, para o orgulho e alegria da juventude virando-se para o Oriente, a manhã e a luz. Antes que ele estivesse meio vestido, ali veio uma batida e, em seguida, um chute impaciente na porta. Ele destrancou-a, e o irmão dele, Oliver, entrou. Oliver estivera em sua natação no rio. Ele sobressaia-se em natação, como, de fato, em todo exercício masculino, sendo tão ativo e enérgico quanto Felix era externamente lânguido.
O quarto dele ficava apenas no outro lado do descanso, sua porta, exatamente oposta. Também estava espalhada com ferramentas e armas. Mas havia um número muito maior de ferramentas; ele era um artífice hábil e artístico, e a mesa e o assento dele, diferente dos blocos rudes do quarto de Felix, eram entalhados com bom gosto. O assento dele, além disso, tinha um dorso, e ele até tinha [72]um sofá de sua própria construção. Perto da cabeceira dele pendia sua espada, sua posse mais valorizada e valiosa. Era uma que escapara da dispersão dos antigos; ela fora antiga mesmo nos dias deles, e de muito melhor trabalho do que eles mesmos produziam.
Ampla, longa, reta e bem balanceada, ela parecia capaz de cortar através de capacete e cota da malha, quando empunhada pelo braço forte de Oliver. Uma espada semelhante não teria sido comprada por dinheiro; dinheiro, de fato, tinha sido oferecido por ela em vão; persuasão, e mesmo ameaças dissimuladas por aqueles de mais elevada autoridade que a cobiçavam, foram semelhantemente desperdiçadas. A espada estivera na família por gerações e, quando o Barão tornou-se muito velho, ou melhor, quando ele afastou-se da vida ativa, o segundo filho reivindicou-a como o mais apto a usá-la. A reivindicação foi tacitamente concedida; em todos os eventos, ele tinha-a e pretendia mantê-la.
Em um canto ficava a lança dele, longa e afiada, para uso sobre o cavalo, e perto dela, sua sela e apetrechos. O capacete e a camisa de malha, as grevas e esporões, a curta maça de ferro pendia do arco da sela, falava do cavaleiro, o homem de cavalos e guerra.
Todo o prazer de Oliver estava em exercício e esporte. O mais ousado corredor, o melhor nadador, o melhor em salto, em lançamento de dardo ou martelo pesado, sempre pronto para disputa ou torneio, sua vida inteira foi despendida com cavalo, espada e lança. Um ano mais novo do que Felix, ele era pelo menos dez anos mais velho fisicamente. Ele media vários polegadas a mais em volta do peito; seus ombros massivos e [73]braços imensos, bronzeados e peludos, seus membros poderosos, pescoço semelhante a uma torre, mandíbula um pouco quadrada eram os companheiros naturais de enorme força física.
Todo o sangue e osso e força muscular e tendão da casa parecia ter caído para a parte dele; todo o espírito ardente e inquieto e temperamento desafiador; toda a completa imprudência e instinto do guerreiro. Ele era em cada polegada um homem com cabelo escuro, encaracolado e de corte curto, bochecha bronzeada e queixo romano, bigode aparado, olho castanho, sombreado pelos longos cílios e bem marcadas sobrancelhas; cada polegada de um natural rei de homens. Essa mesma preponderância física e beleza animal talvez fosse a ruína dele, pois seus companheiros eram tantos, e o amor dele por aventuras tão inumerável, que eles deixavam-no sem tempo para ambições sérias.
Entre os irmãos havia a mais estranha mistura de afeição e repulsão. O mais velho sorria diante da excitação e energia do mais jovem; o mais jovem abertamente desprezava os hábitos estudiosos e vida solitária do mais velho. Em tempo de problema real e dificuldade eles teriam sido reunidos; por assim dizer, havia pouca comunicação; um seguia seu caminho, e o outro, o seu. Talvez houvesse antes uma inclinação para depreciar as realizações do outro do que as elogiar, uma espécie de ciúmes ou inveja sem antipatia pessoal, se isso pode ser entendido. Eles eram bons amigos e, todavia, mantinham-se separados.
Oliver fazia de todos amigos, e espancava e batia em seus inimigos com silêncio respeitoso. Felix fazia de ninguém amigo, e era desprezado igualmente por amigos nominais e inimigos atuais. Oliver era aberto e jovial; Felix, [74]reservado e desdenhoso, ou sarcástico de maneiras. Seu corpo esguio, alto demais para sua largura, estava contra ele; ele nunca pôde quer erguer os pesos quer experimentar o esforço muscular prontamente suportado por Oliver. Era fácil ver que Felix, embora nominalmente o mais velho, todavia não alcançara o desenvolvimento completo. Uma compleição leve, cabelos e olhos claros, também eram contra ele; onde Oliver fazia conquistas, Felix era ignorado. Ele ria, mas, talvez, seu orgulho secreto ficasse machucado.
Havia apenas uma coisa que Felix podia fazer no caminho de exercício e esporte. Ele podia atirar com o arco em uma maneira até então inteiramente não abordada. As flechas dele caíam infalivelmente no centro do alvo, o cervo veloz e a lebre eram abatidos com facilidade, e até o pombo da floresta em pleno voo. Nada estava a salvo daquelas terríveis flechas. Por isso, e apenas isso, a fama dele divulgava-se; e mesmo isso foi tornado uma fonte de amargura para ele.
Os nobres julgavam nenhuma arma digna de homens de descendência, apenas a espada e lança; armas de projétil, como o dardo e a flecha, eram as armas de retentores. Sua degradação era completa quando, em um torneio, onde ele misturara-se com a multidão, o Príncipe convocava-o para atirar no alvo, e exibir seu talento em meio à soldadesca, em vez de em meio aos cavaleiros no círculo de justa. Felix atirava, de fato, mas fechava seus olhos para que sua flecha pudesse ir longe, e ficava escarnecido como uma falha mesmo nessa competição ignóbil. Apenas por um autocontrole de ferro ele privou-se naquele dia de lançar um das desprezadas flechas no olho do Príncipe.
Mas quando Oliver riu-se dele sobre sua falha, Felix [75]pediu-lhe para pendurar sua couraça a duzentas jardas. Ele assim o fez e, em um instante uma flecha foi enviada através dela. Após isso, Oliver fez silêncio e, em seu coração, ele começou a considerar que o arco era uma arma perigosa.
“Então, você está atrasado novamente nesta manhã,” disse Oliver, inclinando-se contra o recuo da janela e colocando seus braços sobre ele. O brilho do sol caía sobre escuro cabelo encaracolado, ainda molhado do rio. “Estudando última noite, eu suponho?” virando sobre o pergaminho. “Por que você não cavalga para a cidade comigo?”
“A água deve ter estado fria nesta manhã?” disse Felix, ignorando a questão.
“Sim; houve uma leve geada, ou alguma coisa parecida, muito cedo, e uma neblina na superfície; mas foi esplêndido na lagoa. Por que você não se levanta e vem? Você costumava fazê-lo.”
“Eu posso nadar,” disse Felix laconicamente, implicando que, tendo aprendido essa arte, ela não mais o punha à prova. “Você atrasou-se última noite; eu ouvi que você constrangeu a Noite.”
“Nós chegamos em casa com estilo; estava bastante escuro, mas a Noite galopou as Milhas Verdes.”
“Espero que ela não ponha o casco dela em um buraco de coelho em alguma noite.”
“Isso não. Ela pode enxergar como um gato. Eu acredito que nós superamos vinte milhas em menos de uma hora. Trabalho forte, considerando as colinas. Você não pergunta sobre as notícias.”
“Quais as notícias para mim?”
“Bem, houve uma desavença no palácio ontem à tarde. O Príncipe disse a Louis que ele era um traidor de [76]duas caras, Louis disse ao Príncipe que ele era um tolo desconfiado. Quase se chegaram aos golpes, e Louis foi banido.”
“Pela quinquagésima vez.”
“Desta vez é mais sério.”
“Não acredito nisso. Ele será convocado novamente esta manhã; não pode ver o por quê?”
“Não.”
“Se o Príncipe estivesse realmente desconfiado, ele nunca enviaria o irmão dele para o campo, onde ele poderia servir-se de pessoas descontentes. Ele o manteria perto, à mão.”
“Eu gostaria que a contenda cessasse; isso estraga metade da diversão; alguém é obrigado a arrastar-se de um lado para o outro da corte e falar aos sussurros, e você não pode dizer com quem você está falando; eles podem voltar-se contra você se você falar demais. Tampouco há dança. Eu odeio esse estado taciturno. Eu desejaria ou que eles dançassem ou lutassem.”
“Lutar! Quem?”
“Alguém. Há algumas outras notícias, mas você não se importa.”
“Não. Eu não.”
“Por que você não sai e vive nos bosques sozinho?” disse Oliver, com alguma exaltação.
Felix riu.
“Conte-me suas novidades. Eu estou ouvindo.”
“Os irlandeses desembarcaram em Blacklands no dia antes de ontem, e queimaram a região de Robert; eles tentaram Letburn, mas o povo de lá fora advertido e estava pronto. E há um enviado de Sypolis chegado; alguns consideram a [77]Assembleia dispersa; todos eles estão de adagas desembainhadas. Lá se foi a Liga Sagrada.”
“Demais para a Liga Sagrada,” Repetiu Felix.
“O que você fará hoje?” perguntou Oliver, após um tempo.
“Eu descerei para minha canoa,” disse Felix.
“Eu irei com você; as trutas estão aumentado. Você conseguiu alguns anzóis?”
“Há alguns ali na caixa, eu acho; retire as ferramentas.”
Oliver procurou em meio às ferramentas na caixa aberta, todas enferrujadas e cobertas de poeira, enquanto Felix terminava de vestir-se, guardava seu pergaminho e amarrava a tira em volta de seu baú. Ele encontrou alguns anzóis na base e, após o café da manhã, eles caminharam juntos, Oliver levando seu bastão, e uma lança para javali, e Felix também uma lança para javali, em adição a uma pequena cesta de espadana com alguns cinzéis e goivas.
ORIGINAL:
JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.67-77. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/67/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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