[180]Foi uma questão de oito dias, a confecção de toda a vestimenta de Birdalone. Enquanto isso, ela sempre estava com os três Campeões, quer todos os três juntos, quer um ou outro deles. E quanto às maneiras deles com ela, sempre foi o Cavaleiro Dourado de comportamento um pouco mais sóbrio, como se ele fosse um homem mais velho do que verdadeiramente ele era. O Cavaleiro Verde sempre estava elogiando a beleza de Birdalone diante da face dela, e parecia não considerar coisa fácil manter seus olhos longe dela. Ele cansava-a um pouco com beijos e carinhos, mas um rapaz animado e brincalhão ele era, e, quando ela repreendia-o por seu excesso de carinho, como agora e novamente ela fazia, ele ria de si mesmo junto com ela. Em verdade, ela considerava-o sincero e de toda verdade para Viridis e, frequentemente, ele falava dela para Birdalone; elogiava a beleza querida dela para ela, e contava de seu anseio por seu amor distante. ‘Apenas,’ disse ele, ‘tu estás aqui, minha irmã, residindo entre nós, derramando tua fragrância sobre nós e mostrando-nos, tu queiras ou não, como fazem as flores, toda a graça e encanto de ti; e tu, ao mesmo tempo, de coração tão tenro que tu não deves culpar-me demais se, às vezes, eu esqueço de que tu és minha irmã e de que meu amor está, ai de mim!, muito longe. Então, tu me perdoarás, não perdoarás?’ ‘Sim, verdadeiramente,’ disse ela, ‘de todo o coração. Todavia tu não precisas esticar a mão para a minha; tu tiveste o suficiente dela nesta manhã.’ E ela escondeu-a, [181]rindo, nas dobras de seu vestido; e ele também riu e disse: ‘De uma verdade, tu és boa em todos os sentidos, e um jovem tolo eu sou; mas Viridis deverá tornar-me mais sábio, quando nos reunirmos novamente. Alguma vez tu viste uma donzela tão bela?’ ‘Nunca,’ ela disse, ‘e verdadeiramente não há nenhuma mais bela em todo o mundo. Assim, mantém agora distância por um tempo, e pensa nela.’
Quanto ao Escudeiro Negro, de nome Arthur, Birdalone ficou incomodada por ele, e ele tornou-a um pouco triste. Verdadeiro é que ele não veio novamente diante dela tão triste e abatido como quando ele estava dando o testemunho dele a ela; todavia, ela considerava que ele forçava-se a parecer de bom ânimo. Além disso, embora ele sempre buscasse a companhia dela, e essa solitária como ele, ele falaria com ela quase como um homem com outro, embora com uma certa ternura na voz dele, e olhando sinceramente para ela por um tempo. Todavia, nunca ele tomava a mão dela, ou tocava-a de maneira alguma. E verdadeiro é que ela ansiava pelo toque da mão dele.
No terceiro dia de sua estadia no Castelo da Busca, Birdalone tomou coragem diante da grande instigação de seus amigos, enquanto todos eles sentavam-se juntos na campina fora do castelo, para lhes contar a história dela; ela não escondeu nada, salvo concernente à mãe do bosque, pois ela considerava que sua doce amiga amá-la-ia melhor se ela não desse com a língua nos dentes sobre ela.
Assim os Campeões ouviram atentamente ela contar o conto em sua voz amavelmente clara, e grande foram o amor e a piedade deles pela pobre donzela solitária. E especialmente [182]claro era ver que eles ficaram movidos severamente quando ela contou como primeiro ela chegou ao Bote de Expedição, e como a bruxa-esposa atormentou o corpo inocente dela por aquela culpa. Então Baudoin colocou a mão dele sobre a cabeça dela e falou: ‘Pobre criança, de fato, muito tu sofreste! E agora eu te direi que foste por nós e por nossos amores que tu carregaste toda essa angústia de cativeiro e fadiga e barras.’
Mas Hugh curvou-se sobre ela, enquanto ela sentava-se com a cabeça pendendo para baixo, beijou a bochecha dela e disse: ‘Sim! E eu não estava lá para bater na cabeça daquela maldita; e não conhecia nada de ti e de tua angústia, enquanto eu tomava meu leve prazer em volta destes prados livres.’ E ele ruborizou muito e chegou perto de chorar.
Arthur sentou-se imóvel, com seus olhos inclinados para o chão abaixo, e ele não disse nada; e Birdalone relanceou para ele melancolicamente antes que ela prosseguisse com o conto dela. E ela prosseguiu e contou rigorosamente tudo que lha acontecera na travessia da água e na Ilha do Aumento Inesperado e nas outras Ilhas Maravilhosas; e ela não considerou demais que ela deveria contar isso duas vezes do começo ao fim, nem que ele devessem ouvi-la com atenção duas vezes do começo ao fim.
Naquela tarde mesma, enquanto Birdalone caminhava por si mesma no jardim fechado do castelo, ela viu Arthur espreitando aqui e ali, como se ele estivesse procurando alguém. Então ela apresentou-se e perguntou-lhe o que ele estava procurando, e ele disse: ‘Eu estava procurando-te.’ Mas ela não se atreveu a perguntar o que ele desejava, apenas permaneceu silente e trêmula diante dele, até que ele pegou a mão dela e falou, não em voz alta, mas avidamente.
[183]‘Depois do que nos contaste hoje, eu pareço conhecer quem tu és; e eu conto a ti que é uma dor e sofrimento para eu deixar-te, sim, deixar-te fosse apenas por um minuto. Oh, eu suplico-te apieda-te de mim pela separação.’ E com isso ele virou-se e apressou-se para o castelo. Mas Birdalone permaneceu ali, com o coração batendo forte e a carne dela tremendo e uma estranha doçura de alegria tomou de conta dela. Mas ela disse a si mesma que não é de se admirar que ela sentisse-se tão feliz, vendo que ela descobrira que, a despeito de seus medos, esse seu amigo amava-a não menos do que os outros. E então ela falou isso em uma voz suave que de fato ela se apiedaria dele pela separação, sim e também de si mesma.
No entanto, quando subsequentemente eles encontraram-se, o comportamento dele com ela não foi de nenhuma outra maneira do que tinha sido; mas ela não mais prestava atenção nisso, uma vez que agora ela acreditava nele.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 180-183. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/180/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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