A História da Planície Cintilante - Capítulo XIX Hallblithe constrói um Esquife para si

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[160]DEPOIS que Hallblithe tinha sido abrigado por um pouco, e o tempo novamente estava aproximando-se da décima segunda lua desde que ele chegara à Planície Cintilante, ele foi ao bosque um dia sozinho; e, considerando sobre muitas coisas sem se fixar em nenhuma, ele ficou de pé diante de um carvalho muito grande e examinou o seu tronco alto e reto. Ai vieram à sua cabeça as palavras de uma velha canção, escritas em torno de uma escultura sobre a cama fechada na qual ele costumava deitar-se quando ele estava em casa na Casa do Corvo. Assim ela dizia:


Eu sou o carvalho, e em verdade

Homens ocupam-se de mim com pouca compaixão;

Meus galhos eles destroem, minha vida eles matam;

E despacham-me através do caminho aquoso.


Ele examinou aquele mundo frondoso por um tempo e, em seguida, retornou em direção a sua casa. Mas o dia inteiro, quer ele estivesse em trabalho ou em descanso, [161]aquele mote prosseguia em sua cabeça, e ele continuava dizendo-o de novo, em voz alta ou não, até que estivesse terminado e ele foi dormir.

Então, em seu sono, ele sonhou com uma mulher excessivamente bela, de pé próximo a sua cabeceira. No início ela parecia-lhe ser uma imagem da Hostage. Mas logo a face dela mudou, assim como seu corpo e sua vestimenta. Oh! Era a mulher encantadora, a Filha do Rei, quem ele vira desperdiçando seu coração pelo amor dele. Então, mesmo em seu sonho, a vergonha alcançou-o, e, por causa dessa vergonha, ele despertou e deitou-se desperto por um tempo, ouvindo com atenção o vento atravessando os galhos do bosque selvagem, assim como o canto da coruja que tinha sua habitação no carvalho vazio próximo a sua casa. A sonolência venceu-o em pouco tempo, e outra vez a imagem da Filha do Rei veio a ele em seu sonho, e de novo ele olhou para ela; vergonha e pena surgiram tão calorosamente em seu coração que ele acordou chorando e deitou-se por um tempo ouvindo com atenção aqueles barulhos da noite. A terceira vez ele dormiu e sonhou; e uma vez mais aquela imagem veio a ele. E agora ele olhava, e via que ela tinha nas mãos um livro coberto por fora com ouro e pedras preciosas, assim como ele viu-o outrora no pomar fechado. Ele contemplou a face dela, que não era mais a face de alguém adoentado de tristeza, mas sim feliz e límpida, bem como mais bonita.

[162]Agora ela abria o livro e segurava-o diante de Hallblithe, e virava as folhas de modo que ele podia ver claramente: ali haviam bosques e castelos pintados, e montanhas ardentes, e a muralha do mundo, e reis sobre seus tronos, e belas mulheres e guerreiros, todos os mais amáveis de contemplar-se, mesmo como ele vira-o outrora, no pomar, quando ele jazia à espreita em meio às folhas do louro.

Então, finalmente, ela chegou ao lugar no livro no qual estava pintada a própria imagem de Hallblithe, diante da imagem da Hostage. Ele olhava isso e ansiava. Mas ela virou a folha e oh! Em um lado a Hostage novamente, de pé em um belo jardim da primavera com os lírios todos ao redor de seus pés, e atrás dela as paredes de uma casa, cinzenta, antiga, e adorável. Na outra folha, diante dela, estava pintado um mar agitado por um vento fraco, e um bote ali velejando velozmente, e um homem sozinho no bote sentado e conduzindo-o com um semblante alegre; e ele, quem senão Hallblithe mesmo. Hallblithe olhou aquilo por um tempo e então a Filha do Rei fechou o livro, e o sonho flutuou para outras imagens de nenhuma importância.

No alvorecer cinzento Hallblithe acordou e lembrou-se seu sonho. Ele saltou de sua cama, lavou a noite de si no córrego, [163]vestiu a si mesmo e prosseguiu no caminho mais curto através do bosque para a Casa do povo sobredito. Conforme ele prosseguia sua face estava brilhante e ele cantava a segunda parte do mote gravado; a saber:


Ao longo da relva eu deitei desamparado

Que, quando um momento de tempo é usado,

Eu possa estar cheio de guerra e paz

E abrir caminho através da separação dos mares.


Ele saiu do bosque, apressou-se através dos prados floridos da Planície Cintilante e chegou àquela mesma casa quando ainda era muito cedo.

À porta ele deparou-se com uma donzela carregando água do poço, e ela falou-lhe e disse: “Bem-vindo, Amante do bosque! Raramente tu és visto em nosso pátio; e isso é um lástima de ti. E agora eu olho tua face e vejo que a alegria veio a teu coração, e que tu estás mais belo e agradável. Aqui então está um símbolo para ti do aumento de tua alegria.” Após o que, ela colocou seus baldes sobre o solo, põe-se diante dele, tomou-o pelas orelhas, abaixou o rosto dele ao dela e beijou-o docemente. Ele sorriu para ela e disse: "Eu agradeço-te, irmão, pelo beijo e pelo cumprimento; mas eu venho aqui tendo uma carência."

Conta-nos”, ela disse, “de modo que nós possamos fazer-te uma vontade.”

[164]Ele disse: Eu pediria ao povo para dar-me madeira, tanto vigas como ripas e tábuas; pois se eu corto no bosque demoraria muito para secar ao ar.

Tudo isso é livre para ti pegar de nossa reserva de madeira, quando tu tiveres tomado teu café da manhã conosco, disse a donzela. “Entra tu e dá descanso a ti.”

Ela tomou-o pela mão e eles entraram juntos. Ela deu-lhe de comer e beber, e foi para cima e para baixo na casa, dizendo a cada um: “Aqui chegou o Amante do Bosque, e ele está feliz novamente; vinde e vede-o.”

Então o povo reuniu-se ao redor dele, e tratou-o com muita consideração. E quanto eles chegaram a um fim para o café da manhã, o homem líder da Casa disse-lhe: “As bestas estão na carroça, bem como a madeira aguarda tua escolha; vem e vê.” Assim ele trouxe Hallblithe ao depósito de madeira, onde ele escolheu por si mesmo tudo que necessitava da madeira de carvalho da melhor; e após o que eles carregaram a carroça. Além disso, deram a ele o que ele desejasse de pregos e de cavilhas de madeira e outros materiais. Ele agradeceu-lhes e eles disseram-lhe: Para onde agora devemos nós conduzir tua madeira?

Abaixo ao lado do mar,” respondeu ele, “o mais próximo de minha habitação.”

Assim fizeram eles, e mais do que vinte [pessoas], homens e mulheres, vieram com ele, alguns em carroças e [165]alguns a pé. Desse modo, eles desceram à beira-mar e colocaram a madeira sobre a praia, exatamente acima da marca da maré alta. Imediatamente Hallblithe começou a trabalhar, dando forma a um barco para si, pois bem ele conhecia a arte inteira disso. O povo observava maravilhando-se, até que a maré diminui a pouca distância de onde costumava decair, e deixou a areia úmida firme e lisa. Então as mulheres deixaram de assistir ao trabalho de Hallblithe e começaram a chapinhar descalças na água clara, pois escassamente havia uma onda no mar. Os camponeses vieram e brincaram com elas, de modo que Hallblithe foi deixado sozinho por um tempo; pois esse tipo de brincadeira era novo para aquele povo, uma vez que eles raramente desciam ao lado do mar. Depois disso, eles precisaram dançar juntos, e teriam feito Hallblithe dançar com eles. Quando ele disse não, pois estava fraco de seu trabalho, em toda brincadeira ele começaram tomando o enxó de sua mão, pelo que ele indignou-se um pouco. Eles ficaram assustados, saíram e tiveram sua dança sem ele.

Por essa hora o sol esquentou muito. Novamente eles vieram a ele, e deitaram-se ao redor dele e observaram o trabalho dele, pois eles estavam cansados. E uma das mulheres, ainda ofegante devido à dança, falou enquanto ela olhava para a graciosidade dos membros dela, os quais um dos pretendentes estava acariciando: Irmão, disse ela, grandes pancadas tu atingiste; [166]quando tu terás atingido a última delas, e retornará para nossa casa novamente?

Não por muitos dias, boa irmã,” disse ele, sem olhar para cima.

Ai! Para que tu devias falar desse modo,” disse um camponês, levantando-se da areia quente; “Que deverá toda tua fadiga conquistar para ti?”

Falou Hallblithe: “Talvez um coração feliz, ou talvez a morte.”

Àquela palavra eles todos levantaram-se juntos, e ficaram de pé amontoados juntos, como ovelhas que foram dirigidas ao portão do sítio, o pastor deixou-as por um tempo, e elas não sabem para onde irem. Pouco a pouco, eles arranjam-se na carroça, atrelam suas bestas a ela, e partiram silenciosamente pelo caminho que eles chegaram; mas, em pouco tempo, Hallblithe ouvia seus risos e falas alegres através dos campos floridos. Ele prestou pouca atenção a sua partida, mas prosseguiu trabalhando, e trabalhou até o sol pôs-se e até que as estrelas começassem a brilhar. Então, ele foi de volta para sua casa no bosque, dormiu e não sonhou, e começou novamente na manhã seguinte com um bom coração.

Para ser breve, não se passou dias que ele não trabalhasse em sua completa história de trabalho, e os dias passaram-se, e seu trabalho de construtor naval prosperou. Frequentemente a gente daquela casa, e de outros lugares próximos ao redor, [167]descia à praia para assisti-lhe trabalhando. De maneira algumas eles voluntariamente o embaraçariam, mas, ao mesmo tempo, quando eles não conseguiam falar com ele, eles falariam dele uns com os outros, perguntando-se para que ele deveria trabalhar tão duro para navegar pelo mar; pois eles amavam o mar apenas pouco, e logo se tornou claro para eles que ele não estava procurando por nada mais: embora não pudesse ser dito que eles julgassem que ele deixaria a terra para sempre. Por outro lado, se eles não o embaraçavam, nem eles o ajudavam, salvo quando ele implorava-os por alguma coisa que ele precisava, a qual eles então o dariam alegremente.

Do Sea-eagle e de sua donzela, Hallblithe nada viu; pelo que ele ficou bem contente, pois ele não considerava de nenhum proveito fazer uma segunda separação.

Então, ele trabalhou e manteve seu coração elevado, e, finalmente, tudo ficou pronto. Ele fez um mastro e uma vela para si, bem como remos e qualquer outro equipamento do qual houvesse necessidade. Então ele empurrou seu esquife para o mar à tarde, quando havia apenas dois camponeses de pé próximos; pois, frequentemente, havia uma vintena ou duas de pessoas. Aqueles dois sorriram para ele engajaram-se com ele gentilmente, mas não o ajudariam quando ele convidou-os para arcar com os arcos [do barco] e empurrar. Se bem que ele pôs o esquife na água sem muita dificuldade, entrou nele e trouxe-o [168]para onde um córrego estava correndo de seu bosque e formava um pequeno porto para ela até o mar. Ali ele amarrou-o a um tronco de árvore, e ocupou a si mesmo pondo equipamentos dentro dele, bem como mantimentos e água igualmente, tanto quanto ele considerasse de que deveria necessitar. Assim, estando cansado, ele foi a sua casa para dormir, pensando que ele deveria acordar no cinza da manhã e empurrar-se no mar profundo. E ele ficou mais contente de aguardar, pois naquela véspera, como mais frequentemente sucedia, o vento soprava em direção à terra a partir do mar ao passo que na manhã ele mais frequentemente soprava em direção ao mar a partir da terra. Em qualquer caso, ele pensou estar agitado tão oportunamente que ele deveria ir sozinho à sua quilha, e partir sem despedidas. Mas, como resultou, ele dormiu demais, de modo que, quando ele saiu para o bosque envolto em sua armadura completa, com sua espada ao lado em seu cinto, e sua lança sobre seu ombro, ele ouviu as vozes do povo, e logo encontrou tantos reunidos ao redor de seu bote que ele teve alguma dificuldade para subir a bordo.

O povo trouxera muitos presentes para ele, de coisas tais que eles consideravam que ele pudesse precisar para uma viajem curta, como frutas e vinho, e panos feitos de lã para manter o frio da noite longe dele. Ele agradeceu-lhes gentilmente enquanto passava por cima da borda do navio, e algumas das mulheres beijavam-no: e uma disse (foi ela quem o encontrara no [169]lugar aquela manhã quando ele foi pegar madeira): Tu estarás de volta este anoitecer, não estarás, irmão? Ainda está bem cedo, e tu deverás ter tempo suficiente para tomar todo o teu prazer no mar, e então retornar para nós para comer tua comida em nossa casa ao cair da noite.

Ela falou, franzindo as sobrancelhas ansiando pelo retorno dele. Mas ele sabia que eles consideravam que ele retornaria logo; senão ele teriam considerado-o um rebelde do Rei, e poderiam, como ele pensava, ter obstado-o. Então, ele não mudou de semblante de modo algum, mas somente disse: “Adeus, irmã, por este dia, e adeus a todos vocês até que eu volte.” Após o que ele desamarrou seu bote, sentou-se e tomou os remos até ele estava fora do pequeno porto, no mar verde, e a quilha subia e descia nas ondas. Então, ele pôs o mastro de pé, levantou a vela e tencionou-a profundamente, pois o vento da manhã estava soprando suavemente a partir das montanhas através dos campos da Planície Cintilante, de modo que a vela encheu-se, e a quilha saltou para frente e acelerou através do oceano frio. E deve ser dito que, quer ele soubesse ou não, [este] era o mesmo dia doze meses desde que ele veio àquela praia junto com o Sea-eagle. De modo que o povo permaneceu de pé e assistiu ao esquife ficar menor e menor sobre as profundezas até que eles [169]podiam vê-lo escassamente. Em seguida, eles viraram-se e foram ao bosque para divertirem-se, pois o sol estava aquecendo-se. Mesmo assim, havia alguns deles (e aquela donzela era uma), quem retornavam à costa do mar de tempos em tempos durante todo o dia e, mesmo quando o sol estava baixo, eles olhavam em direção ao mar sob a lua ascendente, esperando ver Hallblithe retornar no caminho brilhante que ela desenhava através das águas ao redor da Planície Cintilante.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.160-170. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/160/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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