A Floresta além do Mundo - Capítulo XIX Walter vai buscar a Pele do Leão para casa

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[132]Ele entrou na sombra fresca através da varanda e, olhando para baixo do salão com pilares, viu além da fonte um vislumbre de ouro. Quando ele ultrapassou a dita fonte, olhou para cima para o assento elevado, e oh! a Senhora sentada ali envolta em sua vestimenta majestosa. Ela chamou por ele, e ele veio. Ela saudou-o, bem como falou graciosa e calmamente; contudo, como se ela não conhecesse nada dele, salvo como o servo leal dela, uma alta Senhora. ‘Escudeiro,’ ela disse, ‘nós julgamos adequado ter a pele do servo do Inimigo, o leão a saber, quem tu mataste ontem, como um tapete para nossos pés; portanto vá agora, e traga-me para casa a pele dele. Esse deverá ser todo o teu serviço para este dia, assim tu podes fazê-lo no teu próprio tempo livre, e não cansar a ti mesmo. Possa o bem ir contigo.’

[133]Ele dobrou o joelho diante dela, ela sorriu para ele graciosamente, mas não estendeu nenhuma mão a ele para beijar, assim como apenas pouco atentou para ele. Portanto, chateado consigo mesmo, e embora ele conhecesse alguma coisa da astúcia dela, ele não poderia ajudar maravilhando-se que essa devia ser ela, quem apenas há pouco tinha deitado em seus braços ao longo da noite.

Como assim aquilo podia ser? Ele seguiu seu caminho em direção a onde ele havia morto aquele leão, e então chegou lá por volta da tarde, na [hora] mais quente do dia. Assim, ele entrou ali, e veio ao lugar mesmo onde a senhora deitara-se, quando ela caiu diante do terror do leão; ali estava a marca do corpo dela sobre a grama onde ela deitara-se daquela vez, como se fosse a forma de uma lebre. Mas quando Walter prosseguiu para onde ele matara a grande fera, oh! ela desaparecera, e não havia sinal dele; somente havia as próprias pegadas de Walter, e as duas flechas que ele disparara, uma emplumada de vermelho, e um de azul. Primeiramente, ele disse: Talvez alguém tenha estado aqui e tenha afastado a carcaça. Em seguida, ele riu de puro desdém e disse: Como pode ser? Uma vez que não há sinais do arraste para longe de um corpo tão grande, assim como nenhum sangue ou pelo sobre a grama se eles tivessem cortado-o e, além disso, [134]nenhuma pisada de pés, como se tivesse havido muitos homens no ato. Então ele ficou todo envergonhado, bem como novamente riu de desprezo de si mesmo, e disse: Verdadeiramente, eu julguei que tivesse agido valorosamente; mas agora, em verdade, eu não atirei em nada, e nada havia ali diante da espada do filho de meu pai. E em que posso eu acreditar agora, apenas que esta é uma terra de meras mentiras, e que não há nada de real ou vivo salvo eu mesmo. Sim, talvez mesmo essas árvores e a grama verde logo se afastarão de mim, e deixar-me-ão caindo através das nuvens.

Após o que, ele afastou-se e arranjou-se na estrada que conduzia à Casa Dourada, refletindo sobre o que deveria acontecer-lhe em seguida, bem como indo lentamente enquanto ponderava sobre seu caso. Assim ele chegou ao primeiro matagal onde eles tinha perdido sua presa próxima à água; então, ele entrou no mesmo, meditando, e banhou-se na lagoa que ficava naquele lugar, e não encontrou nada de novo.

Então, novamente, ele pôs-se na estrada para casa, quando o dia estava desvanecendo. Estava próximo do pôr do sol quando ele chegou próximo da casa, embora ela estivesse oculta dele, como então por uma inclinação que se erguia diante dele. Ali ele aguardou e olhou ao redor de si.

[135]Agora, enquanto ele olhava, de cima da dita inclinação, veio a figura de uma mulher, quem parou sobre a borda daquele lugar, olhou tudo ao redor de si, e então rapidamente desceu correndo para encontrar Walter, quem viu imediatamente que era a Donzela.

Ela não se demorou até que estivesse apenas a três passos dele. Nessa altura ela parou, fez o sinal para ele, e então falou para ele sem fôlego, e disse: Ouve! Mas não fales até que eu tenha concluído. Eu convidei-te para um encontro hoje à noite porque percebi que não havia ninguém próximo quem eu precisasse enganar. Mas, por teu juramento, assim como teu amor e tudo que tu és, eu adjuro-te, não venhas até mim está noite como te convidei! Mas, fica oculto na aveleira fora da casa, enquanto aproxima-se a meia-noite, e aguarda-me lá. Tu ouviste e irás? Dize sim ou não, com presa, pois eu não posso demorar-me um momento de tempo. Quem sabe o que está atrás de mim?

Sim,’ disse Walter precipitadamente; ‘mas amiga e amor…’

Não mais,’ ela disse; ‘espere pelo melhor’; e, virando-se dele, correu para longe rapidamente, não pelo caminho que tinha vindo, mas lateralmente, como se para alcançar a casa em movimento circular.

Mas Walter continuou lentamente em seu caminho, pensando [136]dentro de si mesmo que agora, naquele momento presente não havia nada, apenas abster-se de fazer, e permitir que outros façam. Contudo, parecia-lhe pouco valoroso ser como um peão sobre o tabuleiro, empurrado de um lado para o outro pela vontade dos outros.

Então, enquanto prosseguia, ele lembrou-se do rosto e do aspecto da Donzela, como se ela viesse correndo para ele, e ficasse de pé diante dele por aquele minuto; e toda a avidez que ele via nela, o amor magoado dele e aflição de alma, tudo misturou-se junto.

Assim ele chegou à borda da inclinação, de onde ele podia ver jazendo diante de si, a escassamente mais do um tiro de arco de distância, a Casa Dourada, agora dourada novamente e avermelhada pelo sol poente. E mesmo com isso veio uma alegre imagem em sua direção, reluzindo para trás os raios planos do ouro, do aço e da prata; e oh! ali vinha o Filho de Rei. Eles logo se encontraram, o Filho de Rei virou-se para ir ao lado dele e disse alegremente: Eu dou-te boa noite, Escudeiro de minha Senhora! Eu devo-te algo de cortesia, visto que é por teu intermédio que eu deverei tornar-me feliz, hoje à noite bem como amanhã, e muitos amanhãs; e verdadeiro é, que apenas pouca cortesia fiz-te eu até agora.

O rosto dele estava cheio de alegria, assim como os olhos [137]brilhavam com alegria. Ele era um homem gracioso, mas a Walter ele parecia um prejudicial. Ele odiava-o tanto, que não achou questão fácil lhe responder: ‘Eu posso agradecer-te, Filho de Rei; e bom é que alguém esteja feliz nesta terra estranha.’

Não estás tu feliz então, Escudeiro de minha Senhora?’ disse o outro.

Walter não tinha intenção de mostrar a esse homem seu coração, ou melhor, nem mesmo um recanto dele; pois ele considerava-o um inimigo. Então ele sorriu suave e um pouco tolamente, como um homem afortunadamente apaixonado, e disse: ‘Oh sim, sim, por que deveria eu não estar assim? Como poderia eu estar de outra maneira?

Sim então,’ disse o Filho de Rei, ‘por que disseste que tu estavas contente que alguém estava feliz? Quem tu consideras que esteja infeliz?’ E ele olhou para ele profundamente.

Walter respondeu lentamente: ‘Falei eu desse modo? Eu suponho que eu estava pensando em ti; pois quando primeiro eu vi-te, sim, e mais tarde, tu pareceste de coração pesado e mau satisfeito.

O rosto do Filho de Rei clareou diante dessa palavra, e ele disse: ‘Sim, assim foi; pois veja você, de ambos os modos era: eu estava não livre assim como dispersara o verdadeiro desejo de meu coração, já que ele não crescia. Mas agora eu estou à beira [138]e à borda da liberdade e logo meu desejo deve estar florescido. Ou melhor, agora, Escudeiro, eu considero-te um bom individuo, embora possa ser um pouco tolo. Assim eu não falarei mais enigmas para ti. É deste modo: a Donzela prometeu-me toda a minha solicitação, e é minha; e, em dois ou três, também através da ajuda dela, eu deverei ver o mundo novamente.’

Disse Walter, sorrindo desconfiadamente para ele: ‘E a Senhora? Que deverá ela dizer sobre esse assunto?’

O Filho de Rei ruborizou, mas sorriu bastante falsamente, e disse: ‘Senhor Escudeiro, tu sabes o suficiente para não necessitares perguntar isso. Por que deveria eu contar-te que ela considera mais teu dedo mindinho do que meu corpo inteiro? Agora, acerca disso eu conto-te livremente; primeiro, porque minha fruição do amor bem como minha libertação da escravidão, são, de um modo, por feito teu. Pois tu tornaste-te meu suplantador, e tomaste teu lugar com aquela tirana encantadora. Não temas por mim! Ela me deixará ir. Quanto a ti mesmo, atenta tu para isso! Mas novamente eu conto-te acerca disso porque meu coração está leve e cheio de alegria, e contar a ti agradar-me-á, e não pode fazer-me nenhuma mal. Pois se tu dizes: E seu eu levar o conto à minha Senhora? Eu respondo, tu não irás. Pois eu sei que teu coração [139]foi de algum modo posto sobre a joia que minha mão segura; e tu sabes bem sobre a cabeça de quem a ira da Senhora cairia, e que não seria nem tua nem minha.’

Tu dizes a verdade,disse Walter; ‘nem é traição meu costume.’

Então eles andaram silenciosamente por um tempo, e em seguida Walter disse: ‘Mas se a Donzela dissesse-te não; que tu farias então?’

Pelos céus!’ disse o Filho de Rei ferozmente, ‘ela teria de pagar pelo não dela; então eu faria …’ Mas ele parou, e disse quietamente, contudo, algo obstinadamente: ‘Por que falar sobre o que poderia ter sido? Ela deu-me seu sim agradável e docemente.’

Agora Walter sabia que o homem mentia, então, depois disso, ele manteve-se calmo. Mas logo ele disse: ‘Quando tu estiveres livre tu irás para tua própria terra novamente?’

Sim,’ disse o Filho de Rei; ‘ela me guiará para lá.’

E tu farás dela tua senhora e rainha quando tu chegares à terra de teu pai?’

O Filho de Rei franziu a sobrancelha, e disse: ‘Quando eu estiver em minha própria terra posso fazer com ela o que quiser. Mas eu procuro que não deva [140]fazer de outro modo com ela senão que ela fique bem contente.

Então, a conversa entre eles parou e o Filho de Rei partiu em direção ao bosque, cantando e feliz. Mas Walter sobriamente caminhou em direção à casa. Em verdade, ele não estava muito desmoralizado, pois além de que ele soubesse que o Filho de Rei era falso, ele julgava que sob seu duplo encontro jazia alguma coisa que estava operando em seu próprio interesse. Contudo, ele estava ansioso e incomodado, se não desanimado, e sua alma era jogada de um lado para o outro entre esperança e medo.


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ORIGINAL:

MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.132-140. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/132/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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