[22]EM um dia, ela foi ao bosque e sentou-se debaixo do carvalho; era muito longe, fora da visão de qualquer um que ficasse de pé no prado próximo ao lago. No bosque, Birdalone procurou não ver nada, salvo os coelhos e esquilos, que verdadeiramente estavam familiares o suficiente com ela, bem como sem medo, de modo que eles viriam a mão dela e entretê-la-iam quando ela os chamasse. Portanto, enquanto o dia estava excessivamente quente, ela despiu-se de sua vestimenta simples, para que pudesse sentir todo o prazer da sombra fresca e que o ar estava em movimento, e a gentileza do relvado sobre seu próprio corpo. Assim, ela sentou-se costurando, coberta apenas por uma dobra do vestido verde, a qual sua agulha estava completando.
Mas enquanto ela sentava-se ali, concentrada em seu trabalho, com a cabeça inclinada sobre ele, e era agora o ponto do meio dia, ela ouviu como se alguma criatura estivesse aproximando-se dela; ela não atentou para isso, considerando que seria apenas alguma corça errante. Mas, mesmo com isso, ela ouviu alguém dizer seu nome em uma voz suave. Ela saltou trêmula, primeiramente considerando que seria a bruxa que vinha buscá-la. Mas por hora, mais assustada ela ficou, quando ela viu de pé diante de si a forma de uma jovem mulher tão nua quanto ela mesma, salvo que ela tinha uma coroa de carvalho ao redor de seus quadris.
A recém-chegado, quem agora estava próximo dela, sorriu para ela, e disse em uma voz gentil e amável: [23]‘Nada temas, Birdalone, pois eu julgo que tu me descobrirás uma amiga, e não é improvável que logo tu necessitarás de uma. E além disso, eu direi isto,’ disse ela sorrindo, ‘que uma vez que eu não estou com medo de ti, tu não necessitas ter medo de mim.’ Disse Birdalone, ela também sorrindo: ‘Verdadeiro é que tu não és nada assustadora de olhar-se.’ A recém-chegada riu sinceramente, e disse: ‘Então, nós não nos encontramos bem no bosque selvagem? e nós ambas como duas filhas que a terra ama. Então, joguemos nós um jogo.’ ‘Que jogo?’ disse Birdalone. Falou ela da coroa do carvalho: ‘Este; primeiro tu deves contar-me o que eu pareço a teus olhos, porque tu estavas com medo de mim; em seguida, quando tu tiveres concluído, eu te contaria o que tu pareces para mim.’
Respondeu Birdalone: ‘Para mim isso será difícil; pois eu não tenho nada com o que te comparar, considerando que, salvo esta visão de ti, eu não vi nada exceto ela que habita na Casa próxima à Água, e a quem eu sirvo.’ ‘Ou melhor,’ disse a outra, ‘então eu começarei, e primeiro te contarei como que tu és, de modo que tu saberás melhor como conceber tua palavra relativa a mim. Mas diga-me, alguma vez tu viste a ti mesma em um espelho?’ ‘Que coisa é essa?’ disse Birdalone. ‘É um círculo polido de aço ou algum outro metal branco,’ disse a donzela do bosque, ‘o qual retorna em toda a verdade a imagem de tudo que venha diante dele.’
Disse Birdalone e, após o que, ruborizou: ‘Nós temos em casa um amplo prato de latão, o qual é meu trabalho, entre outras coisas, para iluminar e manter brilhante; contudo, eu não posso torná-lo tão brilhante que eu possa ver muito de minha imagem ali; porém.’ ‘O que [24]desejarias tu?’ disse a mulher do bosque. Disse Birdalone: ‘Eu deverei contar-te logo que tua parte no jogo estiver concluída.’
Riu a recém-chegada, e disse: ‘Está bem; agora eu sou teu espelho. Portanto é contigo: tu estás de pé diante de mim, uma donzela alta e esbelta, algo magra, como convém aos teus dezessete verões; onde tua carne está despida de costume, como tua garganta e teus braços e tuas pernas do meio para baixo, estão bronzeadas com uma bela cor, mas, em outras partes, é mesmo tão claro quanto um branco, saudável e limpo, e como se a dourada luz do sol, a qual realiza a promessa da terra, estivesse brincando ali. Mais belos e mais arredondados serão teus braços e teus ombros quando tu vires mais cinco verões, contudo dificilmente mais adoráveis, tão fortes e bons como agora eles estão. Pequenos estão teus seios, como é apropriado para uma tão jovem donzela, contudo não há falta neles; nem nunca devem eles ser mais belos do que agora são. Em graciosa maneira assenta-se tua cabeça sobre teus ombros, sustentada por um pescoço longo e na maior parte bem trabalhado, que o sol bronzeou como supracitado. O cabelo de ti é simplesmente castanho, contudo um pouco mais dourado do que negro; e ah! agora tu deixaste-o solto, ele agita-se suavemente fora de tua bela testa lisa e sobre teus ombros, e não é obstado por tua cintura, mas nada oculto de teus joelhos, e tuas pernas bem torneadas, e teus fortes e claramente trabalhados tornozelos e pés, os quais são contigo tão cheios de teu coração e de tua alma como sábios e destros são teus punhos e tuas mãos, e seus companheiros mesmos. Agora, quanto a tua face: sob aquela [25]testa lisa fica teu nariz, o qual é de medida, nem pequeno nem grande, reto, e graciosamente escupido nas narinas. Teus olhos são cinzentos como os de um falcão, mas gentis e sérios e nada ferozes nem incertos. Mais que isso, agora tu deixas tuas pálpebras caírem, são tão belas com tua face como se elas estivessem abertas, tão macias e simples elas são e com os longos cílios completos. Entretanto, bons sãos teus olhos em tua cabeça, bem separados, bem abertos, e assim ninguém deve dizer que tu não podes olhar no rosto deles. Tuas bochechas deverão um dia ser uma armadilha para o desatento, contudo, não serão elas completamente arredondadas, como alguns as têm; mas não eu, pela maior parte de tipo lamentável elas verdadeiramente são. Delicada e claramente feita é a pequena trincheira que vai de teu nariz a teus lábios, e doce ela é, e há mais poder nela do que em doces palavras faladas. Teus lábios, eles são da mais fina forma, ainda sim mais finos do que cheios; e alguns não os aceitariam assim; mas eu sim, já que eu vejo ali um sinal de tua valentia e cordialidade. Claramente ele quem fez teu queijo entalhado tinha em mente um trabalho de mestre e não fez menos. Grande foi a destreza de teu imaginador, e ele teria toda a gente que te visse em teu profundo pensamento e teu cuidado e tua bondade. Ah donzela! É assim que teus pensamentos são sempre profundos e solenes? Contudo, pelo menos, eu sei que isto de ti; que eles são vigorosos e verdadeiro e amáveis.’
‘Minha amiga, quanto tu tiveres um espelho, alguma coisa de tudo isso tu deverás ver, mas não tudo; e, quanto tu tiveres um amado, alguma parte tu deverás ouvir, mas não tudo. Mas agora tua amiga pode contá-lo a ti completamente, se ela [26]tiver olhos para ver-te, como tenho eu; considerando que nenhum homem poderia dizer tanto de ti antes que o mero amor devesse surpreendê-lo, bem como transformar seu discurso em tolice de amor e em loucura de desejo. Então, agora eu joguei o jogo, e contei-te de ti; conta-me agora de mim, e joga teu jogo.’
Por um tempo permaneceu de pé Birdalone, silente, ruborizando e confusa mas, enquanto isso, lançando olhares tímidos para seu próprio corpo, para o que ela podia ver dele. Finalmente ela falou: ‘Boa amiga, eu faria tua vontade, mas eu não sou habilidosa com o discurso; pois eu falo bem pouco, salvo com as aves domésticas e coisas selvagens, e eles não podem ensinar-me o discurso do homem. Contudo, eu direi que eu surpreendo-me ao ouvir-te chamar-me de boa e bela; pois minha dama nunca me diz isso, nem disse nada a meu respeito salvo em ira, e então é: Trapo! e saco de ossos! e quando tu serás uma mulher, tu elfo esguia?’ A recém-chegada riu bem favoravelmente como resultado disso, e afagou a bochecha de sua amiga. Birdalone olhou de uma maneira triste para ela e disse: ‘Mas agora eu preciso acreditar em tuas palavras, tu quem és amável comigo, além disso tu mesma tão bela. E eu te contarei que enche meu coração de alegria saber que eu sou bela para ti. Pois isto, além do mais, eu te contarei, que eu nada vi no campo ou no bosque que seja tão encantadora para mim quanto tu és; melhor, nem a fritilária acendo com a cabeça na boca de nosso riacho, nem os ramos do salgueiro acenando na Ilhota Verde; nem o gato selvagem divertindo-se no gramado do bosque, quando ele não me vê; nem a corça branca levantando-se da relva para olhar para filhote; nem [27]coisa alguma que se mova ou cresça. Ainda há outra coisa eu preciso contar-te, a saber, que o que tu disseste sobre a forma de qualquer parte de mim, aquilo mesmo, colocando de lado tuas palavras amáveis, as quais fazem lágrimas virem aos olhos de mim, diria eu de ti. Olha tu! eu pego teu cabelo e coloco as madeixas em meio às minhas e tu não podes dizer qual é qual; e em meio às ondas macais dele tua testa esta aninhada suavemente como tu disseste da minha: cinzentos como de falcão e bem separados são teus olhos, e profundo pensamento e completa ternura estão neles, como de mim tu disseste: belo é teu nariz e de devida medida; e tuas bochechas um pouco vazias, e algo finos teus amáveis lábios; e teu queixo arredondado tão vistosamente esculpido, como se não pudesse ser melhor feito. E do restante de teu corpo eu direi como disseste do meu, embora eu considere que estas mãos fizeram mais trabalho do que as tuas. Apenas vê tu! Tua perna e a minha enquanto elas ficam juntas; e teu braço, como se fosse do meu corpo. Magra e esguia tu és, ou pode ser esbelta; e eu considero que nossa dama também te chamaria de saco de ossos. Agora isso é estranho. Quem és tu? Tu és minha irmã mesma? Eu gostaria que tu fosses.’
Falou então Birdalone para aquela imagem dela, e disse, sorrindo gentilmente para ela: ‘Quanto a nossa aparência, tu agora a tem; tão parecidas somos nós, como se fossemos moldadas em um único molde. Mas tua irmã de sangue eu não sou; ou melhor, eu te contarei de uma vez só, que eu não sou dos filhos de Adão. Quanto ao que eu sou, que é uma longa história, e eu não posso contá-la agora; mas tu podes chamar-me de Habundia, como eu chamo-te [28]de Birdalone. Agora, é verdadeiro que para todos eu não me mostro nesta bela forma de ti; mas, não fiques horrorizada depois disso, ou considere-me como tua senhora sobre esse assunto, pois, como agora eu estou, assim sempre deverei eu ser para ti.’
Respondeu Birdalone, olhando para ela ansiosamente: ‘Sim, e eu deverei ver-te novamente, não deverei? Senão deverei eu entristecer-me, e gostaria que eu nunca tivesse visto-te de qualquer modo.’ ‘Sim, verdadeiramente,’ disse Habundia, ‘pois eu mesmo estou mais disposta a ver-te frequentemente. Mas agora, tu deves logo retornar a ti mesma para casa, pois maligno como agora é o humor de tua senhora, assim como ela está arrependendo-se do presente do vestido verde, e tem na mente dela buscar ocasião de punir-te.’
Agora Birdalone estava quase chorando, conforme ela ajeitava sua vestimenta enquanto sua amiga olhava para ela gentilmente. Ela logo disse: ‘Habundia, tu viste que eu estou vencida; dê-me algum bom conselho para isso.’
‘Isso irei eu,’ disse a esposa do bosque. ‘Quanto tu fores direto para a casa, esteja feliz de semblante, e alegre pois teu vestido está quase pronto; e com isso esteja excessivamente cansada. Pois eu considero mais provável que ela te perguntará o que tu viste no bosque, e então, se tu gaguejares, ou tu face mudar, então ela terá uma suspeita do que aconteceu, a saber, que tu viste alguém; e nessa altura ela estará atenta para examinar tua pele. Mas se tu mantiveres a fisionomia valentemente, então logo a dúvida dela esgotar-se-á, e ela cessará o rancor, e suavizará contigo e não se intrometerá. Esse é o primeiro [29]conselho, e é para hoje; e agora ao segundo, o qual é para dias ainda não vindouros. Tu tens em tua mente fugir dela; e assim mesmo tu deverás fazer um dia, embora possa ser o caminho da Cruz Chorosa; pois ela é astuta e sábia e sombria, embora verdade seja que ela não te odeia completamente. Agora, tu precisa observar que, de maneira nenhuma, ela impediu-te de passar por este bosque, e que é porque ela sabe, como eu sei, que por esse caminho não há saída para ti. Portanto, atenta tu para isto, que é pelo caminho da água que tu deverás viajar para a terra dos homens. Provavelmente isso pode parecer maravilhoso para ti; mas assim é; e provavelmente eu posso contar-te mais acerca disso, quando a ocasião apresentar-se. Agora vem a última palavra de meu conselho. Talvez, se tu vieres frequentemente ao bosque, nós deveremos às vezes nos deparamos uma com a outra; mas, se tu tiveres urgência por mim, e desejares ver-me imediatamente, venha para cá, e faça fogo, e queime um cabelo de minha cabeça neste lugar, e eu estarei contigo. Aqui, é para ti uma trança de meu cabelo; agora que tu estás vestida, tu podes pegar uma faca de tua bolsa e cortá-la de mim.’
Assim mesmo fez Birdalone, e colou a trança em sua bolsa. Após o que elas beijaram e abraçaram uma a outra, assim como Birdalone prosseguiu em seus caminhos direto para a casa, mas Habundia retornou para dentro do bosque, como ela viera.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 22-29. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/22/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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