[141]Assim ele entrou no salão colunado e lá ele encontrou a Senhora andando, para lá e para cá, junto ao assento elevado. Quando ele aproximou-se, ela voltou-se para ele, e disse em uma voz antes ansiosa que irritada: ‘Que tu fizeste, Escudeiro? Por que tu vieste diante de mim?’
Ele ficou envergonhado, curvou-se diante dela e disse: ‘Oh graciosa Senhora, tu ordenaste-me serviço e eu estive ocupado com ele.’
Ela disse: ‘Conta-me, então, conta-me, o que aconteceu?'
‘Senhora,’ disse ele,‘quando eu entrei no matagal de teu desmaio não encontrei a carcaça do leão, nem qualquer sinal de o arrastar para longe.’
Ela olhou em cheio para a face dele por um tempo, em seguida, foi à sua cadeira e ali sentou-se; [142]em pouco tempo, falou para ele em uma voz mais suave: ‘Não te contei que algum inimigo fizera aquilo para mim? E oh! Agora tu vês que assim é.’
Em seguida, ela ficou em silêncio novamente, e franziu as sobrancelhas e rangiu os dentes; e depois disso ela falou severa e ferozmente: ‘Mas eu a vencerei, e tornarei os dias dela perversos, mas manterei a morte longe dela, de modo que ela possa morrer muitas vezes; e conhecer todo o mal do coração, quando inimigos estão perto, e amigos longe, e não há ninguém para salvá-la!’
Os olhos dela brilharam, e seu rosto ficou sombrio com a raiva. Mas ela virou-se e capturou o olhar de Walter, assim como a severidade da face dele, e ela imediatamente suavizou-se e disse: ‘Mas tu! Isso tem pouco a ver contigo; e agora para ti eu falo: Agora chegam o anoitecer e a noite. Vai tu a teus aposentos, e lá tu deves encontrar vestimentas dignas de ti, do quê tu agora és e do quê tu deves ser; arruma-te na mesma, torna a ti mesmo o mais vistoso e, em seguida, vem tu para cá e come e bebe comigo, e depois parte para onde tu desejares, até que a noite tenha gastado-se até sua metade; em seguida, vem tu a meus aposentos, a saber, através da porta de marfim no corredor acima; e então e ali eu deverei contar-te uma coisa, [143]e deverá ser para a prosperidade de ambos tua e minha, mas para o pesar e a aflição do Inimigo.’
Após o que, ela estendeu a mão a ele, ele beijou-a e partiu. Foi a seus aposentos, e lá encontrou vestimentas ricas além da medida; e ele perguntou-se se algum novo ardil existia ali. Contudo se houvesse, ele não via maneira pela qual pudesse escapar, assim se arrumou nelas, e tornou-se como o mais glorioso dos reis e, contudo, mais amável do que qualquer rei do mundo.
Logo a seguir, ele prosseguiu em seu caminho para o salão colunado, quando agora era noite, e sem que a lua estivesse alta, e as árvores do bosque tão paradas quanto imagens. Mas, no interior do salão, brilhava-se com muitas velas, e a fonte brilhava à luz delas, como se ela corresse tilintando suavemente para dentro do pequeno curso de água; e as pontes de prata cintilaram, e os pilares brilhavam por toda parte.
E lá sobre o estrado, estava uma mesa preparada o mais regiamente, e a Senhora sentando-se àquele lugar, envolta em sua mais gloriosa vestimenta, e, atrás dela, a donzela de pé, humildemente, contudo envolta em tecido precioso de ouro cintilante, somente com o pé despojado e o anel de ferro sobre seu tornozelo.
[144]Então Walter veio em seus caminhos para o assento elevado. A Senhora levantou-se, cumprimentou-o, tomou-o pelas mãos, beijou-o em cada bochecha e sentou ao lado dele. Então eles começaram com sua refeição, e a Donzela serviu-lhes; mas a Senhora não prestou atenção maior a ela do que se ela fosse um dos pilares do salão; mas Walter, ela acariciava frequentemente com palavras suaves e com o toque da mão dela, fazendo-o beber do copo dela e comer do prato dela. Quanto a ele, ele estava tímido de aparência, mas verdadeiramente temeroso; ele tomou os carinhos da Senhora com que graça ele podia e não se atreveu tanto quanto a dar uma olhadela para sua donzela. Longo de fato lhe pareceu aquele banquete, e ainda mais longo todavia ele suportava a fadiga de sua permanência ali, amável com sua inimiga e cruel com sua amiga; pois, depois do banquete, eles ainda se sentaram por um tempo, e a Senhora falou muito com Walter sobre muitas coisas dos caminhos do mundo, e ele respondia o que podia, perturbado como estava com o pensamento dos dois encontros com os quais ele tinha de lidar.
Finalmente falou a Senhora e disse: ‘Agora preciso eu deixar-te por um momento, e tu sabes onde e como nós devemos encontrarmo-nos em seguida. Entrementes, diverte-te como tu desejares, a fim de [145]que não te canses, pois eu amor ver-te alegre.’
Em seguida, ela ergueu-se majestosa e imponente; apenas ela beijou Walter na boca antes que ela se virasse para sair do salão. A donzela seguiu-a; apenas senão, [quando] ela já estava realmente para ir-se, ela parou e fez aquele sinal, e olhou sobre o ombro para Walter, com se em súplica a ele, e havia medo e angustia na face dela. Mas ele assentiu com a cabeça para ela, em afirmação do encontro marcado na aveleira, e, em um instante, ela foi-se.
Walter desceu do salão e avançou para dentro do início da noite; mas, na entrada da varanda, ele foi de encontro ao Filho de Rei, quem, encarando seu vestuário cintilando à luz do luar com todas as suas gemas, riu, e disse: ‘Agora pode ser visto como tu ascendeu em gradação acima de mim, considerando que eu sou apenas um filho de um rei, e esse um rei de país distante; visto que tu és um rei de reis, ou deverá ser está note, sim, e deste mesmo país no qual ambos estamos.’
Agora Walter viu a zombaria que jazia sob as palavras dele; mas ele reprimiu sua ira e respondeu: ‘Justo senhor, tu estás tão bem contente com tua sorte como quando o sol pôs-se? Não tens tu dúvida ou medo? [146]Verdadeiramente a Donzela manterá o encontro contigo, ou terá ela dado-te uma afirmativa apenas para escapar de ti desta vez? Ou, novamente, não pode ela voltar-se para a Senhora e apelar a ela contra ti?’
Agora, quando ele falara essas palavras, ele arrependeu-se disso, e temeu por si mesmo e a Donzela, com medo de que ele mexera em alguma apreensão naquele tolo coração de jovem. Mas o Filho de Rei apenas riu e nada respondeu, salvo as últimas palavras de Walter, e disse: ‘Sim, sim! Essa palavra de ti mostra quão pouco tu sabes do que existe entre a minha querida e a tua. O cordeiro apela ao lobo contra pastor? Mesmo assim deve a Donzela apelar contra mim à tua Senhora. O quê! Pergunta à tua senhora em teu tempo livre qual tem sido o costume dela com sua escrava; ela deve pensar nisso como uma bela história para contar-te. Mas disso está minha Donzela inteiramente segura agora, em razão de sua sabedoria na arte da medicina, ou algo mais. E agora eu conto-te novamente, que a Donzela acima mencionada precisa fazer minha vontade; pois, se eu sou o mar profundo, e eu não penso tão mal de mim mesmo, aquela outra é o diabo; como provavelmente tu deves descobrir por ti mesmo mais tarde. Sim, tudo está bem comigo, e mais do que bem.’
E com isso ele virou-se alegremente para dentro do salão iluminado. Mas Walter saiu para a [147]noite iluminada pela lua, perambulou ao redor por uma hora ou mais, e andou em segredo cautelosamente para dentro do salão, e daí para seus próprios aposentos. Ali ele retirou aquela vestimenta regia, e arrumou-se com suas próprias vestes sobre si; colocou cinto com espada e faca, pegou seu arco e aljava, assim como chegara. Em seguida, ele buscou uma bússola e desceu à talhadia de aveleiras a partir do norte, ali deitou-se, completamente oculto, enquanto a noite consumia-se, até que julgou que faltasse senão pouco para a meia-noite.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.141-147. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/141/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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