[1]O homem que construiu a Máquina do Tempo – o homem que eu deverei chamar de Viajante do Tempo – era bem conhecido nos círculos científicos há uns poucos anos, o fato de seu desaparecimento também é bem conhecido. Ele era um matemático de sutileza peculiar, e um de nossos mais notáveis investigadores em física molecular. Ele não se limitava à ciência abstrata. Várias patentes engenhosas, e uma ou duas lucrativas, eram suas; muito rentáveis elas eram, essas últimas, como sua linda casa em Richmond comprovava. Para aqueles que [2]eram seus íntimos, contudo, suas investigações científicas não eram como nada diante de seu dom de fala. Nas horas depois do jantar ele sempre era um conversador vivido e variado, e às vezes suas concepções fantásticas, frequentemente paradoxais, surgiam tão densas e condensadas como para formar um discurso contínuo. Nessas vezes ele era tão dessemelhante da concepção popular de um cientista quanto um homem podia ser. Suas bochechas corariam, seus olhos brilhariam; e [quanto] mais estranhas as ideias que brotavam e lotavam seu cérebro, mais feliz e mais animada seria sua exposição.
Até a última [vez] que foi realizada em sua casa um encontro informal, ao qual foi meu privilégio comparecer, e onde, uma vez ou outra, eu encontrei a maior parte de nossos distintos homens letrados e científicos. Houve um jantar simples às sete. Depois disso nós fomos a uma sala de poltronas e pequenas mesas, e ali, com libações de álcool [3]e cachimbos fedorentos nós invocaríamos o deus. No início, a conversação foi mera tagarelice, com algumas lacunas locais de silêncio digestivo; mas, em direção às nove ou meia hora depois das nove, se o deus fosse favorável, algum tópico particular triunfaria por um tipo de seleção natural, e tornar-se-ia o interesse comum. Assim foi, eu lembro, na última quinta-feira, apenas uma de todas – a quinta-feira onde eu primeiro ouvi da Máquina do Tempo.
Eu fora emperrado num canto com um cavalheiro que devia estar disfarçado como Filby. Ele tinha estado analisando Milton – o público neglicenciou chocantemente os pobres versos insignificantes de Filby; e como eu não pude pensar em nada senão no status relativo de Filby e do homem que ele criticava, e estava muito tímido para discutir isso, a chegada daquele momento de fusão, quando todas as nossas conversações foram amalgamadas numa discussão geral, foi um grande alívio para mim.
[4]“Que absurdo é esse?” disse um Médico bem conhecido, falando através de Filby, ao Psicólogo.
“Ele pensa,” disse o Psicólogo, “que o Tempo é somente um tipo de Espaço.”
“Não é pensamento,” disse o Viajante do Tempo; “é conhecimento.”
“Afetação debochada,” disse Filby, ainda falando tediosamente sobre os seus erros; mas eu fingi um grande interesse nesta questão de Espaço e Tempo.
“Kant -----” começou o Psicólogo.
“Confunda-se Kant!” disse o Viajante do Tempo. “Eu digo-te que eu estou certo. Eu consegui uma prova experimental disso. Eu não sou um metafísico.” Ele endereçou-se ao Médico através da sala, e assim trouxe toda a companhia para o seu próprio círculo. “É a mais promissora partida em trabalho experimental que alguma vez foi feita. Simplesmente revolucionará a vida. O céu sabe o que a vida será quando eu tiver realizado a coisa.”
[5]“Enquanto não seja a água da imortalidade eu não me importo,” disse o Médico distinguido. “O que é?”
“Somente um paradoxo,” disse o Psicólogo.
O Viajante do Tempo não disse nada em resposta, mas sorriu e começou a bater levemente o seu cachimbo sobre o parapeito de guarda-fogo. Isso era um presságio invariável de uma dissertação.
“Você tem de admitir que o tempo é uma dimensão espacial,” disse o Psicólogo, encorajado pela imunidade e endereçando-se ao médico, “e então todos os tipos de consequências notáveis são consideradas inevitáveis. Entre outras, que se torna possível viajar no tempo.”
O Viajante do Tempo riu. “Você esquece-se de que eu o provarei experimentalmente.”
“Tenhamos seu experimento,” disse o Psicólogo.
“Eu acho que nós gostaríamos do argumento primeiro,” disse Filby.
[6]"É este," disse o Viajante do Tempo. “Você precisa acompanhar-me cuidadosamente. Eu deverei ter de contestar uma ou duas ideias que são quase que universalmente aceitas. A geometria, por exemplo, que eles ensinam a você na escola, está fundada num equívoco.”
“Não é isso senão uma coisa muito grande pela qual se espera que nós comecemos?” disse Filby.
“Eu não pretendo pedir a você para aceitar qualquer coisa sem fundamento razoável para isso. Você logo admitirá tanto quanto eu desejo de você. Você sabe, é claro, que uma linha matemática, uma linha de espessura nula, não têm existência real. Eles ensinam-te isso? Nem tem um plano matemático. Essas coisas são meras abstrações.”
“Está tudo certo,” disse o Psicólogo.
“Nem, tendo apenas comprimento, largura, e espessura, pode um cubo ter existência real.”
“Contra isso eu objeto,” disse Filby. [7]"É claro que um objeto sólido pode existir. Todas as coisas reais ----"
“Assim a maioria das pessoas pensa. Mas espere um momento. Pode um cubo instantâneo existir?”
“Não acompanho você,” disse Filby.
“Pode um cubo, que não tenha durado de qualquer modo por algum tempo, ter uma existência real?”
Filby tornou-se pensativo.
“Claramente,” O Inventor Filosófico prosseguiu, “qualquer corpo real precisa ter extensão em quatro direções: ele precisa ter Comprimento, Largura, Espessura, e – Duração. Mas através de uma enfermidade natural do corpo, a qual eu explicarei a você em um momento, nós inclinamo-nos para negligenciar o fato. Há realmente quatro dimensões, três que nós chamamos dos três planos do Espaço, e uma quarta, o Tempo. Há, todavia, uma tendência para traçar uma distinção irreal entre as três primeiras dimensões e a última, por que acontece que nossa consciência move-se [8]intermitentemente em uma direção ao longo da última, do começo ao fim de nossas vidas.”
“Isso,” disse um Homem Muito Jovem, fazendo esforços espasmódicos para reacender seu cigarro sobre a lanterna: “isso ----- muito claro realmente.”
“Agora, é muito notável que isso seja tão extensamente negligenciado,” continuou o Inventor Filosófico, com um leve acréscimo de alegria. “Realmente isso é o que é significa pela Quarta Dimensão, embora algumas pessoas que falem sobre a Quarta Dimensão não saibam que elas querem dizer isso. É somente uma outra maneira de ver o Tempo. Não há diferença entre o Tempo e qualquer das três dimensões do Espaço, exceto que nossas consciências movem-se ao longo daquele. Mas algumas pessoas tolas apossaram-se do lado errado dessa ideia. Vocês todos ouviram o que eles têm dito sobre essa Quarta Dimensão?”
“Eu não,” disse o Prefeito Provinciano.
[9]"É simplesmente isto, que o Espaço, como nossos matemáticos compreendem-no, é exposto como tendo três dimensões, as quais alguém pode chamar de Comprimento, Largura e espessura, e é sempre definível por referência a esses planos, cada um a um ângulo reto dos outros. Mas algumas pessoas filosóficas têm perguntado por que três dimensões particularmente – por que não outra direção em ângulos retos para os outros três? – e têm mesmo tentado construir uma geometria quadridimensional. O Professor Simon Newcomb esteve expondo isso para a Sociedade Matemática de Nova Iorque há um mês ou mais. Você sabe como, sobre uma superfície plana, a qual somente tem duas dimensões, nós podemos representar uma figura de um sólido tridimensional, e semelhantemente, eles pensam, que por modelos de três dimensões eles poderiam representar uma de quatro – se eles pudessem controlar a perspectiva da coisa. Percebe?"
“Acho que sim,” murmurou o Prefeito Provinciano; e, franzindo suas [10]sobrancelhas, ele caiu em um estado introspectivo, seus lábios movendo-se como alguém que repete palavras místicas. “Sim, eu acho que percebo agora,” Ele disse após algum tempo, animando-se de uma maneira bem transitória.
“Bem, eu não me importo de contar a vocês que eu tenho trabalhado nessa geometria das Quatro Dimensões por algum tempo. Alguns de meus resultados são curiosos: por exemplo, aqui está um retrato de um homem de oito anos de idade, outros aos quinze, outro aos dezessete, outro aos vinte e três, e assim por diante. Todos esses são evidentemente seções, como foram, representações tridimensionais deste ser quadridimensional, o qual é uma coisa fixa e inalterável.”
“Gente científica,” prosseguiu o Filósofo, após a pausa requerida para a assimilação apropriada disso, “saibam muito bem que o Tempo é somente um tipo de Espaço. Aqui está um diagrama científico, um registro meteorológico. Esta linha que eu traço com meu dedo mostra [11]o movimento do barômetro. Ontem ele estava tão alto, anteontem à noite ele caiu, então nesta manhã ele subiu novamente, e tão gentilmente acima para aqui. Certamente o mercúrio não traçou está linha em qualquer das dimensões geralmente reconhecidas do espaço? Mas com certeza ele traçou uma linha semelhante, e essa linha, portanto, nós precisamos concluir, foi ao longo da Dimensão do Tempo.”
“Mas,” disse o Médico encarando severamente um carvão no fogo, “se o Tempo é, na verdade, somente uma quarta dimensão do espaço, por que é assim, e por que sempre foi, considerado como algo diferente? E por que nós não podemos movermo-nos através do Tempo como nos movemos através das outras dimensões do Espaço?”
A Pessoa Filosófica sorriu. “Você está tão certo de que nós podemos movermo-nos livremente no Espaço? Para a direita e para a esquerda nós podemos ir, para trás e para frente livres o suficiente , e os homens sempre fizeram isso. Eu admito que nós movemo-nos livremente em duas dimensões. Mas agora e quanto para cima e para baixo? A gravidade limita-nos aí.”
[12]“Não exatamente,” disse o Médico. “Há balões.”
“Mas antes dos balões, salvo por pulos espasmódicos e as desigualdades da superfície, o homem não tinha nenhuma liberdade de movimento vertical.”
“Todavia eles poderiam mover-se um pouco para cima e para baixo,” disse o Médico.
“Mais fácil, muito mais fácil, para baixo do que para cima.”
“E você não pode mover-se no do tempo em absoluto. Você não pode fugir do momento presente.”
“Meu querido senhor, isso é exatamente onde você está errado. Que é exatamente onde o mundo inteiro esteve errado. Nós sempre estamos saindo do momento presente. Nossas existências mentais, as quais são imateriais e não têm dimensões, estão passando ao longo da Dimensão Temporal com uma velocidade uniforme do berço ao túmulo. Exatamente como nós deveríamos viajar para baixo se nós começássemos nossa existência a cinquenta milhas acima da superfície da terra.”
“Mas a grande dificuldade é esta,” [13]interrompeu o Psicólogo: “Você pode mover-se em direção contrária em todas as direções do Espaço, mas você não pode mover-se em direção contrária no Tempo.”
“Esse é o embrião de minha grande descoberta. Mas você está errado de dizer que você não pode mover-se em sentido oposto no tempo. Por exemplo, se eu estou lembrando-me de um incidente muito vividamente eu retorno ao instante de sua ocorrência; eu torno-me distraído, como você diz. Eu salto para trás por um momento. É claro que nós não temos meios de permanecer no passado por qualquer duração de tempo mais do que um selvagem ou um animal tem de permanecer seis pés acima do solo. Mas um homem civilizado está melhor do que um selvagem a esse respeito. Ele pode subir contra a gravidade em um balão, e por que nós não deveríamos esperar que, por fim, ele poderia ser capaz de parar ou acelerar seu movimento ao longo da Dimensão do Tempo; ou mesmo virar em sentido contrário e viajar na outra direção?”
“Oh, isso,” começou Fulby, “é tudo ----”
[14]“Por que não?” disse o Inventor Filosófico.
"É contra a razão," disse Filby.
“Que razão?” disse o Inventor Filosófico.
“Você pode mostrar que preto é branco através de [um] argumento,” disse Filby, “mas você nunca me convencerá.”
“Possivelmente não,” disse o Inventor Filosófico. “Mas agora você começa a ver o objeto de minhas investigações na geometria das Quatro Dimensões. Há muito tempo eu tive uma ideia vaga de uma máquina ----”
“Para viajar através do Tempo!” disse o Homem Muito Jovem.
“Que deverá viajar indiferentemente em qualquer direção do Espaço e do Tempo, que o condutor determine.”
Filby contentou a si mesmo com [um] riso.
“Seria notavelmente conveniente,” o Psicólogo sugeriu. “Alguém poderia viajar de volta e testemunhar a batalha de Hastings.”
“Você não acha que atrairia [15]atenção?” disse o Médico. “Nossos ancestrais não tinham grande tolerância com anacronismos.”
“Alguém poderia receber o grego dos lábios mesmos de Homero e Platão,” pensou o Homem Muito Jovem.
“Caso no qual eles certamente te reprovariam por [causa] do exame universitário. Os estudiosos alemães aperfeiçoaram tanto o grego.”
“Então, há o futuro,” disse o Homem Muito Jovem. “Apenas pense! Alguém poderia investir todo o seu dinheiro, deixá-lo acumular-se com juros e apressar-se à frente.”
“Para descobrir uma sociedade,” eu disse, “erigida sobre uma base estritamente comunista.”
“De todas as selvagens teorias extravagantes ----” começou o Psicólogo.
“Sim, assim me pareceu, e desse modo eu nunca falei sobre isso até ----”
“Verificação experimental!” Clamei eu. “Você está para verificar isso!”
“O experimento!” Exclamou Filby, quem estava ficando de cérebro cansado.
[16]“De qualquer forma, vejamos seu experimento,” disse o Psicólogo, “embora seja tudo embuste, você sabe.”
O Viajante Temporal sorriu-nos de volta. Em seguida, ainda vagamente sorrindo, e com suas mãos fundo nos bolsos de suas calças, ele caminhou lentamente para fora da sala, e nós ouvimos seus chinelos arrastando-se abaixo na longa passagem para seu laboratório.
O Psicólogo olhou-nos. “Eu pergunto-me o que ele obteve?”
“Algum truque de prestidigitação ou outro,” disse o Médico, e Filby tentou contar-nos sobre um prestidigitador que ele vira em Burslem, mas, antes que finalizasse sua introdução, o Viajante do Tempo retornou, e a anedota de Filby desmoronou.
A coisa que o Viajante do Tempo segurava em sua mão era uma estrutura metálica cintilante, dificilmente maior do que um relógio pequeno, e muito delicadamente construída. Havia marfim nele, e alguma substância cristalina transparente. E agora eu preciso ser explícito, pois [17]isto que se seguiu – a menos que sua explicação seja para ser aceita – é uma coisa absolutamente inexplicável. Ele pegou uma das pequenas mesas octogonais que estavam espalhadas aqui e ali na sala, e colocou-a diante do fogo, com duas pernas sobre o tapete da lareira. Sobre essa mesa ele posicionou o mecanismo. Então ele puxou uma cadeira e sentou-se. O único outro objeto sobre a mesa era uma pequena lâmpada sombreada, a luz brilhante da qual caía completamente sobre o modelo. Havia também talvez uma dúzia de velas em volta, duas em castiçais de bronze sobre a cornija da lareira e várias em candeeiros, de modo que a sala ficou brilhantemente iluminada. Eu sentei-me numa poltrona baixa mais próxima do fogo, e coloquei-me adiante de modo a ficar quase entre o Viajante do Tempo e a lareira. Filby sentou-se atrás de mim, olhando sobre meu ombro. O Médico e o Reitor assistiam-lhe da direita, o Psicólogo, da esquerda. Nós estávamos todos em alerta. [18]Parece-me incrível que qualquer tipo de truque, por mais que sutilmente concebido e por mais que habilmente executado, poderia ter sido tentado conosco sob essas circunstâncias.
O Viajante do Tempo olhou-nos e em seguida para o mecanismo.
“Bem?” disse o Psicólogo.
“Esta pequena coisa,” disse o Viajante do Tempo, descansando seus cotovelos sobre a mesa e pressionando sua mãos juntas sobre o dispositivo, “é somente um modelo. É meu plano de uma máquina para viajar através do Tempo. Vocês notarão que ele parece singularmente torto, e que há um estranho aspecto cintilante em volta desta barra, como se fosse de alguma maneira irreal.” Ele apontava para a parte com o dedo. “Também, aqui está uma pequena alavanca branca, e aqui está outra.”
O Médico levantou-se de sua cadeira e olhou dentro da coisa. "É belamente construída," ele disse.
“Levou dois anos para construir,” retorquiu o Viajante do Tempo. Então, [19]quando todos nos tínhamos feito como o Médico, ele disse: “Agora eu quero que vocês entendam claramente que esta alavanca, sendo pressionada, envia a máquina planando para o futuro, e esta outra reverte o movimento. Este selim representa o assento de um viajante temporal. Logo eu pressionarei a alavanca, e longe a máquina irá. Ela desaparecerá, passará para o futuro, e desaparecerá. Tenham uma boa olhada da coisa. Olhem a mesa também, e certifiquem a si mesmos de que não há trapaça. Eu não quero desperdiçar este modelo e depois dizerem que eu sou um charlatão.”
Houve um minuto de pausa, talvez. O Psicólogo parecia prestes a falar para mim, mas mudou de intenção. Então o Viajante do Tempo estendeu o dedo em direção à alavanca. “Não,” ele disse subitamente; “Empreste-me sua mão.” E voltando-se para o Psicólogo, ele tomou a mão daquele indivíduo na sua própria e disse-lhe para estender seu dedo indicador. De modo que foi [20]o Psicólogo mesmo que enviou adiante o modelo de Máquina do Tempo em sua viajem interminável. Nós todos vimos a alavanca virar. Eu estou absolutamente certo de que não houve trapaça. Houve um sopro de vento e a chama da lâmpada pulou. Uma das velas sobre a cornija da lareira extinguiu-se, e as máquinas pequenas subitamente giraram, tornaram-se indistintas, foi visto como que um fantasma por um segundo talvez, com um redemoinho de latão e marfim fracamente cintilante; e fora-se – desapareceu! Exceto pela lâmpada, a mesa estava vazia.
Por um minuto, todos ficaram em silêncio. Então Filby disse que ele estava d----d.
O Psicólogo recuperou-se de seu estupor, e subitamente olhou debaixo da mesa. Diante disso, o Viajante do Tempo riu alegremente. “Bem?” ele disse, com uma reminiscência do Psicólogo. Em seguida, erguendo-se, ele foi à jarra de tabaco sobre a cornija da lareira, e com suas costas para nós começou a encher seu cachimbo.
Nós encaramos uns aos outros.
[21]“Vejam aqui,” disse o Médico, “você está certo sobre isso? Você seriamente acredita que aquela máquina viajou no tempo?”
“Certamente,” disse o Viajante do Tempo, parando para acender uma lasca de madeira no fogo. Em seguida, ele virou-se, acendendo seu cachimbo, para olhar o rosto do Psicólogo (o Psicólogo, para mostrar que ele não estava desequilibrado, ajudou a si mesmo com um cigarro e tentou acendê-lo não cortado.) “Que é mais, eu tenho uma máquina grande quase completa aqui,” – ele indicou o laboratório, – “e quanto estiver montada eu pretendo ter uma jornada por minha conta.”
“Você pretende dizer que aquela máquina viajou para o futuro?” disse Filby.
“Para o futuro ou o passado – eu não sei, por certo, [para] qual.”
Depois de um intervalo, o Psicólogo teve uma inspiração.
“Deve ter sido para o passado, se ela foi para qualquer lugar,” ele disse.
“Por quê?” disse o Viajante do Tempo.
[22]“Porque eu presumo que ela não se moveu no espaço, e, se ela tivesse viajado para o futuro, ainda estaria aqui todo este tempo, uma vez que teria viajado através deste tempo.”
“Mas,” disse eu, “se ele viajou para o passado teria estado visível quando nós primeiro entramos nesta sala; e na última quinta-feira quando nós estivemos aqui; e na quinta-feira antes dela; e assim por diante.”
“Objeções sérias,” observou o reitor, com um ar de imparcialidade, virando em direção ao Viajante do Tempo.
“Nem um pouco,” disse o Viajante do Tempo, e, ao Psicólogo: “Você acha. Você pode explicar isso. É um espetáculo abaixo do limite, você sabe, um espetáculo diluído.”
"É claro," disse o Psicólogo, e tranquilizou-nos. “Isso é um ponto simples em psicologia. Eu deveria ter pensado nisso. É simples o suficiente, e ajuda deliciosamente com o paradoxo. Nós não podemos vê-la, nem podemos nós apreciar essa máquina, não mais do que nós podemos [23][apreciar] o raio de uma roda girando, ou uma bala voando através do ar. Se ela está viajando através do tempo cinquenta ou uma centena de vezes mais rápido do que nós estamos, se atravessa um minuto enquanto nós atravessamos um segundo, a impressão que ela cria será, é claro, somente um quinquagésimo ou um centésimo do que faria se não estivesse viajando no tempo. Isso é simples o suficiente.”
Nós sentamo-nos e encaramos para a mesa vaga por um minuto ou algo assim. Em seguida o Viajante do Tempo perguntou-nos o que nós achávamos de tudo isso.
“Isso soa plausível o suficiente esta noite,” disse o Médico; “mas espere até amanhã. Espere pelo senso comum da manhã.”
“Vocês gostariam de ver a Máquina do Tempo mesma?” perguntou o Viajante do Tempo. E com isso, pegando a lâmpada em sua mão, ele liderou o caminho para baixo do corredor longo e esfriado até [24]seu laboratório. Eu lembro vividamente da luz vacilante, de sua cabeça estranha e ampla na silhueta, da dança das sombras, de como todos nós o seguimos, intrigados mas incrédulos, e de como ali no laboratório nós contemplamos uma edição maior do pequeno mecanismo que nós viramos desaparecer diante de nossos olhos. Partes eram de níquel, parte de marfim, partes certamente foram preenchidas ou serradas de cristal-de-rocha. A coisa estava geralmente completa, mas as barras cristalinas retorcidas jaziam inacabadas sobre o banco ao lado de algumas folhas de desenhos, e eu peguei uma para melhor a examinar. Quartzo parecia ser.
“Vejam aqui,” disse o Médico, “você está perfeitamente sério? Ou isso é um truque – como o fantasmo que você mostrou-nos no último Natal?”
“Nessa máquina do tempo,” disse o Viajante do Tempo, “eu pretendo explorar o Tempo. É esse o plano? Eu nunca fui mais sério em minha vida.”
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.1-24. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/1/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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