[54]DEPOIS disso ela ia uma vez e outra à Ilhota Verde para pescar pelas ordens da dama, que não foi novamente à praia com ela. Nessas vezes ela tinha quase uma intenção de ir ver o Bote de Expedição, mas não se atrevia, com medo que a coisa mesma pudesse ter vida o suficiente para delatá-la.
E agora chegou a hora da colheita do trigo, e Birdalone deve usar seus dias mourejando na terra rude, envolta somente em bata e sapatos. A labuta foi pesada, bronzeou sua pele e endureceu suas mãos, mas não a aborreceu, pois a bruxa deixou-a trabalhar completamente sozinha, e era alegre para a donzela se sua senhora não estivesse por perto, a despeito daquelas palavras que lhe tocaram um pouco o coração dela naquele outro dia.
Mas quando a recolha do trigo terminara, houve novamente descanso para seu corpo, e natação igualmente e pescaria a partir da ilhota pela permissão da bruxa. E novamente, por sua própria permissão, ela foi procurar Habundia no bosque, e despendeu uma hora feliz com ela, e retornou com um gamo que ela caçara, e assim somente escassamente salvou sua pele da chuva de vara. Então, mais uma vez, ela foi ao bosque sob a incumbência da bruxa assim como a sua própria, e foi paga com a doce conversa com sua amiga e por nada mais, salvo o escárnio de má vontade de sua mestra.
Mas em uma noite, quando estava bem em setembro e o céu estava sem lua e nublado, um pouco antes da meia-noite a dama veio e parou sobre [55]Birdalone, conforme ela jazia na cama, e observou para ver ser ela despertava. Verdadeiramente, a vinda da bruxa despertara-a; mas mesmo assim ela foi cautelosa, e permaneceu deitada, nem mudou a respiração. Então a bruxa afastou-se, mas mesmo com isso Birdalone fez um movimento para ter um vislumbre dela, e por esse meio ela viu isto, que o semblante dela mudou, e que ela carregava a mesmíssima pele de si com a qual ela fora a Utterhay, e a qual ela usara depois duas ou três vezes quando ela tinha incumbência mais afastada.
A bruxa agora deslizou rapidamente para a porta, e para a noite fora. Birdalone ainda permaneceu deitada por um tempo, com medo de que ela devesse cair numa armadilha. Em seguida, levantou-se muito quietamente, arrumou-se em sua bata, a qual sempre jazia sob o seu travesseiro com o anel mais uma vez costurado lá e, desse modo, ela também saiu pela porta, assim como julgou que viu a bruxa alguma distância à frente; mas era bagatela para os pés leves dela alcançá-la. Assim, ela demorou-se para retirar o anel de sua bata e colocá-lo em seu dedo; em seguida, em uma voz baixa ela disse:
À esquerda e à direita,
Perante, atrás,
De mim seja a visão
Como a do vento!
Em seguida, audaciosamente, ela apressou-se e logo estava perto dos calcanhares da bruxa, quem seguia seu caminho para a beira do lago e nessa altura virava para o leste, e andava o mesmo que Birdalone fora quando ela deparou-se com o Bote de Expedição.
Assim foi a bruxa-esposa diretamente para o lado da enseada, e Birdalone precisou colar perto dela, ou [56]ela não distinguiria coisa alguma, tão escura estava a noite em meio aos galhos do amieiro. Mas a bruxa-esposa tateou de um lado para a outro por um tempo, quando ela deteve-se perto da enseada, e logo retirou algo de seu manto. A donzela viu que ela estava prestes a acertar pederneira no aço, e tremeu um pouco, com medo de que o encanto dela enganara-a. Logo o pavio acendeu-se e a dama iluminara uma lanterna, a qual ela levantou, encarando tudo de um lado para o outro; e em cheio ela olhou para o lugar onde estava Birdalone, e não fez sinal de vê-la, embora bem perto a donzela olhasse para vê-la soltar a lanterna e surpreendê-la.
Agora a bruxa, segurando alto a lanterna, passou por cima da borda do bote, e sentou-se na bancada; e foi somente [por] um ato próximo que Birdalone seguiu-a até o bote, mas novamente ela temeu o avanço, assim apenas parou tão perto quanto podia. Então ela viu a bruxa sacar de seu cinto aquela pequena faca afiada, a qual Birdalone vira ser erguida contra sua própria garganta. Em seguida, a bruxa desnudou seu braço e picou-o até que o sangue saltou daquela árida pele branca. Depois disso, ela ficou de pé, foi aos arcos do barco e parou sobre eles, e passou seu braço sobre a haste para lá e para cá para ensanguentá-la. Depois disso foi à popa, pegou sangue em sua mão direita e passou sobre o lugar da direção do bote (pois não havia leme), retornou e sentou-se novamente na bancada; e, tão longe quando Birdalone podia ver, ocupou a si mesma em estancar o sangramento do pequeno ferimento em seu braço. Então julgou Birdalone que [57]ela entendia que era aquele modo de pintura que formara os borrões enferrujados que ela vira no bote à luz do dia.
Mas agora, enquanto a bruxa sentava-se lá, uma voz áspera começou a agitar-se na garganta dela e, em seguida, palavras saíram dela; ela cantou em uma voz de corvo:
O vermelho vinho de corvo agora
Bebeu tu, haste e arco;
Então acorda e desperta
E o costumeiro caminho toma!
O caminho do Errante adiante através da inundação,
Pois a vontade do Emissor está combinada com o sangue.
Portanto começou o bote a mexer-se, e sem demora ele deslizou adiante, para fora da enseada, para as águas do lago, e a luz da lanterna extinguiu-se, e foi somente um minuto antes que Birdalone perdesse toda a visão dele. Ela aguardou por mais um tempo, com medo de que talvez bote e bruxa pudessem voltar para sua mãos e então novamente virarem e retornarem rapidamente. Ela teria tirado seu anel imediatamente, mas o pensamento veio a ela, de que ela vira a bruxa partir em sua segunda aparência; como, se ela estava permanecendo em casa em sua pele habitual? Então ela voltou à casa como ela estava, abriu a porta, e fechou-a tremendo. Mas não havia imagem de filho de Adão ali, e nenhuma coisa viva, salvo o gato cochilando diante do fogo. Portanto, Birdalone tirou o anel de seu dedo e foi à lareira, mexeu no gato com o pé, até que ele levantou-se e começou a esfregar a si mesmo em suas pernas, e ficou contente com ele.
[58]Depois disso, ela arrumou seu anel seguro em sua bata novamente, colocou a bata sob seu travesseiro, como era seu costume, foi a si mesma para a cama e adormeceu suavemente, deixando todos dos pensamentos perturbadores para a manhã seguinte; que quanto mais ela estava livre da bruxa-esposa por aquela noite, pelo menos.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 54-58. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/54/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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