[46]ERAM quinze dias depois que Birdalone despertou deitada em sua cama, em uma manhã brilhante, como se tudo aquilo tivesse sido apenas um sonho. Mas a bruxa-esposa estava de pé acima dela e gritava: ‘Tu estás atrasada, dorminhoca, este dia de tempo bom, e a relva toda estragada por falta da gadanha. Fora! E até o campo contigo.’
Birdalone não esperou por mais palavras, apenas levantou-se da cama, e vestiu suas vestes de trabalho diário em uma piscadela, e demorou-se apenas para lavar-se em um poço do riacho, e então estava em meio à alta relva com faixas caindo diante dela. Enquanto ela trabalhava ela pensou, e mal podia dizer se a alegria diante de sua libertação presente, ou o terror da bruxa-esposa, era o maior. Doloroso era seu anseio por ir ver sua amiga no bosque, mas a estação da ceifa do feno perdurou por mais de uma semana e, quando estivera terminada, ou fosse estabelecido de propósito ou não, a dama neglicenciou-a outra promessa, dar a Birdalone mais feriado, e manteve-a perto de seu trabalho junto ao campo e ao acre. De outra forma sua senhora de maneira nenhuma a maltratou ou ameaçou-a, embora ela retornara à mesquinharia e maledicência que eram seu costume. Finalmente, em uma manhã, quando a dama ordenara-a ao nada de trabalho, Birdalone tomou em mãos seu arco e lançou sua aljava às costas, e prosseguiu em seus caminhos para dentro do bosque, e não se esqueceu da trança do cabelo de Habundia. Mas ela não teve necessidade de usá-la, visto que, quando chegou ao Carvalho do Local de Encontro, imediatamente saiu Habundia [47]do matagal, agora tão semelhante a Birdalone que era um espanto, pois, assim como sua amiga, ela portava arco e aljava, e vestido verde atado até seus joelhos [que] estavam nus.
Então elas beijaram-se, abraçaram-se, e Birdalone chorou sobre o seio de sua amiga, mas estava envergonhada das palavras que teria contado a ela de seu caso. Em seguida, Habundia sentou-a sobre o relvado e sentou-se ao lado ela, acariciou-a e acalmou-a. Então ela sorriu para Birdalone, e disse: ‘Tua história é parcialmente contada sem palavras, e eu choraria por ti se pudesse derramar lágrimas. Mas tu podes contar-me por que tu sofreste isso; embora, em verdade, eu tenha uma suspeita sobre isso. Tu topaste com a balsa da bruxa?’
‘Foi assim mesmo, irmã,’ respondeu Birdalone. E com isso ela convocou o coração, e contou a ela toda a história do desaparecimento de seu corpo e da mudança de pele. E Habundia respondeu: ‘Bem então, há isto para ser dito, que mais cedo ou mais tarde isso devia ter acontecido, pois por esse meio se estende tua estrada para fuga; portanto é melhor que seja mais cedo que mais tarde. Mas conta-me novamente: foi ela feroz e grosseira em palavras contigo? Pois o que ela disse a ti que tua ainda não me contou.’ Disse Birdalone: ‘Em sua primeira fúria, quando ela estava para ter matado-me, ela não tinha palavras, nada, salvo gritos lupinos. Mas depois disso ela falou para mim estranhamente, mesmo nem feroz nem grosseiramente; ou melhor, parecia-me como se ela quase me amasse. E mais do que por pouco ela implorou-me para não fugir dela.’ ‘E tu foste enganada pela fala macia dela?’ Disse Habundia. ‘De [48]maneira nenhuma deixar de lado minha esperança de fuga, ou melhor, nem mesmo naquela hora,’ disse Birdalone; ‘mas, em meio a toda confusão e terror, eu fui um tanto movida à compaixão por ela.’
Falou Habundia, olhando ansiosamente para ela: ‘Tu consideras que estás um pouco intimida pelo que ela fez a ti?’ Disse Birdalone, e ruborizou intensamente: ‘Oh não, não! Nada salvo morte ou prisões deverão vir entre mim e esforço máximo para escapar.’ ‘Isso está melhor do que bem,’ disse Habundia; ‘mas novamente, podes tu ter um pouco de paciência, e ser cautelosa e sábia por um tempo?’ ‘Assim me parece,’ disse a donzela. Disse Habundia: ‘Novamente está bem. Agora o verão está começando a minguar e, por meu conselho, tu não deverás tentar a fuga até que Maio venha novamente e esteja quase gasto em Junho. Tu então serás maior, irmãzinha, e notícias estão crescendo de que questões devem estar prontas para tua partida: além disso, entrementes, tu ainda precisas aprender o que tu tens de fazer, e sobre isso eu agora devo contar-te algo. Pois aquele bote, a coisa que encontraste e pela qual tu sofreste, é chamado de Bote de Expedição, e nele tua senhora viaja repetidas vezes, eu considero que para buscar algumas outras da espécie dela, mas eu não sei a quem, ou para onde. Tu notaste nela que às vezes ela sumia em particular pela noite e bruma?’ ‘Sim, verdadeiramente,’ disse Birdalone, ‘e essa é uma das coisas que até agora me deixaram mais assustada.’ Disse Habundia: ‘Bem, agora, para que lugar ela viajou nesse bote eu não sei; mas como eu não sei para onde, assim também não sei o que ela fez com o Bote de Expedição para [49]fazê-lo obedecê-la; já que, embora eu conheça todas as coisas no bosque, conheço apenas pouco do lago. Portanto, embora haja perigo para ti naquele lugar, segue-a duas ou três vezes quando ela levantar-se para essa viajem, e observa atentamente qual é a maneira que ela lida com o dito Bote de Expedição, de modo que tu possas fazer da mesma forma. Arriscar-te-ás ao tormento e à mudança de pele, ou mesmo se tu fores golpeada com a faca, para coletar essa sabedoria? E, após o que, tu deverás vir para cá e contar-me como tu apressou-se.’ ‘Com um bom coração eu irei, querida irmã,’ disse Birdalone.
Então Habundia beijou-a e disse: ‘É uma alegria para mim ver-te tão valente, mas nisso eu posso ajudar-te um pouco; aqui está um anel de dedo dourado, vê tu! Moldado como uma serpente agarrando sua calda com a boca; quanto então tu fores nessa busca, coloca tu este mesmo anel em teu dedo médio de tua mão esquerda, e dize tu acima de teu fôlego pelo menos:’
À esquerda e à direita,
Perante, atrás,
De mim seja a visão
Como a do vento!
‘E nada então deverá ser visto de ti, mesmo por alguém que permanecesse próximo ao lado. Mas não uses o anel abertamente, salvo em tais circunstâncias, nem nunca deixes a bruxa ter visão dele, ou ela saberá que tu encontraste-me. Tu entendeste, podes lembrar-te?’
Riu Birdalone, e pegou o anel e colocou-o no dedo, e falou em voz alta, assim como Habundia [50]dera-lhe, as palavras. Então respondeu Habundia, rindo: ‘Agora eu perdi minha amiga e irmã, pois tu foste-te, Birdalone. Retira o anel, docinho, e vai buscar tu caça, pois, se tu voltares à casa com as mãos vazias, haverá ofensas aguardando-te, ou pior.’
Então Birdalone retirou o anel e retornou à vista, rindo. Em seguida, a mulher do bosque beijou-a, virou seus joelhos para ela e foi-se. Apenas Birdalone encordoou seu arco, foi a seu ofício no bosque e logo ela tinha um par de lebres, após o que ela retornou à casa para a dama; quem de fato escarneceu dela, e de sua pouca captura em tão longo tempo; mas aí terminou.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 46-50. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/46/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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