A Água das Ilhas Maravilhosas - A Primeira Parte: Sobre A Casa do Cativeiro - Capítulo XX Sobre Birdalone e o Bote de Envio

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[70]BIRDALONE despertou pela manhã, levantou-se e vestiu a si mesma, e não viu a bruxa-esposa na câmara, embora a cama dela parecesse como se ela tivesse dormido nela. Birdalone pouco considerou isso, visto que a dama frequentemente gostava de sair muito cedo pela manhã em uma ou outra incumbência. Todavia, ficou ela um pouco feliz, pois não estava de maneira nenhuma desejosa de uma querela com ela. Ademais, a despeito de sua valentia, como bem pode ser imaginado, ela estava toda agitada com esperanças e medos, e precisava conter seu corpo de tremor e inquietação em demasia demais, se ela pudesse.

Agora ela misturou a trança do cabelo da mãe do bosque com seu próprio cabelo, mas não considerou de perigo algum deixar o anel ainda costurado à sua bata. Ela colocou alguma quantidade de pão e carne em sua sacola, com o receio de que sua viajem devesse ser longa e em seguida, com toda simplicidade, caminhou através da soleira da Casa de seu Cativeiro.

Ela foi diretamente à costa sobredita, não vendo nada da bruxa-esposa pelo caminho. Quando ela lá chegou, e estava prestes a virar direto para sua esquerda até a angra, surgiu em sua mente que ela primeiro nadaria até Ilhota Verde por esta última vez. Pois de fato ela amava a ilhota, e considerava-a dela mesma, visto que nunca seu pesadelo, a bruxa, colou o pé lá. Além disso, ela disse a si mesma, que o lago fresco acalmaria a febre de seu sangue, e deixaria seu corpo mais firme [71]e menos tímido para a aventura. E novamente, que se a bruxa devesse vê-la de longe, como ela escassamente podia falhar em fazer, ela consideraria que a donzela estava ocupada com sua costumeira natação matutina, e estaria menos inclinada a espiá-la.

Então agora, quando ela deixara suas vestes deslizarem dela para a areia próxima da beira da água, ela permaneceu de pé por um tempo, com seus pés escassamente cobertos pela pequena onda da angra, para ser um símbolo de segurança para sua senhora. Para falar verdadeiramente, agora [que] chegou tão perto do ato, ela retrocedeu um pouco, e ficou inclinada a se demorar com o tempo, e, se pudesse ser, lançar alguma coisa de nenhuma importância entre ela e o terror do último momento.

Agora, ela aproveitou-se da água, e remou fortemente com seus membros encantadores até que chegou à ilhota. Ali ela subiu à terra, e visitou cada lugar que tinha sido amável com ela; beijou as árvores e flores que a consolaram, e uma vez mais chamou os pássaros e coelhos para divertirem-se com ela; até que, subitamente, surgiu em sua cabeça que o tempo estava consumindo-se muito rápido. Então ela desceu até a água, mergulhou e nadou até a costa tão rápido quanto ela pôde. Ali subiu à terra, pensando em nada senão no que acontecera.

Pois eis! Quando ele procurou em volta por suas vestes e sua sacola, não estavam em parte alguma para ser vistos. Imediatamente surgiu em sua mente, como em um lampejo, que isso era trabalho da bruxa; que ela adivinhara este ato de fuga, observara-a, e aproveitou-se da ocasião de sua nudez e ausência, de modo que ela poderia atraí-la de volta para a Casa [72]do Cativeiro. E isso em maior grau, visto que o precioso anel estava costurado à bata de Birdalone, e a bruxa teria encontrado-o quando ela manuseara a vestimenta.

Birdalone não perdeu tempo procurando pelo perdido; olhou para a areia macia abaixo e lá viu pegadas que não eram suas, e todas elas retornavam diretamente para a casa. Então ela virou-se e, por um momento de tempo, olhou em direção à casa e viu claramente que a bruxa saiu pela porta, e o sol reluziu a partir de algo brilhante na mão dela.

Então realmente ela não se demorou, mas partiu correndo, em seu maior velocidade, ao longo da beira da água em direção à angra e ao Bote de Expedição. Como sobredito, ela era rápida como um gamo, assim, em apenas um pequeno espaço de tempo, ela chegou à angra, ofegante e sem fôlego. Ela virou-se. Apressadamente olhou ao longo do caminho que seus pés há pouco usaram, e julgou que ela via [algo] tremulando e cintilando vindo ao longo dele, mas um pouco longe; todavia, não estava certa, pois os olhos dela estavam tontos com a rapidez de sua fuga, o sol quente e a presa de seu coração. Então ela olhou confusamente por aproximadamente um momento, pois ela lembrou-se de que, em sua nudez, não tinha nem faca, nem tesouras, nem punhal com os quais tirar seu sangue. Mas mesmo com isso, próximo à mão, ela viu pendurada um meio morto de roseira-brava, com grandes espinhos sobre ele. Ela rapidamente arrancou um pedaço dele e arranhou seu braço esquerdo até que o sangue fluiu, e pisou ligeiramente primeiro na haste e então na popa, e com isso as besuntou. [73]Então ela sentou-se no banco e clamou em voz alta:


O vermelho vinho de corvo agora

Bebeu tu, haste e arco;

Então acorda e desperta

E o costumeiro caminho toma!

O caminho do Errante adiante através da inundação,

Pois a vontade do Emissor está combinada com o sangue.


Mal ela teve tempo de pensar se o bote obedeceria a seu encanto antes que ele começasse a se mexer sob ela, e em seguida deslizou para o lago e tomou seu caminho através das ondas de verão, indo entre a Ilhota Verde e a terra firme, como se para o barlavento do promontório ocidental da ilhota: e foi não por uma distância curta da costa da dita terra firme.

Para lá para encontrá-lo agora vinha a bruxa, correndo ao longo do banco de areia, suas saias voando selvagemente ao redor dela, e a pesada espada curta brilhando em sua mão. Sua corrida furiosa ela parou do outro lado diante do bote, e clamou em uma voz quebrada por falta de fôlego:


Volta através da cheia

Para a casa próxima ao bosque!

De volta a teu descanso

No ninho de amieiros!

Pelo sangue do Emissor [que] jaz quente em tua proa,

E o coração do Viajante [que] está cansado como agora.


[74]Mas quando ela viu que o Bote de Expedição não atentou para as suas palavras, considerando que não foi seu sangue que o despertara, mas o de Birdalone. Então clamou a bruxa: ‘Oh criança, criança! Diz o feitiço e volte para mim! Para mim, quem te criou e amou-te e teve esperança em ti! Oh volte!’

Mas como deveria Birdalone atentar para sua súplica? Ela viu a faca; e além disso, houvesse seu coração esquecido-se, seu corpo lembraria bem. Ela permaneceu sentada, não tanto como para virar sua cabeça em direção à bruxa-esposa.

Então vieram selvagens palavras gritadas da boca da bruxa, e ela gritou: ‘Vai então, nua e proscrita! Vai então, tola nua! E retorna para cá depois que tu estiveste nas mãos do impiedoso! Ah, teria sido melhor para ti seu eu tivesse matado-te!’ E com isso ele girou a faca sobre a cabeça e jogou em direção a Birdalone. Mas agora o bote virava sua cabeça em direção ao promontório da Ilhota Verde e estava partindo velozmente, de modo que Birdalone somente meio que ouviu as últimas palavras da bruxa-esposa, e a faca caiu reluzindo dentro da água, muito à popa.

Ali a bruxa permaneceu sacudindo seus braços e gritando, sem palavras; mas nada mais dela viu Birdalone, pois o bote circulou em direção contrária o promontório da Ilhota Verde, e ali estendia-se a Grande Água sob os céus de verão, toda espaçosa e sem-terra, diante dela. E agora era meio-dia.


Aqui termina a Primeira Parte de A Água das Ilhas Maravilhosas, a qual se chama de Sobre A Casa do Cativeiro. E agora começa a Segunda Parte, a qual se chama de Sobre As Ilhas Maravilhosas.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

MORRIS, W. The Water of the Wondrous Isles. New York, London, and Bombay: Longman, Green and Co, 1897. pp. 70-74. Disponível em: https://archive.org/details/waterofwondrousi00morrrich/page/70/mode/1up


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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