[128]Agora no dia seguinte, quando Walter despertou, ele descobriu que não havia ninguém deitado ao seu lado e que o dia não era mais jovem. Assim, ele ergueu-se e atravessou o jardim de ponta a ponta, inteiramente para lá e para cá, e não havia ninguém lá; além disso, embora de tal maneira ele temesse encontrar a Senhora ali, contudo, ele estava triste de coração e temeroso do que podia suceder. De qualquer maneira, ele encontrou o portão através do qual eles entraram ontem, e ele saiu para o pequeno vale; mas, quando ele fora um passo ou dois, ele voltou-se, e não pôde ver nem jardim nem cerca, nem qualquer sinal do que ele vira disso apenas recentemente. Ele franziu sua sobrancelha, ficou de pé parado para pensar sobre isso e o coração dele tornou-se mais pesado desse modo. Mas logo ele seguiu seus caminhos e atravessou o córrego. Apenas escassamente chegou à grama no lado mais além, antes que ele visse [129]uma mulher vindo encontrá-lo. Primeiramente, cheio como ele estava do curso de ontem e do jardim maravilhoso, julgou que seria a Senhora. Mas a mulher deteve seus pés e, parando, colou a mão sobre seu tornozelo direito; ele viu que era a Donzela. Ele aproximou-se dela e viu que ela não estava tão triste de semblante como da última vez que ela encontrara-o, mas de bochecha corada e de olhos brilhantes.
Enquanto ele vinha a ela, ela deu um passo ou dois para encontrá-lo, estendendo suas duas mãos e, em seguida, conteve-se, bem como disse sorrindo: ‘Ah, amigo, provavelmente esta deva ser a última vez que eu deverei dizer para ti ‘não me toques’; ou melhor, não tanto quanto minha mão, ou fosse apenas a bainha do meu vestuário.’
A alegria cresceu no coração dele, ele olhou para ela afetuosamente e disse: ‘Por que? O que então aconteceu recentemente?’
‘Oh amigo,’ ela começou, ‘isto aconteceu.’
Mas, enquanto ele olhava para ela, o sorriso extinguiu-se do rosto dela, e ela empalideceu mortalmente nos lábios mesmos. Ela olhava desconfiadamente para o lado esquerdo de si mesma, [onde] corria o riacho; Walter seguia os olhos dela e considerou por um instante que ele via a disforme visão amarela do anão espreitando ao redor, a partir de uma rocha cinza, mas [de] perto não havia nada. Em seguida, [130]a Donzela, embora ela estivesse pálida como a morte, prosseguiu numa voz forte, firme e clara, onde não havia nem alegria nem gentileza, mantendo seu rosto em Walter e suas costas para o córrego: ‘Isto aconteceu, amigo, que não há mais qualquer necessidade para reprimir teu amor nem o meu. Por esse motivo eu digo para ti, vem a meus aposentos (e são os aposentos vermelhos externos diante dos teus, embora tu não soubeste disto) uma hora antes desta próxima meia-noite e, então, tua tristeza e a minha deverão ter um fim. Agora eu preciso partir. Não me sigas, mas lembra-te!’
E com isso ela virou-se e fugiu, como o vento desce o córrego.
Mas Walter permaneceu de pé, perguntando-se, e não sabia o que fazer, seja para o bem ou para o mal. Pois ele sabia agora que ela empalidecera e fora apanhada pelo pavor por causa do levantamento da cabeça horrenda e, contudo, ela parecia falar a coisa mesma que ela tinha a dizer. ‘Seja como for que ocorra’, ele falou em voz alta para si mesmo: ‘O que acontecer, eu manterei o encontro com ela.’
Em seguida, ele desembainhou sua espada e virou por aqui e por ali, olhando tudo ao redor se ele podia ver qualquer sinal da Coisa Maligna; mas nada puderam seus olhos ver, salvo a grama, o córrego e os arbustos do vale. Então, [131]ainda segurando sua espada desembainhada na mão, ele escalou a inclinação para fora do vale; pois esse era o único caminho que ele conhecia para a Casa Dourada. Quando ele chegou ao topo e a briza de verão soprou em seu rosto, ele olhou para baixo, [para] um belo declive verde ocupado por carvalhos e castanheiras, ficou revigorado com a vida da terra, sentiu a boa espada em seu punho e sabia que havia poder e desejo em si, bem como o mundo parecia aberto para ele.
Assim ele sorriu, como se fosse um pouco sombrio, embainhou sua espada e prosseguiu em direção à casa.
ORIGINAL:
MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.128-131. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/128/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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