Capítulo anterior
[121]Na manhã do próximo dia Walter demorou-se por um tempo ao redor da casa, até que a manhã envelhecera e então, por volta do meio dia, ele pegou seu arco, flechas e entrou nos bosques ao norte, para conseguir-lhe alguma veação. Ele foi um pouco longe antes que atirasse em um gamo, então sentou-se para descansar sob a sombra de uma castanheira, pois [a parte] mais quente do dia não se passara há muito. Ele olhou ao redor a partir daquele lugar e viu abaixo dele um pequeno vale com um córrego aprazível correndo através dele; ele imaginou-se tomando banho naquele lugar. Então ele desceu e teve seu prazer na água e nas margens cheias de salgueiros; pois deitou-se nu por um tempo, sobre a grama perto da beira da água, de alegria da sombra vacilante, assim como da pequena [122]briza que corria sobre as longas e baixas ondulações do riacho.
Em seguida, ele arrumou seu traje e começou a subir a seus caminhos até a campina, mas dificilmente tinha ido trés passos antes que visse uma mulher vindo na direção dele do rio abaixo. O coração dele veio à boca quando ele viu-a, pois ela parou e abaixou seu braço, como se ela fosse colocar a mão sobre o tornozelo, de modo que primeiro ele julgou que fosse a Donzela mas, à segunda olhada, ele viu que era a Senhora. Ela ficou de pé parada e olhou para ele, de modo que ele julgou que ela o mandaria vir a ela. Então ele foi encontrá-la, e envergonhou-se um pouco enquanto aproximava-se e maravilhava-se com ela, pois agora ela estava envolta somente em um vestuário de algum material sedoso cinza escuro, embelezada com ele como estava. Uma guirlanda de flores em torno do meio, mas que era tão fina que, conforme o vento impelia-a do lado e do membro, não a encobria mais, apenas pela dita guirlanda, do que se a água estivesse correndo sobre ela. O rosto dela estava cheio de alegria sorridente e satisfação, enquanto ela falava para ele, em uma voz acariciante e gentil, e dizia: ‘Eu dou-te bom dia, bom Escudeiro, e bom é encontrar-te.’ E ela estendeu a mão para ele. Ele ajoelhou-se diante dela, beijou-a [123]e permaneceu parado sobre seus joelhos e abaixando a cabeça.
Mas ela riu abertamente, abaixou-se [na direção] dele, colocou a mão dela sobre seus braços, levantou-o e disse para ele: ‘O que é isto, meu Escudeiro, que tu te ajoelhas para mim como para um ídolo?’
Ele disse vacilante: ‘Eu não sei, mas talvez tu sejas um ídolo e eu tema-te.’
‘Que!’ Ela disse, ‘mais do que ontem, quando tu viste-me assustada?’
Disse ele: ‘Sim, visto que agora eu vejo-te não oculta e parece-me que não existiu nenhum [ser] semelhante desde os dias antigos dos gentios.’
Ela disse: ‘Ainda não refletiste sobre o presente que desejas de mim, um prêmio pela morte de meu inimigo e a minha salvação de mim para longe da morte?’
‘Oh minha Senhora,’ ele disse, ‘[o] mesmo tanto eu teria feito por qualquer outra senhora, ou, verdadeiramente, por qualquer pobre homem; pois assim minha virilidade teria ordenado-me. Então, não fale de presentes para mim. Além disso (e ele ruborizou com isso e a voz deve vacilou), tu não me deste minha doce recompensa ontem? Que mais eu ousaria pedir?’
Ela manteve-se calma por um tempo e olhou para ele profundamente. Ele ruborizou sob [124]o olhar dela. Então cólera surgiu na face dela; ela ruborizou, franziu as sobrancelhas, bem como falou para ele em uma voz de ira e disse: ‘Não, o que é isto? Está crescendo em minha mente que tu consideras o presente de mim desprezível! Tu, um estrangeiro, um proscrito; alguém dotado com a pequena sabedoria do Mundo fora da Floresta! E aqui, eu fico de pé diante de ti, toda gloriosa em minha nudez, assim como tão realizada de sabedoria, que eu posso fazer este lugar selvagem mais cheio de alegria do que reinos e cidades do mundo para quem eu amo… E tu! … Ah, mas é o Inimigo que fez isto e tornou a sem culpa culpada! Contudo, eu terei o controle finalmente, embora tu sofras por isso, e eu sofra por ti.’
Walter ficou de pé diante dela com a cabeça pendente, além de estender suas mãos como se suplicando para a raiva dela passar, assim como ponderava em que resposta ele devia preparar; pois agora ele temia por si mesmo e pela Donzela. Então finalmente ele olhou para ela e disse corajosamente: ‘Mais que isso, Senhora, eu sei o que tuas palavras significam, visto que eu lembro de minha primeira acolhida por ti. Eu sei, verdadeiramente, que tu desejaste chamar-me de baixo nascimento, de nenhuma consideração e indigno de tocar a bainha de tuas vestes. Que eu fui muito [125]ousado e culpado relativamente a ti; sem dúvida, isto é verdade, e eu mereci tua raiva. Mas eu não te pedirei para perdoar-me, pois eu fiz apenas o que precisava.’ Agora, ela olhou para ele calmamente e, sem qualquer cólera, mas sim como se ela lesse o que estava escrito no mais íntimo do coração dele. Em seguida, o rosto dela tornou-se alegre novamente; ela bateu as mãos juntas e exclamou: ‘Isto é apenas conversa tola; pois ontem eu vi tua valentia, e hoje eu vi tua grandiosidade. Eu digo, que embora tu não pudeste ser bom o suficiente para uma mulher tola de baronato mundano, contudo, tu és bom o suficiente para mim; a sábia, a poderosa e a encantadora. E visto que tu disseste que eu dei-te apenas desprezo quando primeiro tu chegaste a nos, não faças má vontade de mim por isso, porque foi feito para testar-te; e agora tu estás provado.’
Então, novamente, ele ajoelhou-se diante dela bem como abraçou os joelhos dela. Novamente ela levantou-o e deixou o braço dela suspenso sobre o ombro dele; a bochecha dela tocou a bochecha dele. Ela beijou a boca dele e disse: ‘Por isto, tudo está perdoado, ambas tua ofensa e a minha. Agora venham dias felizes e alegres.’
[126]Com isso, o rosto sorridente dela tornou-se grave; ela ficou de pé diante dele olhando imponente, graciosa e gentil de uma vez só. Ela tomou a mão dele e disse: ‘Tu pudeste julgar meus aposentos na Casa Dourada do Bosque demasiado majestosos, visto que tu não és um homem dominador. Então agora tu escolheste bem o lugar onde encontrar-me hoje; pois, bem perto, do outro lado do córrego fica um caramanchão de prazer, o qual, verdadeiramente, nem todo mundo que chega a esta terra pode encontrar. Lá, deverei eu ser para ti como uma das donzelas do interior de tua própria terra e tu não deverás ficar envergonhado.’
Ela andava timidamente diante dele enquanto falava e, desejasse ele ou não, a doce voz dela fazia cócegas à alma mesma dele com prazer, ademais, ela olhava de lado para ele feliz e bem satisfeita.
Assim, eles atravessaram o córrego pelo raso abaixo do poço no qual Walter banhara-se e, dentro de pouco [tempo], eles alcançaram uma cerca alta de vimes em floco assim como um portão simples aí. A Senhora abriu o mesmo e, desse modo, eles entraram em uma recinto todo plantado como o mais belo jardim; com cercas vivas de rosa e madressilva, com tílias a florescer e longos caminhos de grama verde entre bordas de lírios e cravos-da-índia, [127]bem como outras doces flores de grinaldas. E um braço do riacho que eles cruzaram há pouco perdia-se através daquele jardim; e no meio ficava uma pequena casa construída de coluna e folha de bétel e coberta com palha amarela, como se fosse recém-construída.
Então Walter olhou por aqui e por ali e maravilhou-se inicialmente, assim como tentou pensar em sua mente no que devia vir depois e em como as coisas iriam-se consigo. Mas o pensamento dele não permaneceria firme em qualquer assunto que não a beleza da Senhora em meio à beleza do jardim. Além disso ela agora tornara-se tão doce e amável, e mesmo um pouco tímida e contraída com ele; de modo que dificilmente ele sabe a mão de quem ele segurava, ou a fragrância de quem envolve ou amacia do lado que caminhava tão próximo dele.
Então, eles erraram por aqui e por ali através do desvanecimento do dia e, quando finalmente entraram na fresca casa sombria, nessa ocasião eles amaram e brincaram juntos, como se eles fossem um par de amantes sem culpa; sem medo do dia seguinte e sem sementes de inimizade e morte semeadas entre eles.
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ORIGINAL:
MORRIS, W. The wood beyond the world. London: Lawrence and bullen, 1895. pp.121-127. Disponível em: https://archive.org/details/woodbeyondworld00morriala/page/121/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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