[151]Mas, no dia seguinte, eles levantaram cedo, quebraram o jejum deles com aquelas provisões da floresta e, em seguida, desceram rapidamente o lado da montanha. Hallblithe verificou, através da clara luz da manhã, que foi de fato a Casa mais Distante que ele vira através da imensidão verde desabitada. Assim ele contou aos buscadores. Mas eles estavam silenciosos e não prestaram atenção, por causa de um temor que os surpreendera: que deveriam morrer antes que entrassem naquela bela terra. Ao pé da montanha, eles foram ao encontro de um rio, profundo mas não largo, com baixos bancos de areia cobertos de grama. Hallblithe, que era um nadador muito forte, ajudou os buscadores de um lado a outro sem muita dificuldade e, naquele lugar, eles ficaram de pé sobre a relva daquele ermo vistoso. Hallblithe olhou-os para notar se alguma mudança deveria atingi-los, e ele julgou que eles já tinham tornado-se mais fortes e de mais proveito. Mas ele não falou nada sobre isso e andou a passos largos em direção à Casa mais Distante, mesmo que no outro dia ele tivesse andado [152]a passos largos para longe dela. Tal diligência eles fizeram, que era apenas um pouco após do meio-dia quando chegaram à porta dali. Em seguida, Hallblithe tomou o chifre e soprou-o, enquanto seus companheiros permaneciam de pé murmurando, "É a Terra! É a Terra!"
Então veio o guardião à porta, envolto em vermelho escarlate, e o mais velho foi até ele e disse: "É esta a Terra?"
“Que terra?” disse o Guardião;
“Esta é a Planície Cintilante?” disse o segundo dos buscadores.
“Sim, em verdade,” disse o Guardião. Disse o homem triste: “Vós nos condurizeis ao Rei?”
“Vós deveis chegar ao Rei,” disse o Guardião.
“Quando, oh quando?”" clamaram todos os três.
“No dia seguinte ao amanhã, talvez,” disse o Guardião.
“Oh! Se o amanhã apenas fosse chegado!” eles clamaram.
“Virá,” disse o homem vermelho; “entrai vós na casa e comei, bebei e descansai.” Então eles entraram e o Guardião não concedeu nenhuma atenção a Hallblithe. Eles comeram, beberam e em seguida foram para o descanso deles. Hallblithe deitou-se numa cama fechada fora do salão, mas o Guardião conduziu os buscadores para outro lugar, de modo que ele não os viu depois que fora-se para cama; mas, quanto a si mesmo, dormiu e esqueceu-se de tudo que fosse.
[153]Na manhã, quando despertou, ele sentiu-se muito forte e saudável. Ele contemplou seus membros, que estavam claros de pele, suaves e belos, e ouviu alguém, bem perto no salão, gorjeando e cantando alegremente. Então ele saltou de sua cama, com o pasmo do sono ainda nele, puxou as cortinas da cama fechada e olhou adiante dentro do salão; e oh!, no assento elevado, um homem aparentando trinta invernos, alto, belo de estilo, com cabelo dourado e olhos tão cinzentos quanto vidro, orgulhoso e nobre de aspecto; e próximo dele sentava-se outro homem de idade semelhante de olhar-se, um homem forte e corpulento, com cabelo castanho curto e encaracolado e uma barba vermelha, semblante corado, e a força de um guerreiro. Também, para cima e para baixo do salão, passava um homem mais jovem de aspecto do que aqueles dois, alto e esbelto, de cabelos negros e de olhos negros, amoroso de aspecto; era ele quem estava cantando um fragmento de canção conforme passava ligeiramente através do pavimento do salão: um fragmento como este:
Belo é o mundo, agora o outono está desgastando-se,
E o sol preguiçoso há muito jaz na cama;
Doces são os dias, agora o inverno está aproximando-se,
E todos os ventos fingem que o vento está morto.
Muda está a cerca onde os caranguejos pendem amarelos,
Brilhantes como as flores da primavera;
Muda está a cerca onde as peras crescem maduras,
E ninguém exceto o pintarroxo destemido canta.
[154]Bela foi a primavera, mas em meio a seu esverdeamento
Cinzas foram os dias do sol oculto;
Belo foi o verão, mas vanglorioso,
Tão cedo seus dias muito doces acabaram-se.
Venha então, amor, pois a paz está sobre nós,
Remoto é falta, e longe é medo,
Aqui onde o descanso no fim venceu-nos,
Na maré que se acumula do ano feliz.
Venha da velha casa cinzenta através da água,
Onde, longe dos lábios do mar faminto,
Verde cresce a relva sobre o campo da matança,
E tudo é uma história para ti e para mim.
Então Hallblithe arrumou sua vestimenta e entrou no salão. Quando aqueles três viram-no eles sorriram gentilmente e cumprimentaram-no; e o homem nobre à mesa disse: “Obrigado a ti, Oh Guerreiro do Corvo, por tua ajuda em nossa necessidade: tu recompensa de nós não deverá faltar.”
Em seguida, o homem de cabelos castanhos chegou a ele, deu um tapa nas costas dele e disse: “Alegre homem do Corvo, benefíca é tua ajuda na necessidade; do mesmo modo deverá ser a minha para ti doravante.”
Mas o jovem ligeiramente deu um passo a diante até ele, lançou seus bracos ao redor dele, beijou-o e [155]disse: “Oh amigo e companheiro, quem sabe se um dia eu não posso ajudar-te como tu ajudou-me? Embora pareça que tu sejas alguém que podes bem ajudar a ti mesmo. E agora, pode tu ser tão feliz quanto eu sou hoje!”
Em seguida, todos eles três exclamaram alegremente: “Esta é a Terra! Esta é a Terra!”
Então Hallblithe soube que esses homens eram os dois anciões e o homem triste de ontem, e que eles renovaram a juventude deles.
Assim sendo, alegremente, aqueles três homens tomaram seu café da manhã. Nem Hallblithe fez qualquer expressão sombria, pois pensou: “Aquilo que esses caquéticos e patetas foram fortes bastante para encontrar, não deverei eu ser forte o suficiente para fugir de?” Café da manhã tomado, os buscadores demoraram-se pouco, tão ansiosos como eles estavam para contemplar o Rei e terem a garantia de sua nova vida doce. Então aprontaram a si mesmos para partir, e o outrora capitão disse: “És tu capaz de guiar-nos ao Rei, Oh Filho de Corvo, ou devemos nós buscar outro homem para fazer tanto por nós?” Disse Hallblithe: “Eu sou capaz de guiar-vos até quase a extremidade da floresta (onde, como eu julgo, o Rei reside) de modo que vós não devereis perdê-lo.” Após o que eles prosseguiram à porta; o Guardião abriu-a para eles e não lhes falou palavra alguma quando partiram, embora eles lhe agradecessem gentilmente pela hospedagem.
[156]Quando eles estavam fora do pátio, o jovem começou imediatamente a correr de um lado para o outro do prado, colhendo grandes punhados de ricas flores que cresciam em volta, e, ao mesmo tempo, cantando e gorjeando. Mas, aquele que fora rei olhou para cima e para baixo e em volta de um lado para o outro e, finalmente, disse: “Onde estão os cavalos e os homens?” Mas seu companheiro com barba vermelha disse: “Filho de Corvo, nesta terra, quando eles viajam, como fazem eles; cavalgando ou indo a pé?” Disse Hallblithe: “Bons companheiros, vós deveis ter conhecimento de que nesta terra a gente anda a pé a maior parte [das vezes], ambos homens e mulheres; considerando que eles cansam-se muito pouco, e não têm pressa nenhuma.”
Então, o outrora capitão deu um tapa no ombro do outrora rei, e disse: “Apressa-te, senhor, e não te atrases mais, mas arruma tua beca, visto que aqui não há filho de égua para ajudar-te: pois belo é o dia que jaz diante de nós, com muitos belos dias novos além dele.”
Então, Hallblithe liderou o caminho para o interior, pensando em muitas coisas, contudo apenas pouco em seus companheiros. Ao passo que eles, e o mais jovem especialmente, fossem de muitas palavras; pois esse homem de cabelos negros tinha muitas questões a perguntar, principalmente relativas às mulheres; com o que elas eram semelhantes de olhar-se, e de que estado de espírito elas eram. Hallblithe respondeu a isso enquanto ele pode, mas finalmente ele riu e disse: “Amigo, abstém-te de tuas questões [157][por] agora, pois parece-me que em poucas horas tu deverás ser tão sábio nelas quando é o Deus do Amor mesmo.”
Então, eles foram diligentemente ao longo da estrada, e tudo foi sem notícias até [que] no segundo dia, à noite, chegaram à primeira casa fora da imensidão desabitada. Naquele lugar eles tiveram boa acolhida e dormiram. Mas no dia seguinte eles ergueram-se, Hallblithe falou aos Buscadores, e disse: “Agora as coisas estão muito mudadas entre nós desde a vez em que primeiramente nos encontramos: pois então eu possuía todo o meu desejo, como eu pensava, e vós tínheis apenas um desejo, bem como esperança bem próxima carente de sua satisfação. Ao passo que agora a carência deixou-vos e veio para mim. Portanto, assim como em tempos atrás vós não pudestes permanecer mesmo uma noite na Casa do Corvo, tão difícil como vosso desejo jazestes em vós; do mesmo modo, hoje, ela viaja comigo, de modo que eu estou consumido por meu desejo, e eu não posso permanecer convosco; para que não aconteça o que aconteceu entre o homem saciado e [aquele] em jejum. Portanto, agora eu abençoo-vos e parto.”
Eles abundaram em palavras de boa vontade para ele, e o outrora rei disse: “Permanece conosco, e nós deveremos providenciar, para isso, que tu tenhas todas as dignidades nas quais um homem pode pensar.”
E o outrora capitão disse: “Eis, aqui está minha mão que tem sido poderosa; nunca deverás [158]tu carecer dela para a realização de teu desejo mais extremo. Permanece conosco.”"
Por último, disse o jovem: “Permanece conosco, Filho do Corvo! Põe teu coração em uma bela mulher, de fato, mesmo fosse a mais bela; e eu a conseguirei para ti, mesmo que meu desejo estivesse colocado sobre ela.”
Mas ele sorriu para eles, sacudiu a cabeça, e disse: “Todas as saudações para vós! Mas minha missão está ainda por fazer.” E com isso ele partiu.
Ele contornou a margem do Bosque e não chegou a ele, mas desceu do lado do mar, não distante de onde ele primeiro veio à terra, mas um pouco ao sul de lá. Um belo bosque de carvalho descia próximo à praia do mar; media aproximadamente quatro milhas de ponta a ponta e através. Para lá Hallblithe foi-se e, em um dia ou dois, conseguiu para si algumas ferramentas de trabalho em madeira em uma casa de homens um pouco fora do bosque, a três milhas da costa do mar. Em seguida, ele pôs-se a trabalhar e construir para si uma pequena casa de maderia sobre um grama no bosque junto a um claro córrego; pois era muito hábil no trabalho em madeira. Além disso, ele fez para si um arco e flechas, e caçou o que desejava de ave e de gamo para sua subsistência; bem como gente daquela casa e de outros lugares vinha vê-lo, e traziam-lhe pão, vinho, tempero e outras coisas de que ele necessitava. E os dias passaram-se, os homens acostumaram-se [159]com ele, e amavam-lhe como se ele fosse uma imagem rara trazida àquela terra por seu adorno. Agora eles não mais o chamavam de Lanceiro, mas de Amante de Madeira. E quanto a ele, encarou tudo isso com paciência, aguardando o que lapso dos dias devia produzir.
ORIGINAL:
MORRIS, W. Story of the glittering plain, which has also been called the Land of living men, or the Acre of the undying. Boston: Roberts Brothers, 1892. pp.150-159. Disponível em: https://archive.org/details/story00morrofglitterinrich/page/151/mode/1up
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
Nenhum comentário:
Postar um comentário