Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XXVI Arco e Flecha

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[286]Três manhãs os pastores marcharam da mesma maneira, quando eles chegaram à vista de um grupo de colinas tão altas que, para Felix, pareciam montanhas. A casa da tribo ficava nessas colina, e, uma vez lá, eles ficavam comparativamente a salvo de ataque. No começo da primavera, quando a relva nos baixos ficava escassa, os rebanhos moviam-se para terras semelhantes a prados, longe nos vales; no verão, eles retornavam às colinas; no outono, eles iam para os vales novamente. Logo após o meio-dia do terceiro dia, os batedores relataram que um grande corpo de ciganos estava movendo-de em uma [287]direção que interromperia o curso deles para as colinas no dia seguinte.

Os chefes realizaram um conselho, e foi determinado que uma marcha forçada deveria ser realizada imediatamente por outra rota, mais à esquerda, e foi considerado que, dessa maneira, eles poderiam alcançar a base das encostas pela tarde. A distância não era grande, e poderia ter sido facilmente atravessada pelos homens; contudo, os rebanhos e as manadas, não poderiam ser tão apressados. Um mensageiro foi despachado para as colinas em busca de assistência, e a marcha começou. Era um movimento tedioso. Felix estava cansado e caminhava em um estado apático. Por volta das seis horas, como ele adivinhou, as árvores começaram a afinar, e a coluna alcançou as primeiras encostas das colinas. Aqui, aproximadamente trinta pastores juntaram-se a eles, um contingente do acampamento mais próximo. Considerava-se que o perigo tinha passado agora, e que os ciganos não os atacariam na colina; mas isso foi um erro.

Quase imediatamente, um grande grupo apareceu, avançando pela encosta à direita, não menos do que duzentos; e, a partir de seus movimentos abertos e números, era evidente que eles intencionavam batalha. Os rebanhos e as manadas foram conduzidos apressadamente para dentro de uma comba, ou vale estreito, e lá deixados ao seu destino. Todos os homens armados formaram um círculo; as mulheres ocuparam o centro. Felix assumiu a sua posição fora do círculo, perlo de um carvalho roído e decaído. Apenas ali havia uma leve elevação no solo, a qual ele sabia que lhe concederia alguma vantagem no disparo das suas flechas, e também possibilitaria a ele uma visão clara. Os amigos dele sinceramente suplicaram a ele para entrar no círculo, e [288]buscaram trazer-lhe para dentro à força, até que ele explicou a eles que ele não poderia atirar se cercado e prometeu que, se os ciganos atacassem, ele se apressaria para dentro.

Felix desamarrou a sua aljava e colocou-a no chão diante dele; uma segunda aljava ele colocou ao lado dela; quatro ou cinco flechas ele enfiou em posição vertical na relva, de modo que ele poderia pegá-las rapidamente; duas flechas ele segurava em sua mão direita, outra, ele ajustou à corda. Dessa maneira preparado, ele observava os ciganos avançarem. Ele chegaram caminhando com seus baixos cavalos resistentes dentro de uma meia milha, quando eles começaram a trotar encosta abaixo; eles não conseguiram cercar os pastores, por causa da comba de lados íngremes e algum matagal, e puderam avançar apenas em duas frentes. Felix logo ficou tão excitado que a sua visão foi afetada, e a cabeça dele girou. O coração dele bateu com tal velocidade que a respiração pareceu desaparecer. Os membros dele vacilaram e ele receou com o temor de que deveria enfraquecer.

Sua organização intensamente nervosa, esticada-se até o seu tom mais alto, sacudiu-o em seu aperto, e sua vontade foi impotente para a controla. Ele sentiu que deveria desgraçar-se uma vez mais diante desses pastores rudes mais bravos, quem não revelavam o menor sintoma de agitação. Por uma hora da coragem calma e completa ausência de nervosismo de Oliver ele teria dado anos da sua vida. Seus amigos no círculo observavam a sua agitação e renovavam as suas súplicas para ele entrar lá. Apenas isso foi necessário para completar a frustração dele. Ele perdeu completamente a cabeça; ele não viu nada exceto uma massa de amarelo e vermelho apressando-se na direção dele, pois cada um dos [289]ciganos usava um cachecol amarelo ou vermelho, alguns em volta do corpo, alguns sobre o ombro, outros em volta da cabeça. Eles agora estavam dentro de uma distância de trezentas jardas.

Um murmúrio dos lanceiros dos pastores. Felix tinha despachado uma flecha. Ela enfiou-se no chão, aproximadamente a vinte passos dele. Ele atirou novamente; ela voou selvagem e tremendo e caiu inofensivamente. Outro murmúrio; eles expressavam uns para os outros o seu desdém pelo arco. Isso imediatamente restaurou Felix; ele esqueceu-se do inimigo como um inimigo; ele esqueceu-se de si mesmo; ele pensou apenas em sua habilidade como um arqueiro, agora em questão. O orgulho encorajou-o. A terceira flecha ele ajustou apropriadamente na corda, ele plantou o pé levemente à frente, e olhou firmemente para o cavaleiro antes que ele sacasse o arco dele.

A uma distância de cento e cinquenta jardas eles tinham parado, e estavam espalhando-se de maneira a avançarem em fileira aberta livre e permitirem a cada homem lançar o seu dardo. Eles bradaram; os lanceiros no círculo responderam e nivelaram as suas armas. Felix fixou o seu olho em um dos ciganos que estava dando ordens e comandando o resto, um chefe. Ele puxou a flecha rapida mas quietamente, a corda zumbiu, e o teixo flexível obedeceu, e o longo arco disparou para frente, em um voo firme, veloz, como uma linha de teia de aranha desenhada através do ar. Ela errou o chefe, mas perfurou o cavalo no qual ele cavalgava, exatamente à frente da coxa do cavaleiro. O cavalo enlouquecido ergueu-se e caiu para trás sobre o cavaleiro.

Os lanceiros bradaram. Antes que o som pudesse deixar os lábios deles, outra flecha tinha voado; um cigano jogou suas armas com um grito; a flecha tinha atravessado o [290]corpo dele. Um terceiro, um quarto, um quinto – seis ciganos rolaram sobre o relvado. Brado após brado dos lanceiros rasgava o ar. Completamente desacostumados com essa forma de luta, os ciganos retrocederam. Ainda assim, as flechas fatais perseguiram-nos, e, antes que eles estivessem fora de alcance, outros três caíram. Agora, a fúria da batalha ardia em Felix; os olhos dele brilhavam, seus lábios estavam abertos, suas narinas abertas como a de um cavalo correndo uma corrida. Ele bradou para os lanceiros seguirem-no e, apanhando o seu arco, correu para frente. Juntos em um grupos, o bando de ciganos deliberava.

Felix correu à toda velocidade; veloz de pé, ele deixou o lanceiro pesado para trás. Sozinho ele aproximou-se dos cavaleiros; toda a coragem dos Aquila estava sobre ele. Ele manteve o terreno elevado enquanto corria e parou subitamente sobre uma pequena coluna ou túmulo. A flecha dele voou, um cigano caiu. Novamente, e um terceiro. A ira deles deu-lhes coragem fresca; ser repelido apenas por um! Vinte deles começaram a atacar e a correr com ele para baixo. As flechas penetrantes voavam mais rápidas do que os pés dos cavalos. Agora os cavalos e agora os homens encontravam aquelas pontas afiadas. Seis caíram; o resto retornou. Os pastores chegaram correndo; Felix ordenou que eles atacassem os ciganos. O sucesso dele lhe deu autoridade; eles obedeceram; e, enquanto eles atacavam, ele disparou mais nove flechas; mais nove ferimentos mortais. Subitamente o bando de ciganos virou-se e fugiu para o matagal nas encostas mais baixas.

Sem fôlego, Felix sentou-se sobre a colina, e os lanceiros acumularam-se em torno dele. Mal eles tinham começado a falar com ele então houve um grito, e eles viram um grupo [291]de pastores descendo a colina. Havia trezentos deles; avisada pelos mensageiros, a região inteira ergueu-se para repelir os ciganos. Tarde demais para se juntarem à luta, eles tinham visto o final dela. Eles examinaram o campo. Havia dez mortos e seis feridos, quem foram tomados como prisioneiros; o resto escapou, embora machucados. Em muitos casos as flechas tinham atravessado limpas o corpo. Então, pela primeira vez, eles entenderam o imenso poder do arco de teixo em mãos fortes e habilidosas.

Felix estava sobrecarregado; eles quase o esmagaram com suas atenções; as mulheres caíram aos pés dele e beijaram-nos. Mas o arqueiro escassamente conseguiu responder; a intensa excitação nervosa tinha deixado-o fraco e quase débil; sua única ideia era descansar. Enquanto ele caminhava de volta para o acampamento entre os chefes dos lanceiros dos pastores, os olhos dele fecharam, seus membros vacilaram, e eles tiveram de o suportar. No acampamento, ele jogou-se sobre o relvado, sobre o carvalho roído, e foi instantaneamente rápido para dormir. Imediatamente, o acampamento ficou em silêncio, para não o perturbar.

As aventuras dele nos pântanos da cidade enterrada, a sua canoa, o seu arquearia, foram falados durante toda a noite. Na manhã seguinte, o acampamento partiu para a sua casa nas montanhas, e ele foi escoltado por quase quatrocentos lanceiros. Eles tinham guardado para ele os ornamentos dos ciganos que tinham caído, brincos e anéis de nariz dourados. Ele deu-os para as mulheres, exceto um, um anel de dedo, encrustado com turquesa, e evidentemente de produção antiga, o qual ele guardou para Aurora. Duas marchas trouxeram-nos para a [292]casa da tribo, onde o resto dos lanceiros deixou-os. O lugar era chamado de Wolfstead.

Felix imediatamente viu quão facilmente este local poderia ser fortificado. Havia um vale profundo e estreito como um sulco ou uma trincheira verde abrindo-se para o sul. Na extremidade superior do vale, erguia-se uma colina, não muito alta, mas íngreme, estreita no cume e íngreme novamente no outro lado. Além dela havia um vale amplo, coberto por bosques e belo, além disso, novamente, as montanhas mais altas. Aqui, na direção do pé daquele cume estreito, havia uma sucessão de falésias de giz, de maneira que escalar desse lado, na face de oposição, seria extremamente difícil. No desfiladeiro do estreito vale cercado, uma fonte surgia. Os pastores tinham formado oito poços, uma depois do outro, a água sendo de grande importância para eles; e mais diante abaixo, onde o vale se abria, havia quarenta ou cinquenta acres de campina irrigada. A fonte então corria em um riacho considerável, através do qual ficava a floresta.

A ideia de Felix era correr uma paliçada ao longo da margem do riacho, e até os dois lados do vale até o cume. As bordas do penhasco de giz ele conectaria com uma paliçada ou parede, e, dessa maneira, formaria uma cercada completa. Ele mencionou o seu esquema para os pastores; eles não se importaram muito com ele, visto que eles sempre estiveram seguros sem ele, a natureza acidentada da região não permitindo que cavaleiros penetrassem. Mas eles estavam tão completamente sob a influência dele que, para o agradar, eles começaram a trabalhar. Ele teve de mostrar a eles como construir a paliçada; eles nunca tinham visto uma, e ele mesmo construiu [293]a primeira parte dela. Na construção de uma parede com pedras soltas, sem argamassa, os pastores eram habilidosos; a parede ao longo da borda dos penhascos logo estava alta, e também estava o forte no topo do cume. O forte consistia meramente em uma parede circular, de peito alto, com embrasura e ameias.

Quando isso estava terminado, Felix teve uma sensação de maestria, pois, neste forte, ele sentiu como se ele pudesse governar o país inteiro. Diariamente pastores chegavam das partes mais distantes para verem o famoso arqueiro e para admirarem a cercada. Embora a ideia dela nunca tivesse ocorrido a eles, agora que eles a viam, eles entenderam completamente as suas vantagens, e dois outros chefes começaram a erigirem fortes e paliçadas semelhantes.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.286-293. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/286/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo XX Sozinho com o Povo-besta

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[211]Eu encarava essas pessoas, encarando meu destino nelas, agora sozinho, - literalmente com uma mão, pois eu tinha um braço quebrado. Em meu bolso estava um revólver com duas câmaras vazias. Entre as lascas espalhadas sobre a praia estavam os dois machados que tinham sido usado para despedaçar os botes. A maré estava arrastando-se atrás de mim. Não havia nada em prol disso, exceto coragem. Eu olhei diretamente nos rosto dos monstros que estavam avançando. Eles evitavam os meus olhos, e seus narinas trêmulas investigavam os corpos que se estendiam além de mim na praia. Eu dei uma dúzia de passos, peguei um chicote manchado de sangue que estava sob o corpo do homem-lobo e estalei-o. Eles pararam e encararam-me.

Saudações!” eu disse. “Curvem-se!”

Eles hesitaram. Um dobrou os joelhos. Eu repeti meu comando, com meu coração em minha boca, e avancei sobre eles. Um ajoelhou-se, em seguida, os outros dois.

[212]Eu virei-me e caminhei na direção dos corpos dos mortos, mantendo o meu rosto na direção dos três homens-besta ajoelhados, exatamente como um ator passando pelo palco encara a audiência.

Eles infringiram a Lei,” eu disse, colocando o meu pé sobre o Pronunciador da Lei. “Eles foram mortos, - até o Pronunciador da Lei; mesmo o Outro com o Chicote. Grande é a Lei! Venham e vejam.”

Ninguém escapa,” disse um deles, avançando e espreitando.

Ninguém escapa,” eu disse. “Portanto, ouçam-se e façam como eu comando.” Eles colocaram-se de pé, olhando interrogativamente uns para os outros.

Permaneçam aí,” eu disse.

Eu peguei as machadinhas e girei-as pelas cabeças delas a partir da tipoia do meu braço; virei Montgomery para cima; peguei o seu revólver, ainda carregado em duas câmaras, e, curvando para revistar, encontrei meia dúzia de cartuchos em seu bolso.

Peguem-no,” eu disse, ficando novamente de pé e apontando com o chicote; “peguem-no, carreguem-no para fora e joguem-no ao mar.”

Eles avançaram, evidentemente ainda com medo de [213]Montgomery, mas ainda com mais medo do estalido da correia do chicote por mim; e, após alguma inépcia e hesitação, algum estalar de chicote e bradar, eles ergueram-lhe cautelosamente, carregaram-no para a praia abaixo, e entraram respingando na confusão deslumbrante do mar.

Adiante!” eu disse, “adiante! Carreguem-no para longe.”

Eles ergueram-no até as axilas deles e permaneceram observando-me com atenção.

Vamos,” eu disse; e o corpo de Montgomery desapareceu com um respingo. Alguma coisa pareceu apertar através do meu peito.

Bom!” eu disse, com uma pausa em minha voz; e ele retornaram, apressando-se e temerosos, para a margem da água, deixando grandes sulcos de preto na prata. À beira da água, eles pararam, virando-se e encarando o mar, como se eles logo esperassem Montgomery ascender de lá e exigir vingança.

Agora esses,” eu disse, apontando para os outros corpos.

Eles tomaram cuidado para não se aproximarem do lugar onde eles tinham jogado Montgomery dentro da água, mas, em vez disso, carregaram os quatro do povo-besta obliquamente ao longo da praia por, talvez, uma [214]centena de jardas antes que eles passeassem e descartassem-nos.

Enquanto os observava dispondo dos restos mutilados de M’ling, eu ouvi passadas leves atrás e mim e, virando-me rapidamente, eu vi a grande hiena-suíno talvez a umas doze jardas de distância. A cabeça dela estava curvada, seus olhos brilhantes estavam fixos em mim, as suas mãos atarracadas, cerradas e mantidas perto ao lado dela. Ela parou nessa atitude agachada quando eu me virei, os olhos dela um pouco desviados.

Por um momento nós permanecemos de olho no olho. Eu larguei o chicote e arrebatei a pistola no meu bolso; pois eu pretendia matar esse bruto; o mais formidável de qualquer um agora deixado nesta ilha, ao primeiro pretexto. Isso pode parece traiçoeiro, mas assim eu estava resolvido. Eu estava com muito mais medo dele do que quaisquer outros dois do povo-besta. Eu sabia que a sua vida continuada era uma ameaça à minha.

Talvez eu estivesse por doze segundo reunindo a mim mesmo. Então, eu bradei, “Saudações! Curve-se!”

Os dentes dela brilharam sobre mim em um rosnado. “Quem é você para que eu deva -”

Talvez um pouco muito espasmodicamente, eu saquei o meu [215]revólver, mirei rapidamente e atirei. Eu ouvi ela ganir, vi ela correr lateralmente e virar-se, sabia que eu tinha errado, e estalei de volta o gatilho com meu dedão para o próximo tiro. Mas ela já estava correndo para frente, pulando de lado a lado, e eu não me atrevi a arriscar outro erro. De vez em quando ela olhava para trás sobre o ombro dela. Ela seguiu inclinado-se ao longo da praia e desapareceu sob as massas motrizes de fumaça densa que ainda estavam vazando da cercada em chamas. Por algum tempo eu permaneci observando-o. Eu voltei-me novamente para os meus três obedientes do povo-besta e sinalizei para eles largarem o corpo que eles ainda carregavam. Em seguida, eu voltei para o lugar perto da fogueira onde os corpos tinham caído e chutei a areia até que as manchas marrons de sangue fossem absorvidas e ocultas.

Eu liberei meus três servos com um aceno de mão, e subi a praia para dentro das matas. Eu carreguei minha pistola em minha mão, meu cabo do chicote com as machadinhas na tipoia do meu braço. Eu estava ansioso para ficar sozinho, para pensar sobre a posição na qual eu agora estava colocado. Uma coisa terrível, que apenas agora eu estava começando a compreender, era que, através de toda essa ilha, agora, não havia nenhum [216]lugar seguro onde eu poderia ficar sozinho e seguro para descansar ou dormir. Eu tinha recuperado maravilhosamente a força desde o meu desembarque, mas eu ainda estava inclinado a ficar nervoso e falhar sob qualquer grande estresse. Eu senti que devia cruzar a ilha e estabelecer-me com o povo-besta, e tornar-me seguro em sua confiança. Mas meu coração falhava-me. Eu retornei à praia, e, virando na direção oriental, passei a cercada queimada, dirigi-me para um ponto onde uma ponta rasa de areia de coral corria na direção do recife. Aqui eu pude me sentar e pensar, minhas costas para o mar e meu rosto contra qualquer surpresa. E ali eu me sentei, queixo nos joelhos, o sol batendo sobre a minha cabeça e pavor indescritível em minha mente, maquinando como eu poderia continuar a viver no caso da hora do meu resgate (se alguma vez o resgate viesse). Eu tentei revisar a situação inteira tão calmamente quanto eu pude, mas era difícil clarear a coisa de emoção.

Eu comecei a ponderar em minha mente a razão do desespero de Montgomery. “Eles mudarão,” ele disse; “é certo que eles mudarão.” E Moreau, o que foi que Moreau tinha dito? “A teimosa carne da besta cresce novamente, dia a dia.” Então, eu retornei à [217]hiena-suíno. Eu senti que, seu não matasse aquele bruto, ele me mataria. O Pronunciador da Lei estava morto: pior sorte. Agora eles sabiam que nós dos Chicotes podíamos ser mortos, exatamente como eles mesmos eram mortos. Eles já estavam espreitando-me, a partir das massas verdes de samambaias e palmas acolá, esperando até que eu chegasse dentro do alcance do seu pulo? Ele estavam maquinando contra mim? O que a hiena-suíno estava contando a eles? Minha imaginação estava fugindo comigo para dentro de um pântano de medos insubstanciais.

Meus pensamentos foram perturbados por um grito de aves marinhas apressando-se na direção de algum objeto negro que tinha ficado encalhado na praia perto da cercada pelas ondas. Eu sabia o que era aquele objeto, mas eu não tive o coração para voltar e forçá-lo a sair. Eu comecei a andar ao longo da praia na direção oposta, projetando circular o canto oriental e, dessa maneira, aproximar-me da ravina das cabanas, sem atravessar as emboscadas possíveis das matas.

Talvez a uma meia milha ao longo da praia eu tornei-me ciente de um dos meus três do povo-besta avançando [218]na minha direção para fora dos arbustos na terra. Eu agora estava tão nervoso com minha próprias imaginações que imediatamente saquei meu revólver. Mesmo os gestos conciliadores da criatura falharam em me desarmar. Ele hesitou conforme eu me aproximava.

Vá embora!” Gritei.

Havia alguma coisa muito sugestiva de um cão na atitude encolhida da criatura. Ela recuou um pouco, exatamente como um cão sendo enviado para casa, e parou, olhando para mim suplicantemente com caninos olhos marrons.

Vá embora,” eu disse. “Não se aproxime de mim.”

Eu não posso chegar perto de você?” ele disse.

Não; vá embora,” eu insisti, e estalei meu chicote. Em seguida, colocando o chicote nos meus dentes, eu parei em busca de uma pedra e, com aquela ameça, expulsei a criatura.

Assim, em solidão, eu retornei à ravina do povo-besta, e, ocultando-me entre as ervas daninhas e canas que separavam esta abertura do mar, eu observei tais deles conforme apareciam, tentando julgar os seus gestos e aparência, como as mortes de Moreau e Montgomery e a destruição da Casa da Dor tinha afetado-os. [219]Agora eu conhecia a loucura da minha covardia. Tivesse eu mantido minha coragem elevada ao nível da aurora, não tivesse eu permitido decair em pensamento solitário, eu poderia ter agarrado o cetro vago de Moreau e dominado o povo-besta. Como estava, eu tinha perdido a oportunidade, e afundado à posição de um mero líder em meio aos meus companheiros.

Pelo meio-dia, alguns deles vieram e agacharam-se aquecendo-se na areia quente. As vozes imperiosas da fome e sede prevaleceram sobre o meu temor. Eu saí dos arbustos, e, revólver na mão, caminhei na direção dessas criaturas sentadas abaixo. Uma, uma mulher-lobo, virou sua cabeça e encarou-me, e, em seguida, os outros. Nenhum tentou levantar-se ou saudar-me. Eu sentia-me muito fraco e cansado para insistir, e eu deixei o momento passar.

Eu quero comida,” eu disse, quase apologeticamente, e aproximando-me.

Há comida nas cabanas,” disse um homem-javali-boi, sonolentamente, e olhando para longe de mim.

Eu passei por eles e desci para a escuridão e os odores da ravina quase deserta. [220]Em uma cabana, eu regalei-me em alguma fruta manchada e meio deteriorada; e, em seguida, depois de eu ter apoiado alguns galhos e varas em torno da abertura, e colocado a mim mesmo com o rosto virado na direção dela, e minha mão sobre o revólver, a exaustão das últimas trinta horas reivindicou a sim mesma, e eu caí em uma leve soneca, esperando que a frágil barricada que eu tinha erigido causaria ruído suficiente em sua remoção para me salvar de uma surpresa.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 211-220. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/211/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XXV Os Pastores

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[276]Por quatro dias Felix permaneceu na ilha recuperando sua força. Gradualmente, a memória das cenas que ele tinha testemunhado tornou-se menos vívida, e os nervos dele recobraram a sua qualidade. Na quinta manhã ele navegou novamente, seguindo diretamente para o sul com uma brisa gentil do oeste, a qual se adaptava muito bem à canoa. Ele considerou que agora estava na extremidade oriental do Lago e que, navegando para o sul, ele logo deveria alcançar o lugar onde a costa virava-se novamente para o oeste. A proa afiada da [277]canoa cortava velozmente através das ondas, um leve borrifo voava ocasionalmente até o rosto dele, e o vento soprava agradavelmente. No céu sem nuvens, andorinhas e gaviões estavam voando em círculos, e, na água, uma meia dúzia de patos selvagens movia-se para o lado para o deixar passar.

Aproximadamente duas horas após ele ter partido, ele encontrou uma neblina, a qual surgiu suavemente com o vento sobre a superfície da água, e, em um instante, bloqueou toda a vista. Mesmo o sol ficou escassamente visível. Estava muito quente, e nenhuma umidade restou. Em cinco minutos, ele atravessou-a e emergiu novamente à brilhante luz do sol. Essas neblinas secas, quentes, são frequentemente vistas no Lago durante o verão, e acredita-se que pressagiem a continuação de clima bom.

Felix manteve uma boa distância da terra firme, a qual era coberta por colinas e bosques, e com poucas ilhas. Logo ele observou, à extrema distância, no seu lado direito, uma linha de colinas montanhas, a qual ele supôs ser a costa sul do Lago, e que ele estava navegando para dentro de um golfo ou baía. Ele debateu consigo mesmo se ele deveria alterar o seu curso e laborar através das montanhas, ou continuar a traçar a costa. A menos que ele traçasse a costa, ele escassamente podia dizer que ele tinha circunavegado o Lago, visto que ele teria deixado a grande baía inexplorada. Portanto, ele continuou a navegar diretamente para o sul.

O ventou refrescou perto do meio-dia, e a canoa flutuava em um grande ritmo. Duas vezes ele passou através de névoas similares. Agora absolutamente não haviam ilhas, apenas uma linha de falésias de giz marcava a costa. Considerando que ela deveria ser profunda, e segura para fazê-lo, Felix manteve-a mais perto para examinar a [278]terra. Bosques corriam ao longo das colinas direto para a margem da falésia, mas ele não viu sinais de habitantes, nem fumaça, bote ou casa. O som da ressaca batendo na praia era audível, embora as ondas não fossem grandes. Sobre a falésia, ele notou uma pipa planar, a uma grande altura.

Imediatamente depois, ele deparou-se com outra neblina ou vapor, mais espessa, se alguma coisa, a qual obscureceu bastante a visão dele. Ela parecia como uma grande nuvem sobre a superfície da água, e maior do que aquelas nas quais ele anteriormente tinha entrado. Subitamente a canoa parou com um tremendo sacudido, o qual o jogou para frente sobre os joelhos, o mastro quebrou e houve um ruído de madeira rachando. Tão logo ele conseguiu levantar-se, Felix viu, para sua amarga tristeza, que a canoa tinha rachado longitudinalmente; a água surgia através da rachadura, e o bote era mantido junto apenas pelos feixes do estabilizador. Ele tinha encalhado sobre um grande pederneira afiada incrustada em um chão de gesso, a qual tinha rachado a madeira de álamo da canoa como um machado. A viagem estava acabada, pois o menor esforço faria a canoa partir-se em duas e, se ela fosse removida pela água, o chão seria alagado. Em um meio minuto, a neblina passou, deixando-o no dia brilhante, naufragado.

Felix agora descobriu que as águas eram brancas com gesso suspenso e, auscultando com o remo, descobriu que a profundidade era de apenas umas poucas polegadas. Ele tinha se movido à velocidade máxima sobre um recife. Não havia perigo, pois a distância até a costa dificilmente era de duzentas jardas, e, julgando pela aparência da água, ela era rasa todo o [279]caminho. Mas esta canoa, o produto de tanto labor, e na qual ele tinha viajado tão longe, a sua canoa, estava destruída. Ele não podia repará-la; ele duvida de se isso poderia ter sido realizado com sucesso mesmo em casa, com Oliver para o ajudar. Ele não mais poderia navegar; não havia mais nada, exceto chegar à costa e viajar a pé. Se o vento se elevasse mais, as ondas quebrariam inteiramente sobre ela, e ela se fragmentaria.

Com um coração pesado, Felix pegou o seu remo e caminhou borda afora do canoa. Sentindo com o remo, ele mediu a profundidade diante dele, e, como ele esperava caminhou o caminho todo até a costa, não mais profundo do que seus joelhos. Isso foi favorável, visto que permitiu a ele transportar as coisas para a terra sem perda. Ele enrolou as ferramentas e manuscritos em uma das suas peles de caçador. Quando toda a carga tinha sido desembarcada, ele sentou-se tristemente aos pés da falésia, ele olhou para o mastro quebrado e a vela, ainda se agitando inutilmente à brisa.

Demorou um longo tempo antes que ele se recuperasse, e começasse a trabalhar, mecanicamente, para enterrar a besta, as peles de caçador, as ferramentes e os manuscritos, sob um monte de seixos. Quanto à falésia, embora baixa, era perpendicular, e ele não conseguiu o escalar, senão ele teria preferido escondê-los nos bosques acima. Empilhar seixos sobre eles foi o melhor que ele consegui fazer pelo presente; ele pretendia retornar a eles quando ele descobrisse uma caminho falésia acima. Em seguida, ele partiu, levando apenas o seu arco e flechas.

Mas nenhum tal caminho devia ser encontrado; ele caminhou sem parar, até que ficou cansado, e ainda o penhasco corria como uma muralha sobre sua mão [280]esquerda. Após uma hora de descanso ele partiu novamente; quando o sol estava declinando, ele chegou subitamente a uma brecha na falésia, onde um relvado coberto por grama chegava à costa. Agora era tarde demais, e e ele estava muito cansado, para pensar em retornar em busca das suas coisas naquela tarde. Ele fez uma refeição escassa e tentou descansar. Mas a excitação da perda da canoa, a longa marcha desde então, a falta de boa comida, tudo tendia a torná-lo desassossegado. Cansado, ele não conseguia descansar, nem se mover adiante. O tempo passava lentamente, o sol afundou-se, o vento cessou; após um tempo interminável, as estrelas apareceram, e ele ainda não conseguia dormir. Ele tinha escolhido um lugar sob um carvalho em uma encosta verde. A noite era quente, e mesmo abafada, de maneira que ele não sentiu falta da sua cobertura, mas não havia descanso nele. Pela aurora, a qual chegou muito cedo naquela temporada, ele finalmente acordou, com suas costas para a árvore. Ele acordou, com um sobressalto em ampla luz do dia, para ver um homem de pé diante dele, armado com uma longa lança.

Felix pulou para ficar de pé, instintivamente sentindo em busca da sua faca de caça; mas ele viu que nenhum prejuízo era intencionado, pois o homem estava apoiando-se na haste de sua arma, e, é claro, se ele tivesse desejado, poderia tê-lo transpassado enquanto dormindo. Eles olharam um para o outro por um momento. O estanho estava envolto em uma túnica e usava um chapéu de palha trançada. Ele era muito alto e de constituição forte; sua única arma, uma lança de duas vezes a sua própria altura. A sua barba descia até o peito. Ele falou com Felix em um dialeto que o segundo não entendeu. Felix ergueu a mão como um sinal de amizade, o qual o outro [281]aceitou. Ele falou novamente. Por sua parte, Felix tentou explicar o seu bote naufragado, quando uma palavra que o estranho proferiu recordou à memória de Felix o dialeto peculiar usado pela raça dos pastores nas colinas na vizinhança da sua casa.

Ele falou nesse dialeto, o qual o estranho, em parte, finalmente entendeu, e o som do qual imediatamente o tornou mais amigável. Gradualmente eles compreenderam mais facilmente o significado um do outro, visto que o pastor tinha vindo através do mesmo caminho e tinha visto os destroços da canoa. Felix aprendeu que o pastor era um batedor enviado adiante para ver se a estrada estava limpa de inimigos. A tribo dele estava em marcha com rebanhos, e, para evitar os bosques e colinas íngremes que ali bloqueavam o seu curso, eles tinha seguido a praia plana e aberta ao pé da falésia, cientes, é claro, da brecha que Felix tinha encontrado. Enquanto eles estavam conversando, Felix viu a nuvem de poeira erguida pelas ovelhas conforme os rebanhos serpenteavam em torno de um contraforte saliente do penhasco.

O amigo dele explicou que eles marchavam à noite e de manhã cedo para evitar o calor do dia. A proposta parada deles estava perto à mão; ele tinha de prosseguir e ver se tudo estava livre. Felix acompanhou-o e encontrou, no interior do bosque, no cume, uma comba coberta por grama, onde uma fonte surgia. O pastor largou sua lança e começou a represar o canal da fonte com pedras, sílex e torrões de terra, para formar um poço do qual as ovelhas poderiam beber. Felix auxiliou-o, e a água velozmente começou a subir.

[282]Aos rebanhos não era permitido se apressarem tumultuosamente para a água; ele vinham em aproximadamente cinquenta por vez, cada divisão com seus pastores e seus cães, de modo que a confusão era evitada e todos tinham a sua parte. Havia aproximadamente vinte dessas divisões, além de oitenta vacas e uns poucos bodes. Eles não tinham cavalos; a bagagem deles vinha nas costas de asnos.

Após a inteireza dos rebanhos e das manadas terem recebido água, várias fogueiras foram acessas pelas mulheres, quem, em estatura e dureza, escassamente se diferenciavam dos homens. Apenas depois desse trabalho estar terminado, os outros se reuniram em torno de Felix para ouvir a história dele. Descobrindo que ele estava faminto, eles correram à bagagem em busca de comida, e empurraram para ele um pouco de pão negro, abundante queijo e manteiga, língua seca, e chifres de hidromel. Ele não conseguiu devorar a quinquagésima parte do que esse povo hospitaleiro trouxe para ele. Não tendo nada mais a lhes dar, ele pegou do seu bolso uma das moedas de ouro que tinha trazido do lugar da cidade antiga e ofereceu a eles.

Eles riram e fizeram ele entender que isso não era de valor para eles; mas eles passaram-no de mão em mão, e ele notou que eles começaram a olhar curiosamente para ele. A partir de sua aparência escurecida eles conjecturaram de onde ele tinha obtido aquilo; um, também, apontou para os sapatos dele, os quais ainda estavam escurecidos, e pareciam ter sido chamuscados. Agora o acampamento inteiro pressionava-o, a admiração e o interesse deles elevando-se a uma grande intensidade. Com alguma dificuldade, Felix descreveu a sua jornada através do lugar da cidade antiga, interrompido por constantes exclamações, questões [283]e conversações excitadas. Ele contou-lhes tudo, exceto sobre o diamante.

As maneiras deles em relação a ele alteraram-se perceptivelmente. Desde o início eles tinham sido hospitaleiros; agora eles se tornaram respeitosos e mesmo reverentes. Os anciãos e os seus chefes, não sendo distinguidos do restante por vestimenta ou ornamento, tratavam-no com cerimônia e deferência marcada. As crianças eram trazidas para o ver e mesmo o tocar. Tão grande era a admiração deles de que alguém devesse ter escapado daqueles vapores pestilentos, que eles atribuíam isso à intervenção divina e olhavam para ele com um pouco do temor da superstição. Pediram a ele para permanecer completamente com eles, e assumir o comando da tribo.

O segundo Felix recusou; para permanecer com eles por enquanto, pelo menos, é claro, ele estava suficiente disposto. Ele mencionou suas posses escondidas, e levantou-se para retornar a elas, mas eles não o permitiriam. Dois homens partiram imediatamente. Ele deu-lhes as orientações do lugar, e eles não tiveram a menor dúvida senão que eles deviam encontrá-lo, especialmente como, o vento estando parado, a canoa ainda não teria quebrado, e guiá-los-ia. A tribo permaneceu na comba verde o dia inteiro, descansando da sua longa jornada. Eles cansaram Felix com questões, contudo, ele respondeu-lhes tão copiosamente quanto ele podia; ele sentia-se tão agradecido pela bondade deles para não os satisfazer. O arco dele foi manejado, as flechas carregadas de um lado para o outro, de modo que, pela primeira vez, a aljava ficou vazia, e as flechas espalhadas em vinte mãos. Ele espantava-lhes ao [284]exibir sua habilidade com a arma, atingindo uma árvore com uma flecha a quase trezentas jardas.

É claro, embora familiares com o arco, eles nunca tinha visto tiro como aquele, nem, de fato, qualquer arquearia exceto em distâncias curtas. Eles mesmos não tinham outras armas, exceto lanças e faca. Vendo uma das mulheres cortando os galhos de uma árvore caída, morta e seca, e, portanto, preferível para combustível, Felix naturalmente foi ajudá-la, e, tomando o machado, logo produziu um fardo, o qual foi carregado por ela. Era o dever dele como um nobre providenciar para que nenhuma mulher, nem uma escrava, laborasse; ele tinha sido criado nessa ideia, e teria sentido-se desgraçado tivesse ele permitido isso. As mulheres olhavam com admiração, pois, nessas tribos rudes, o labor das mulheres era considerado valioso e estimado como aquele de um cavalo.

Dessa forma, sem nenhum desígnio consciente, em um dia, Felix conciliou e conquistou a estima dos dois partidos mais poderosos no acampamento, o dos chefes e o das mulheres. Por sua recusa ao comando, os chefes ficaram lisonjeados, e a possível hostilidade a ele foi evitada. O ato de cortar madeira e carregar o fardo deu-lhe os corações da mulheres. De fato, elas não consideravam o trabalho delas em qualquer grau opressivo; contudo, ser liberado dele era agradável.

O dois homens que tinham ido em busca do tesouro enterrado de Felix não retornaram até o café da manhã da próxima manhã. Eles caminharam para dentro do acampamento, cada qual com sua lança avermelhada e pingando com sangue fresco. Logo que Felix viu o sangue ele enfraqueceu. Ele recuperou-se rapidamente, mas não conseguiu suportar [285]a visão das lanças, as quais foram removidas e escondidas da sua visão. Ele tinha visto sangue suficiente ser derramado no cerco de Iwis, mas isso veio sobre ele com todo o seu horror, não aliviado pela excitação da guerra.

Os dois pastores tinham sido seguidos insistentemente por ciganos, e tinham sido obrigados a fazer um desvio para escapar. Eles vingaram-se escalando árvores e, quando os seus perseguidores passaram por baixo, trespassaram-lhes com suas longas lanças. Os pastores, como todas as tribos relacionadas a eles, tinham estado em contenda com os ciganos por muitas gerações. Os ciganos seguiam-lhe para e a partir dos seus pastos, isolavam retardatários, destruíam ou roubavam suas ovelhas e gado, e, de vez em quando, dominavam uma tribo inteira. Recentemente, a disputa tinha se tornado mais sanguinária e quase incessante.

Montados em cavalos velozes, embora pequenos, os ciganos tinham a vantagem sobre os pastores. Por outro lado, os pastores, sendo homens de grande estatura e força, não poderiam ser dominados por uma arremetida se eles tivessem tempo de formar um círculo, como era o seu costume de batalha. Eles perdiam muitos homens pelos dardos lançados pelos ciganos, quem cavalgavam até a borda do círculo, lançavam seus dardos e retiravam-se. Se os pastores deixassem o seu círculo, cavalgava-se facilmente sobre eles; enquanto eles mantinham a formação, eles perdiam indivíduos, mas salvavam a massa. As batalhas eram de ocorrência rara; os ciganos esperavam por oportunidades e executavam incursões, os pastores retaliavam, e, dessa maneira, a guerra sem fim continuava. Invariavelmente, os pastores posicionavam sentinelas e enviavam batedores adiante para averiguar se o caminho estava limpo. Acostumados com as horríveis cenas de guerra desde a [286]infância, eles não podiam entender a sensibilidade de Felix.

Eles riram e, em seguida, acariciaram-lhe como uma criança mimada. Isso o irritou excessivamente; ele sentiu-se humilhado e ansioso para reafirmar a sua masculinidade. Antes, ele estava desejoso de permanecer com ele por um tempo, nada o teria induzido a deixar-lhes, agora, até que ele tivesse justificado a si mesmo à vista deles. Esse incidente aconteceu logo depois do nascer do sol, o que era muito cedo no final de junho. O acampamento apenas tinha esperado pelo retorno desses homens, e, com o aparecimento deles, começou a mover-se. A marcha naquela manhã não foi longa, visto que o céu estava claro e calor logo cansou os rebanhos. Felix acompanhou o batedor com antecedência, armado com o seu arco, ansioso para encontrar os ciganos.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.276-286. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/276/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo XIX “O Feriado Bancário” de Montgomery

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[197]Quando isso foi realizado, e nós tínhamos nos banhado e comido, Montgomery e eu entramos no meu pequeno quarto e, pela primeira vez, discutimos a nossa posição. Era então perto da meia-noite. Ele estava quase sóbrio, mas grandemente perturbado em sua mente. Ele tinha estado estranhamente sob a influência da personalidade de Moreau: eu não penso que alguma vez tenha ocorrido a ele que Moreau poderia morrer. Esse desastre foi o colapso súbito dos hábitos que tinham se tornado parte da natureza dele nos dez ou mais anos monótonos que ele tinha despendido nesta ilha. Ele falava vagamente, respondia às minhas questões tortuosamente, errando em questões gerais.

Este é um mundo idiota como um asno,” ele disse; “que confusão tudo isso é! Eu pergunto-me quando começará. Dezesseis anos sendo maltratado por cuidadores e professores segundo suas doces vontades; cinco em Londres, laborando duramente na medicina, comida ruim, alojamentos miseráveis, [198]roupas miseráveis, vício miserável, uma tolice, - eu não conhecia nada melhor, - e forçado para esta ilha bestial. Dez anos aqui! Para que tudo isso, Prendick? Somos bolhas estouradas por um bebê?”

Era difícil lidar com tais delírios. “A coisa na qual nós temos de pensar agora,” eu disse, “é como escapar desta ilha.”

Qual o bem em escapar? Eu sou um pária. Onde eu devo juntar-me? Está tudo muito bem para você, Prendick. Pobre velho Moreau! Nós não podemos deixá-lo aqui para ter os ossos dele roubados. Como é – e, além disso, o que será da parte decente do povo-besta?”

Bem,” eu disse, “isso nós faremos amanhã. Eu estive pensando que nós poderíamos fazer aquele matagal em uma pira e queimar o corpo dele – e dessas outras coisas. Em seguida, o que acontecerá com o povo-besta? ”

Eu não sei. Eu suponho que aqueles que foram criados a partir de predadores farão de si mesmos asnos estúpidos, mais cedo ou mais tarde. Nós não podemos massacrar o grupo – podemos? Eu suponho que é isso o que a sua humanidade sugeriria? Mas eles mudarão. É certo que eles mudarão.”

[199]Ele falou inconclusivamente dessa maneira até que, finalmente, eu senti meu temperamento esgotando-se.

Inferno!” Ele exclamou diante de alguma petulância minha; “você não consegue ver que eu estou em um buraco pior do que o que você está?” E ele levantou-se e caminhou até o conhaque. “Beba!” disse ele retornando, “seu ser de argumentos confusos, santo cara de giz de um ateísta, beba!”

Não, eu,” eu disse, e sentei-me observando seriamente o rosto dele sob a amarela labareda de parafina, enquanto ele bebia até levar a si mesmo a uma miséria tagarela.

Eu tenho a memória de um tédio infinito. Ele perdeu-se em uma defesa piegas do povo-besta e de M’ling. Ele disse que M’ling foi a única coisa que alguma vez realmente tinha se importado com ele. E, subitamente, uma ideia ocorreu-lhe.

Eu estou condenado!” ele disse, vacilando sobre seus pés e pegando a garrafa de conhaque.

Através de algum lampejo de intuição, eu sabia que era isso que ele intencionava. “Não dê bebida aquela besta!” Eu disse, levantando-me e encarando-o.

Besta!” disse ele. “Você é a besta. Ele toma o licor dele como um cristão. Saia do caminho, Prendick!”

Pelo amor de Deus,” eu disse.

[200]Saia – do caminho!” Ele rugiu e, subitamente, sacou seu revólver.

Muito bem,” eu disse, e coloquei-me de lado, quase inclinado a cair sobre ele, enquanto ele colocava a mão sobre o trinco, mas dissuadido ao pensar em meu braço inútil. “Você fez de si mesmo uma besta – para as bestas você pode ir.”

Ele fugiu pela entrada aberta e ficou de pé quase me encarando entre a amarela luz da lamparina e o pálido brilho da lua; as suas cavidades oculares eram manchas de preto sobre as sobrancelhas eriçadas.

Você é um presunçoso solene, Prendick, um asno estúpido! Você está sempre temendo e fantasiando. Nós estamos no limite das coisas. Eu estou destinado a cortar minha garganta amanhã. Eu terei um maldito Feriado Bancário hoje a noite.” Ele virou-se e caminhou à luz da lua. “M’ling!” ele bradou; “M’ling, velho amigo!”

À luz da lua, três criaturas sombrias surgiram na borda da praia pálida, - uma, uma criatura enfaixada em branco, as outras duas, manchas de escuridão seguindo-a. Elas pararam, olhando fixamente. Em seguida, eu vi os ombros curvados de M’ling enquanto ele circulava o canto da casa.

[201]“Bebam!” gritou Montgomery, “bebam, seus brutos! Bebam e sejam homens! Maldito seja, eu sou o mais esperto. Moreau esqueceu-se disso; esse é o último toque. Bebem, eu digo a vocês!” E, agitando a garrafa com sua mão, ele partiu em um tipo de trote rápido para o oeste, M’ling enfileirando-se entre ele e as três criaturas sombrias que o seguiam.

Eu fui para a entrada. Eles já eram indistintos na névoa da luz da lua antes que Montgomery parasse. Eu vi ele dar uma dose de puro conhaque a M’ling, e viu as quatro figuras dissolverem-se em uma mancha vaga.

Cantem!” eu ouvi Montgomery bradar, “cantem todos juntos, ‘Perturbem o velho Prendick!’ isso mesmo; agora novamente, ‘Perturbem o velho Prendick!’”

O grupo negro dispersou-se em cinco figuras separadas, e serpentearam lentamente para longe de mim ao longo da fixa de praia brilhante. Cada um caminhando berrando segundo a sua doce vontade, ganindo insultos para mim, ou dando qualquer outra vazão que essa nova inspiração de conhaque exigia. Logo eu ouvi a voz de Montgomery brandando, “Virar à direita!” e eles passaram, com seus brados e gemidos, para dentro da [202]escuridão das árvores na direção da terra. Lentamente, muito lentamente, eles recederem ao silêncio.

O esplendor pacífico da noite melhorou novamente. A lua agora tinha passado o meridiano e estava viajando até o oeste. Ela estava cheia e muito brilhante, cavalgando através do vazio céu azul. A sombra da parede estendia-se, a uma jarda de largura e de uma escuridão tintosa, aos meus pés. O mar oriental era de um cinza inexpressivo, escuro e misterioso; e entre o mar e a sombra, as areias cinzas (de vidro vulcânico e cristais) brilhavam e reluziam como uma praia de diamantes. Atrás de mim, a lâmpada de parafina chamejava quente e avermelhada.

Então eu fechei a porta, tranquei-a, e entrei na cercada onde Moreau jaz ao lado de suas últimas vítima, - os cães de caça e a lhama e alguns outros brutos miseráveis, com seu massivo rosto calmo mesmo depois da sua morte horrível, e com os duros olhos abertos, encarando a morta lua branca acima. Eu sentei-me à borda do antro e, com meus olhos sobre aquela pilha medonha de luz prateada e sombras sinistras, comecei a considerar meus planos. Pela manhã, eu reuniria algumas provisões no bote [203]e, após tocar fogo na pilha diante de mim, lançar-me-ia à desolação do alto mar uma vez mais. Eu sentia que para Montgomery não havia ajuda; que, em verdade, ele estava quase aparentado com esses do povo-besta, impróprio para o parentesco humano.

Eu não sei por quanto tempo eu permaneci ali esquematizando. Deve ter sido por uma hora ou algo assim. Em seguida, meu planejamento foi interrompido pelo retorno de Montgomery à minha vizinhança. Eu ouvi uma gritaria de muitas gargantas, um tumulto de gritos exultantes passando na direção da praia abaixo, gritando e berrando, e guinchos que pareciam chegar a uma parada perto da beira da água. O tumulto subia e descia; eu ouvi golpes pesados e choque estilhaçante de madeira, mas isso então não me perturbou. Um cântico discordante começou.

Meus pensamentos retornaram aos meus meios de escapar. Eu levantei-me, trouxe a lamparina, e entrei em um barracão para procurar por alguns barris que eu tinha visto ali. Então eu me interessei pelos conteúdos de algumas latas de biscoito e abri uma. Eu vi alguma coisa, a partir do canto do meu olho, - uma figura vermelha, - e virei-me bruscamente.

Atrás de mim, estende-se o quintal, vividamente preto e [204]branco sob a luz da lua, e a pilha de madeira e feixes sobre a qual Moreau e sua vítimas mutiladas jazem, um sobre o outro. Eles pareciam estar agarrando-se uns com os outros em uma última luta vingativa. O ferimentos deles escancarados, escuros como a noite, e o sangue que tinha pingado jazia em remendos escuros sobre a areia. Então eu vi, sem entendimento, a causa do meu fantasma, - uma brilho avermelhado que vinha e dançava e ia sobre a parede oposta. Eu interpretei isso mal, imaginava que era um reflexo da minha lamparina oscilante e virei-me novamente para as reservas no barracão. Eu prossegui vasculhando entre elas, tão bem quando um homem com um braço só podia, encontrando esta e aquela coisa conveniente, e deixando-a de lado para o lançamento de amanhã. Meus movimentos eram lentos, e o tempo passava rapidamente. Insensivelmente, a luz do dia arrastou-se sobre mim.

O cântico morreu novamente, dando lugar a um clamor; em seguida, ele começou novamente e, subitamente, irrompeu em um tumulto. Eu ouvi brados de “Mais! Mais!” um som de briga, e um súbito guincho selvagem. A qualidade dos sons mudou tão grandemente que prendeu minha atenção. Eu saí para o quintal e ouvi. Em seguida, cortando [205]como uma faca através da confusão, surgiu o estalo de um revólver.

Imediatamente, eu apressei-me através do meu quarto para a pequena entrada. Enquanto eu fazia isso, eu ouvi alguns dos caixotes atrás de mim deslizando para baixo e esmagando-se juntos com um barulho de vidro sobre o chão do barracão. Mas eu não prestei atenção a nada disso. Eu precipitei-me pela porta aberta e observei.

Na praia, perto do ancoradouro de botes, uma fogueira estava queimando, chovendo centelhas na indistinção da aurora. Ao redor disso, contorcia-se uma massa de figuras negras. Eu ouvi Montgomery chamar meu nome. Imediatamente eu comecei a correr na direção dessa fogueira, revólver na mão. Eu vi a língua rosada da pistola de Montgomery lamber para fora uma vez, perto do chão. Ele estava caído. Eu gritei com toda minha força e atirei para o ar. Eu ouvi algum dizer, “O Mestre!” A massa escura atada quebrou-se em unidades espalhadas, o fogo saltava e afundava. A multidão do povo-besta fugiu em pânico súbito diante de mim, até a praia. Em minha excitação eu atirei em suas costas que se retiravam enquanto elas desapareciam em meio aos arbustos. Em seguida, eu virei-me para os montes escuros sobre o chão.

[206]Montgomery deitava-se sobre suas costas, com o homem-besta de pelo cinza alongando-se sobre o corpo dele. O bruto estava morto, mas ainda agarrando a garganta de Montgomery com suas garras curvas. Perto estava M’ling, virado sobre seu rosto e bastante imóvel, seu pescoço aberto a mordidas e a parte superior da garrafa esmagada de conhaque em sua mão. Duas outras figuras estavam perto da fogueira, - uma imóvel, a outra gemendo irregularmente, de vez em quando erguendo lentamente a sua cabeça, em seguida, deixando-a cair novamente.

Eu agarrei o homem cinzento e puxei-o do corpo de Montogomery; as garras dele arrastavam para baixo o casaco rasgado enquanto eu o arrastava para longe. Montgomery estava com o rosto escuro e escassamente respirando. Eu borrifei água do mar do no rosto dele e repousei a cabeça dele sobre o meu casaco enrolado. M’ling estava morto. A criatura ferida perto do fogo – era um bruto-lobo com um rosto barbudo cinza – deitava-se, eu descobri, com a parte dianteira do seu corpo sobre a madeira ainda brilhante. A criatura miserável estava tão terrivelmente machucada que, por misericórdia, eu explodi o seu cérebro de uma vez. O outro bruto era um dos homens-touro enfaixado em branco. Ele também estava morto. O resto do povo-besta tinha desaparecido da praia.

[207]Eu retornei a Montgomery e ajoelhei-me perto dele, amaldiçoando minha ignorância de medicina. A fogueira o meu lado tinha se afundado, e apenas vigas carbonizadas de madeira, brilhando nas extremidades centrais e misturadas com uma cinza cinzenta de mato, restavam. Eu ponderei casualmente onde Montgomery tinha conseguido a sua madeira. Em seguida, eu vi que a aurora estava sobre nós. O céu tornou-se mais brilhante, a lua poente estava tornando-se pálida e opaca no azul luminoso do dia. O céu oriental estava orlado com vermelho.

Subitamente, eu ouvi um baque e um silvo atrás de mim e, olhando em volta, saltei para meus pés com um grito de horror. Contra a manhã quente, grandes massas tumultuosas de fumaça escura estavam fervendo a partir da cercada, e, através de sua escuridão tempestuosa, lançavam-se linhas tremeluzentes de chama vermelho-sangue. Em seguida, o teto de palha apanhado. Eu vi o ataque curvo de chamas através da palha inclinada. Um jorro de fogo esguichado a partir do meu quarto.

Imediatamente eu soube o que tinha acontecido. Eu lembrei-me da colisão que eu tinha ouvido. Quando eu me apressei para fora para ajudar Montgomery, eu tinha derrubado a lamparina.

[208]A desesperança de salvar quaisquer dos conteúdos da cercada encarou-me no rosto. Minha mente retornou ao plano de fuga, e, virando-me rapidamente, eu olhei para ver onde os dois botes estavam sobre a praia. Eles tinham desaparecido! Dois machados estavam nas areia ao meu lado; lascas e estilhaços estavam espalhadas, e as cinzas da fogueira estavam escurecendo e fumaçando sob a aurora. Montgomery tinha queimado os botes para se vingar de mim e impedir o nosso retorno à humanidade!

Uma súbita convulsão de ira chocou-me. Eu fui quase movido a bater na cabeça tola dele, enquanto ele jazia ali, desamparado, aos meus pés. Então, subitamente, a mão dele moveu-se, tão debilmente, tão lamentavelmente, que minha ira desapareceu. Ele gemeu e abriu seus olhos por um minuto. Eu ajoelhei-me ao lado dele e ergui sua cabeça. Ele abriu os olhos novamente, encarando silenciosamente a aurora, e, em seguida, os olhos deles encontraram-se com os meus. As pálpebras caíram.

Desculpe,” ele logo disse com um esforço. Ele pareceu tentar pensar. “O último,” ele murmurou, “o último deste universo estúpido. Que confusão -”

[209]Eu ouvi. A cabeça dele caiu desesperançosamente para um lado. Eu pensei que alguma bebida poderia revivê-lo; mas não havia nenhuma bebida nem recipiente no qual trazer a bebida à mão. Ele pareceu subitamente mais pesado. Meu coração gelou. Eu inclinei-me até o rosto dele, coloquei minha mão através da fenda em sua blusa. Ele estava morto; e mesmo enquanto ele morria, uma linha de calor branco, o membro do sol, erguia-se para o leste, além da projeção da baía, respingando o seu esplendor através do céu e tornando o mar escuro em um tumulto agitado de luz deslumbrante. Eu senti como um glória sobre o rosto contraído pela morte dele.

Eu deixei a cabeça dele cair gentilmente sobre o travesseiro grosseiro que eu tinha feito para ele, e permaneci de pé. Diante de mim estava a desolação cintilante do mar, a solidão terrível sobre a qual eu tinha sofrido tanto; atrás de mim, a ilha, silenciada sob a aurora, o seu povo-besta silencioso e invisível. A cercada, com todas as suas provisões e munição, queimada sem barulho, com súbitas rajadas de chamas, um estalido inquieto, e, de vez em quando, um estampido. A fumaça pesada subia a praia para longe de mim, rolando baixo sobre os distantes topos de árvores na direção das cabana na ravina. [210]Atrás de mim, estavam os vestígios carbonizados dos botes e esses quatro corpos.

Então, dos arbustos, saíram três do povo-besta, com ombros curvados, cabeças salientes, mãos mau formadas estranhamente sustentadas, e olhos inquisitivos, hostis, e avançaram na minha direção com gestos hesitantes.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 197-210. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/197/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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