[180]Escassamente seis semanas tinham passado antes que eu tivesse perdido qualquer sentimento, exceto aversão e repugnância por esse experimento infame de Moreau. Minha única ideia era fugir dessas caricaturas horríveis da imagem do meu Criador, retornar para a relação doce e salutar dos homens. Minhas companheiras criaturas, de quem eu fui separado dessa maneira, começaram a assumir virtude e beleza idílicas em minha memória. A minha amizade inicial com Montgomery não aumentou. A sua longa separação da humanidade, o seu vício secreto da embriaguez, a sua simpatia evidente com o povo-besta, maculavam-no para mim. Várias vezes eu deixei ele ir sozinho para o meio deles. Eu evitava relação com eles de qualquer maneira possível. Eu despendia uma proporção crescente do meu tempo na praia, procurando por alguma vela libertadora que nunca aparecia, - até que, um dia, ocorreu-me [181]um desastre terrível, o qual estabeleceu uma aspecto completamente diferente sobre o meu estranho ambiente.
Eram aproximadamente sete ou oito semanas após o meu desembarque, – ou antes mais, eu penso, embora eu não tivesse dificuldade para registrar o tempo, – quando essa catástrofe aconteceu. Ela aconteceu no começo da manhã – eu deveria considerar por volta das seis. Eu tinha me levantado cedo para o café da manhã, tendo sido despertado pelo barulho de três homens-besta carregando madeira para dentro da cercada.
Após o café da manhã, eu caminhei entrada da cercada e permaneci ali, fumando um cigarro e desfrutando da frescura do começo da manhã. Moreau logo circundou o canto da cercada e cumprimentou-me. Ele passou perto de mim, e eu ouvi-o, atrás de mim, destrancar e entrar em seu laboratório. Tão empedernido eu estava naquele momento pela abominação do lugar, que eu ouvi, sem um toque de emoção, a vítima puma começar outro dia de tortura. Ela encontrou-se com o seu perseguidor com um guincho, quase exatamente como aquele de uma virago raivosa.
Então, subitamente, alguma coisa aconteceu, - eu não sei o quê, até hoje. Eu ouvi um grito curto, agudo, atrás de mim, uma queda e, virando-me, vi um [182]rosto terrível apressando-se sobre mim, - não humano, não animal, mas infernal, marrom, costurado com cicatrizes vermelhas ramificando-se, gotas vermelhas surgindo subitamente sobre ele, e os olhos sem pálpebras, em chamas. Eu levantei meu braço de uma vez para defender a mim mesmo do golpe que me lançou precipitadamente com um antebraço quebrado; e o grande monstro, enfaixado em gazes e com bandagens manchadas de vermelho flutuando em volta dele, saltou sobre mim e passou. Eu rolei de novo e de novo praia abaixo, tentei sentar-me e caí sobre meu braço quebrado. Em seguida, Moreau apareceu, seu massivo rosto branco ainda mais terrível pelo sangue que pingava da testa dele. Ele levava um revólver em uma mão. Ele mal olhou para mim, apenas apressou-se imediatamente na perseguição do puma.
Eu tentei o outro braço e sentei-me. A figura coberta adiante corria em grandes saltos largos ao longo da praia, e Moreau seguia-a. Ela virou a cabeça e viu-o, em seguida, dobrando-se abruptamente, alcançou os arbustos. Ela progredia sobre ele em cada passo largo. Eu vi-a afundar-se dentro deles, e Moreau, correndo obliquamente para a interceptar, atirou e errou enquanto ela desaparecia. Em seguida, ele também desapareceu na confusão verde.
[183]Eu encarei-os, e, em seguida, a dor em meu braço ardeu, e, como um gemido, eu cambaleei para meus pés. Montgomery apareceu na entrada, vestido, e com seu revólver na mão.
“Bom Deus, Prendick!” ele disse, não notando que eu estava machucado, “aquele bruto está solto! Arrancou os grilhões da parede! Você viu-os?” Então bruscamente, vendo que eu agarrava o braço, “Qual é o problema?”
“Eu estava de pé na entrada,” disse eu.
Ele veio adiante e pegou meu braço. “Sangue na manga,” ele disse, e rolou a camisa de flanela para trás. Ele colocou a arma dele no bolso, apalplou meu braço dolorosamente, e conduziu-me para dentro. “O seu braço está quebrado,” ele disse, e, em seguida, “diga-me exatamente como isso aconteceu – o que aconteceu?”
Eu contei-lhe o que eu tinha visto; contei-lhe em sentenças quebradas, com arfadas de dor entre elas, e, entrementes, muito habil e rapidamente ele imobilizou meu braço. Ele suspendeu-o do meu ombro, recuou e examinou-me.
“Você conseguirá,” ele disse. “E agora?”
Ele pensou. Em seguida, saiu e trancou os portões da cercada. Ele ficou ausente por algum tempo.
[184]Eu fiquei principalmente preocupado com meu braço. O incidente parecia meramente mais uma de muitas coisas horríveis. Eu sentei-me na espreguiçadeira e, devo admitir, amaldiçoei de coração a ilha. O sentimento inicial de aborrecido do machucado em meu braço já tinha dado lugar para uma dor ardente quando Montgomery reapareceu. O rosto dele estava bastante pálido, e ele mostrava mais de sua gengiva inferior do que nunca.
“Eu não consigo ver nem ouvir nada dele,” ele disse. “Eu estive pensando que ele pode querer a minha ajuda.” Ele encarou-me com seus olhos sem expressão. “Aquele era um bruto forte,”ele disse. “Ele simplesmente torceu os seus grilhões da parede.” Ele caminhou até a janela, em seguida até a porta, e ali ele se virou para mim. “Eu deverei atrás dele,” ele disse. “Há outro revólver que eu posso deixar com você. Para dizer a verdade, eu sinto-me ansioso de alguma forma.”
Ele arranjou a arma e colocou-a perto da minha mão sobre a mesa; em seguida, saiu, deixando um miasma agitado. Eu não me sentei por muito tempo depois dele ter saído, mas peguei o revólver na mão e caminhei para a entrada.
[185]A manhã estava tão parada quanto a morte. Nem um sussurro de vento estava mexendo-se; o mar era como vidro polido; o céu, vazio; a praia, desolada. Em meu estado meio-excitado, meio-febril, essa paralisia de coisas oprimia-me. Eu tentei assobiar, a toada extinguiu-se. Eu amaldiçoei novamente, - a segunda vez naquela manhã. Então eu caminhei para o canto da cercada e observei cuidadosamente na direção da terra o arbusto verde que tinha engolido Moreau e Montgomery. Quando eles retornariam, e como? Em seguida, muito longe praia acima, um pequeno homem-besta cinzento apareceu, correu à margem da água abaixo e começou a respingá-la em volta. Eu perambulei de volta para a entrada, em seguida, novamente para o canto, e assim comecei, caminhando a passo para lá e para cá, como um sentinela de serviço. Uma vez, eu fui atraído pela voz distante de Montgomery berrando, “Coo-ee – Mor-eau!” Meu braço tornou-se menos dolorido, mas muito quente. Eu tornei-me febril e sedento. Minha sombra encurtou. Eu observei a figura distante, até que ela desapareceu novamente. Moreau e Montgomery nunca retornariam? Três aves marinhas começaram a lutar por algum tesouro encalhado.
Em seguida, a partir de muito longe por trás da cercada, eu [186]ouvi um tiro de pistola. Um silêncio longo e, em seguida, veio outro. Então um grito mais próximo, e outra lacuna terrível de silêncio. Minha imaginação infeliz começou a trabalhar para me atormentar. Em seguida, subitamente, um tiro perto. Eu caminhei para o canto, assustado, e vi Montgomery, - seu rosto escarlate, seu cabelo desordenado, e o joelho das calças dele rasgado. O rosto dele expressava consternação profunda. Atrás dele, andava o homem-besta. M’ling, e em torno das mandíbulas de M’ling havia algumas estranhas manchas escuras.
“Ele veio?” disse Montgomery.
“Moreau?” disse eu. “Não.”
“Meu Deus!” O homem estava ofegante, quase soluçando. “Volte para dentro,” ele disse, pegando meu braço. “Eles estão loucos. Todos eles estão loucos, correndo de um lado para o outro. O que pode ter acontecido? Eu não sei. Eu contarei a você, quando meu fôlego chegar. Onde há um pouco de conhaque?”
Montgomery mancou diante de mim para dentro do quarto e sentou na espreguiçadeira. M’ling jogou-se no chão, exatamente do lado de fora da entrada, e começou a ofegar com um cão. Eu consegui algum conhaque com água para Montgomery. Ele sentou-se diante de mim, encarando o nada, recuperando o seu fôlego. Depois de [187]alguns minutos, ele começou a contar-me o que tinha acontecido.
Ele tinha seguido o rastro por alguma distância. Ele era suficientemente evidente inicialmente, por causa dos arbustos esmagados e quebrados, farrapos brancos rasgados das bandagens do puma e manchas ocasionais de sangue sobre as folhas dos arbustos e da vegetação rasteira. Contudo, ele perdeu o rastro, no chão pedregoso além do riacho onde eu tinha visto o homem-besta bebendo, e caminhou errando sem objetivo para o oeste, gritando o nome de Moreau. Então M’ling tinha vindo a ele carregado uma machadinha leve. M’ling não tinha visto nada do puma; tinha estado reconhecendo o bosque, e ouviu ele chamando. Eles caminharam juntos gritando. Dois homens-besta vieram agachando-se e espreitando-os através da vegetação rasteira, com gestos e um comportamento furtivo, os quais alarmaram Montgomery por causa de sua estranheza. Ele saudou-os, e eles fugiram culpadamente. Depois disso, ele parou de gritar e, após errar por mais algum tempo de uma maneira indecisa, decidiu visitar as cabanas.
Ele encontrou a ravina deserta.
Tornando-se mais alarmado a cada minuto, ele começou a retraçar os seus passos. Foi então que ele [188]encontrou os dois homens-suínos que eu tinha visto dançando na noite da minha chegada; eles tinham manchas de sangue ao redor da boca, e estavam intensamente excitados. Eles vieram colidindo através das samambaias, e pararam com rostos ferozes quando eles o viram. Ele estalou seu chicote com alguma trepidação, e, após isso, eles apressaram-se sobre ele. Nunca antes um homem-besta atreveu-se a fazer isso. Em um ele atirou através da cabeça; M’ling jogou-se sobre o outro, e os dois rolaram agarrando-se. M’ling manteve o seu bruto debaixo de si e com seus dentes no pescoço dele, e Montgomery atirou nele também, enquanto ele lutava sob o controle de M’ling. Ele teve alguma dificuldade para induzir M’ling a vir com ele. Dali eles tinham se apressado para mim. No caminho, M’ling tinha se apressado dentro de um matagal e expulso um diminuto homem-jaguatirica, também manchado de sangue e coxo por causa de um ferimento no pé. Esse bruto tinha corrido um pouco adiante e então virado-se selvagemente na baía, e Montgomery – com uma certa libertinagem, eu pensei – tinha atirado nele.
“O que tudo isso significa?” disse eu.
Ele sacudiu a cabeça, e, uma vez mais, virou-se para o conhaque.
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 180-188. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/180/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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