[197]Quando isso foi realizado, e nós tínhamos nos banhado e comido, Montgomery e eu entramos no meu pequeno quarto e, pela primeira vez, discutimos a nossa posição. Era então perto da meia-noite. Ele estava quase sóbrio, mas grandemente perturbado em sua mente. Ele tinha estado estranhamente sob a influência da personalidade de Moreau: eu não penso que alguma vez tenha ocorrido a ele que Moreau poderia morrer. Esse desastre foi o colapso súbito dos hábitos que tinham se tornado parte da natureza dele nos dez ou mais anos monótonos que ele tinha despendido nesta ilha. Ele falava vagamente, respondia às minhas questões tortuosamente, errando em questões gerais.
“Este é um mundo idiota como um asno,” ele disse; “que confusão tudo isso é! Eu pergunto-me quando começará. Dezesseis anos sendo maltratado por cuidadores e professores segundo suas doces vontades; cinco em Londres, laborando duramente na medicina, comida ruim, alojamentos miseráveis, [198]roupas miseráveis, vício miserável, uma tolice, - eu não conhecia nada melhor, - e forçado para esta ilha bestial. Dez anos aqui! Para que tudo isso, Prendick? Somos bolhas estouradas por um bebê?”
Era difícil lidar com tais delírios. “A coisa na qual nós temos de pensar agora,” eu disse, “é como escapar desta ilha.”
“Qual o bem em escapar? Eu sou um pária. Onde eu devo juntar-me? Está tudo muito bem para você, Prendick. Pobre velho Moreau! Nós não podemos deixá-lo aqui para ter os ossos dele roubados. Como é – e, além disso, o que será da parte decente do povo-besta?”
“Bem,” eu disse, “isso nós faremos amanhã. Eu estive pensando que nós poderíamos fazer aquele matagal em uma pira e queimar o corpo dele – e dessas outras coisas. Em seguida, o que acontecerá com o povo-besta? ”
“Eu não sei. Eu suponho que aqueles que foram criados a partir de predadores farão de si mesmos asnos estúpidos, mais cedo ou mais tarde. Nós não podemos massacrar o grupo – podemos? Eu suponho que é isso o que a sua humanidade sugeriria? Mas eles mudarão. É certo que eles mudarão.”
[199]Ele falou inconclusivamente dessa maneira até que, finalmente, eu senti meu temperamento esgotando-se.
“Inferno!” Ele exclamou diante de alguma petulância minha; “você não consegue ver que eu estou em um buraco pior do que o que você está?” E ele levantou-se e caminhou até o conhaque. “Beba!” disse ele retornando, “seu ser de argumentos confusos, santo cara de giz de um ateísta, beba!”
“Não, eu,” eu disse, e sentei-me observando seriamente o rosto dele sob a amarela labareda de parafina, enquanto ele bebia até levar a si mesmo a uma miséria tagarela.
Eu tenho a memória de um tédio infinito. Ele perdeu-se em uma defesa piegas do povo-besta e de M’ling. Ele disse que M’ling foi a única coisa que alguma vez realmente tinha se importado com ele. E, subitamente, uma ideia ocorreu-lhe.
“Eu estou condenado!” ele disse, vacilando sobre seus pés e pegando a garrafa de conhaque.
Através de algum lampejo de intuição, eu sabia que era isso que ele intencionava. “Não dê bebida aquela besta!” Eu disse, levantando-me e encarando-o.
“Besta!” disse ele. “Você é a besta. Ele toma o licor dele como um cristão. Saia do caminho, Prendick!”
“Pelo amor de Deus,” eu disse.
[200]“Saia – do caminho!” Ele rugiu e, subitamente, sacou seu revólver.
“Muito bem,” eu disse, e coloquei-me de lado, quase inclinado a cair sobre ele, enquanto ele colocava a mão sobre o trinco, mas dissuadido ao pensar em meu braço inútil. “Você fez de si mesmo uma besta – para as bestas você pode ir.”
Ele fugiu pela entrada aberta e ficou de pé quase me encarando entre a amarela luz da lamparina e o pálido brilho da lua; as suas cavidades oculares eram manchas de preto sobre as sobrancelhas eriçadas.
“Você é um presunçoso solene, Prendick, um asno estúpido! Você está sempre temendo e fantasiando. Nós estamos no limite das coisas. Eu estou destinado a cortar minha garganta amanhã. Eu terei um maldito Feriado Bancário hoje a noite.” Ele virou-se e caminhou à luz da lua. “M’ling!” ele bradou; “M’ling, velho amigo!”
À luz da lua, três criaturas sombrias surgiram na borda da praia pálida, - uma, uma criatura enfaixada em branco, as outras duas, manchas de escuridão seguindo-a. Elas pararam, olhando fixamente. Em seguida, eu vi os ombros curvados de M’ling enquanto ele circulava o canto da casa.
[201]“Bebam!” gritou Montgomery, “bebam, seus brutos! Bebam e sejam homens! Maldito seja, eu sou o mais esperto. Moreau esqueceu-se disso; esse é o último toque. Bebem, eu digo a vocês!” E, agitando a garrafa com sua mão, ele partiu em um tipo de trote rápido para o oeste, M’ling enfileirando-se entre ele e as três criaturas sombrias que o seguiam.
Eu fui para a entrada. Eles já eram indistintos na névoa da luz da lua antes que Montgomery parasse. Eu vi ele dar uma dose de puro conhaque a M’ling, e viu as quatro figuras dissolverem-se em uma mancha vaga.
“Cantem!” eu ouvi Montgomery bradar, “cantem todos juntos, ‘Perturbem o velho Prendick!’ isso mesmo; agora novamente, ‘Perturbem o velho Prendick!’”
O grupo negro dispersou-se em cinco figuras separadas, e serpentearam lentamente para longe de mim ao longo da fixa de praia brilhante. Cada um caminhando berrando segundo a sua doce vontade, ganindo insultos para mim, ou dando qualquer outra vazão que essa nova inspiração de conhaque exigia. Logo eu ouvi a voz de Montgomery brandando, “Virar à direita!” e eles passaram, com seus brados e gemidos, para dentro da [202]escuridão das árvores na direção da terra. Lentamente, muito lentamente, eles recederem ao silêncio.
O esplendor pacífico da noite melhorou novamente. A lua agora tinha passado o meridiano e estava viajando até o oeste. Ela estava cheia e muito brilhante, cavalgando através do vazio céu azul. A sombra da parede estendia-se, a uma jarda de largura e de uma escuridão tintosa, aos meus pés. O mar oriental era de um cinza inexpressivo, escuro e misterioso; e entre o mar e a sombra, as areias cinzas (de vidro vulcânico e cristais) brilhavam e reluziam como uma praia de diamantes. Atrás de mim, a lâmpada de parafina chamejava quente e avermelhada.
Então eu fechei a porta, tranquei-a, e entrei na cercada onde Moreau jaz ao lado de suas últimas vítima, - os cães de caça e a lhama e alguns outros brutos miseráveis, com seu massivo rosto calmo mesmo depois da sua morte horrível, e com os duros olhos abertos, encarando a morta lua branca acima. Eu sentei-me à borda do antro e, com meus olhos sobre aquela pilha medonha de luz prateada e sombras sinistras, comecei a considerar meus planos. Pela manhã, eu reuniria algumas provisões no bote [203]e, após tocar fogo na pilha diante de mim, lançar-me-ia à desolação do alto mar uma vez mais. Eu sentia que para Montgomery não havia ajuda; que, em verdade, ele estava quase aparentado com esses do povo-besta, impróprio para o parentesco humano.
Eu não sei por quanto tempo eu permaneci ali esquematizando. Deve ter sido por uma hora ou algo assim. Em seguida, meu planejamento foi interrompido pelo retorno de Montgomery à minha vizinhança. Eu ouvi uma gritaria de muitas gargantas, um tumulto de gritos exultantes passando na direção da praia abaixo, gritando e berrando, e guinchos que pareciam chegar a uma parada perto da beira da água. O tumulto subia e descia; eu ouvi golpes pesados e choque estilhaçante de madeira, mas isso então não me perturbou. Um cântico discordante começou.
Meus pensamentos retornaram aos meus meios de escapar. Eu levantei-me, trouxe a lamparina, e entrei em um barracão para procurar por alguns barris que eu tinha visto ali. Então eu me interessei pelos conteúdos de algumas latas de biscoito e abri uma. Eu vi alguma coisa, a partir do canto do meu olho, - uma figura vermelha, - e virei-me bruscamente.
Atrás de mim, estende-se o quintal, vividamente preto e [204]branco sob a luz da lua, e a pilha de madeira e feixes sobre a qual Moreau e sua vítimas mutiladas jazem, um sobre o outro. Eles pareciam estar agarrando-se uns com os outros em uma última luta vingativa. O ferimentos deles escancarados, escuros como a noite, e o sangue que tinha pingado jazia em remendos escuros sobre a areia. Então eu vi, sem entendimento, a causa do meu fantasma, - uma brilho avermelhado que vinha e dançava e ia sobre a parede oposta. Eu interpretei isso mal, imaginava que era um reflexo da minha lamparina oscilante e virei-me novamente para as reservas no barracão. Eu prossegui vasculhando entre elas, tão bem quando um homem com um braço só podia, encontrando esta e aquela coisa conveniente, e deixando-a de lado para o lançamento de amanhã. Meus movimentos eram lentos, e o tempo passava rapidamente. Insensivelmente, a luz do dia arrastou-se sobre mim.
O cântico morreu novamente, dando lugar a um clamor; em seguida, ele começou novamente e, subitamente, irrompeu em um tumulto. Eu ouvi brados de “Mais! Mais!” um som de briga, e um súbito guincho selvagem. A qualidade dos sons mudou tão grandemente que prendeu minha atenção. Eu saí para o quintal e ouvi. Em seguida, cortando [205]como uma faca através da confusão, surgiu o estalo de um revólver.
Imediatamente, eu apressei-me através do meu quarto para a pequena entrada. Enquanto eu fazia isso, eu ouvi alguns dos caixotes atrás de mim deslizando para baixo e esmagando-se juntos com um barulho de vidro sobre o chão do barracão. Mas eu não prestei atenção a nada disso. Eu precipitei-me pela porta aberta e observei.
Na praia, perto do ancoradouro de botes, uma fogueira estava queimando, chovendo centelhas na indistinção da aurora. Ao redor disso, contorcia-se uma massa de figuras negras. Eu ouvi Montgomery chamar meu nome. Imediatamente eu comecei a correr na direção dessa fogueira, revólver na mão. Eu vi a língua rosada da pistola de Montgomery lamber para fora uma vez, perto do chão. Ele estava caído. Eu gritei com toda minha força e atirei para o ar. Eu ouvi algum dizer, “O Mestre!” A massa escura atada quebrou-se em unidades espalhadas, o fogo saltava e afundava. A multidão do povo-besta fugiu em pânico súbito diante de mim, até a praia. Em minha excitação eu atirei em suas costas que se retiravam enquanto elas desapareciam em meio aos arbustos. Em seguida, eu virei-me para os montes escuros sobre o chão.
[206]Montgomery deitava-se sobre suas costas, com o homem-besta de pelo cinza alongando-se sobre o corpo dele. O bruto estava morto, mas ainda agarrando a garganta de Montgomery com suas garras curvas. Perto estava M’ling, virado sobre seu rosto e bastante imóvel, seu pescoço aberto a mordidas e a parte superior da garrafa esmagada de conhaque em sua mão. Duas outras figuras estavam perto da fogueira, - uma imóvel, a outra gemendo irregularmente, de vez em quando erguendo lentamente a sua cabeça, em seguida, deixando-a cair novamente.
Eu agarrei o homem cinzento e puxei-o do corpo de Montogomery; as garras dele arrastavam para baixo o casaco rasgado enquanto eu o arrastava para longe. Montgomery estava com o rosto escuro e escassamente respirando. Eu borrifei água do mar do no rosto dele e repousei a cabeça dele sobre o meu casaco enrolado. M’ling estava morto. A criatura ferida perto do fogo – era um bruto-lobo com um rosto barbudo cinza – deitava-se, eu descobri, com a parte dianteira do seu corpo sobre a madeira ainda brilhante. A criatura miserável estava tão terrivelmente machucada que, por misericórdia, eu explodi o seu cérebro de uma vez. O outro bruto era um dos homens-touro enfaixado em branco. Ele também estava morto. O resto do povo-besta tinha desaparecido da praia.
[207]Eu retornei a Montgomery e ajoelhei-me perto dele, amaldiçoando minha ignorância de medicina. A fogueira o meu lado tinha se afundado, e apenas vigas carbonizadas de madeira, brilhando nas extremidades centrais e misturadas com uma cinza cinzenta de mato, restavam. Eu ponderei casualmente onde Montgomery tinha conseguido a sua madeira. Em seguida, eu vi que a aurora estava sobre nós. O céu tornou-se mais brilhante, a lua poente estava tornando-se pálida e opaca no azul luminoso do dia. O céu oriental estava orlado com vermelho.
Subitamente, eu ouvi um baque e um silvo atrás de mim e, olhando em volta, saltei para meus pés com um grito de horror. Contra a manhã quente, grandes massas tumultuosas de fumaça escura estavam fervendo a partir da cercada, e, através de sua escuridão tempestuosa, lançavam-se linhas tremeluzentes de chama vermelho-sangue. Em seguida, o teto de palha apanhado. Eu vi o ataque curvo de chamas através da palha inclinada. Um jorro de fogo esguichado a partir do meu quarto.
Imediatamente eu soube o que tinha acontecido. Eu lembrei-me da colisão que eu tinha ouvido. Quando eu me apressei para fora para ajudar Montgomery, eu tinha derrubado a lamparina.
[208]A desesperança de salvar quaisquer dos conteúdos da cercada encarou-me no rosto. Minha mente retornou ao plano de fuga, e, virando-me rapidamente, eu olhei para ver onde os dois botes estavam sobre a praia. Eles tinham desaparecido! Dois machados estavam nas areia ao meu lado; lascas e estilhaços estavam espalhadas, e as cinzas da fogueira estavam escurecendo e fumaçando sob a aurora. Montgomery tinha queimado os botes para se vingar de mim e impedir o nosso retorno à humanidade!
Uma súbita convulsão de ira chocou-me. Eu fui quase movido a bater na cabeça tola dele, enquanto ele jazia ali, desamparado, aos meus pés. Então, subitamente, a mão dele moveu-se, tão debilmente, tão lamentavelmente, que minha ira desapareceu. Ele gemeu e abriu seus olhos por um minuto. Eu ajoelhei-me ao lado dele e ergui sua cabeça. Ele abriu os olhos novamente, encarando silenciosamente a aurora, e, em seguida, os olhos deles encontraram-se com os meus. As pálpebras caíram.
“Desculpe,” ele logo disse com um esforço. Ele pareceu tentar pensar. “O último,” ele murmurou, “o último deste universo estúpido. Que confusão -”
[209]Eu ouvi. A cabeça dele caiu desesperançosamente para um lado. Eu pensei que alguma bebida poderia revivê-lo; mas não havia nenhuma bebida nem recipiente no qual trazer a bebida à mão. Ele pareceu subitamente mais pesado. Meu coração gelou. Eu inclinei-me até o rosto dele, coloquei minha mão através da fenda em sua blusa. Ele estava morto; e mesmo enquanto ele morria, uma linha de calor branco, o membro do sol, erguia-se para o leste, além da projeção da baía, respingando o seu esplendor através do céu e tornando o mar escuro em um tumulto agitado de luz deslumbrante. Eu senti como um glória sobre o rosto contraído pela morte dele.
Eu deixei a cabeça dele cair gentilmente sobre o travesseiro grosseiro que eu tinha feito para ele, e permaneci de pé. Diante de mim estava a desolação cintilante do mar, a solidão terrível sobre a qual eu tinha sofrido tanto; atrás de mim, a ilha, silenciada sob a aurora, o seu povo-besta silencioso e invisível. A cercada, com todas as suas provisões e munição, queimada sem barulho, com súbitas rajadas de chamas, um estalido inquieto, e, de vez em quando, um estampido. A fumaça pesada subia a praia para longe de mim, rolando baixo sobre os distantes topos de árvores na direção das cabana na ravina. [210]Atrás de mim, estavam os vestígios carbonizados dos botes e esses quatro corpos.
Então, dos arbustos, saíram três do povo-besta, com ombros curvados, cabeças salientes, mãos mau formadas estranhamente sustentadas, e olhos inquisitivos, hostis, e avançaram na minha direção com gestos hesitantes.
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 197-210. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/197/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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