Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XXIII Coisas Estranhas

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[261]Ocorreu a Felix o pensamento de que ele poderia encontrar uma fonte em algum lugar da ilha, e ele imediatamente começou a subir a colina. No topo ele parou. O sol não tinha se afundado, mas tinha desaparecido como um disco. Em seu lugar, havia uma onda de sangue, pois assim ela parecia, uma vasta onda levantada de sangue incandescente surgindo no horizonte. Sobre ele tremeluzia um tom do mais pálido azul, como aquele visto no fogo. As águas escuras refletiam o brilho, e o vapor amarelo em volta estava impregnado com ele. Embora momentaneamente assustado, Felix não prestou muita atenção a essas aparências; ele ainda estava muito atordoado e pesado do seu sono.

Ele prosseguiu, procurando por uma fonte, algumas vezes caminhando sobre solo firme, algumas vezes afundando até o tornozelo em um solo frágil como a areia negra. De fato, o solo parecia como se tivesse sido queimado, mas não havia tocos carbonizados de madeira, tais como ele tinha visto nos locais de incêndios na floresta. A secura extrema parecia oprimir os espíritos dele, e ele caminhava sem parar em um pesado sonho desperto. Descendo para uma planície, ele perdeu a vista do pôr do sol flamejante e das águas escuras. Na planície nivelada, a desolação era ainda mais marcada; não havia nenhuma folha de grama ou planta; a superfície era dura, escura e queimada, assemelhando a ferro, e, de fato, em alguns locais, ela ressoava aos seus pés, embora ele supunha que isso fosse eco de passagens ocas abaixo.

Várias vezes ele se sacudiu, fortalecendo-se [262]e tentando jogar fora essa sensação de peso sonolento que aumentava sobre ele. Ele não conseguia fazer isso; ele caminhava com as costas inclinadas e arrastava-se, por assim dizer, sobre a terra de ferro, a qual irradiava calor. Uma luz difusa como aquela de água apareceu a frente; ele apressou o passo, mas não conseguiu chegar a ela, e ele logo compreendeu que era uma miragem, a qual recuava conforme ele avançava. Não havia nenhum agradável crepúsculo de verão; o pôr do sol foi sucedido por uma escuridão infinita e, enquanto essa sombra pendia sobre a cabeça, o vapor amarelo em volta era fracamente radiante. Subitamente, Felix parou, tendo pisado, como ele pensava, sobre um esqueleto.

Contudo, outra olhada revelou que era meramente uma impressão de um, os ossos reais há muito tinham desaparecido. As costelas, o crânio, e os membros estavam desenhados no chão escuro com linhas brancas como se tivessem sido feitos com um grosso pedaço de giz. Perto, ele encontrou mais três ou quatro, emaranhados e superimpostos, como se os seres infelizes tivessem parcialmente caído um sobre o outro e, nessa posição, tivessem apodrecido, nada deixando exceto os seus contornos. Dentre uma variedade de objetos que estavam espalhados, Felix pegou alguma coisa que brilhava; era um bracelete de diamante de uma grande pedra, e um pequeno quadrado de porcelanato azul, com um curioso animal heráldico desenhado sobre ele. Evidentemente, esses tinham pertencido a um ou outro do grupo que tinha perecido.

Embora assustado à primeira vista, era curioso que Felix sentisse tão pouco horror; a ideia de que ele estava em perigo como esses tinham estado não lhe ocorreu. Inalando as emanações gasosas do solo e contidas no [263]vapor amarelo, ele tinha se tornado narcotizado, e movia-se como se sob a influência de ópio, embora plenamente desperto e capaz de conduta racional. Os sentidos dele estavam amortecidos e não transportavam a usual impressão vívida para a mente; ele via coisas como se elas estivessem muito distantes. Acidentalmente olhando para trás, ele considerou que as suas pegadas, tão distante quanto ele conseguia ver, brilhavam com uma luz fosfórica como aquela de “madeira sensível” no escuro. Próximas à mão, elas não brilhavam; a aparência não surgia até que alguns minutos tivessem passado. O rastro dele era visível até que o vapor o ocultasse. Conforme a tarde se arrastava o vapor tornava-se mais luminoso, e um pouco assemelhado a uma aurora.

Ainda ansioso por água, ele prosseguiu adiante tão diretamente quanto ele pôde, e logo se tornou consciente de uma nuvem indefinida que mantinha passo com ele do outro lado. Quando ele se virava para olhar para qualquer uma das nuvens, a observada desaparecia. Ela não estava suficientemente condensada para ser visível à visão direta, todavia, ele estava ciente dela a partir do canto do olho. Sem forma e ameaçadora, a espessura escura de ar flutuava ao lado dele como o monstro vago de um sonho. Algumas vezes ele imaginava que via um braço ou um membro entre as dobras da nuvem, ou uma aproximação de um rosto; no instante que ele olhava, isso desaparecia. Marchando de cada lado, esses vapores lhe transmitiam companhia horrível.

O cérebro dele tornou-se instável, e coisas tremeluzentes moviam-se em torno dele; todavia, embora alarmado, ele não estava assustado; os sentidos deles não eram suficientemente aguçados para o medo. O calor aumentou; as mãos dele estavam intoleravelmente quentes, como se ele tivesse estado em uma febre; ele ofegava, mas não transpirava. Um calor seco [264]como um forno queimava em suas veias. A cabeça dele parecia alargada, e seus olhos pareciam ardentes; ele podia ver esses dois globos de luz fosfórica sob suas sobrancelhas. Eles pareciam destacar-se de maneira que ele podia os ver. Ele considerou o seu caminho reto, era realmente curvo; nem ele sabia que cambaleava enquanto caminhava.

Logo um objeto branco apareceu diante dele, e, chegando a ele, ele descobriu que era uma parede, branca como neve, com algum tipo de cristal. Ele tocou-a, quando a parede caiu imediatamente, com um som esmagador como se pulverizada, e desapareceu em uma vasta caverna aos pés dele. Além desse abismo, ele chegou a mais paredes como aquelas de casas, tais como seriam deixadas se os tetos caíssem. Ele cuidadosamente evitou as tocar, pois elas pareciam tão quebradiças quanto vidro, e meramente um pó branco, não tendo absolutamente nenhuma consistência. Conforme ele avançava, esses remanescentes de prédios aumentavam em número, de maneira que ele tinha de serpentear para dentro e para fora e em volta deles. Em alguns lugares, a parede cristalizada tinha caído por si mesma, e ele poderia ver abaixo dentro da caverna; pois a casa ou tinha sido parcialmente construída debaixo do chão, ou, o que era mais provável, o chão tinha se elevado. Se as paredes tinham sido de tijolos ou pedra ou outro material, ele não podia dizer; agora, elas eram como sal.

Logo se cansando de serpentear em torno dessas paredes, Felix retornou e retraçou seus passos até que ele estava fora do lugar e, em seguida, caminhou na direção esquerda. Não muito depois, como ele ainda caminhava em um sonho e sem sentir os pés, ele desceu uma leve encosta e descobriu o chão mudado em cor de preto para um vermelho aborrecido. Em seu estado [265]atordoado, ele tinha dado vários passos dentro desse vermelho antes que ele notasse que ele era líquido, oleoso e viscoso, como um óleo espesso. Ele aprofundava-se rapidamente e já estava sobre os sapatos dele; ele retornou à costa negra e permaneceu olhando sobre a água, se disso ela poderia ser chamada.

O luminoso vapor amarelo agora tinha subido a uma altura de dez ou quinze pés, e formou um teto sobre a terra e sobre água vermelha, sob o qual era possível enxergar por uma grande distância. A superfície do óleo vermelho ou líquido viscoso era perfeitamente lisa, e, de fato, não parecia como se qualquer vento pudesse levantar uma onda sobre ela, muito menos que um volume devesse ser deixado depois da ventania ter passado. Desapontado em sua busca de água para beber, Felix mecanicamente se virou para retornar.

Ele seguir suas pegadas luminosas, as quais ele conseguia enxergar por uma longa distância diante dele. O seu rastro curvava-se tanto que ele fazia muitos atalhos através da linha sinuosa que ele tinha deixado. O cansaço dele agora era tão intenso que toda sensação tinha desaparecido. Seus pés, seus membros, seus braços e suas mãos estavam entorpecidos. O veneno sútil das emanações da terra tinham começado a amortecer os nervos dele. Pareceu-lhe uma hora completa ou mais até que ele alcançasse o ponto onde os esqueletos estavam desenhados em branco sobre o solo.

Ele passou umas poucas jardas para um lado deles, e tropeçou sobre um monte de alguma coisa que ele não tinha observado, como se fosse preta, como o nível do chão. Ela emitia um som metálico, e olhando, ele viu que tinha chutado seu pé contra um grande monte de dinheiro. As moedas eram negras como tinta; ele pegou um punhado e caminhou adiante. Até agora, [266]Felix tinha aceitado tudo que ele via como alguma coisa tão estranha quanto inexplicável. Durante o seu avanço à canoa nesta região, de fato, ele tinha lentamente se tornado entorpecido pelo vapor venenoso que ele tinha inalado. A mente dele estava parcialmente em inatividade temporária, ela agia, mas apenas após algum tempo ter passado. Pelo menos ele agora começava a compreender a sua posição; o achado do monte de dinheiro escurecido tocou uma corda de memória. Esses esqueletos eram relíquias miseráveis de homens que tinham se aventurado, em busca de tesouros antigos, dentro dos pântanos mortais sobre o lugar da cidade mais poderosa dos dias antigos. A deserta e completamente extinta cidade de Londres estava sob os seus pés.

Ele tinha penetrado no meio aquele lugar terrível, do qual ele tinha ouvido muita tradição; como a terra era veneno, a água veneno, o ar veneno, até a luz do céu, caindo através de uma tal atmosfera, veneno. Esses eram ditos serem lugares onde a terra estava queimada e arrotava fumaças sulfurosas, que eram supostas serem da combustão das reservas enormes de químicos estranhos e desconhecidos coletados pelo povo maravilhoso daqueles tempos. Sobre a superfície da água havia esse óleo amarelo-esverdeado, tocá-lo era morte para qualquer criatura; ele era a essência mesma da corrupção. Algumas vezes ele flutuava a frente do vento, e fragmentos agarravam-se a canas ou bandeiras muito longe do lugar mesmo. Se uma galinha d’água ou pato talvez se esfregasse na cana, e apenas uma gota se fixasse em suas penas, ele imediatamente morria. Das águas vermelhas, ele não tinha ouvido, nem das escuras, dentro das quais ele tinha involuntariamente navegado.

[267]Seres sinistros assombravam o lugar de tantos crimes, monstros sem forma, pairando à noite, e traçando uma dança terrível. Frequentemente ele pegavam fogo, como parecia, e queimavam enquanto ele fugiam ou flutuavam no ar. Lembrando-se dessas histórias, as quais pelo menos em parte agora pareciam ser verdadeiras, Felix deu uma olhadela de lado, onde a nuvem ainda mantinha o passo com ele, e involuntariamente colocou as mãos sobre os ouvidos, com medo de que a escuridão do ar devesse sussurrar algum horror dos tempos antigos. A terra sobre a qual ele caminhava, a terra escura, deixando pegadas fosfóricas atrás dele, era composta dos corpos apodrecidos de milhões de homens que tinham morrido nos séculos durante os quais a cidade existiu. Ele estremecia conforme passava; ele apressava-se, contudo, não podia ir rápido, os membros entorpecidos dele não permitiam.

Ele temia com receio de que devesse cair e adormecer, e não mais despertar, como os pesquisadores de tesouro; tesouro que eles tinham descoberto apenas para perderem para sempre. Ele olhava em volta, supondo que ele devesse ver a cabeça e os ombros brilhantes do gigante meio-enterrado, do qual ele se lembra de ter ouvido falar. O gigante foi punido por algum crime sendo enterrado até o peito na terra; o fogo incessantemente consumia a cabeça dele e brincava ao redor dela, contudo, ela não era destruída. O instruído pensava, se uma tal coisa realmente existiu, que ela deve ser a parte superior de uma antiga estátua de bronze, mantida acessa pela ação de ácido na atmosfera, e brilhante com a luz refletida. Felix não a viu, e logo depois subiu a colina, e olhou para a sua canoa abaixo. Ele estava em chamas!


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.261-267. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/261/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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