Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte II Inglaterra Selvagem - Capítulo XXV Os Pastores

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[276]Por quatro dias Felix permaneceu na ilha recuperando sua força. Gradualmente, a memória das cenas que ele tinha testemunhado tornou-se menos vívida, e os nervos dele recobraram a sua qualidade. Na quinta manhã ele navegou novamente, seguindo diretamente para o sul com uma brisa gentil do oeste, a qual se adaptava muito bem à canoa. Ele considerou que agora estava na extremidade oriental do Lago e que, navegando para o sul, ele logo deveria alcançar o lugar onde a costa virava-se novamente para o oeste. A proa afiada da [277]canoa cortava velozmente através das ondas, um leve borrifo voava ocasionalmente até o rosto dele, e o vento soprava agradavelmente. No céu sem nuvens, andorinhas e gaviões estavam voando em círculos, e, na água, uma meia dúzia de patos selvagens movia-se para o lado para o deixar passar.

Aproximadamente duas horas após ele ter partido, ele encontrou uma neblina, a qual surgiu suavemente com o vento sobre a superfície da água, e, em um instante, bloqueou toda a vista. Mesmo o sol ficou escassamente visível. Estava muito quente, e nenhuma umidade restou. Em cinco minutos, ele atravessou-a e emergiu novamente à brilhante luz do sol. Essas neblinas secas, quentes, são frequentemente vistas no Lago durante o verão, e acredita-se que pressagiem a continuação de clima bom.

Felix manteve uma boa distância da terra firme, a qual era coberta por colinas e bosques, e com poucas ilhas. Logo ele observou, à extrema distância, no seu lado direito, uma linha de colinas montanhas, a qual ele supôs ser a costa sul do Lago, e que ele estava navegando para dentro de um golfo ou baía. Ele debateu consigo mesmo se ele deveria alterar o seu curso e laborar através das montanhas, ou continuar a traçar a costa. A menos que ele traçasse a costa, ele escassamente podia dizer que ele tinha circunavegado o Lago, visto que ele teria deixado a grande baía inexplorada. Portanto, ele continuou a navegar diretamente para o sul.

O ventou refrescou perto do meio-dia, e a canoa flutuava em um grande ritmo. Duas vezes ele passou através de névoas similares. Agora absolutamente não haviam ilhas, apenas uma linha de falésias de giz marcava a costa. Considerando que ela deveria ser profunda, e segura para fazê-lo, Felix manteve-a mais perto para examinar a [278]terra. Bosques corriam ao longo das colinas direto para a margem da falésia, mas ele não viu sinais de habitantes, nem fumaça, bote ou casa. O som da ressaca batendo na praia era audível, embora as ondas não fossem grandes. Sobre a falésia, ele notou uma pipa planar, a uma grande altura.

Imediatamente depois, ele deparou-se com outra neblina ou vapor, mais espessa, se alguma coisa, a qual obscureceu bastante a visão dele. Ela parecia como uma grande nuvem sobre a superfície da água, e maior do que aquelas nas quais ele anteriormente tinha entrado. Subitamente a canoa parou com um tremendo sacudido, o qual o jogou para frente sobre os joelhos, o mastro quebrou e houve um ruído de madeira rachando. Tão logo ele conseguiu levantar-se, Felix viu, para sua amarga tristeza, que a canoa tinha rachado longitudinalmente; a água surgia através da rachadura, e o bote era mantido junto apenas pelos feixes do estabilizador. Ele tinha encalhado sobre um grande pederneira afiada incrustada em um chão de gesso, a qual tinha rachado a madeira de álamo da canoa como um machado. A viagem estava acabada, pois o menor esforço faria a canoa partir-se em duas e, se ela fosse removida pela água, o chão seria alagado. Em um meio minuto, a neblina passou, deixando-o no dia brilhante, naufragado.

Felix agora descobriu que as águas eram brancas com gesso suspenso e, auscultando com o remo, descobriu que a profundidade era de apenas umas poucas polegadas. Ele tinha se movido à velocidade máxima sobre um recife. Não havia perigo, pois a distância até a costa dificilmente era de duzentas jardas, e, julgando pela aparência da água, ela era rasa todo o [279]caminho. Mas esta canoa, o produto de tanto labor, e na qual ele tinha viajado tão longe, a sua canoa, estava destruída. Ele não podia repará-la; ele duvida de se isso poderia ter sido realizado com sucesso mesmo em casa, com Oliver para o ajudar. Ele não mais poderia navegar; não havia mais nada, exceto chegar à costa e viajar a pé. Se o vento se elevasse mais, as ondas quebrariam inteiramente sobre ela, e ela se fragmentaria.

Com um coração pesado, Felix pegou o seu remo e caminhou borda afora do canoa. Sentindo com o remo, ele mediu a profundidade diante dele, e, como ele esperava caminhou o caminho todo até a costa, não mais profundo do que seus joelhos. Isso foi favorável, visto que permitiu a ele transportar as coisas para a terra sem perda. Ele enrolou as ferramentas e manuscritos em uma das suas peles de caçador. Quando toda a carga tinha sido desembarcada, ele sentou-se tristemente aos pés da falésia, ele olhou para o mastro quebrado e a vela, ainda se agitando inutilmente à brisa.

Demorou um longo tempo antes que ele se recuperasse, e começasse a trabalhar, mecanicamente, para enterrar a besta, as peles de caçador, as ferramentes e os manuscritos, sob um monte de seixos. Quanto à falésia, embora baixa, era perpendicular, e ele não conseguiu o escalar, senão ele teria preferido escondê-los nos bosques acima. Empilhar seixos sobre eles foi o melhor que ele consegui fazer pelo presente; ele pretendia retornar a eles quando ele descobrisse uma caminho falésia acima. Em seguida, ele partiu, levando apenas o seu arco e flechas.

Mas nenhum tal caminho devia ser encontrado; ele caminhou sem parar, até que ficou cansado, e ainda o penhasco corria como uma muralha sobre sua mão [280]esquerda. Após uma hora de descanso ele partiu novamente; quando o sol estava declinando, ele chegou subitamente a uma brecha na falésia, onde um relvado coberto por grama chegava à costa. Agora era tarde demais, e e ele estava muito cansado, para pensar em retornar em busca das suas coisas naquela tarde. Ele fez uma refeição escassa e tentou descansar. Mas a excitação da perda da canoa, a longa marcha desde então, a falta de boa comida, tudo tendia a torná-lo desassossegado. Cansado, ele não conseguia descansar, nem se mover adiante. O tempo passava lentamente, o sol afundou-se, o vento cessou; após um tempo interminável, as estrelas apareceram, e ele ainda não conseguia dormir. Ele tinha escolhido um lugar sob um carvalho em uma encosta verde. A noite era quente, e mesmo abafada, de maneira que ele não sentiu falta da sua cobertura, mas não havia descanso nele. Pela aurora, a qual chegou muito cedo naquela temporada, ele finalmente acordou, com suas costas para a árvore. Ele acordou, com um sobressalto em ampla luz do dia, para ver um homem de pé diante dele, armado com uma longa lança.

Felix pulou para ficar de pé, instintivamente sentindo em busca da sua faca de caça; mas ele viu que nenhum prejuízo era intencionado, pois o homem estava apoiando-se na haste de sua arma, e, é claro, se ele tivesse desejado, poderia tê-lo transpassado enquanto dormindo. Eles olharam um para o outro por um momento. O estanho estava envolto em uma túnica e usava um chapéu de palha trançada. Ele era muito alto e de constituição forte; sua única arma, uma lança de duas vezes a sua própria altura. A sua barba descia até o peito. Ele falou com Felix em um dialeto que o segundo não entendeu. Felix ergueu a mão como um sinal de amizade, o qual o outro [281]aceitou. Ele falou novamente. Por sua parte, Felix tentou explicar o seu bote naufragado, quando uma palavra que o estranho proferiu recordou à memória de Felix o dialeto peculiar usado pela raça dos pastores nas colinas na vizinhança da sua casa.

Ele falou nesse dialeto, o qual o estranho, em parte, finalmente entendeu, e o som do qual imediatamente o tornou mais amigável. Gradualmente eles compreenderam mais facilmente o significado um do outro, visto que o pastor tinha vindo através do mesmo caminho e tinha visto os destroços da canoa. Felix aprendeu que o pastor era um batedor enviado adiante para ver se a estrada estava limpa de inimigos. A tribo dele estava em marcha com rebanhos, e, para evitar os bosques e colinas íngremes que ali bloqueavam o seu curso, eles tinha seguido a praia plana e aberta ao pé da falésia, cientes, é claro, da brecha que Felix tinha encontrado. Enquanto eles estavam conversando, Felix viu a nuvem de poeira erguida pelas ovelhas conforme os rebanhos serpenteavam em torno de um contraforte saliente do penhasco.

O amigo dele explicou que eles marchavam à noite e de manhã cedo para evitar o calor do dia. A proposta parada deles estava perto à mão; ele tinha de prosseguir e ver se tudo estava livre. Felix acompanhou-o e encontrou, no interior do bosque, no cume, uma comba coberta por grama, onde uma fonte surgia. O pastor largou sua lança e começou a represar o canal da fonte com pedras, sílex e torrões de terra, para formar um poço do qual as ovelhas poderiam beber. Felix auxiliou-o, e a água velozmente começou a subir.

[282]Aos rebanhos não era permitido se apressarem tumultuosamente para a água; ele vinham em aproximadamente cinquenta por vez, cada divisão com seus pastores e seus cães, de modo que a confusão era evitada e todos tinham a sua parte. Havia aproximadamente vinte dessas divisões, além de oitenta vacas e uns poucos bodes. Eles não tinham cavalos; a bagagem deles vinha nas costas de asnos.

Após a inteireza dos rebanhos e das manadas terem recebido água, várias fogueiras foram acessas pelas mulheres, quem, em estatura e dureza, escassamente se diferenciavam dos homens. Apenas depois desse trabalho estar terminado, os outros se reuniram em torno de Felix para ouvir a história dele. Descobrindo que ele estava faminto, eles correram à bagagem em busca de comida, e empurraram para ele um pouco de pão negro, abundante queijo e manteiga, língua seca, e chifres de hidromel. Ele não conseguiu devorar a quinquagésima parte do que esse povo hospitaleiro trouxe para ele. Não tendo nada mais a lhes dar, ele pegou do seu bolso uma das moedas de ouro que tinha trazido do lugar da cidade antiga e ofereceu a eles.

Eles riram e fizeram ele entender que isso não era de valor para eles; mas eles passaram-no de mão em mão, e ele notou que eles começaram a olhar curiosamente para ele. A partir de sua aparência escurecida eles conjecturaram de onde ele tinha obtido aquilo; um, também, apontou para os sapatos dele, os quais ainda estavam escurecidos, e pareciam ter sido chamuscados. Agora o acampamento inteiro pressionava-o, a admiração e o interesse deles elevando-se a uma grande intensidade. Com alguma dificuldade, Felix descreveu a sua jornada através do lugar da cidade antiga, interrompido por constantes exclamações, questões [283]e conversações excitadas. Ele contou-lhes tudo, exceto sobre o diamante.

As maneiras deles em relação a ele alteraram-se perceptivelmente. Desde o início eles tinham sido hospitaleiros; agora eles se tornaram respeitosos e mesmo reverentes. Os anciãos e os seus chefes, não sendo distinguidos do restante por vestimenta ou ornamento, tratavam-no com cerimônia e deferência marcada. As crianças eram trazidas para o ver e mesmo o tocar. Tão grande era a admiração deles de que alguém devesse ter escapado daqueles vapores pestilentos, que eles atribuíam isso à intervenção divina e olhavam para ele com um pouco do temor da superstição. Pediram a ele para permanecer completamente com eles, e assumir o comando da tribo.

O segundo Felix recusou; para permanecer com eles por enquanto, pelo menos, é claro, ele estava suficiente disposto. Ele mencionou suas posses escondidas, e levantou-se para retornar a elas, mas eles não o permitiriam. Dois homens partiram imediatamente. Ele deu-lhes as orientações do lugar, e eles não tiveram a menor dúvida senão que eles deviam encontrá-lo, especialmente como, o vento estando parado, a canoa ainda não teria quebrado, e guiá-los-ia. A tribo permaneceu na comba verde o dia inteiro, descansando da sua longa jornada. Eles cansaram Felix com questões, contudo, ele respondeu-lhes tão copiosamente quanto ele podia; ele sentia-se tão agradecido pela bondade deles para não os satisfazer. O arco dele foi manejado, as flechas carregadas de um lado para o outro, de modo que, pela primeira vez, a aljava ficou vazia, e as flechas espalhadas em vinte mãos. Ele espantava-lhes ao [284]exibir sua habilidade com a arma, atingindo uma árvore com uma flecha a quase trezentas jardas.

É claro, embora familiares com o arco, eles nunca tinha visto tiro como aquele, nem, de fato, qualquer arquearia exceto em distâncias curtas. Eles mesmos não tinham outras armas, exceto lanças e faca. Vendo uma das mulheres cortando os galhos de uma árvore caída, morta e seca, e, portanto, preferível para combustível, Felix naturalmente foi ajudá-la, e, tomando o machado, logo produziu um fardo, o qual foi carregado por ela. Era o dever dele como um nobre providenciar para que nenhuma mulher, nem uma escrava, laborasse; ele tinha sido criado nessa ideia, e teria sentido-se desgraçado tivesse ele permitido isso. As mulheres olhavam com admiração, pois, nessas tribos rudes, o labor das mulheres era considerado valioso e estimado como aquele de um cavalo.

Dessa forma, sem nenhum desígnio consciente, em um dia, Felix conciliou e conquistou a estima dos dois partidos mais poderosos no acampamento, o dos chefes e o das mulheres. Por sua recusa ao comando, os chefes ficaram lisonjeados, e a possível hostilidade a ele foi evitada. O ato de cortar madeira e carregar o fardo deu-lhe os corações da mulheres. De fato, elas não consideravam o trabalho delas em qualquer grau opressivo; contudo, ser liberado dele era agradável.

O dois homens que tinham ido em busca do tesouro enterrado de Felix não retornaram até o café da manhã da próxima manhã. Eles caminharam para dentro do acampamento, cada qual com sua lança avermelhada e pingando com sangue fresco. Logo que Felix viu o sangue ele enfraqueceu. Ele recuperou-se rapidamente, mas não conseguiu suportar [285]a visão das lanças, as quais foram removidas e escondidas da sua visão. Ele tinha visto sangue suficiente ser derramado no cerco de Iwis, mas isso veio sobre ele com todo o seu horror, não aliviado pela excitação da guerra.

Os dois pastores tinham sido seguidos insistentemente por ciganos, e tinham sido obrigados a fazer um desvio para escapar. Eles vingaram-se escalando árvores e, quando os seus perseguidores passaram por baixo, trespassaram-lhes com suas longas lanças. Os pastores, como todas as tribos relacionadas a eles, tinham estado em contenda com os ciganos por muitas gerações. Os ciganos seguiam-lhe para e a partir dos seus pastos, isolavam retardatários, destruíam ou roubavam suas ovelhas e gado, e, de vez em quando, dominavam uma tribo inteira. Recentemente, a disputa tinha se tornado mais sanguinária e quase incessante.

Montados em cavalos velozes, embora pequenos, os ciganos tinham a vantagem sobre os pastores. Por outro lado, os pastores, sendo homens de grande estatura e força, não poderiam ser dominados por uma arremetida se eles tivessem tempo de formar um círculo, como era o seu costume de batalha. Eles perdiam muitos homens pelos dardos lançados pelos ciganos, quem cavalgavam até a borda do círculo, lançavam seus dardos e retiravam-se. Se os pastores deixassem o seu círculo, cavalgava-se facilmente sobre eles; enquanto eles mantinham a formação, eles perdiam indivíduos, mas salvavam a massa. As batalhas eram de ocorrência rara; os ciganos esperavam por oportunidades e executavam incursões, os pastores retaliavam, e, dessa maneira, a guerra sem fim continuava. Invariavelmente, os pastores posicionavam sentinelas e enviavam batedores adiante para averiguar se o caminho estava limpo. Acostumados com as horríveis cenas de guerra desde a [286]infância, eles não podiam entender a sensibilidade de Felix.

Eles riram e, em seguida, acariciaram-lhe como uma criança mimada. Isso o irritou excessivamente; ele sentiu-se humilhado e ansioso para reafirmar a sua masculinidade. Antes, ele estava desejoso de permanecer com ele por um tempo, nada o teria induzido a deixar-lhes, agora, até que ele tivesse justificado a si mesmo à vista deles. Esse incidente aconteceu logo depois do nascer do sol, o que era muito cedo no final de junho. O acampamento apenas tinha esperado pelo retorno desses homens, e, com o aparecimento deles, começou a mover-se. A marcha naquela manhã não foi longa, visto que o céu estava claro e calor logo cansou os rebanhos. Felix acompanhou o batedor com antecedência, armado com o seu arco, ansioso para encontrar os ciganos.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.276-286. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/276/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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