A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo XVIII O Achado de Moreau

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[189]Quando eu vi Montgomery engolir uma terceira dose de conhaque, eu tomei a atitude de interferir. Ele já estava mais que quase embriagado. Eu disse a ele que alguma coisa séria deve ter acontecido a Moreau a essa altura, ou ele já teria retornado, e que cabia a nós averiguarmos qual foi a catástrofe. Montgomery levantou algumas objeções débeis e, por fim, concordou. Nós consumimos um pouco de comida, e então todos os três partimos.

É possivelmente devido à tensão da minha mente à época, mas, mesmo agora, aquele começo de quietude quente da tarde tropical é uma impressão singularmente vívida. M’ling foi primeiro, seus ombros curvados, sua estranha cabeça escura movendo-se com rápidos movimentos enquanto ele espreitava primeiro este lado do caminho e, em seguida, aquele. Ele estava desarmado; o machado dele ele derrubou quando se encontrou com o homem-suíno. Os dentes eram as armas dele, quando [190]se chegava à luta. Montgomery seguiu, com passos cambaleantes, suas mãos em seus bolsos, seu rosto abatido; ele estava um um estado de rabugice confusa comigo por causa do conhaque. O meu braço esquerdo estava em uma tipoia (foi sorte que era o meu esquerdo), e eu levava meu revólver com o meu direito. Em pouco tempo nós traçamos um caminho estreito através da exuberância selvagem da ilha, indo na direção noroeste; e logo M’ling parou e tornou-se rígido em vigilância. Montgomery quase tropeçou nele, então parou também. Em seguida, escutando atentamente, nós ouvimos o som de vozes e passos aproximando-se de nós.

Ele está morto,” disse uma voz profunda, tremendo.

Ele não está morto; ele não está morto,” tagarelou outro.

Nós vimos, nós vimos,” disseram várias vozes.

O-lá!” Subitamente, Montgomery bradou, “o-lá, ali!”

Perturbamos vocês!” disse eu, e agarei minha pistola.

Houve silêncio, em seguida, um estampido em meio a vegetação entrelaçada, primeiro aqui, em seguida ali, e então uma meia dúzia de rostos apareceu, - rostos [191]estranhos, iluminados por uma luz estranha. M’ling produziu um som de rosnado em sua garganta. Eu reconheci o homem-macaco: de fato, eu já tinha reconhecido a voz dele e de duas das criaturas de feições marrons enfaixadas em branco, as quais eu tinha visto no bote Montgomery. Com eles estavam os dois brutos manchados e aquela criatura cinzenta, horrivelmente curvada, que dizia Lei, com pelo cinza correndo até as suas bochechas, pesadas sobrancelhas cinzentas e cachos cinzentos despejando-se a partir da divisão central da sua testa, - uma coisa pesada, sem rosto, com estranhos olhos vermelhos, olhando para nós curiosamente a partir do meio do verde.

Por um tempo, ninguém falou. Então Mongomery soluçou, “Quem – disse que ele está morto?”

O homem-macaco olhou culpadamente para a coisa de pelo cinzento. “Ele está morto,” disse o monstro. “Eles viram.”

Não havia nada ameaçador sobre esse destacamento, de qualquer maneira. Eles pareciam pasmos e intrigados.

Onde ele está?” disse Montgomery.

Acolá,” e a criatura cinzenta apontou.

Há uma Lei agora?” perguntou o homem-[192]macaco. “Ainda é para ser isso e aquilo? Ele está realmente morto?”

Há uma Lei?” repetiu o homem em branco. “Há uma lei, tu, Outro com o Chicote?”

Ele está morto,” disse a Coisa de pelo cinzento. E todos eles permanecerem observando-nos.

Prendick,” disse Montgomery, viram seus olhos aborrecidos para mim. “Ele está morto, evidentemente.”

Eu tinha estado de pé atrás dele durante esse colóquio. Eu comecei a ver como as coisas se colocam com eles. Subitamente, eu caminhei adiante de Montgomery e ergui minha voz:

Filhos da Lei,” eu disse, “Ele não esta morto!” M’ling virou os seus olhos perspicazes para mim. “Ele mudou de forma; ele mudou de corpo,” eu prossegui. “Vocês não o verão por um tempo. Ele está – lá,” eu apontei para cima, “onde ele pode observar vocês. Vocês não podem vê-lo, mas ele pode ver vocês. Temam a Lei.”

Eu olhei para ele diretamente. Eles vacilaram.

Ele é grande, ele é bom,” disse o homem-macaco, espreitando temerosamente para cima entre as árvores densas.

[193]“E a outra Coisa?” Eu perguntei.

A Coisa que sangrou, e correu gritando e soluçando, - essa também está morta,” disse a Coisa cinzenta, ainda me observando com atenção.

Isso é bom,” grunhiu Montgomery.

O Outro com o Chicote - ” começou a Coisa cinza.

Bem?” disse eu.

Disse que ele estava morto.”

Mas Montgomery ainda estava suficientemente sóbrio para entender meu motivo para negar a morte de Moreau. “Ele não está morto,” ele disse lentamente, “absolutamente não morto. Não mais morto do que eu estou.”

Alguns,” disse eu, “infringiram a Lei: eles morrerão. Alguns morreram. Mostrem-nos agora onde o antigo corpo dele jaz, o corpo que ele descartou porque ele não mais precisa dele.”

Esse é o caminho, Homem que Caminha no Mar,” disse a Coisa cinza.

E com seis criaturas guiando-nos, nós caminhamos, através do tumulto de samambaias e trepadeiras e troncos de árvores, na direção noroeste. Então surgiu um grito, um choque, em meio aos galhos, e um pequeno homúnculo rosado, apressado por nós, [194]gritando. Imediatamente depois, apareceu um monstro selvagem em perseguição desenfreada, sujo de sangue, quem estava entre nós antes que ele pudesse parar a sua corrida. A Coisa cinza pulou para o lado. Com um rosnado, M’ling jogou-se sobre ele e foi atirado para o lado. Montgomery atirou e errou, curvou a cabeça, desistiu e virou-se para correr. Eu atirei, e a coisa ainda avançava; atirei de novo, à queima-roupa, na sua cara horrenda. Contudo, ela ultrapassou-me, agarrou Montgomery e, segurando-o, caiu precipitadamente ao lado dele e puxou-o, espalhando-se sobre si mesma, em sua agonia de morte.

Eu encontrei-me sozinho com M'ling, o bruto morto e o homem prostrado. Montgomery levantou-se lentamente e encarou de uma maneira confusa o homem-besta destruído ao lado dele. Isso quase o tornou sóbrio. Ele colocou-se de pé com dificuldade. Em seguida, eu vi a Coisa cinza retornando cautelosamente através das árvores.

Veja,” disse eu, apontando para o bruto morto, “a Lei não está viva? Isso foi resultado da infração da Lei.”

Ele espreitou o corpo. “Ele envia o fogo que mata,” disse ele, em sua voz profunda, [195]repetindo parte do Ritual. Os outros reuniram-se ao redor e procuraram por um espaço.

Finalmente, nós nos aproximamos da extremidade ocidental da ilha. Nós nos deparamos com o corpo mordido e mutilado do puma, o seu osso do ombro esmagado por uma bala, e, talvez vinte jardas mais longe, finalmente, encontramos o que nós buscávamos. Moreau jaz com o rosto para baixo em um espaço pisado em um canavial. Uma mão estava quase cortada no pulso, e o cabelo prateado dele estava manchado de sangue. A cabeça dele tinha sido batida várias vezes pelos grilhões do puma. As canas quebradas sob ele estavam manchadas com sangue. Nós não conseguimos encontrar o revólver dele. Montgomery virou-o para cima.

Descansando em intervalos, e com a ajuda do povo-besta, nós carregamos Moreau (pois ele era um homem pesado) de volta para a cercada. A noite estava escurecendo. Duas vezes nós ouvimos criaturas invísiveis berrando e gritando, passado o nosso pequeno bando, e, uma vez, a pequena criatura-preguiça rosada apareceu, encarou-nos e desapareceu novamente. Mas nós não fomos novamente atacados. Nós portões da cercada, a nossa companhia do povo-besta deixou-nos, M’ling indo com o resto. Nós nos trancamos [196]dentro e então colocamos o corpo mutilado de Moreau no quintal e colocamos sobre ele uma pilha de mato. Em seguida, nós entramos no laboratório e demos um fim a tudo vivo que nós encontramos lá.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 189-196. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/189/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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