A Ilha do Doutor Moreau - Capítulo XX Sozinho com o Povo-besta

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[211]Eu encarava essas pessoas, encarando meu destino nelas, agora sozinho, - literalmente com uma mão, pois eu tinha um braço quebrado. Em meu bolso estava um revólver com duas câmaras vazias. Entre as lascas espalhadas sobre a praia estavam os dois machados que tinham sido usado para despedaçar os botes. A maré estava arrastando-se atrás de mim. Não havia nada em prol disso, exceto coragem. Eu olhei diretamente nos rosto dos monstros que estavam avançando. Eles evitavam os meus olhos, e seus narinas trêmulas investigavam os corpos que se estendiam além de mim na praia. Eu dei uma dúzia de passos, peguei um chicote manchado de sangue que estava sob o corpo do homem-lobo e estalei-o. Eles pararam e encararam-me.

Saudações!” eu disse. “Curvem-se!”

Eles hesitaram. Um dobrou os joelhos. Eu repeti meu comando, com meu coração em minha boca, e avancei sobre eles. Um ajoelhou-se, em seguida, os outros dois.

[212]Eu virei-me e caminhei na direção dos corpos dos mortos, mantendo o meu rosto na direção dos três homens-besta ajoelhados, exatamente como um ator passando pelo palco encara a audiência.

Eles infringiram a Lei,” eu disse, colocando o meu pé sobre o Pronunciador da Lei. “Eles foram mortos, - até o Pronunciador da Lei; mesmo o Outro com o Chicote. Grande é a Lei! Venham e vejam.”

Ninguém escapa,” disse um deles, avançando e espreitando.

Ninguém escapa,” eu disse. “Portanto, ouçam-se e façam como eu comando.” Eles colocaram-se de pé, olhando interrogativamente uns para os outros.

Permaneçam aí,” eu disse.

Eu peguei as machadinhas e girei-as pelas cabeças delas a partir da tipoia do meu braço; virei Montgomery para cima; peguei o seu revólver, ainda carregado em duas câmaras, e, curvando para revistar, encontrei meia dúzia de cartuchos em seu bolso.

Peguem-no,” eu disse, ficando novamente de pé e apontando com o chicote; “peguem-no, carreguem-no para fora e joguem-no ao mar.”

Eles avançaram, evidentemente ainda com medo de [213]Montgomery, mas ainda com mais medo do estalido da correia do chicote por mim; e, após alguma inépcia e hesitação, algum estalar de chicote e bradar, eles ergueram-lhe cautelosamente, carregaram-no para a praia abaixo, e entraram respingando na confusão deslumbrante do mar.

Adiante!” eu disse, “adiante! Carreguem-no para longe.”

Eles ergueram-no até as axilas deles e permaneceram observando-me com atenção.

Vamos,” eu disse; e o corpo de Montgomery desapareceu com um respingo. Alguma coisa pareceu apertar através do meu peito.

Bom!” eu disse, com uma pausa em minha voz; e ele retornaram, apressando-se e temerosos, para a margem da água, deixando grandes sulcos de preto na prata. À beira da água, eles pararam, virando-se e encarando o mar, como se eles logo esperassem Montgomery ascender de lá e exigir vingança.

Agora esses,” eu disse, apontando para os outros corpos.

Eles tomaram cuidado para não se aproximarem do lugar onde eles tinham jogado Montgomery dentro da água, mas, em vez disso, carregaram os quatro do povo-besta obliquamente ao longo da praia por, talvez, uma [214]centena de jardas antes que eles passeassem e descartassem-nos.

Enquanto os observava dispondo dos restos mutilados de M’ling, eu ouvi passadas leves atrás e mim e, virando-me rapidamente, eu vi a grande hiena-suíno talvez a umas doze jardas de distância. A cabeça dela estava curvada, seus olhos brilhantes estavam fixos em mim, as suas mãos atarracadas, cerradas e mantidas perto ao lado dela. Ela parou nessa atitude agachada quando eu me virei, os olhos dela um pouco desviados.

Por um momento nós permanecemos de olho no olho. Eu larguei o chicote e arrebatei a pistola no meu bolso; pois eu pretendia matar esse bruto; o mais formidável de qualquer um agora deixado nesta ilha, ao primeiro pretexto. Isso pode parece traiçoeiro, mas assim eu estava resolvido. Eu estava com muito mais medo dele do que quaisquer outros dois do povo-besta. Eu sabia que a sua vida continuada era uma ameaça à minha.

Talvez eu estivesse por doze segundo reunindo a mim mesmo. Então, eu bradei, “Saudações! Curve-se!”

Os dentes dela brilharam sobre mim em um rosnado. “Quem é você para que eu deva -”

Talvez um pouco muito espasmodicamente, eu saquei o meu [215]revólver, mirei rapidamente e atirei. Eu ouvi ela ganir, vi ela correr lateralmente e virar-se, sabia que eu tinha errado, e estalei de volta o gatilho com meu dedão para o próximo tiro. Mas ela já estava correndo para frente, pulando de lado a lado, e eu não me atrevi a arriscar outro erro. De vez em quando ela olhava para trás sobre o ombro dela. Ela seguiu inclinado-se ao longo da praia e desapareceu sob as massas motrizes de fumaça densa que ainda estavam vazando da cercada em chamas. Por algum tempo eu permaneci observando-o. Eu voltei-me novamente para os meus três obedientes do povo-besta e sinalizei para eles largarem o corpo que eles ainda carregavam. Em seguida, eu voltei para o lugar perto da fogueira onde os corpos tinham caído e chutei a areia até que as manchas marrons de sangue fossem absorvidas e ocultas.

Eu liberei meus três servos com um aceno de mão, e subi a praia para dentro das matas. Eu carreguei minha pistola em minha mão, meu cabo do chicote com as machadinhas na tipoia do meu braço. Eu estava ansioso para ficar sozinho, para pensar sobre a posição na qual eu agora estava colocado. Uma coisa terrível, que apenas agora eu estava começando a compreender, era que, através de toda essa ilha, agora, não havia nenhum [216]lugar seguro onde eu poderia ficar sozinho e seguro para descansar ou dormir. Eu tinha recuperado maravilhosamente a força desde o meu desembarque, mas eu ainda estava inclinado a ficar nervoso e falhar sob qualquer grande estresse. Eu senti que devia cruzar a ilha e estabelecer-me com o povo-besta, e tornar-me seguro em sua confiança. Mas meu coração falhava-me. Eu retornei à praia, e, virando na direção oriental, passei a cercada queimada, dirigi-me para um ponto onde uma ponta rasa de areia de coral corria na direção do recife. Aqui eu pude me sentar e pensar, minhas costas para o mar e meu rosto contra qualquer surpresa. E ali eu me sentei, queixo nos joelhos, o sol batendo sobre a minha cabeça e pavor indescritível em minha mente, maquinando como eu poderia continuar a viver no caso da hora do meu resgate (se alguma vez o resgate viesse). Eu tentei revisar a situação inteira tão calmamente quanto eu pude, mas era difícil clarear a coisa de emoção.

Eu comecei a ponderar em minha mente a razão do desespero de Montgomery. “Eles mudarão,” ele disse; “é certo que eles mudarão.” E Moreau, o que foi que Moreau tinha dito? “A teimosa carne da besta cresce novamente, dia a dia.” Então, eu retornei à [217]hiena-suíno. Eu senti que, seu não matasse aquele bruto, ele me mataria. O Pronunciador da Lei estava morto: pior sorte. Agora eles sabiam que nós dos Chicotes podíamos ser mortos, exatamente como eles mesmos eram mortos. Eles já estavam espreitando-me, a partir das massas verdes de samambaias e palmas acolá, esperando até que eu chegasse dentro do alcance do seu pulo? Ele estavam maquinando contra mim? O que a hiena-suíno estava contando a eles? Minha imaginação estava fugindo comigo para dentro de um pântano de medos insubstanciais.

Meus pensamentos foram perturbados por um grito de aves marinhas apressando-se na direção de algum objeto negro que tinha ficado encalhado na praia perto da cercada pelas ondas. Eu sabia o que era aquele objeto, mas eu não tive o coração para voltar e forçá-lo a sair. Eu comecei a andar ao longo da praia na direção oposta, projetando circular o canto oriental e, dessa maneira, aproximar-me da ravina das cabanas, sem atravessar as emboscadas possíveis das matas.

Talvez a uma meia milha ao longo da praia eu tornei-me ciente de um dos meus três do povo-besta avançando [218]na minha direção para fora dos arbustos na terra. Eu agora estava tão nervoso com minha próprias imaginações que imediatamente saquei meu revólver. Mesmo os gestos conciliadores da criatura falharam em me desarmar. Ele hesitou conforme eu me aproximava.

Vá embora!” Gritei.

Havia alguma coisa muito sugestiva de um cão na atitude encolhida da criatura. Ela recuou um pouco, exatamente como um cão sendo enviado para casa, e parou, olhando para mim suplicantemente com caninos olhos marrons.

Vá embora,” eu disse. “Não se aproxime de mim.”

Eu não posso chegar perto de você?” ele disse.

Não; vá embora,” eu insisti, e estalei meu chicote. Em seguida, colocando o chicote nos meus dentes, eu parei em busca de uma pedra e, com aquela ameça, expulsei a criatura.

Assim, em solidão, eu retornei à ravina do povo-besta, e, ocultando-me entre as ervas daninhas e canas que separavam esta abertura do mar, eu observei tais deles conforme apareciam, tentando julgar os seus gestos e aparência, como as mortes de Moreau e Montgomery e a destruição da Casa da Dor tinha afetado-os. [219]Agora eu conhecia a loucura da minha covardia. Tivesse eu mantido minha coragem elevada ao nível da aurora, não tivesse eu permitido decair em pensamento solitário, eu poderia ter agarrado o cetro vago de Moreau e dominado o povo-besta. Como estava, eu tinha perdido a oportunidade, e afundado à posição de um mero líder em meio aos meus companheiros.

Pelo meio-dia, alguns deles vieram e agacharam-se aquecendo-se na areia quente. As vozes imperiosas da fome e sede prevaleceram sobre o meu temor. Eu saí dos arbustos, e, revólver na mão, caminhei na direção dessas criaturas sentadas abaixo. Uma, uma mulher-lobo, virou sua cabeça e encarou-me, e, em seguida, os outros. Nenhum tentou levantar-se ou saudar-me. Eu sentia-me muito fraco e cansado para insistir, e eu deixei o momento passar.

Eu quero comida,” eu disse, quase apologeticamente, e aproximando-me.

Há comida nas cabanas,” disse um homem-javali-boi, sonolentamente, e olhando para longe de mim.

Eu passei por eles e desci para a escuridão e os odores da ravina quase deserta. [220]Em uma cabana, eu regalei-me em alguma fruta manchada e meio deteriorada; e, em seguida, depois de eu ter apoiado alguns galhos e varas em torno da abertura, e colocado a mim mesmo com o rosto virado na direção dela, e minha mão sobre o revólver, a exaustão das últimas trinta horas reivindicou a sim mesma, e eu caí em uma leve soneca, esperando que a frágil barricada que eu tinha erigido causaria ruído suficiente em sua remoção para me salvar de uma surpresa.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 211-220. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/211/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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