[157]A minha inexperiência como um escritor me trai, e eu desvio-me do fio de minha história.
Após eu ter tomado café da manhã com Montgomery, ele levou-me através da ilha para ver a fumarola e a origem da fonte quente nas águas escaldantes da qual eu tinha caminhado cegamente no dia anterior. Nós dois levávamos chicotes e revólveres carregados. Enquanto caminhando para lá através de uma mata frondosa, nós ouvimos um coelho guinchando. Nós paramos e escutamos, mas não ouvimos mais nada; logo nós seguimos em nosso caminho, e o acidente saiu das nossas mentes. Montgomery chamou a minha atenção para certos pequenos animais rosados com longas patas traseiras que passavam saltando através da vegetação rasteira. Ele contou-me que eles eram criaturas criadas a partir da prole do povo-besta, que Moreau tinha inventado. Ele tinha imaginado que eles serviam para carne, mas um [158]hábito semelhante ao de coelhos de devorarem seus jovens tinha derrotado essa intenção. Eu já tinha encontrado algumas dessas criaturas, - uma vez durante minha fuga à luz da lua do homem-leopardo, e uma vez durante a minha perseguição por Moreau no dia anterior. Por acaso, uma saltitando para nos evitar pulou para dentro do buraco produzido pelo desenraizamento de uma árvore soprada pelo vento, antes que ela pudesse se libertar nós conseguímos capturá-la. Ela cuspia como um gato, arranhava e chutava vigorosamente com suas patas traseiras, e fez uma tentativa para morder; mas os seus dentes eram débeis demais para infligirem mais do que um beliscão sem dor. Ela pareceu-me uma criatura bastante bonita; e, como Montgomery declarou que ela nunca destruía a relva cavando, e era de hábitos muito limpos, eu devo imaginar que ela poderia provar-se um substituto conveniente para o coelho comum em parques de cavalheiros.
Em nosso caminho, nós também vimos o tronco de uma árvore, descascado em longas faixas e profundamente lascado. Montgomery chamou a minha atenção para isso. “Não golpear com garras a casca de árvores, essa é a Lei,” ele disse. “Muitos deles se importam com isso!” Foi depois disso, eu acho, que nós nos encontramos com o sátiro e o homem-macaco. O sátiro era um vislumbre de memória [159]clássica da parte de Moreau, - seu rosto, ovino em expressão, como o tipo hebreu mais rude; sua voz, um balido áspero, suas extremidades inferiores, satânicas. Ele estava roendo a casca de uma fruta semelhante a uma vagem enquanto nós passamos. Os dois saudaram Montgomery.
“Saudação,” disseram eles, “para o Outro com o Chicote!”
“Agora há um Terceiro com um Chicote,” disse Montgomery. “Dessa maneira, melhor obedecerem!”
“Ele não foi criado?” disse o homem-macaco. “Ele disse – ele disse que ele foi criado.”
O homem-sátiro examinou-me curiosamente. “O Terceiro com o Chicote, aquele que caminha chorando para dentro do mar, tem um fino rosto branco.”
“Ele tem um longo chicote fino,” disse Montgomery.
“Ontem ele sangrou e chorou,” disse Montgomery. “Você nunca sangra nem chora. O Mestre não sangra nem chora.”
“Pobre ollendorfiano!” disse Montgomery, “você sangrará e chorará se não ficar atento!”
“Ele tem cinco dedos, ele é um homem-cinco como eu,” disse o homem-macaco.
“Avancemos, Prendick,” disse Montgomery, tomando meu braço; e eu fui com ele.
[160]O sátiro e o homem-macaco permaneceram observando-nos e fazendo observações um para o outro.
“Ele não falou nada,” disse o sátiro. “Homens têm vozes.”
“Ontem ele me perguntou sobre coisas para comer,” disse o homem-macaco. “Ele não conhecia.”
Então eles falaram coisa inaudíveis, e eu ouvi o sátiro rindo.
Foi em nosso caminho de volta que nos deparamos com um coelho morto. O corpo vermelho da pequena besta miserável foi despedaçada, muitas das costelas despidas brancas, e a espinha dorsal indisputavelmente roída.
Diante disso, Montgomery parou. “Bom Deus!” ele disse, abaixando-se e pegando algumas das vértebras esmagadas para as examinar mais de perto. “Bom Deus!” ele repetiu, “o que isso pode significar?”
“Algum carnívoro de vocês lembra-se dos seus velhos hábitos,” eu disse após uma pausar. “Essa espinha dorsal foi completamente mordida.”
Ele permaneceu olhando, com o rosto branco e o lábio puxado de lado. “Eu não gosto disso,” ele disse lentamente.
[161]“Eu vi alguma coisa do mesmo tipo,” disse eu, “no primeiro dia que eu cheguei aqui.”
“O diabo que você viu! O que era?”
“Um coelho com a cabeça dele torcida.”
“O dia no qual você chegou aqui?”
“O dia no qual eu cheguei aqui. Na vegetação rasteira nos fundos da cercada, quando eu saí à noite. A cabeça estava completamente arrancada.”
Ele deu um assobio longo e baixo.
“E mais, eu tenho uma ideia de qual dos seus brutos fez isso. É apenas uma suspeita, você sabe. Antes que eu me deparasse com o coelho, eu vi um dos seus monstros bebendo no riacho.”
“Sugando a bebida dele?”
“Sim.”
“‘Não sugar sua bebida; essa é a Lei.’ Os brutos importam-se muito com a Lei, é? Quando Moreau não está por perto!”
“Foi o bruto que me perseguiu.”
“É claro,” disse Montgomery; “é apenas a maneira dos carnívoros. Depois de um assassinato, eles bebem. É o gosto de sangue, você sabe – Com o que esse bruto se parecia?” Ele continuou. [162]“Você o reconheceria novamente?” Ele deu uma olhada em nossa volta, erguendo-se sobre a bagunça do coelho morto, os olhos dele errando em meio às sombras e barreiras de folhagem, os esconderijos e as emboscadas da floresta que nos confinavam. “O gosto do sangue,” disse ele novamente.
Ele pegou o seu revólver, examinou os cartuchos nele e substituiu-o. Em seguida, ele começou a puxar seu lábio caído.
“Eu acho que eu deverei reconhecer o bruto novamente,” eu disse. “Eu atordoei-o. Ele deve ter um belo hematoma sobre a testa dele.”
“Mas então nós temos de provar que ele matou o coelho,” disse Montgomery. “Eu gostaria que eu nunca tivesse trazido as coisas aqui.”
Eu deveria ter avançado, mas ele permaneceu ali, sobre o coelho mutilado, com a cabeça cheia de noções confusas. Por assim dizer, eu afastei-me a uma tal distância que os restos do coelho ficaram ocultos.
“Vamos!” Eu disse.
Logo ele despertou e veio na minha direção. “Veja você,” ele disse, quase em um sussurro, “supõe-se que todos eles tenham uma ideia fixa contra comer qualquer coisa que corra sobre a terra. Se algum bruto, por acidente, provou sangue -” [163]Ele prosseguiu por um tempo em silêncio. “Eu pergunto-me o que pode ter acontecido,” ele disse a si mesmo. Em seguida, após uma pausa novamente: “Eu fiz uma coisa tola no outro dia. Aquele servo meu – eu mostrei-lhe como esfolar e cozinhar um coelho. É estranho – eu vi ele lambendo as mãos – nunca me ocorreu.” Então: “Nós temos de fazer isso parar. Eu tenho de contar a Moreau.”
Ele não pôde pensar em nada senão em nossa jornada de volta para casa.
Moreau levou o assunto ainda mais a sério do que Montgomery, e eu escassamente digo que fui afetado pela sua consternação evidente.
“Nós temos de dar um exemplo,” disse Moreau. “Em minha mente, eu não tenho dúvida de que o pecador foi o homem-leopardo. Mas como nós podemos provar isso? Montgomery, eu gostaria que você tivesse mantido o seu gosto de carne sob controle, e seguido sem essas novidades excitantes. Contudo, nós podemos nos encontrar em uma confusão, até o fim disso.”
“Eu fui um asno estúpido,” disse Montgomery. “Mas a coisa agora está feita; e você disse que eu poderia tê-los, você sabe.”
“Nós temos de cuidar disso de uma vez,” disse [164]Moreau. “Eu suponho que, se qualquer coisa deva se revelar, M'ling pode tomar conta de si mesmo?”
“Eu não estou certo sobre M'ling,” disse Montgomery. “Eu acho que eu deveria conhecê-lo.”
À tarde, Moreau, Montgomery, eu mesmo, e M'ling cruzamos a ilha para as cabanas na ravina. Nós três estávamos armados; M'ling carregava uma pequena machadinha que ele usava para cortar lenha, e alguns rolos de fio. Moreau tinha um imenso chifre de vaqueiro jogado sobre o seu ombro.”
“Você verá a reunião do Povo-besta,” disse Montgomery. “É uma bela vista!”
Moreau não disse uma palavra durante o caminho, mas a expressão do seu rosto pesado, com franjas brancas estava sombriamente estabelecida.
Nós cruzamos a ravina abaixo, a qual fumaçava o córrego de água quente, e seguimos o caminho sinuoso através dos bambuzais até que alcançamos uma ampla área coberta com uma substância amarela, poeirenta e espessa, a qual nós acreditamos ser enxofre. Acima do ressalto de um banco de areia coberto por ervas daninhas, o mar cintilava. Nós chegamos a um tipo de raso anfiteatro natural, e aqui os quatro de nós [165]paramos. Então Moreau soou o chifre, e rompeu a quietude adormecida da tarde tropical. Ele deve ter tido pulmões fortes. A nota piante subiu e subiu, em meio aos seus ecos, até, pelo menos, uma intensidade penetrante do ouvido.
“Ah!” disse Moreau, deixando o instrumento curvo cair para o lado dele novamente.
Imediatamente, houve um estampido através das canas amarelas, e um som de vozes a partir da densa selva verde que marcava o atoleiro através do qual eu tinha corrido no dia anterior. Em seguida, em três ou quatro pontos na borda da área sulfurosa, apareceram as formas grotescas do povo-besta apressando-se na nossa direção. Eu não pude evitar um horror rastejante, enquanto eu percebia primeiro um e em seguida outro trotar a partir das árvores ou canas e avançar cambaleante sobre a poeira quente. Mas Moreau e Montgomery permaneceram suficientemente calmos; e necessariamente eu me coloquei ao lado deles.
O primeiro a chegar foi o sátiro, estranhamente irreal para todos, visto que ele lança uma sombra e sacode a poeria com o seus cascos. Depois dele, a partir do matagal surgiu um grosseirão monstruoso, uma coisa de cavalo e rinoceronte, mastigando uma palha conforme ele vinha; então [166]vieram a mulher-suína e duas mulheres-lobas; em seguida, a bruxa urso-raposa, com seus olhos vermelhos em sua face macilenta, e então os outros, - todos se apressando ansiosamente. Enquanto avançavam, eles começaram a adular servilmente Moreau e a entoarem cânticos, bastante indiferentes uns aos outros, fragmentos da segunda parte da litania da Lei, - “Dele é a Mão que fere; Dele é a Mão que cura,” e assim por diante. Tão logo eles tinham se aproximado a uma distância de talvez trinta jardas, eles pararam e, curvando-se sobre joelhos e ombros, começaram a lançar a poeira branca sobre as cabeças deles.
Imagine a cena se você puder! Nós três, homens trajados de azul, com o nosso auxiliar de rosto escuro malformado, de pé em uma ampla vastidão de poeira amarela iluminada pelo sol sob o brilhante céu azul, e circundados por esse círculo de monstruosidades rastejantes e gesticulantes, - algumas quase humanas, salvo em sua expressão sútil e gestos, algumas semelhantes a aleijados, algumas tão estranhamente distorcidas como a não se assemelharem a nada senão aos habitantes de nossos sonhos mais selvagens; e além, as linhas cobertas de canas de um canavial em uma direção, um denso emaranhado de palmeiras na outra, separando-nos [167]da ravina com as cabanas, e para o norte, o horizonte do oceano pacífico.
“Sessenta e dois, sessenta e três,” contou Moreau. “Há mais quatro.”
“Eu não vejo o homem-leopardo,” eu disse.
Logo Moreau soou novamente o grande chifre, e, ao som dele, todo o povo-besta contorceu-se e rastejou na poeira. Em seguida, esgueirando-se para fora do canavial, parando perto do chão e tentando juntar-se ao círculo de arremessadores de poeira nas costas de Moreau, veio o homem-leopardo. O último do povo-besta a chegar foi o pequeno homem-macaco. Os animais anteriores, quentes e cansados com seu rastejamento, lançaram olhadas viciosas para ele.
“Parem!” disse Moreau, em sua voz firme e alta; e o povo-besta sentou-se sobre suas coxas e nádegas, e descansou de sua adoração.
“Onde está o Pronunciador da Lei?” disse Moreau, e o de pelo cinzento curvou o rosto dele na poeira.
“Diga as palavras!” disse Moreau.
Imediatamente, todos na assembleia ajoelhada, balançando de lado a lado e arremessando o enxofre para cima com sua mãos, - primeiro a mão direita e [168]uma lufada de poeira, e, em seguida, a esquerda, começaram uma vez mais a entoar a sua estranha litania. Quando eles alcançaram, “Não comer Carne ou Ave, essa é a Lei,” Moreau ergueu a sua pálida mão branca.
“Parem!” Ele bradou, e ali caiu silêncio absoluto sobre todos eles.
Eu acho que todos eles sabiam e temiam o que estava vindo. Eu olhei em volta para os seus rostos estranhos. Quando eu vi suas atitudes trêmulas e o temor furtivo no brilho dos seus olhos, eu maravilhei-se de que eu alguma vez os tenha acreditado ser humanos.
“Essa a Lei foi infringida!” disse Moreau.
“Ninguém escapa,” da criatura sem rosto com o pelo cinza. “Ninguém escapa,” repetiu o círculo ajoelhado do povo-besta.
“Quem é ele?” bradou Moreau, e olhou em volta para os rostos deles, estalando seu chicote. Eu imaginei que a hiena-suíno parecia abatido, assim como também parecia o homem-leopardo. Moreau parou, encarando a criatura, quem o adulava servilmente com a memória e o pavor de tormento infinito. “Quem é ele?” repetiu Moreau, em uma voz de trovão.
“Mal é aquele que infringe a Lei,” entoou o Pronunciador da Lei.
[169]Moreau olhou dentro dos olhos do homem-leopardo e parecia estar arrastando para fora a alma mesma da criatura.
“Quem infringe a Lei-” disse Moreau, tirando seus olhos de sua vítima, e voltando-se para nós (pareceu-me que havia um toque de exultação na voz dele).
“Retorna para a Casa da Dor,” todos eles clamaram, “retorna para a Casa da Dor, Oh Mestre!”
“De volta para a Casa da Dor, - de volta para a Casa da Dor,” tagarelou o homem-macaco, como se a ideia fosse doce para ele.
“Você ouve?” disse Moreau, voltando-se novamente para o criminoso, “meu amigo – Olá!”
Pois o homem-leopardo, liberto do olho de Moreau, tinha se erguido ereto a partir do seu joelho, e agora, com olhos em chamas e suas imensas presas felinas brilhando a partir de sob seus lábios curvados, saltou na direção do seu algoz. Eu estou convencido de que apenas a loucura de um medo insuportável poderia ter provocado esse ataque. O círculo inteiro de sessenta monstros pareceu elevar-se ao nosso redor. Eu saquei meu revólver. As duas figuras colidiram. Eu vi Moreau cambaleando para trás para longe do golpe do homem-leopardo. [170]Houve uma furiosa gritaria e uivos em toda nossa volta. Todos estavam se movendo rapidamente. Por um momento, eu pensei que fosse uma revolta geral. O rosto furioso do homem-leopardo cintilou perto do meu, com M’ling em perseguição próxima. Eu vi os olhos amarelos da hiena-suíno brilhando com excitação, a atitude dele como se ele estivesse quase resolvido a atacar-me. Também o sátiro, olhou-me fixamente, sobre os ombros curvados da hiena-suíno. Eu ouvi o estalo da pistola de Moreau, e vi o brilho rosado dardejar através do tumulto. A multidão inteira parecia oscilar em volta na direção do clarão de fogo, e eu também fui oscilado em volta pelo magnetismo do movimento. Em outro segundo, eu estava correndo, um de uma tumultuosa multidão gritante, em perseguição ao homem-leopardo fugitivo.
Isso é tudo que eu posso contar com certeza. Eu vi o homem-leopardo atacar Moreau, e, em seguida, tudo girou a minha volta até que eu estava correndo impetuosamente. M’ling estava a frente, perto do fugitivo em perseguição. Atrás, as línguas deles já soltas para fora, corriam os homens-lobo em grandes passadas largas. O povo-suíno seguia, gritando com excitação, e dois homens-touro em seus [171]faixas brancas. Em seguida vinha Moreau, em uma aglomeração de povo-besta, seu chapéu de palha de abas largas soprado, seu revólver em mão e seu liso cabelo branco fluindo. A hiena-suíno corria ao meu lado, mantendo o passo comigo e encarando furtivamente com seus olhos felinos, e os outros vinham tagarelando e gritando atrás de nós.
O homem-leopardo caminhou, irrompendo seu caminho através das longas canas, as quais saltavam para trás conforme ele passava e atrapalhavam o rosto de M'ling. Nós outros encontramos, na retaguarda, um caminho pisado por nos quando alcançamos o riacho. A caçada estendeu-se através do riacho talvez por um quarto de uma milha, e, em seguida, mergulhou em um matagal denso, o qual retardou excessivamente os nossos movimentos, embora nós o atravessássemos juntos em um bando, - frondes tremendo em nossos rostos, trepadeiras pegajosas agarrando-nos sob o queixo ou agarrando nossos tornozelos, plantas espinhosas enganchando-se e rasgando tecido e carne juntos.
“Ele foi de quatro através disso,” arquejou Moreau, agora exatamente diante de mim.
“Ninguém escapa,” disse o urso-lobo, rindo na minha cara com a exultação da casa.
[172]Nós irrompemos novamente em meios às rochas, e vimos a presa correndo levemente de quatro e rosnando para nós sobre o seu ombro. Diante disso, o povo-lobo uivava com deleite. A Coisa ainda estava vestida e, a uma distância, o rosto dela ainda parecia humano; mas o comportamento dos seus quatro membros era distintamente aquele de um felino, e a queda furtiva do seu ombro era distintamente aquela de um animal caçado. Ela saltou saltou sobre alguns arbustos espinhosos de folhas amarelas e ficou oculta. M’ling estava a meio caminho através do espaço.
A maioria de nós agora tinha perdido a velocidade inicial da caçada, e tínhamos caído em um passo mais longo e estável. Enquanto nós atravessávamos o campo descoberto, eu vi que a perseguição estava agora se espalhando de uma coluna para uma linha. A hiena-suíno ainda corria perto de mim, observando-me enquanto ela corria, de vez em quando enrugando o seu focinho com um riso rosnante. Na beira das rochas, o homem-leopardo, compreendendo que ele estava chegando ao cabo que se projetava sobre o qual ele tinha me espreitado na noite da minha chegada, tinha dobrado na vegetação rasteira; mas Montgomery tinha visto a manobra, girou-o novamente. Assim, ofegante, tombando em rochas, rasgado por espinheiros, [173]retardado por samambaias e canas, eu ajudei a perseguir o homem-leopardo que tinha infringido a Lei, e a hiena-suíno, rindo selvagemente, corria ao meu lado. Eu vacilava, minha cabeça titubeando e meu coração batendo contra as minhas costelas, cansado quase até a morte, e, contudo, não me atrevendo a perder a perseguição de vista, com medo de que eu devesse ser deixado sozinho com essa companhia horrível. Eu vacilava, a despeito da fatiga infinita e do calor denso a tarde tropical.
Finalmente, a fúria da caçada abrandou. Nós tínhamos encurralado o bruto miserável em um canto da ilha. Moreau, chicote na mão, ordenou-nos em uma linha irregular, e agora nós avançávamos lentamente, bradando uns aos outros conforme nós avançávamos e apertávamos o cordão em torno da nossa vítima. Ele ocultava-se sem barulho e invisível nos arbustos através dos quais eu tinha corrido dele durante a perseguição naquela meia-noite.
“Firme!” bradou Moreau, “firme!” enquanto as extremidades da linha arrastavam-se em volta do emaranhado de vegetação rasteira e margeavam o bruto dentro.
“Cuidado com uma investida!” surgiu a voz de Montgomery de além da mata.
Eu estava sobre a encosta acima dos arbustos; [174]Montgomery e Moreau ritmando ao longo da praia abaixo. Lentamente nós empurrávamos, em meio a rede entrelaçada de ramos e folhas. O grupo estava silencioso.
“De volta para a Casa da Dor, a Casa da Dor, a Casa da Dor!” Ganiu a voz do homem-macaco, algumas vinte jardas para a direita.
Quando eu ouviu isso, eu perdoei o pobre desgraçado de todo o medo que ele tinha me inspirado. Eu ouvi os ramos estalarem e os galhos açoitarem par ao lado diante do passo pesado do rinoceronte-cavalo à minha direita. Em seguida, subitamente através de um polígono de verde, na meia escuridão sobre a vegetação luxuriante, eu vi a criatura que nós estávamos caçando. Eu parei. Ela estava agachada na menor área possível, seus luminosos olhos verdes, virados sobre seu ombro, observando-me atentamente.
Pode parecer uma contradição estranha em mim, - eu não posso explicar o fato, - mas agora, vendo a criatura ali, em uma atitude perfeitamente animal, com a luz brilhando nos seus olhos e o seu rosto imperfeitamente humano distorcido com terror, eu novamente compreendi o fato de sua humanidade. Em outro momento, outro dos seus perseguidores perceberia isso, e seria dominado e capturado, [175]para experienciar uma vez mais as torturas horríveis da cercada. Abruptamente, eu soltei o meu revólver, mirei entre os seus olhos atingido pelo medo, e disparei. Enquanto eu fazia isso, a hiena-suíno viu a Coisa, jogou-se sobre ela com um grito ansioso, lançando dentes sedentos dentro do pescoço dela. Todas as massas verdes do matagal ao meu redor estavam balançando e estalando, enquanto o povo-besta reunia-se apressado. Um rosto e então outro apareceram.
“Não o mate, Prendick!” bradou Moreau. “Não o mate!” e eu o vi pisando, conforme ele se empurrava através as frondas das grandes samambaias.
Em outro momento, ele tinha espancado a hiena-suíno com o cabo do seu chicote, e ele e Montgomery estavam mantendo afastado o excitado povo-besta, e particularmente M’ling, do corpo ainda trêmulo. A Coisa de pelo cinza chegou farejando ao corpo sob o meu braço. Os outros animais, em seu ardor animal, empurravam-me para obter uma visão mais próxima.
“Confunda-o, Prendick!” disse Moreau. “Eu quero ele.”
“Eu sinto muito,” eu disse, embora eu não o fizesse. [176]“Foi o impulso do momento.” Eu sentia-me doente com cansaço e excitação. Virando-me, eu empurrei meu caminho para fora do povo-besta aglomerado e caminhei sozinho encosta acima na direção da parte mais alta do promontório. Sob as direções bradadas de Moreau, eu ouvi os três homens-touro em faixas brancas começarem a arrastar a vítima na direção da água abaixo.
Agora era fácil para eu ficar sozinho. O povo-besta manifestou uma curiosidade bastante humana sobre o corpo morto, farejando-o e rosnando enquanto os homens-touro o arrastavam praia abaixo. Eu caminhei até o promontório e observei os homens-touro, escuros contra o céu da tarde, enquanto eles carregavam o corpo morto para o mar; e, como uma onda através da minha mente, surgiu a compreensão da indizível ausência de objetivo das coisas na ilha. Na praia, em meio às rochas debaixo de mim, estavam o homem-macaco, a hiena-suíno, e vários outros do povo-besta, de pé em volta de Moreau e Montgomery. Todos eles ainda estava intensamente excitados, e todos transbordando com expressões barulhentas da lealdade deles à Lei; contudo, eu senti uma certeza absoluta em minha própria mente que [177]a hiena-suíno tinha culpa no assassinato do coelho. Uma estranha persuasão surgiu sobre mim de que, exceto pela grosseria da linha, pelo grotesco das formas, eu tinha diante de mim o balanço inteiro da vida humana em miniatura, a interação inteira de instinto, razão e destino em sua forma mais simples. O homem-leopardo aconteceu de cair: essa foi toda a diferença. Pobre bruto!
Pobres brutos! Eu comecei a perceber o aspecto mais vil da crueldade de Moreau. Eu não tinha pensado antes sobre a dor e dificuldade que surgia nessas pobres vítimas após elas terem passado pelas mãos de Moreau. Eu tinha tremido apenas diante dos dias de tormento efetivo na cercada. Mas agora, aquilo parecia para mim a menor parte. Antes, elas tinham sido bestas, seus sentidos adequadamente adaptados para os seus ambientes, e felizes como as coisas vivas podem ser. Agora eles tropeçavam nas correntes da humanidade, viviam em um medo que nunca morria, atormentadas por uma lei que elas nunca poderiam entender; a sua existência humana em zombaria, começada em agonia, era um longo conflito interno, um longo temor de Moreau – e para o quê? Era a libertinagem disso que mexia comigo.
[178]Tivesse Moreau tido algum objeto inteligível, eu poderia ter simpatizado um pouco com ele. Eu não sou assim tão melindroso sobre a dor. Eu até poderia tê-lo perdoado um pouco, tivesse o motivo dele sido apenas ódio. Mas ele era tão irresponsável, tão completamente descuidado! Sua curiosidade, sua loucura, suas investigações sem objetivo, dirigiam-no; e as Coisas foram jogadas para viver, um ano ou aproximadamente, para lutar e errar e sofrer, e, pelo menos, para morrer dolorosamente. Eles eram miseráveis em si mesmas; o antigo ódio animal movia-as para perturbarem umas às outras; a Lei impedia-lhas de um breve conflito intenso e um fim decisivo para suas animosidades naturais.
Naqueles dias, o meu medo do povo-besta terminou da mesma maneira que o meu medo pessoal de Moreau. De fato, eu senti-me em um estado mórbido, profundo e duradouro, e estranho ao medo, o qual deixou cicatrizes profundas sobre a minha mente. Eu devo confessar que perdi a fé na sanidade do mundo quando o vi sofrendo a desordem dolorosa desta ilha. Um Destino cego, um vasto Mecanismo impiedoso, parecia despedaçar e dar forma à estrutura da existência; e eu, Moreau (por sua paixão pela pesquisa), Montgomery (por sua paixão pela bebida), o [179]povo-besta com seus instintos e restrições mentais, fomos despedaçados e esmagados, impiedosamente, inevitavelmente, em meio à complexidade infinita de suas rodas incessantes. Mas essa condição não surgiu toda de uma vez: de fato, eu acho que antecipo um pouco ao falar sobre isso agora.
ORIGINAL:
WELLS, H.G. The Island of Doctor Moreau; A Possibility. New York: Stone & Kimball, 1896. pp. 157-179. Disponível em: <https://archive.org/details/islandofdoctormo00welluoft/page/157/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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