[231]Dessa maneira, a esperança morreu dentro de Felix quando ele subitamente se descobriu tão perto do carrasco. Ele tinha conhecido tantos massacrados sem causa, que, de fato, ele tinha razão para se desesperar. Pelo pôr do sol, ele tinha certeza de que deveria ser arrastado para fora e enforcado no carvalho usado para esse propósito, e o qual se erguia perto de onde o caminho de Aisi juntava-se com o acampamento. Muito provavelmente, tal teria sido o destino dele, estivesse apenas ele embaraçado nesse assunto, mas, por boa [232]fortuna, ele devia escapar de um fim tão miserável. Ainda assim, ele sofria tanto como se a corda tivesse dado fim a ele, pois ele não tinha meios de conhecer qual seria o resultado.
O coração dele inchou com amargura; ele estava cheio com indignação inexprimível, seu inteiro ser rebelou-se contra o desatino, por assim dizer, de eventos que, dessa maneira, jogavam-no nas mandíbulas da morte. Contudo, em uma hora ou duas, ele recuperou-se suficientemente do choque para refletir que, muito provavelmente, eles lhe concederiam alguma chance para falar por si mesmo. Não haveria nenhum julgamento; quem desperdiçaria tempo julgando um miserável tão insignificante? Mas poderia haver alguma oportunidade para falar, e ele resolveu usá-la à sua máxima extensão possível.
Ele denunciaria a estratégia inábil do rei; ele não apenas apontaria seus erros, mas como o inimigo poderia ser derrotado. Ele provaria que tinha ideias e planos dignos de atenção. Por assim dizer, ele justificaria a si mesmo antes que fosse executado, e ele tentou reunir seus pensamentos e colocá-los em forma. A cada momento, a face de Aurora parecia olhar para ele, amavel e pesarosamente; mas, além disso, ele via as características empoeiradas e distorcidas dos corpos que ele tinha visto arrastados pelo cavalo através do acampamento. Dessa forma, também, a língua dele projetar-se-ia para fora e lamberia a poeria. Em uma palavra, ele suportava essas agonias agudas, as quais os muito trabalhados e imaginativos inflingem sobre si mesmos.
As horas passaram-se, e ainda ninguém se aproximava dele; ele chamou, e o guarda apareceu à porta, mas apenas para [233]ver qual era a questão e, constatando o prisioneiro seguro, imediatamente retomou sua caminhada para lá e para cá. Por sua própria conta, o soldado não se atrevia a entrar em conversação com um prisioneiro sob prisão por uma ofensa tão grande; ele poderia ser envolvido, ou ser suspeitado. Tivesse sido meramente roubo ou outro crime ordinário, ele teria falado de maneira suficientemente livre e simpatizado com o seu prisioneiro. Conforme o tempo passava, Felix tornou-se sedento, mas seu pedido de água foi desconsiderado, e ali ele permaneceu até quatro da tarde. Eles marcharam com ele para fora; ele implorou para ser permitido falar, mas a soldadesca não respondeu, simplesmente o apressando adiante. Ele agora temia que deveria ser executado sem a chance de se concedido a ele dizer uma palavra; mas, para a surpresa dele, ele descobriu em uns poucos minutos que eles estavam levando-o na direção do alojamento do rei. Novos medos agora o assediavam, pois ele tinha ouvido sobre homens sendo soltos, feitos correrem por suas vidas, e caçados com cães de caça para o entretenimento da Corte.
Se a riqueza do cidadão tinha lhe criado muito inimigos (homens de quem ele tinha se tornado amigo, e quem esperavam, se eles pudessem apenas o ver executado, escapar do pagamento das suas dívidas), por outro lado, ela tinha lhe criado o mesmo número de amigos; quer dizer, amigos interessados, em quem ele confiava para lhe fazerem serviço para obterem vantagens. Esses segundos não tinha perdido nenhum tempo, pois a ambição é tão ansiosa quanto o ódio, e imediatamente levaram o assunto ao rei. O que eles desejavam era que o caso devesse ser decidido pelo monarca mesmo, e não por seu chanceler, ou juiz nomeado para o propósito. Quase certamente, o juiz estaria certo de condenar o [234]cidadão, e confiscar no que quer que ele pudesse colocar as mão. O rei poderia perdoar, e ficaria contente com uma parte apenas, ao passo que os seus ministros pegariam tudo.
Esses homens sucederam em seu objetivo; o rei, quem odiava todas os assuntos judiciais porque eles envolviam o transtorno de investigação, deu de ombros diante da requisição, e não a teria concedido, não tivesse sido descoberto que o servo do cidadão tinha declarado-o ser um comandante incapaz. Diante disso, o rei começou. “De fato, nós caímos muito,” disse ele, “quando um valete de um comerciante miserável chama-nos de incapazes. Nós veremos esse patife imprudente.” Consequentemente, ele ordenou que o prisioneiro deveria ser trazido diante dele após o jantar.
Felix foi conduzido para dentro do entricheiramento, desamarrado, e comandado para ficar de pé. Havia uma assembléia considerável de grandes barões ansiosos para assistir ao julgamento do prestamista, quem, embora presente, foi mantido longe de Felix, com receio de que os dois devessem organizar a defesa deles. O rei estava dormindo sobre um sofá fora da tenda à sombra; ele estava deitado de costas, respirando ruidosamente com a boca aberta. Quão diferente era a sua aparência do momento quando ele se sentou sobre o seu esplêndido cavalo de batalha e passou em revista os seus cavaleiros! Uma refeição pesada tinha sido seguida por um sono pesado. Ninguém se atrevia a perturbá-lo; a assembléia movia-se na ponta dos pés e conversava aos sussuros. Os experientes adivinhavam que os prisioneiros eram certos de ser condenados, pois o rei despertaria com indigestão e desafogaria suas sensações inquietas sobre eles. Uma hora completa tinha passado-se antes que o rei acordasse com um bufado e exigisse [235]um gole de água. Como Felix invejou aquele gole! Ele não tinha nem comido nem bebido desde a noite anterior; era um dia quente, e a sua língua estava seca e ressecada.
Inicialmente, o cidadão foi acusado; ele negou quaisquer intenções ou expressões traiçoeiras que fossem; quanto ao outro prisioneiro, até o momento em que ele foi preso, ele nem mesmo sabia que ele estava em seu serviço. Ele era algum andarilho com quem os seus cavalariços incautamente tinham se engajado, os canalhas preguiçosos, para os ajudar. Ele nunca tinha falado com ele; se o valete contasse a verdade, ele deveria reconhecer isso.
“E agora,” disse o rei, voltando-se para Felix; “o que você diz?”
“É verdadeiro,” respondeu Felix, “ele nunca falou comigo nem eu com ele. Ele não sabia de nada do que eu falei. Eu falei por minha própria conta, e digo-o novamente!”
“E suplique, sir valete,” disse o rei, sentando-se em seu sofá, pois ele ficou surpreso de ouvir alguém tão miseravelmente vestido falar tão corretamente, e enfrentá-lo tão audaciosamente. “O que foi que você disse?”
“Se vossa majestade arranjar-me uma única gota de água,” disse o prisioneiro, “eu o repetirei palavra por palavra, mas eu não tive nada o dia inteiro, e eu dificilmente posso mover minha língua.”
Sem uma palavra, o rei entregou-lhe o copo a partir do qual ele mesmo tinha bebido. Certamente a água nunca foi tão deliciosa. Felix sugou-o até o fundo, devolveu-o (um oficial recebeu-o), e, com um breve pensamento de [236]Aurora, ele disse: “Vossa majestade, você é um comandante incapaz.”
“Prossiga,” disse o rei, sarcasticamente; “por que eu sou incapaz?”
“Você atacou a cidade errada; essas três são todas seus inimigos, e você atacou a primeira. Elas estão em uma linha.”
“Elas estão em uma linha,” repetiu o rei; “e nós as derrubaremos como pinos de madeira.”
“Mas você começou com a última,” disse Felix; “e isso foi um equívoco. Pois, após ter tomado a primeira, você tem de tomar a segunda, e, ainda depois, aquela terceira. Mas você poderia ter poupado muita dificuldade e muito tempo se -----”
“Se o quê?”
“Se você tivesse assaltado primeiramente a do meio. Pois então, enquanto o cerco prosseguisse, você teria sido capaz de evitar que qualquer uma das duas enviasse assistência, e, quando você tivesse tomado a primeira e colocado suas tropas nela, nenhuma das outras poderia ter se mexido, ou colhido seu milho, nem elas poderiam se comunicar uma com a outra, uma vez que você estaria entre elas; e, de fato, você teria cortado os seus inimigos em dois.”
“Por São João!” jurou o rei; “é uma boa ideia. Eu começo a pensar – mas prossiga, você tem mais a dizer.”
“Eu também penso, vossa majestade, que, permanecendo aqui como você fez durante essa quinzena passada sem ação, você encorajou as outras duas cidades a fazerem uma resistência mais desesperada; e parece-me que você está em uma [237]posição perigosa e, a qualquer momento, pode ser esmagado por um desastre, pois não há nada que seja para impedir que qualquer uma das outras duas cidades de enviarem tropas para incendiarem a cidade aberta de Aisi em vossa ausência. E esse perigo deve aumentar a cada dia enquanto você toma coragem em sua ociosidade.”
“Ociosidade! Não deverá haver mais ociosidade. O homem fala a verdade; nós consideraremos mais sobre isso, nós nos moveremos para Adelinton,” voltando-se para os seus barões.
“Se agrada a vossa majestade,” disse o Barão Ingulph, “esse homem inventou um novo gatilho para nossas bestas de carruagem, mas ele perdeu-se na multidão, e nós temos buscado por ele em vão; neste momento o meu sargento aqui o reconheceu.”
“Por que você não veio primeiro a nós, rapaz?” disse o rei. “Que ele seja liberado; que ele seja entretido às nossas custas; deem-lhe roupas e uma espada. Nós veremos mais disso.”
Cheio de alegria diante dessa súbita virada de sorte, Felix esqueceu-se de não interferir. Ele tinha sua audiência consigo por um momento; ele não pôde resistir, por assim dizer, a seguir sua vitória. Ele agradeceu ao rei e acrescentou que ele poderia construir uma máquina que despedaçaria as muralhas acolá sem ser necessário aproximar-se mais do que metade de um tiro de arco.
“O que é isso?” disse o rei. “Ingulph, alguma vez você ouviu sobre uma semelhante máquina?”
“Não há semelhante coisa,” disse o Barão, começando a sentir que a sua reputação profissional como o mestre de [238]artilharia fosse atacada. “Não há nada do tipo conhecido.”
“Ela atirará pedras tão grandes, tão pesadas, quanto um homem pode erguer,” disse Felix ansiosamente, “e derrubará torres.”
O rei olhou de um para outro; ele estava incrédulo. O Barão sorriu desdenhosamente. “Pergunte-lhe, vossa majestade, como essas peadras devem ser arremessadas; nenhum arco poderia fazer isso.”
“Como as pedras são arremessadas?” disse bruscamente o rei. “Cuidado com como você brinca conosco.”
“Pela força de cabos torcidos, vossa majestade.”
Todos eles riram. O Barão disse: “Veja você, vossa majestade, não há nada do tipo. É algum bobo.”
“O cabo torcido poderia ser um cabresto,” disse outro cortesão, um daqueles que esperavam pela queda do homem rico.
“Isso pode ser feito, vossa majestade,” exclamou Felix, alarmado. “Eu asseguro a você, uma pedra de duzentos pesos poderia ser arremessada a um quarto de milha.”
A assembléia não reprimiu o seu desdém.
“O homem é um tolo,” disse o rei, quem agora pensava que Felix era um brincalhão que tinha pregado uma peça nele. “Mas sua brincadeira está fora de controle; eu ensinarei a tais rapazes que pregam uma peça em nós! Espanquem-no para fora do acampamento.”
Os homens do provoste capturaram-no, e, em um momento, ele foi arrastado dos seus pés e corporalmente carregado para fora do entricheiramento. Dali eles empurraram-no adiante, espancando-o com os cabos das lanças para fazer ele correr [239]mais rápido; os grupos pelos quais eles passavam riam e zombavam; os cães latiam e abocanhavam os tornozelos dele. Eles apressaram-se com ele para fora do acampamento e, empurrando-o selvagemente com os cabos das lanças, lançaram-no precipitadamente. Lá eles o deixaram, com o aviso, que ele não ouviu, estando insensível, de que se ele se aventurasse dentro das linhas ele seria imediatamente enforcado. Como um cão morto, eles deixaram-no no chão.
Algumas horas depois, no escuro da noite, Felix moveu-se em segredo do lugar, marginando a floresta como um animal selvagem temeroso de se aventurar para longe de sua cobertura, até que ele alcançou a trilha que o conduziu a Aisi. A única ideia dele era alcançar a sua canoa. Ele teria atravessado os bosques, mas isso não era possível. Sem machado ou faca para bosque para cortar um caminho, ele sabia o matagal emaranhado ser intrasponível, tendo observado quão espesso ele era quando estava chegando. Dolorido e tremendo em cada membro, não tanto com sofrimento físico quanto por aquele tipo de febre interior que se segue à injúria imerecida, a revolta da mente contra ela, ele seguiu a trilha tão rapidamente quanto o seu corpo cansado permitiria. Ele não tinha provado nada durante aquele dia, exceto o gole do copo do rei, e um segundo gole, quando ele recuperou a consciência, do riacho que fluía além do acampamento. Contudo, ele caminhava firmemente sem pausa; a cabeça dele inclinada para frente, e os braços dele estavam lânguidos, mas os pés dele mecanicamente se arrastavam. De fato, ele caminhava, por sua vontade, e não com seus tendões. Dessa maneira, como um fantasma, pois não havia vida nele, ele atravessou a floresta sombria.
[240]A aurora chegou, e ele ainda continou adiante. Conforme o sol se erguia mais alto, tendo agora viajado não menos do que vinte milhas, ele viu casas à direita da trilha. Evidentemente, elas eram aquelas dos retentores ou trabalhadores empregados no feudo, pois um castelo erguia-se a alguma distância.
Uma hora depois, ele aproximou-se da segunda ou aberta da cidade de Aisi, onde a balsa estava do outro lado do canal. Em sua presente condição ele não poderia atravessar a cidade. Ninguém conhecia sobre a desgraça dele, mas, para ele, era o mesmo que se eles conhecessem. Evitando a cidade mesma, ele cruzou os campos cultivados, e, chegando ao canal, de uma vez, entrou nele e nadou até a costa oposta. Não eram mais do que sessenta jardas, mas, cansado como ele estava, esse foi um esforço exaustivo. Ele sentou-se, mas, imediatamente, levantou-se e esforçou-se adiante.
A torre da igreja naquela encosta da colina era um ponto de referência através do qual ele facilmente descobriu a direção do local onde ele tinha escondida a canoa. Mas ele sentiu-se incapaz de se impulsionar através do matagal, das canas e bandeiras ao lado da costa, e portanto chocou-se através de abetos, seguindo uma trilha de gado, a qual, sem dúvida, conduzia a outro pasto. Essa corria paralela à costa, e, quando ele se julgou aproximadamente nivelado com a canoa, ele deixou-a e entrou no bosque mesmo. Por uma pouca distância, ele pôde caminhar, mas os espessos galhos de abetos logo bloquearam o progresso dele, e ele apenas poderia prosseguir sobre as mãos e os joelhos, arrastando-se sob eles. Havia um espaço oco sob os galhos mais baixos, livre do matagal.
Dessa maneira, ele dolorosamente se aproximou do Lago, e, descendo [241]a colina, após uma hora de trabalho pesado, emergiu entre os arbustos e as canas. Ele estava a duzentas jardas da canoa, pois ele reconheceu a ilha oposta a ela. Em dez minutos, ele encontrou-a, não perturbada e exatamente como ele a tinha deixado, exceto que a briza tinha espalhado as canas secas com as quais ela estava coberta com folhas de salgueiro, amarelas e mortas (elas caem, enquanto todo resto está verde), as quais tinham sido giradas a partir dos galhos. Jogando-se sobre as canas perto da canoa, ele caiu adormecido como se estivesse morto.
Ele despertou enquanto o sol estava afundando-se e sentou-se, faminto ao extremo, mas muito refrescado. Ainda havia algumas provisões na canoa, das quais ele comeu vorazmente. Mas ele sentia-se melhor agora; ele sentia-se em casa perto do bote. Dificilmente ele conseguia acreditar na realidade do sonho horrível através do qual ele tinha passado. Mas, quando ele tentou ficar de pé, os pés dele, cortados e empolados, apenas dolorosamente demais lhe asseguraram de sua realidade. Ele pegou sua pele e manto de caçador e espalhou-se em uma cama confortável. Embora ele tivesse dormido tanto, ele ainda estava cansado. Ele reclinou-se em um estado semiconsciente, o corpo dele lentamente se recuperando da tensão que ele tinha suportado, até que gradualmente ele adormeceu novamente. Sono, nada exceto o sono, restaura a mente e o corpo sobrecarregados.
ORIGINAL:
JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.231-241. Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/231/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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