Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XXIV O Livro das Máquinas (continuado)

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[182]XXIV O Livro das Máquinas (continuado)


Mas outras questões aparecem para nós. O que é o olho do homem senão uma máquina para a pequena criatura que se senta atrás no cérebro dele para enxergar através dele? Um olho morto é quase tão bom quanto um vivo por algum tempo depois que o homem está morto. Não é que o olho não possa ver, mas o inquieto que não pode ver através dele. São os olhos do homem, ou é o grande motor da visão que nos revelou a existência de mundos além de mundos ao infinito? O que tornou o homem familiar com o cenário da lua, as manchas no sol ou a geografia dos planetas? Ele está à merce do motor de visão para essas coisas, e fica incapaz a menos que ele o agregue à sua própria identidade e torne-o parte integral de si mesmo. Ou, novamente, é o olho, ou o pequeno motor para ver que nos revelou a existência de organismos infinitamente minúsculos que abundam insuspeitos à nossa volta?”

E tome-se o alardeado poder humano de cálculo. Nós não temos máquinas que podem realizar todos os tipos de somas mais rápida e corretamente do que nós podemos? Qual premiado em hipotética em qualquer um dos nossos Colégios da Insensatez nós podemos comparar com algumas dessas máquinas em sua própria linha? De fato, sempre que precisão é requerida o homem voa imediatamente para a máquina, como muito preferível a si mesmo. As nossas máquinas de soma não perdem uma figura, nem os teares um ponto; a máquina é rápida e ativa, quando o homem está cansado; ela é lúcida e calma, quando o homem é estúpido e aborrecido; ela não necessita de soneca, quando o homem tem de dormir ou cair; sempre no seu posto, sempre pronta para trabalhar, seu entusiasmo nunca se enfraquece, sua paciência nunca desiste; sua força é mais forte do que centenas combinados, e mais rápida do que o voo dos pássaros; ela pode desaparecer debaixo da terra, e caminhar sobre os maiores rios e não se afundar. Isso é a árvore verde; o que, então, deverá ser feito no seco?”

Quem deverá dizer que um homem enxerga ou escuta? Ele é uma tal colmeia e enxame de parasitas que é duvidoso se [183]o corpo dela não é mais deles do que dele, e se ele é alguma coisa exceto um tipo de formigueiro afinal. O homem mesmo não pode se tornar um tipo de parasita sobre as máquinas? Um afeiçoado pulgão da máquina de fazer cócegas?”

É dito por alguns que o nosso sangue é composto por infinitos agentes vivos que sobem e descem as vias principais e secundárias dos nossos corpos como as pessoas nas ruas de uma cidade. Quando nós olhamos para baixo a partir de um lugar elevado, sobre vias públicas lotadas, é possível não pensar nos corpúsculos viajando através das veias e nutrindo o coração da cidade? Nenhuma menção deverá ser feita aos esgotos, nem aos nervos ocultos que servem para comunicar sensações de uma parte do corpo da cidade para outra; nem das mandíbulas bocejantes das estações de trem, através das quais a circulação é carregada diretamente para dentro do coração, - o qual recebe as linhas venosas e despeja as arteriais, com um pulso eterno de pessoas. E o sono da cidade, quão semelhante à vida! Com sua mudança na circulação.”

Aqui o escritor se tornou novamente tão irremediavelmente obscuro que eu fui obrigado a deixar passar várias páginas. Ele retonou:

Pode ser respondido que, mesmo se as máquinas nunca devam ouvir tão bem e falar tão sabiamente, elas ainda sempre farão um ou o outro para a nossa vantagem, não para a sua própria; que o homem será o espírito dominante e a máquina, o servo; que, tão logo a máquina falhe em dispensar o serviço que o homem espera dela, ela está condenada à extinção; que as máquinas estão para o homem simplesmente na relação de animais inferiores, o motor a vapor mesmo sendo apena um tipo mais econômico de cavalo; de maneira que, em vez de ser provável de se serem desenvolvidas em um tipo mais elevado de vida do que a do homem, elas devem a sua existência e progresso ao poder de servir às necessidades humanas, e, portanto, devem tanto agora como sempre ser inferiores ao homem.”

Isso tudo está muito bem. Mas o servo desliza através de aproximações imperceptíveis para o mestre; e nós chegamos a uma passagem tal que, mesmo agora, o homem tem de sofrer [184]com a cessação dos benefícios das máquinas. Se todas as máquinas devessem ser aniquiladas em um momento, de modo que nem uma faca, nem alavanca nem trapo de roupa nem qualquer coisa que seja fosse deixada para o homem, exceto o seu corpo nu sozinho, com o qual ele nasceu, e se todo o conhecimento das leis mecânicas fosse tomado dele, de maneira que ele não pudesse produzir mais máquinas, e toda comida produzida por máquina destruída, de maneira que a raça do homem devesse ser deixada como se estivesse nua sobre uma ilha deserta, nós deveríamos nos tornar extintos em seis semanas. Uns poucos indivíduos miseráveis poderiam persistir, mas mesmo esses, em um ano ou dois, tornar-se-iam piores do que macacos. A própria alma do homem é devida às máquinas; ela é uma coisa criada por máquina: ele pensa como ele pensa, e sente como ele sente, embora o trabalho que as máquinas tem operado sobre ele, e existência delas seja bastante muito um sine qua non para a dele, como a dele para a delas. Esse fato impede-nos de propor a aniquilação completa do maquinário, mas certamente ele indica que nós devemos destruir tantas delas quanto possivelmente possamos dispensar, para que elas não devam tiranizar sobre nós ainda mais completamente.”

Verdadeiro, a partir de um inferior ponto de vista materialista, pareceria que vicejam melhor aqueles que usam o maquinário sempre que o seu uso seja possível com lucro; mas essa é a arte das máquinas - elas servem o que elas podem comandar. Elas não portam malícia em relação ao homem pela destruição de uma raça inteira delas, com a condição de que ele crie uma melhor no lugar; pelo contrário, elas recompensam-no liberalmente por ter acelerado o desenvolvimento delas. É por as negligenciar que ele incorre na ira delas, ou por usar máquinas inferiores, por não fazer esforços suficiente para inventar novas, ou por as destruir sem as substituir; contudo, essas são as coisas mesmas que nós devemos fazer, e fazer rapidamente; pois, embora a nossa rebelião contra o seu poder infante causará sofrimento infinito, o que não virá ser essa rebelião for adiada?”

Eles atacaram a preferência rastejante do homem pelos seus interesses materiais em vez dos seus espirituais, e [185]traíram-lhe para suprir aquele elemento de conflito e guerra sem o qual nenhuma raça pode avançar. Os animais inferiores progridem porque eles conflitam uns com os outros; o fraco morre, o forte reproduz e transmite a sua força. As máquinas, sendo em si mesmas incapazes de lutar, conseguiram o homem para conduzir sua luta por elas: enquanto ele satisfaz a sua função devidamente, tudo vai bem com ele – pelo menos ele pensa assim; mas, no momento em que ele falha em fazer o seu melhor pelo progresso do maquinário encorajando o bom e destruindo o mal, ele é deixado para trás na corrida da competição; e isso significa que ele será tornado desconfortável de uma variedade de maneiras e, talvez, morrerá.”

De maneira que, mesmo agora, as máquinas apenas servirão com a condição de serem servidas, e também isso em consequência dos seus próprios termos; no momento que os termos delas não forem atendidos, elas param de repente e, ou esmagam tanto a si mesmas e todos a quem elas possam alcançar, ou tornam-se enroladas e recusam-se absolutamente a trabalhar. Quantos homens a esta hora estão vivendo um um estado de servidão para as máquinas? Quantos despendem suas vidas inteiras, do berço ao túmulo, cuidando delas dia e noite? Não é evidente que as máquinas estão ganhando terreno sobre nós, quando nós refletimos o número crescente daqueles que estão presos a elas como escravos, e aqueles que dedicam suas almas inteiras ao progresso do reino mecânico?”

O motor a vapor deve ser alimentado com comida e consumi-la através do fogo, assim como o homem a consome; ele suporta sua combustão por meio do ar como o homem a suporta; ele tem pulso e circulação como o homem tem. Deve ser admitido que o corpo do homem ainda é o mais versátil dos dois, mas, a esta altura, o corpo do homem é coisa velha; conceda ao motor a vapor apenas metade do tempo que o homem teve, conceda-o também uma continuação da nossa paixão presente, e o que ele não pode alcançar antes que seja tarde?”

De fato, há certas funções do motor a vapor que provavelmente permanecerão inalteradas por miríades [186]de anos – as quais, de fato, talvez, sobreviverão quando o uso do vapor for substituído: o pistão e cilindro, a barra, o volante, e outras partes da máquina provavelmente serão permanentes, exatamente como nós vemos eu que o homem e muitos dos animais inferiores compartilham modos semelhantes de comida, bebida e sono; dessa maneira, eles têm corações que batem como os nossos, veias e artérias, olhos, ouvidos e narizes; eles suspiram mesmo em seu sono, e choram e bocejam; eles são afeiçoados pelos seus filhos; eles sentem prazer e dor, esperança, medo, raiva, vergonha; eles têm memória e presciência; eles sabem que, se certas coisas acontecerem a eles, eles morrerão, e eles temem a morte tanto como nós tememos; eles comunicam seus pensamentos uns aos outros, e alguns deles agem deliberadamente em concerto. A comparação de similaridades é sem fim: eu apenas a faço porque alguns podem dizer que, uma vez que o motor a vapor não é provável de ser aperfeiçoado nos particulares principais, ele é improvável de ser doravante extensivamente modificado de qualquer maneira. Isso é bom demais para ser verdadeiro: ele será modificado e adequado para uma variedade infinita de propósitos, tanto quanto o homem foi modificado quanto a exceder os brutos em habilidade.”

Entrementes, o foguista é quase tanto um cozinheiro para o seu motor quanto o nosso próprio cozinha para nós mesmos. Considere também os carvoeiros e mineiros e mercadores de carvão e trens de carvão, e os homens quem os pilotam, e os navios que transportam carvões – que exército de servos as máquinas empregam dessa maneira! Provavelmente não há mais homens engajados com o cuidado do maquinário do que com o cuidado dos homens? As máquinas não comem como se fosse com boas maneiras? Nós mesmos não estamos criando os nossos sucessores na supremacia da terra? Diariamente adicionando à beleza e delicadeza da sua organização, diariamente concedendo-lhe maior habilidade e suprimindo mais e mais daquele poder de autorregulação e auto-ação que será melhor do que qualquer intelecto?”

Que coisa nova é para uma máquina comer de qualquer maneira! O arado, a pá e a carroça têm de comer através do [187]estômago do homem; o combustível que os coloca em movimento deve queimar na fornalha de um homem ou de cavalos. O homem tem de consumir pão e carne ou ele não pode cavar; o pão e a carne são o combustível que conduzem a pá. Se um arado for arrastado por cavalos, a força é suprida por grama ou feijões ou aveia, os quais, sendo queimados na barriga da besta, dão o poder de trabalhar: sem esse combustível, o trabalho cessaria, como um motor pararia se as fornalhas extinguissem-se.”

Um homem de ciência demonstrou ‘que nenhum animal tem o poder de originar energia mecânica, mas que todo o trabalho realizado por qualquer animal em sua vida, e todo o calor que tenha sido emitido partir dele, e o calor que seria obtido a partir dele pela queima de matéria combustível que foi perdida a partir do seu corpo durante a vida, e pela queima do seu corpo após a morte, formam junto um equivalente exato ao calor que seria obtido pela queima de tanta comida quanto a que foi usada durante a sua vida, e um montante de energia que geraria tanto calor quanto o seu corpo, se queimado imediatamente após a morte.’ Eu não sei como ele descobriu isso, mas ele é um homem de ciência – como então pode ser objetado contra a vitalidade futura das máquinas que elas estão, em sua infância presente, ao aceno e à chamada de seres que são eles mesmos incapazes de gerar energia mecânica?”

Contudo, o ponto principal a ser observado como propiciando causa para alarme é que, enquanto que antigamente os animais foram os únicos estômagos das máquinas, agora há muitas que têm seus próprios estômagos, e elas mesmas consomem a sua própria comida. Esse é um grande passo na direção de se tornarem, se não animadas, contudo, alguma coisa tão proximamente semelhante a isso, quanto a não diferir mais amplamente da nossa própria vida do que os animais daquele de vegetais. E embora o homem deva permanecer, em alguns aspectos, a criatura mais elevada, isso não está de acordo com a prática da natureza, a qual concede superioridade em algumas coisas para animais que, no todo, há muito [188]foram superados? Ela não concedeu à formiga e abelha superioridade sobre o homem na organização das suas comunidades e arranjos sociais, ao pássaro na travessia do ar, ao peixe na natação, ao cavalo na força e rapidez e ao cão no autossacrifício?”

É dito por alguns, com quem eu conversei sobre esse assunto, que as máquinas nunca podem ser desenvolvidas em existências animadas ou quase animadas, na medida que elas não têm sistema reprodutivo, nem parecem provável de alguma vez possuírem um. Se isso for tomado para significar que elas não podem casar, e que provavelmente nós nunca veremos uma união fértil entre dois motores a vapor, com os jovens brincando ao redor da porta da cabana, por mais que grandemente nós possamos desejar fazê-lo, eu prontamente concederei isso. Mas a objeção não é uma muito profunda. Ninguém espera que todas as características dos organismos agora existentes serão absolutamente repetidas em uma classe inteiramente nova de vida. O sistema reprodutivo dos animais difere amplamente daquele dos animais, mas ambos são sistemas reprodutivos. A natureza exauriu suas fases desse poder?”

Certamente, se uma máquina é capaz de reproduzir outra máquina sistematicamente, nós podemos dizer que ela tem um sistema reprodutivo. O que é um sistema reprodutivo, se não for um sistema para reprodução? E quão poucas máquinas existem que não foram produzidas sistematicamente por outras máquinas? Mas é o homem que as faz agirem assim. Sim; mas não são os insetos que fazem as plantas serem reprodutivas, e não seriam inteiras famílias de plantas a morrer se a sua fertilização não fosse efetuada por uma classe de agentes completamente estrangeira a si mesmas? Alguém não diz que o trevo vermelho não tem sistema reprodutivo porque a mamangaba (e apenas a mamangaba) tem de auxiliar e estimulá-lo antes que ele possa se reproduzir? Ninguém. A mamangaba é uma parte do sistema reprodutivo do trevo. Cada um de nós mesmos brota de animálculos minúsculos cuja entidade era inteiramente distinta da nossa [189]própria, e que agiam segundo o seu tipo sem nenhum pensamento ou atenção do que nós poderíamos pensar sobre. Essas pequenas criaturas são parte do nosso próprio sistema reprodutivo; então, por que nós não somos partes daquele das máquinas?”

Mas as máquinas que reproduzem o maquinário não reproduzem máquinas segundo o seu próprio tipo. Um dedal pode ser produzido pelo maquinário, mas ele não foi produzido, nem nunca será produzido, por um dedal. Aqui, novamente, se nós nos voltarmos para a natureza, nós deveremos encontrar abundância de analogias que nos ensinarão que um sistema reprodutivo pode ser em força plena sem a coisa produzida ser do mesmo tipo que a aquela que a produz. Muito poucas criaturas reproduzem segundo o seu próprio tipo; elas reproduzem alguma coisa que tem a potencialidade de se tornar aquilo que os seus pais foram. Dessa maneira, a borboleta põe um ovo, ovo que pode se tornar um lagarta, lagarta que pode se tornar uma crisálida, crisálida que pode ser tornar uma borboleta; e, embora eu livremente admita que não se pode dizer que as máquinas tenham mais do que o germe de um verdadeiro sistema reprodutivo, no presente, nós há pouco não vimos que apenas recentemente elas obtiveram os germes de uma boca e um estômago? E não pode algum passo ser dado na direção de reprodução verdadeira que deverá ser tão grande quanto aquele que recentemente foi dado na direção da alimentação verdadeira?”

É possível que o sistema, quando desenvolvido, possa ser, em muitos casos, uma coisa vicária. Certas classes de máquinas podem ser apenas férteis, enquanto o resto desembaraça outras funções no sistema mecânico, exatamente como a grande maioria de formigas e abelhas não têm nada a ver com a continuação das suas espécies, apenas obtém comida e armazenam, sem pensamento de reprodução. Alguém não pode esperar o paralelo ser completamente ou quase assim; certamente não agora, e provavelmente nunca; mas não há analogia suficiente existente no momento presente, para nos fazer sentir seriamente apreensivos sobre o futuro, e para tornar nosso dever reprimir o mal enquanto nós podemos fazê-lo? Dentro de certos limites, as máquinas podem [190]gerar máquinas de qualquer classe, não importa quão diferentes delas mesmas. Toda classe de máquinas provavelmente terá sua classe especial de reprodutores mecânicos, e todas os mais elevados deverão sua existência a uma grande número de pais e não a apenas dois.”

Nós somos enganados considerando qualquer máquina complicada como uma coisa singular; na verdade, ela é uma cidade ou sociedade, cada membro da qual foi verdadeiramente gerado segundo o seu tipo. Nós vemos uma máquina como um todo, nós a chamamos por um nome e individualizamos; nós olhamos para os nossos próprios membros, e sabemos que a combinação forma um indivíduo que brota de um único centro de ação reprodutiva; portanto, nós assumimos que não possa haver ação reprodutiva que não surja a partir de um centro único; mas essa suposição não é científica, e o simples fato de que nenhum motor a vapor alguma vez foi inteiramente criado por outro, ou dois outros, do seu próprio tipo, não é suficiente para nos autorizar a dizer que motores a vapor não têm sistema reprodutivo. A verdade é que cada parte de cada motor a vapor é criada pelos seus próprios reprodutores especiais, cuja função é criar aquela parte, e essa apenas, enquanto a combinação das partes em um todo forma outro departamento do sistema reprodutivo mecânico, o qual, no presente, é excessivamente complexo e difícil de ver em sua inteireza.”

Complexo agora, mas quão muito mais simples e muito mais inteligivelmente organizado não pode se tornar em outros cem mil anos? Ou em vinte mil? Pois o homem no presente acredita que esse interesse está nessa direção; ele despende montante incalculável de labor e tempo e pensamento na criação de máquinas sempre criadas melhores e melhores; ele já teve sucesso em efetuar muito daquilo que uma vez pareceu impossível, e parece não haver limites para os resultados de aprimoramentos acumulados se elas forem permitidas a descenderem com modificação de geração a geração. Sempre deve ser lembrado que o corpo do homem é o que é através de ter sido moldado em sua forma [191]presente pelas mudanças e mudanças de muitos milhões de anos, mas que esse organismo nunca avançou com nada como a rapidez com que aquele das máquinas está avançando. Essa é a característica mais alarmante no caso, e eu preciso ser perdoado por insistir tão frequentemente nela.”


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 182-191. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/182/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XXIII O Livro das Máquinas

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[175]XXIII O Livro das Máquinas


O escritor começa: “Houve um tempo quando toda a terra estava, segundo toda aparência, completamente destituída tanto de vida animal quanto de vegetal, e quando, de acordo com a opinião dos nossos melhores filósofos, ela era simplesmente uma bola quente com uma crosta gradualmente esfriando. Agora, se um ser humano tivesse existido enquanto a terra estava nesse estado e tivesse sido permitido a vê-la como se fosse algum outro mundo no qual ele não tivesse interesse, e se, ao mesmo tempo, ele fosse inteiramente ignorante de toda ciência física, ele não teria declarado impossível que criaturas possuidoras de qualquer coisa como a consciência deveriam ser evoluídas a partir da brasa aparente que ele estava contemplando? Ele não teria negado que ela contivesse qualquer potencialidade de consciência? Contudo, no curso do tempo, a consciência surgiu. Portanto, não é possível que possa haver ainda novos canais escavados para a consciência, embora nós não possamos detectar nenhum sinal deles no presente?”

Novamente. Consciência, em qualquer coisa similar à acepção presente do termo, tendo sido uma vez uma coisa nova – uma coisa, até onde nós podemos ver, subsequente mesmo a um centro individual de ação e a um sistema reprodutivo (o qual nós vemos existindo em plantas sem consciência aparente) – porque não pode surgir ali alguma nova fase de mente que deverá ser tão diferente de todas as fases presentemente conhecidas quanto a mente de animais é daquela de vegetais?”

Seria absurdo tentar definir um semelhante estado mental (ou seja do que for que ele possa ser chamado), na medida que ele deve ser alguma coisa tão alheia para um homem que a experiência dele não pode lhe fornecer ajuda para conhecer a natureza dela; mas certamente, quando nós refletimos sobre as múltiplas fases de vida e consciência que já evoluíram, seria precipitado dizer que nenhuma outra pode ser desenvolvida, e que a vida animal é o fim do todas as coisas. Houve um tempo quando o fogo foi o fim de todas as coisas: outro quando rochas e água foram.”

O escritor, após se prolongar sobre o acima por várias páginas, prosseguiu para inquirir se traços da aproximação [176]de uma nova forma de vida poderiam ser percebidos no presente; se nós poderíamos perceber quaisquer habitações se preparando, as quais, em uma futuridade remota, poderiam ser adaptados para ela; se, de fato, a célula primordial de um semelhante tipo poderia ser detectada agora sobre a terra. No curso do seu trabalho ele respondeu essa questão no afirmativo e apontou para as máquinas superiores.

Não há segurança” - para citar suas próprias palavras – “contra o desenvolvimento último de consciência maquínica, no fato das máquinas possuindo um pouco de consciência agora. Um molusco não tem muita consciência. Reflita sobre o avanço extraordinário que as máquinas têm realizado nos últimos poucos séculos, e note quão lentamente os reinos animais e vegetais estão avançando. As máquinas mais altamente organizadas são criaturas nem tanto de ontem, quanto dos últimos cinco minutos, por assim dizer, em comparação com o tempo passado. Assuma, pelo bem do argumento, que seres conscientes existiram por uns vinte milhões de anos: veja que passos largos as máquinas não deram nos últimos milhares de anos! Não pode o mundo durar por mais vinte milhões? Se assim, o que elas não se tornarão? Não é mais seguro apertar o dano no broto e impedir-lhes progresso adicional?”

Mas quem pode dizer que o motor a vapor não tem um tipo de consciência? Onde a consciência começa e onde termina? Quem pode traçar a linha? Quem pode traçar qualquer linha? Não está tudo entrelaçado com tudo? Não está o maquinário vinculado com a vida animal em uma variedade infinita de maneiras? A casca do ovo de uma galinha é formada por uma louça delicada, tanto quanto o oveiro para suportar a casca: ambos são fases da mesma função; a galinha produz a casca em seu interior, mas isso é pura cerâmica. Ela constrói o ninho dela fora de si mesma pelo bem da conveniência, mas o ninho não é mais uma máquina do que a casca do ovo é. Uma ‘máquina’ é apenas um ‘dispositivo.’”

[177]Em seguida, retornando à consciência e tentando detectar as suas manifestações mais primitivas, o escritor continuou:

Há um tipo de planta que come comida orgânica com as suas flores: quando uma mosca se estabelece sobre a floração, as pétalas fecham-se sobre ela e seguram-na firme até que a planta tenha absorvido o inseto no seu sistema; mas elas não se fecharão sobre nada, exceto sobre o que é bom para comer; elas não notarão uma gota de chuva ou um pedaço de pau. Curioso! Que uma coisa tão inconsciente deva ter um olho tão aguçado para o seu próprio interesse. Se isso é inconsciência, onde está o uso da consciência?”

Nós deveríamos dizer que a planta não sabe o que está fazendo meramente porque ela não tem olhos, nem ouvidos, ou cérebros? Se nós dissermos que ela age mecanicamente, e apenas mecanicamente, nós não deveríamos ser forçados a admitir que diversas outras e aparentemente muito deliberadas ações também são mecânicas? Se parece para nós que a planta mata e come uma mosca mecanicamente, não pode parecer para a planta que um homem tenha de matar e comer uma ovelha mecanicamente?”

Mas pode ser dito que a planta é vazia de razão, porque o crescimento de uma planta é um crescimento involuntário. Dados terra, ar e temperatura devida, a planta tem de crescer: ela é semelhante a um relógio, o qual, uma vez sendo dando corda a ele, seguirá até que ele seja parado ou perca a força: é semelhante ao vento soprando as velas de um barco – o barco tem de seguir quando o vento sopra. Mas, pode um menino saudável evitar de crescer se ele tem boa comida e bebida e roupa? Pode qualquer coisa evitar de seguir enquanto ela for soprada, ou seguir depois de ter perdido a força? Não há um processo de sopragem em todo lugar?”

Mesmo uma batata1 em um porão escuro tem um uma certa astúcia inferior que lhe serve em proveito excelente. [178]Ela sabe perfeitamente bem o que ela quer e como o obter. Ela vê a luz vindo da janela do porão e envia seus brotos arrastando-se diretamente para lá: eles se arrastarão ao longo do piso, parede acima e para fora da janela do porão; se houver um pouco de terra em algum lugar da jornada ela a encontrará e usará para os seus próprios fins. Que deliberação ela pode exercer sobre a matéria das suas raízes quando ela está plantada na terra, é uma coisa desconhecida para nós, mas nós podermos imaginá-la dizendo, ‘Eu terei um tubérculo aqui e um tubérculo alí, e eu sugarei qualquer vantagem que eu possa do meu ambiente. Este vizinho eu ensombrarei, e aquele eu minarei; e o que eu posso fazer deverá ser o limite do que eu desejo fazer. Aquele que é mais forte e está melhor posicionado do que eu deverá me dominar, e aquele que é mais eu o dominarei.’”

A batata diz essas coisas ao fazê-las, a qual é a melhor das linguagens. O que é consciência se isso não é consciência? Nós consideramos difícil simpatizar com as emoções de uma batata; o mesmo nós fazemos com aquelas de uma ostra. Nenhuma dessas coisas faz barulho ao ser cozida ou aberta, e o barulho apela para nós mais fortemente do que qualquer outra coisa, porque nós fazemos tanto dele sobre os nossos próprios sofrimentos. Portanto, uma vez que elas não nos incomodam através de qualquer expressão de dor, nós podemos chamá-las de sem emoção; e assim, qua humanidade elas são, mas humanidade não é todo mundo.”

Se for insistido que a ação da batata é apenas química e mecânica, e que ela se deve a efeitos químicos e mecânicos da luz e do calor, a resposta pareceria jazer em uma investigação de se toda sensação não é química e mecânica em sua operação? De se aquelas coisas que nós consideramos mais puramente espirituais nada são senão perturbações de equilíbrio em uma série infinita de alavancas, começando com aquelas que são pequenas demais para detecção microscópica, e subindo até o braço humano e aqueles utensílios dos quais ele faz uso? De se não há uma ação molecular de pensamento, a partir da qual uma teoria dinâmica [179]das paixões deveria ser dedutível? De se, estritamente falando, nós não deveríamos perguntar de que tipo de alavancas um homem é constituído em vez de qual é o seu temperamento? Como elas estão balanceadas? Quanto de tal e tal se requererá para pesá-las para baixo de maneira a fazê-lo agir assim e assim?”

O autor prosseguiu para dizer que ele antecipava uma época quando poderia ser possível, examinando um único fio de cabelo com um microscópio poderoso, saber se o seu proprietário poderia ser insultado com impunidade. Ele então se tornou mais e mais obscuro, de maneira que eu fui obrigado a desistir de toda tentativa de tradução; nem eu acompanhei o significado do argumento dele. Chegando à próxima parte do texto, a qual eu pude interpretar, eu descobri que ele tinha mudado o seu fundamento.

Qualquer,” ele prossegue, “grande quantidade de uma ação que tenha sido chamada de puramente mecânica e inconsciente tem de ser admitida conter mais elementos de consciência do que até agora tem sido admitido (e, nesse caso, germes de consciência serão encontrados em muitas ações das máquinas superiores) – ou (assumindo-se a teoria da evolução, mas, ao mesmo tempo, negando-se consciência à ação vegetal e cristalina) a raça do homem descendeu a partir de coisas que, de qualquer maneira, tinham consciência. Nesse caso, não há improbabilidade a priori na descendência de máquinas conscientes (e mais do que conscientes) a partir daquelas que agora existem, exceto aquela que é sugerida para ausência aparente de qualquer coisa semelhante a um sistema reprodutivo no reino mecânico. Contudo, essa ausência é apenas aparente, como eu logo deverei revelar.”

Não permita que eu seja mal-entendido como vivendo em medo de qualquer máquina efetivamente existente; provavelmente não há nenhuma máquina conhecida que seja mais do que um protótipo de vida mecânica futura. As máquinas presentes estão para o futuro como os sáurios primitivos para o homem. A maior delas provavelmente diminuirá muito em tamanho. Alguns dos vertebrados mais inferiores alcançaram um volume muito maior do que o descendido para os seus representantes mais altamente organizados, e, [180]de uma maneira semelhante, uma diminuição similar no tamanho das máquinas frequentemente tem acompanhado o seu desenvolvimento e progresso.”

Tome-se o relógio portátil, por exemplo; examine a sua bela estrutura; observe o jogo inteligente dos membros minúsculos que o compõem: contudo, essa pequena criatura é apenas um desenvolvimento dos relógios pesados que a procederam; ela não é uma deterioração a partir deles. Pode chegar um dia quando os relógios pesados, os quais, certamente, no tempo presente, não estão diminuindo em tamanho, serão suplantados devido ao uso universal de relógios portáteis, caso no qual ele se tornará tão extinto quanto ictiossauros, enquanto o relógio pesado, cuja tendência tem sido por alguns anos diminuir em tamanho em vez do contrário, permanecerá o único tipo existente de uma raça extinta.”

Mas retornando ao argumento, eu repetiria que não temo nenhuma das máquinas existentes; o que eu temo é a rapidez extraordinária com a qual ela estão tornando-se alguma coisa muito diferente do que elas são no presente. Nenhuma classe de seres, em qualquer momento do passado, realizou um movimento tão rápido para frente. Não deveria esse movimento ser invejosamente observado, e reprimido enquanto nós ainda o podemos reprimir? E, para esse fim, não é necessário destruir as mais avançadas das máquinas que estão em uso no presente, embora seja admitido que, em si mesmas, elas são inofensivas?”

Até agora as máquinas recebem as suas impressões através da ação dos sentidos do homem: uma máquina viajante chama outra em um tom estridente de alarme e a outra instantaneamente se retira; mas é através dos ouvidos do condutor que a voz de uma agiu sobre a outra. Não houvesse condutor, a chamada teria ficado surda para a chamadora. Houve um tempo quando deve ter parecido altamente improvável que máquinas deveriam aprender a tornarem seus desejos conhecidos por som, mesmo se através dos ouvidos do homem; portanto, não pode ser concebido que chegará um dia quando aqueles ouvidos não mais serão necessários, e a audição será realizada pela delicadeza da própria construção da máquina? [181]- quando a sua linguagem deverá ter sido desenvolvida a partir dos gritos dos animais para um discurso tão intrincado quanto o nosso próprio?”

É possível que, por aquela época, as crianças aprenderão o cálculo diferencial – como elas agora aprendem a falar – das suas mães e cuidadoras, o que elas possam falar na linguagem hipotética, e operarem somas da regra de três, tão logo elas tenham nascido; mas isso não é provável; nós não podemos calcular sobre nenhum avanço correspondente nos poderes intelectuais ou físicos do homem que deverá ser um contra-argumento contra o desenvolvimento maior que parece estar em estoque para as máquinas. Algumas pessoas podem dizer que a influência moral do homem será suficiente para as governar; mas eu não posso considerar que alguma vez será seguro deitar muita confiança no senso moral de qualquer máquina.”

Novamente, não poderia ser a glória das máquinas consistir em existir sem esse mesmo dom vangloriado da linguagem? ‘O silêncio,’ foi dito por um escritor, ‘é uma virtude que nos torna agradáveis às nossas criaturas companheiras.’”


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 175-181. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/175/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[177]A raiz aludida não é batata dos nossos próprios jardins, mas uma planta tão quase aparentada a ela que eu me aventurei a traduzi-la dessa maneira. A propósito dessa inteligência, tivesse o escritor conhecido Butler, ele provavelmente teria dito -

“Ele sabe o que é o quê, e que é tão alto,

quanto a inteligência metafísica pode voar.”

O Último Homem - Volume I - Capítulo III

O Último Homem


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[62]Capítulo III


Felizes, três vezes felizes, foram os meses, e semanas, e horas daquele ano. Amizade, mãos dadas com admiração, ternura e respeito, construíram um caramanchão de deleite em meu coração, até recentemente acidentado como uma região selvagem não trilhada na América, como o vento sem lar ou o mar sem ervas. Sede insaciável por conhecimento, e afeição sem limites por Adrian, combinaram-se para manter tanto meu coração quanto entendimento ocupados, e eu estava consequentemente feliz. Felicidade que é tão verdadeira e desanuviada quanto o deleite exuberante e falante dos jovens. Em nosso bote, sobre o meu lago nativo, ao lado dos córregos e pálidos álamos limítrofes – em vale e através de colina, minha [63]cajado jogado de lado, um rebanho mais nobre para tomar de conta do que ovelhas bobas, até um rebanho de ideias recém-nascidas, eu lia e ouvia Adrian; e o discurso dele, se ele dizia respeito ao seu amor ou às suas teorias para o aperfeiçoamento do homem, igualmente me fascinava. Algumas vezes, meu temperamento sem lei retornaria, meu amor pelo perigo, minha resistência à autoridade, mas isso era na ausência dele; sob o domínio suave dos seus olhos queridos, eu era obediente e bom como um menino de cinco anos de idade, que cumpre as ordem de sua mãe.

Após uma residência de um ano em Ulswater, Adrian visitou Londres e retornou cheio de planos para o nosso benefício. Você tem de começar a vida, ele disse; você tem dezessete anos, e uma demora mais longa tornaria o aprendizado necessário mais e mais penoso. Ele previa que a sua própria vida seria uma de conflito, e que eu teria de tomar parte em seus labores com ele. Para melhor me adaptar para essa tarefa, nós agora temos de nos separar. Ele considerou o meu nome um bom salvo-conduto para nomeação, e ele tinha adquirido para mim a [64]posição de secretário privado do embaixador em Viena, onde eu deveria entrar na minha carreira sob os melhores auspícios. Em dois anos, eu deveria retornar ao meu país, com um nome bem conhecido e uma reputação bem fundada.

E Perdita? - Perdita devia tornar-se a pupila, amiga e irmã mais jovem de Evadne. Com a sua consideração usual, ele tinha providenciado a independência dela nessa situação. Como recusar as ofertas desse amigo generoso? - Eu não desejo as recusar; mas, nos meus sentimentos mais privados, eu fiz um voto para devotar vida, conhecimento e poder, todos os quais, na medida que eles eram de qualquer valor, ele tinha me concedido – tudo, todas as minhas capacidades e esperanças, eu devotaria apenas a ele.

Dessa maneira, eu prometi a mim mesmo, enquanto eu viajava para o meu destino com expectativa excitada e ardente: expectativa da satisfação de tudo que, na infância, nós prometemos a nós mesmos de poder e gozo na maturidade. Pensei que o tempo tinha chegado agora, quando, ocupações [65]infantis deixadas de lado, eu deveria entrar na vida. Mesmo nos Campos Elísios, Virgílio descreve as almas dos felizes como ansiosas para beber da água que devia restaurá-las a este corpo mortal. Os jovens raramente ficam no Elísio, pois os seus desejos, sua possibilidade superadora, deixa-os tão pobres quanto um devedor sem dinheiro. Os filósofos mais sábios contam-nos dos perigos do mundo, os enganos dos homens, e a traição dos nossos próprios corações: mas, mesmo assim, destemidamente cada um adia sua casca frágil do porto, estendem a vela , e esticam seu remo, para alcançar os córregos numerosos do mar da vida. Quão poucos no auge da juventude, atracam suas embarcações sobre as “areias douradas,” e coletaram as conchas pintadas que as espalham. Mas quanto mais próximo o dia, com pranchas dilaceradas e toldos alugadas chegam à costa, e são ou naufragados antes que eles a alcancem, ou encontram algum porto batido pelo vento, alguma costa deserta, na qual se jogarem e morrerem não lamentados.

Uma trégua para a filosofia! - A vida está diante de mim, [66]e eu apresso-me à posse. Esperança, glória, amor e ambição sem culpa são meu guias, e minha alma não conhece temor. O que foi, embora doce, foi-se; o presente é bom apenas porque está prestes a mudar, e o porvir é inteiramente meu próprio. Eu temo as palpitações de meu coração? Altas aspirações causam o fluxo do meu sangue; meus olhos parecem penetrar a nublada meia-noite do tempo, e discernir dentro das profundezas da sua escuridão, a fruição de todos os desejos de minha alma.

Agora pausa! - Durante a minha jornada eu poderei sonhar e, com asas flutuantes, alcançar o topo do alto edifício da vida. Agora que eu cheguei à base dele, minhas asas estão enrolados, as poderosas escadarias estão diante de mim, e passo a passo eu devo ascender ao templo maravilhoso -


Fale! - Qual porta está aberta?


Contempla-se em mim uma nova capacidade. Um diplomata: um entre a sociedade buscadora de prazer de uma cidade alegre; um jovem de promessa; favorito [67]do Embaixador. Tudo era estranho e admirável para o pastor de Cumberland. Com assombro sem fôlego eu entrei na cena alegre, cujos atores eram


------- os lírios gloriosos como Salomão,

Quem não laboram, tampouco eles giram.


Cedo, cedo demais, eu entrei no redemoinho vertiginoso; esquecendo minhas horas estudiosas e a companhia de Adrian. O desejo apaixonado por simpatia, e busca ardente por um objeto desejado ainda me caracterizavam. A visão da beleza fascinava-me, e maneiras atraentes em homem ou mulher conquistavam a minha inteira confiança. Eu chamo isso de êxtase, quando um sorriso fazia meu coração bater; e sentia o sangue da vida arder no meu corpo, quando eu me aproximava do ídolo que, por um tempo, eu adorava. O mero fluxo dos espíritos animais era o paraíso, e, ao final da noite, eu apenas desejava uma renovação da ilusão intoxicante. A luz deslumbrante dos aposentos ornamentados; formas amáveis arrumadas em vestes esplêndidas; os movimentos [68]de uma dança, os tons voluptuosos de música exótica, embalavam meus sentidos em um sono delicioso.

E isso não está em sua felicidade amável? Eu apelo a moralistas e sábios. Eu pergunto se na calma dos seus devaneios calculados, se nas meditações profundas que preenchem suas horas, eles sentem o êxtase de um jovem novato na escola do prazer? Podem os calmos raios de luz dos seus olhos buscadores do céu igualar os clarões da paixão matizada que o cegam, ou a influência da filosofia fria banhar a alma dele em uma alegria igual a dele, engajada


Nessa obra querida de festança juvenil.


Mas em verdade, nem as meditações solitárias do eremita, nem os arrebatamentos tumultuosos do folião, são capazes de satisfazer o coração do homem. A partir de um, nós reunimos especulação inquieta, a partir do outro, saciedade. A mente tomba sob o peso do pensamento, e cai na relação sem coração daqueles cujo [69]único objetivo é diversão. Não há fruição em sua bondade vazia, e rochas afiadas ocultam-se sob as ondulações sorridentes dessas águas rasas.

Dessa maneira eu sentia, quando desapontado, que cansaço e solidão conduziam-me de volta a meu coração, para colher aí a alegria da qual ele tinha se tornado deserto. Meus espíritos enfraquecido pergunta por alguma coisa para falar às afeições; e, não a encontrando, eu caia. Dessa maneira, a despeito do deleite sem pensamento que esperava em seu começo, a impressão que eu tenho da minha vida em Viena é melancólica. Goethe disse que, na juventude, nós não conseguimos ser felizes a menos que nós amemos. Eu não amava; mas eu era devorado por um desejo sem descanso de ser alguma coisa para outros. Eu tornei-me a vítima de ingratidão e coqueteria frio – então eu desanimei, e imaginei que o meu descontentamento dava-me um direito de odiar o mundo. Eu recuei para a solidão; eu recorri aos meus livros, e, novamente, meu desejo para desfrutar da companhia de Adrian tornava-se uma sede ardente.

A emulação, que, em seu excesso, quase assumia [70]as propriedades venenosas da inveja, concedia um ferrão a esses sentimentos. Nesse período, o nome e as proezas de um dos meus concidadãos encheu o mundo com admiração. Relações do que ele tinha realizado, conjecturas sobre as suas ações futuras, eram os tópicos nunca falhantes da hora. Eu não estava com raiva por minha própria causa, mas eu sentia como se os elogios que esse ídolo recebiam eram folhas arrancadas dos louros destinados a Adrian. Mas eu tenho de entrar em alguma consideração desse queridinho da fama – esse favorito do mundo amante de maravilhas.

Lorde Raymond era o único remanescente de uma nobre, mas empobrecida, família. Desde o começo da sua juventude ele tinha considerado a sua linguagem com complacência, e amargamente lamentava a sua falta de riqueza. O seu primeiro desejo era o engradecimento; e os meios que conduziam a esse fim eram considerações secundárias. Altivo, contudo trêmulo a cada demonstração de respeito; ambicioso, mas orgulhoso demais para revelar sua ambição; desejoso de alcançar honra, contudo, um devoto do prazer, - ele entrou na vida. Ele foi encontrado na entrada [71]por algo insulto, real ou imaginário; alguma repulsa, onde ele menos esperava; algum desapontamento, difícil para o seu orgulho suportar. Ele contorcia-se sob uma injúria que ele era incapaz de vingar; e ele deixou a Inglaterra com voto de não retornar até que um bom momento devesse chegar, quanto ela poderia sentir o poder nele que ela agora desprezava.

Ele tornou-se um aventureiro nas guerras gregas. Sua coragem irresponsável e gênio compreensivo trouxeram-lhe a atenção de todos. Ele tornou-se o herói querido desse povo em ascensão. Apenas o seu nascimento estrangeiro, e ele recusava-se a abandonar sua lealdade ao seu país nativo, impedia-lhe de preencher os primeiros cargos público no estado. Mas, embora outros pudessem ranquear mais alto em título e cerimônia, lorde Raymond mantinha uma posição acima e além de tudo isso. Ele liderou os exércitos gregos à vitória; os triunfos deles eram todos seus próprios. Quando ele aparecia, cidades inteiras fluíam sua população em grandes números para o encontrar; novas canções foram adaptadas para os seus ares nacionais, cujos temas eram a glória, o valor e a munificência dele.

[72]Uma trégua foi concluída entre os gregos e turcos. Ao mesmo tempo, lorde Raymond, por alguma chance não procurada, tornou-se o possuidor de uma fortuna imensa na Inglaterra, para onde ele retornou, coroado de glória, para receber o galardão de honra e distinção antes negado às pretensões dele. Seu coração orgulhoso rebelou-se contra essa mudança. No que o despresado Raymond não era o mesmo? Se a aquisição de poder na forma de riqueza causou essa alteração, esse poder eles deveriam sentir como um jugo de ferro. Portanto, o poder era o alvo de todos os seus esforços; engrandecimento era a marca na qual ele sempre atirava. Em ambição aberta ou intriga fechada, o seu fim era o mesmo – alcançar a primeira posição no seu próprio país.

Esse relato me encheu de curiosidade. Os eventos que na sucessão se seguiram ao retorno dele à Inglaterra deram-me sentimentos mais perspicazes. Entre suas outras vantagens, lorde Raymond era supremamente belo; todos o admiravam; ele era o ídolo das mulheres. Ele era cortês, com língua de mel – [73]um adepto nas artes de fascinação. O que esse homem não poderia alcançar no movimentado mundo inglês? Mudança sucedeu mudança; a história inteira não me alcançou; pois Adrian tinha cessado de escrever; e Perdita era uma correspondente lacônica. O rumor seguia de que Adria tinha se tornado – como escrever a palavra fatal – louco: que o lorde Raymond era o favorito da ex-rainha, o esposo destinado da filha dela. Ou melhor, mais, que esse nobre aspirante reviveu a reivindicação da casa de Windsor à coroa, e que, no evento da desordem incurável de Adrian e do casamento dele com a irmã, a testa do ambicioso Raymond poderia ser cercada pelo anel mágico da realeza.

Um semelhante conto enchia a trombeta de fama muito vociferada; um semelhante conto tornou a minha estada mais longa em Viena, longe do amigo da minha juventude, intolerável. Agora eu tenho de cumprir com meu voto; agora eu tenho de me alistar ao lado dele, e ser seu aliado e suportá-lo até a morte. Adeus aos prazeres corteses; à intriga política; ao labirinto de [74]paixão e loucura! Todos saúdem a Inglaterra! Inglaterra nativa, receba teu filho! Tu és a cena de todas as minhas esperanças, o teatro poderoso no qual é encenado o único drama que pode, coração e alma, carregar-me adiante com ele em seu desenvolvimento. Uma voz muito irresistível, um poder onipotente, arrastou-me para cá. Após uma ausência de dois anos, eu desembarquei em suas costas, temeroso de cada observação. Minha primeira visita seria para minha irmã, quem habitava uma pequena cabana, uma parte do presente de Adrian, nas bordas da floresta de Windsor. A partir dela eu deveria aprender a verdade relativa ao nosso protetor; eu deveria ouvir porque ela tinha sido retirada da proteção da princesa Evadne, e ser instruído quanto à influência que esse Raymond que leva a melhor e que se eleva como uma torre exercia sobre as fortunas do meu amigo.

Nunca antes eu tinha estado na vizinhança de Windsor; a fertilidade e beleza da região ao redor agora me impressionavam com admiração, a qual aumentava enquanto eu aproximava-me do [75]bosque antigo. As ruínas de carvalhos majestosos que tinham crescido, florescido e decaído durante o progresso de séculos, marcavam onde os limites da floresta uma vez alcançaram, enquanto as paliçadas estilhaçadas e a vegetação rasteira negligenciada revelavam que esta parte estava foi desertada por plantações mais jovens, as quais deviam o seu nascimento ao começo do século XIX, e agora se erguiam no orgulho da maturidade. A humilde habitação de Perdita situava-se nas bordas da parte mais antiga; antes que ela se estendesse Bishopgate Heath, o qual na direção leste parecia interminável, e era limitado ao oeste por Chapel Wood e o arvoredo de Virginia Water. Por trás, a cabana era ensombreada pelos veneráveis pais da floresta, sob os quais o veado vinha para pastar, e os quais, pela maior partes vazios e decaídos, formavam grupos fantásticos que contrastavam com a beleza regular das árvores mais jovens. Essas, a prole de um período posterior, erguiam-se eretas e pareciam prontas para avançar destemidamente ao tempo vindouro; enquanto aquelas, [76]retardatárias desgastadas, murchas e quebradas, agarravam-se umas às outras, seus fracos galhos suspirando enquanto o vento golpeava-os – uma tripulação batida pelo clima.

Um corrimão leve circundava o jardim da cabana, a qual, de telhado baixo, parecia submeter-se à majestade da natureza, e encolher-se em meio aos restos veneráveis de época esquecida. As flores, as filhas da primavera, adornavam o jardim e caixilhos dela; em meio à humildade havia um ar de elegância que falava do gosto gracioso da habitante. Com um coração batendo eu entrei no cercado; enquanto eu estava de pé na entrada, eu ouvi a voz dela, melodiosa como ela sempre tinha sido, a qual, antes que eu a visse, assegurava-me do bem-estar dela.

Mais um momento, e Perdita apareceu; ele colocou-se diante de mim no florescimento fresco da feminilidade juvenil, diferente de e, contudo, a mesma garota de montanha que eu tinha deixado. Os olhos dela não poderiam ser mais profundos do que eles eram na infância, nem o seu semblante mais expressivo; mas a expressão foi mudada e melhorada; a [77]inteligência assentava-se na fronte dela; quando ela falava, a face dela era embelezada pela sensibilidade mais suave, e a sua voz baixa, modulada, parecia sintonizada afinada pelo amor. A pessoa dela estava formada nas proporções mais femininas; ela não era alta, mas a vida dela na montanha tinha dado liberdade aos movimentos dela, de modo que o passo leve dela escassamente tornou a passada dela ouvida enquanto ela deslocava-se através do salão para me encontrar. Quando nós tínhamos nos separado, eu apertei-a no meu peito com entusiasmo desenfreado; novamente nos encontramos e novos sentimentos foram despertados; quando um contemplou o outro, a infância passou, como atores completamente crescidos nessa cena inconstante. A pausa foi por apenas um momento; a enchente de associação e sentimento natural, as quais tinham sido verificadas, novamente se apressaram em maré cheia sobre nossos corações, e, com a emoção mais tenra, nós rapidamente travamos um ao outro em abraço.

Passada essa irrupção de sentimento apaixonado, com pensamentos acalmados, nós sentamos juntos, conversando sobre o passado e o presente. Eu aludi à frieza das cartas dela; mas os poucos minutos que nós tínhamos despendido [78]juntos explicaram suficientemente a origem disso. Novos sentimentos tinham surgido no interior dela, os quais ela era incapaz expressar na escrita para alguém que ela tinha conhecido apenas na infância; mas nós vimos um ao outro novamente, e a nossa intimidade foi renovada como se nada tivesse intervido para a restringir. Eu detalhei os incidentes de minha estada no estrangeiro e, em seguida, questionei a ela quanto às mudanças que tinham ocorrido em casa, as causas a ausência de Adrian e a vida reclusa dela.

As lágrimas que impregnavam os olhos da minha irmã, quando eu mencionei o nosso amigo, e a sua cor intensificada parecerem atestar a verdade dos relatos que tinham me alcançado. Mas a sua importância era terrível demais para eu conceder crédito instantâneo à minha suspeita. Havia, de fato, anarquia no universo sublime dos pensamentos de Adrian, a loucura dispersou as legiões bem equipadas, e ele não era mais senhor da sua própria alma? Amigo amado, este mundo doente não era clima para o seu espírito gentil; você entregou a sua governança à humanidade falsa, a qual o despiu de [79]suas folhas antes do inverno, e desnudou sua vida trêmula à ministração malignas dos ventos mais difíceis. Aqueles olhos gentis, aqueles “canais da alma” perderam o seu significado, ou eles apenas revelam em seu olhar o conto horrível das suas aberrações? Aquela voz não mais “discursa música excelente?” Horrível, muito horrível! Eu velo meus olhos diante do terror da mudança, e lágrimas jorrando testemunham minha simpatia por essa ruína inimaginável.

Em obediência à minha requisição, Perdita detalhou as circunstâncias melancólicas que levaram a esse evento.

A mente franca e sem malícia de Adrian, dotada, como ela era, de toda graça natural, dotada com poderes transcendentes do intelecto, não manchada pela sombra de defeito (a menos que a sua independência de pensamento fosse construída sobre um), era devotada, até como uma vítima para sacrifício, ao seu amor por Evadne. Ele confiou à guarda dela os tesouros da alma dele, suas aspirações por excelência, e os seus planos para o [80]progresso da humanidade. Conforme a maturidade surgia sobre ele, os seus esquemas e teorias, longe de serem mudados por motivos pessoais e prudenciais, adquiriram nova força a partir dos poderes que ele sentia surgirem dentro dele; e o amor dele por Evadne tornou-se profundamente enraizado, como a cada dia ele tornava-se mais certo de que o caminho que ele perseguia era cheio de dificuldade, e que e ele tem de buscar a sua recompensa, não no aplauso ou na gratidão das suas criaturas companheiras, dificilmente no sucesso dos seus planos, mas na aprovação do seu próprio coração, e no amor e simpatia dela, os quais deviam aliviar cada labor e recompensar cada sacrifício.

Em solidão, e através de muitas errâncias longe dos covis dos homens, ele amadureceu suas visões para a reforma do governo inglês, e para o progresso do povo. Teria sido bom se ele tivesse ocultado os seus sentimentos, até que ele tivesse alcançado a posse do pode que asseguraria o desenvolvimento prático deles. Mas ele era impaciente dos [81]anos que tinham de interferir, ele era franco de coração e destemido. Ele não apenas deu uma negação breve aos esquemas da mãe dele, mas publicizou sua intenção de usar a sua influência para diminuir o poder da aristocracia, para uma efetuar uma maior equalização de riqueza e privilégio, e para introduzir um sistema perfeito de governo republicano na Inglaterra. Inicialmente a mãe dele tratou suas teorias como delírios selvagens da inexperiência. Mas elas estavam tão sistematicamente organizadas, e os seus argumentos tão bem suportados, que, embora ainda na aparência incrédulas, ela começou a temê-lo. Ela tentou raciocinar com ele e, descobrindo-o inflexível, aprendeu a odiá-lo.

Estranho dizer, esse sentimento era infeccioso. O entusiasmo dele pelo bem que não existia; o seu desdém pela sacralidade da autoridade; o seu ardor e imprudência eram todos antipodas da rotina usual da vida; o mundano temia-o; o jovem e inexperiente não entendiam a severidade elevada das suas visões morais, e desgostavam dele como um ser diferente [82]deles mesmos. Evadne entrava apenas friamente em seus sistemas. Ela pensava que ele fazia bem em afirmar sua própria vontade, mas ela desejava que a vontade tivesse sido mais inteligível para a multidão. Ela não tinha nada do espírito de um mártir, e não se inclinava para partilhar a vergonha e derrota de um patriota caído. Ela estava ciente da pureza dos seus motivos, da generosidade das suas disposições, do seu afeto verdadeiro e ardente por ela; e ela entretinha uma grande afeição por ele. Ele retribuía a esse espírito de gentileza com a gratidão mais querida, e tornou-a a tesouraria de todas as esperanças dele.

Nesse momento, lorde Raymond retornou da Grécia. Nenhum par de pessoas poderia ser mais oposto do que ele e Adrian. Com todas as incongruências do seu caráter, Raymond era enfaticamente um homem do mundo. Suas paixões eram violentas; como essas frequentemente obtinham domínio sobre ele, nem sempre ele conseguia conduzir-se para a linha óbvia do interesse próprio, mas, pelo menos, a autogratificação era o objeto [83]preponderante com ele. Ele olhava para a estrutura da sociedade como apenas uma parte do maquinário que suportava a teia sobre a qual a sua vida estava traçada. A terra estava espalhada como um estrada principal para ele, os céus construídos como uma cobertura para ele.

Adrian sentia que ele fazia parte de um grande todo. Ele devia afinidade não apenas à humanidade, mas toda a natureza era semelhante a ele; as montanhas e o céu eram seus amigos; os ventos do céu e a prole da terra, seus companheiros de brincadeira; enquanto ele, o foco único desse espelho poderoso, sentia sua vida misturada com o universo da existência. A alma dele era simpatia e dedicada à adoração de beleza e excelência. Agora Adrian e Raymond entraram em contato, e um espírito de aversão surgiu entre eles. Adrian desprezava as visões estreitas do político, e Raymond considerava com desdém supremo as visões benevolentes do filantropo.

Com a chegada de Raymond formou-se a tempestade que devastou com um golpe grupo os jardins de deleite e caminhos abrigados que [84]Adrian imaginava que ele tinha assegurado para si mesmo, como um refúgio da derrota e contumélia. Raymond, o libertador da Grécia, o soldado gracioso, quem portava em seu semblante um matiz de tudo que, peculiar ao seu clima nativo, Evadne estimava como mais querido – Raymond era amado por Evadne. Subjugada por essas novas sensações, ela não parou para as examinar, ou para regular sua conduta por quaisquer sentimentos exceto o tirânico que subitamente usurpou o império do coração dela. Ela rendeu-se à sua influência, e a consequência natural demais em uma mente não sintonizada com emoções suaves foi que as atenções de Adrian tornaram-se desagradáveis para ela. Ela tornou-se caprichosa; a conduta gentil dela para com ele foi trocada por aspereza e repulsiva frieza. Quando ela percebia o apelo selvagem e patético do seu semblante expressivo, ela abrandaria e assumia sua gentileza antiga. Mas essas flutuações sacudiam às suas profundezas a alma do jovem sensível; ele não mais considerava o mundo sujeito a ele, porque ele possuía o amor [85]de Evadne; ele sentia em cada nervo que as tempestades terríveis do universo mental estavam prestes a atacar o seu frágil ser, o qual tremia diante da expectativa do seu advento.

Perdita, quem então residia com Evadne, viu a tortura que Adrian suportou. Ela amava-o com um gentil irmão mais velho; uma relação para a guiar, proteger e instruir, sem a tirania tão frequente da autoridade parental. Ela adorava as virtudes dele e, com desdém e indignação misturados, ela via Evadne acumular pesar triste sobre a cabeça ele, em prol de alguém quem dificilmente a distinguia. Em seu desespero solitário Adrian frequentemente procuraria minha irmã e, e termos encobertos, expressaria a sua miséria, enquanto fortitude e agonia dividiam o trono da mente dele. Em breve, ai de mim! Um deveria vencer. A ira não fazia parte de sua emoção. Com quem ele deveria irar-se? Não com Raymond, quem era inconsciente da miséria que ocasionava; não com Evadne, pois a alma dela chorava lágrimas de sangue – pobre garota equivocada, escrava, não tirana, ela era, e em meio [86]à sua própria angústia, ele entristecia-se pelo futuro destino dela. Uma vez, um escrito dele caiu nas mãos de Perdita; ele estava manchado de lágrimas – bem poderia qualquer o borrar com o semelhante -

A vida” – ele começou dessa maneira – “não é a coisa que os escritores de romance descrevem; atravessando as medidas de uma dança e, após várias evoluções, chegando a uma conclusão, quando os dançarinos podem sentar e repousar. Enquanto houver vida há ação e mudança. Nós prosseguimos, cada pensamento vinculado àquele que foi seu pai, cada ato a um ato anterior. Nenhuma alegria ou sofrimento morre estéril de descendência, a qual, para sempre gerando e gerando, entrelaça a cadeia que forma a nossa vida:


Um dia chama outro dia

e assim chama, e acorrenta

choro a choro, e pena a pena.


Desapontamento verdadeiro é a divindade guardiã da vida humana; ele senta-se à entrada do tempo não nascido e ordena os eventos conforme eles aparecem. Uma vez meu coração sentava-se levemente em meu peito; [87]toda beleza do mundo era duplamente bela, irradiada pela luz do sol a partir da minha própria alma. Oh, por que, o amor e a ruína estão para sempre juntos em nosso sonho mortal? De maneira que, quando nós fazemos o nosso coração um covil para aquela besta aparentemente gentil, a sua companheira entra com ela e, sem piedade, devasta o que poderia ter sido um lar e um abrigo.”

Gradualmente a saúde dele foi sacudida por sua miséria e, em seguida, o seu intelecto rendeu-se à mesma tirania. Seus modos tornaram-se selvagens: algumas vezes, ele tornava-se feroz, algumas vezes, absorvido em melancolia sem fala. Subitamente, Evadne trocou Londres por Páris; ele seguiu-a e alcançou-a quando a embarcação estava prestes a zarpar; ninguém soube o que se passou entre ele, mas Perdita nunca mais o viu desde então; ele vivia em isolamento, ninguém sabia onde, auxiliado por aquelas pessoas que a mãe dele selecionou para esse propósito.


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ORIGINAL:

SHELLEY, M. W. The Last Man. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1826. p.62-87. Disponível em:<https://archive.org/details/lastman01shel/page/62/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XXII Os Colégios da Insensatez (continuado)

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[165]XXII Os Colégios da Insensatez (continuado)


De gênio eles não fazem conta, pois eles dizem que cada um é um gênio, mais ou menos. Ninguém é fisicamente tão são que nenhuma parte sua não será nem mesmo um pouco não sã, e ninguém é tão doente com exceção que alguma parte sua será saudável – assim, nenhuma homem é tão mentalmente e moralmente são, exceto que ele será em parte tanto louco quanto perverso; e nenhum homem é tão louco e perverso, com exceção que ele será sensível e honorável, em parte. De uma maneira similar, não há gênio que também não seja um tolo, e nenhum tolo que também não seja um gênio.

Quando eu falei sobre originalidade e gênio para alguns cavalheiros que eu encontrei em um jantar dado pelo sr. Thims em minha honra, e disse que o pensamento original deveria ser encorajado, eu imediatamente tive de engolir minhas palavras. A visão deles evidentemente era de que gênio era semelhante ofensas – é necessário que ele surja, mas aflição para aquele homem através de quem ele surja. A obrigação de um homem, eles sustentam, é pensar como os vizinhos dele pensam, pois, que Deus o ajude se ele considera bom o que eles consideram mau. E realmente é difícil ver como a teoria erewhoniana difere da nossa própria, pois a palavra “idiota” apenas significa uma pessoa que forma suas opiniões por si mesma.

O venerável professor de Sabedoria Mundana, um homem beirando oitenta anos mas ainda robusto, falou para mim muito seriamente sobre esse assunto em consequência das poucas palavras que, imprudentemente, eu tinha deixado escapar em defesa do gênio. Ele era um dos que mais têm influência na universidade, e tinha a reputação de ter feito mais do qualquer outro homem vivo para suprimir qualquer tipo de originalidade.

Não é nossa tarefa,” ele disse, “ajudar estudantes a pensarem por si mesmos. Certamente isso é a última coisa mesma que alguém lhes deseja bem deveria encorajá-los a fazer. O nosso dever é assegurar que eles devam pensar como nós pensamos, ou, de qualquer maneira, como nós consideramos conveniente dizer que nós pensamos.” Contudo, em alguns aspectos, ele foi ensinado a sustentar [166]opiniões um pouco radicais, pois ele era o Presidente da Sociedade para Supressão do Conhecimento Inútil, ou para a Obliteração Mais completa do Passado.

Com respeito aos testes pelos quais um jovem deve passar antes que ele possa obter uma graduação, eu descobri que eles não tinham listas de classes, e desencorajavam qualquer coisa como competição entre os estudantes; de fato, eles consideram isso como egoísmo e hostilidade. Os exames eram conduzidos através de artigos escritos pelo candidato sobre assuntos determinados, alguns dos quais eram conhecidos antecipadamente, enquanto outros eram concebidos com uma visão de testar a sua capacidade geral e savoir faire.

Meu amigo, o professor de Sabedoria Mundana, era o terror de grande número de estudantes; e, até onde eu podia julgar, ele bem poderia ser, pois ele tinha levado a sua cátedra mais a sério do que qualquer outro dos professores tinha feito. Eu ouvi sobre ele tendo expulso um pobre rapaz por carência de vagueza suficiente em seu artigo sobre cláusulas de poupança. Outro foi expulso por um artigo sobre um assunto científico sem ter feito uso suficientemente livre das palavras “cuidadosamente,” “pacientemente” e “seriamente.” Um foi homem teve a graduação recusada por estar correto frequentemente demais e seriamente demais, enquanto, uns poucos dias antes, eu cheguei a um lote inteiro que tinha sido expulso por desconfiança insuficiente do assunto impresso.

Sobre isso havia então apenas um pouco uma agitação, pois parece que o professor tinha escrito um artigo na revista da principal universidade, o qual era bem conhecido de ser de autoria dele e que abundava em todos os tipos de tolices plausíveis. Então ele determinou um artigo que concedeu aos examinados uma oportunidade para repetir essas tolices – os quais, acreditando o artigo ser pelo seu próprio examinador, é claro que eles o fizeram. O professor expulsou cada um deles, mas essa ação foi considerada não ter sido bastante bela.

Eu contei-lhes da nobre linha de Homero para o efeito de que um homem sempre deveria se esforçar para estar em primeiro lugar e em todas as coisas [167]levar a melhor sobre seus pares; mas eles diziam que não é surpreendente que os países nos quais uma máxima tão detestável seja considerada com admiração sempre estivessem voando nos pescoços um dos outros.

Por que,” perguntou um professor, “um homem deveria querer ser melhor do que os seus vizinhos? Deixe-o ser grato se ele não for pior.”

Eu aventurei fracamente a dizer que eu não pude ver quanto progresso poderia ser realizado em qualquer arte ou ciência, ou, de fato, absolutamente em qualquer coisa, sem mais ou menos egoísmo e, consequentemente, inamabilidade.

É claro que não pode,” disse o professor, “e, portanto, nós contestamos o progresso.”

Depois do quê não havia mais nada a dizer. Posteriormente, um jovem professor levou-me de lado e disse que eu não entendia bem as visões deles sobre o progresso.

Nós gostamos do progresso,” ele disse, “mas isso deve recomendar-se ao bom senso do povo. Se um homem consegue saber mais do que seus vizinhos, ele deveria manter o seu conhecimento para si mesmo até que ele os tenha tornado conhecedores, e visto se eles concordam, ou é provável que eles concordem com ele.” Ele disse que era imoral estar muito à frente da sua própria idade assim como ficar muito atrás dela. “Se um homem leva os seus vizinhos consigo, ele pode dizer o que ele quiser; mas se não, que insulto pode ser mais gratuito do que lhes dizer o que eles não querem saber? Um homem deveria lembrar que o excesso de prazer é uma das formas mais insidiosas e infames que o excesso pode tomar. Admite-se que todos deveriam se exceder mais ou menos, na medida que sanidade absolutamente perfeita levaria qualquer homem à loucura no momento em que ele a alcançasse, mas …”

Ele agora estava se aquecendo para esse assunto, e eu estava começando a perguntar-me como eu deveria livrar-me dele, quando a festa acabou, e embora eu prometesse visitá-lo antes que eu saísse, infelizmente, eu fui impedido de o fazer.

Agora eu disse o suficiente para dar aos leitores ingleses alguma ideia das visões estranhas que os erewhonianos sustentam [168]relativas a insensatez, hipotética e educação de maneira geral. Em muitos aspectos, eles eram suficientemente sensíveis, mas eu não podia superar a hipotética, especialmente a transformação da sua própria boa poesia na linguagem hipotética. No curso da minha estada, eu encontrei um jovem quem me contou que por quase quatorze anos a linguagem hipotética tinha sido quase a única coisa que ele tinha sido ensinado, embora ele nunca tivesse (para o crédito dele, como me parecia) mostrado a mais leve tendência para ela, embora ele fosse dotado de habilidade não desconsiderável para vários outros ramos do conhecimento humano. Ele assegurou-me que nunca abriria outro livro hipotético depois que ele tiver recebido a sua graduação, mas seguiria a tendência das suas próprias inclinações. Isso estava suficientemente bem, mas quem poderia lhe devolver seus quatorze anos?

Algumas vezes eu ponderava como era que o prejuízo realizado não era mais claramente perceptível, e que os jovens homens e mulheres cresciam tão sensíveis e vistosos como eles faziam, a despeito das tentativas feitas quase deliberadamente para torcer e tolher o seu crescimento. Sem dúvida alguns recebiam injúria, da qual eles sofriam até o fim da vida deles; mas alguns pareciam pouco ou nada piores, e alguns, quase melhores. A razão parecia ser que o instinto natural dos rapazes, na maioria dos casos, rebelava-se tão absolutamente contra o treinamento deles que, fizessem o que os professores pudessem, eles nunca poderiam os fazer prestar atenção séria nele. A consequência era que os rapazes apenas perdiam o seu tempo, e não tanto dele como poderia ter sido esperado, pois, em suas horas de lazer, eles engajavam-se ativamente em exercícios e esportes que desenvolviam a sua natureza física, e tornava-os de qualquer maneira fortes e saudáveis.

Além disso, aqueles que tivessem quaisquer gostos especiais, não poderiam ser impedidos de os desenvolver: eles aprenderiam o que eles desejassem aprender e o que eles gostassem, a despeito dos obstáculos que antes pareciam os estimular do que os desencorajar, enquanto que, para aqueles que não tinham nenhuma capacidade especial, a perda de [169]tempo era de comparativamente pouca importância; mas, a despeito desses alívios do dano, eu estou certo de que muito prejuízo tinha sido causado aos filhos das classes sub-ricas pelo sistema que atualmente se passa por educação entre os erewhonianos. Os filhos dos mais pobres sofriam menos – se destruição e morte tivessem ouvido o som da sabedoria, a uma certa extensão, a pobreza também o tinha ouvido.

E contudo, talvez, afinal seja melhor para um país que as suas instituições educacionais deveriam fazer mais para suprimir o crescimento mental do que o encorajar. Não fosse por uma certa arrogância que esses lugares infundem em um número tão grande dos seus alumni, trabalho genuíno tornar-se-ia perigosamente comum. É essencial que, pela maior parte, o que é dito ou feito no mundo deva ser tão efêmero quanto a retirar-se rapidamente; deveria ser conservado bem por vinte e quatro horas, ou até o dobro do tempo, mas não deveria ser bom o suficiente com uma semana para evitar que as pessoas progredissem para alguma outra coisa. Sem dúvida o desenvolvimento maravilhoso do jornalismo na Inglaterra, como também o fato de que as nossas instituições objetivam antes ao fomento da mediocridade do que a qualquer coisa superior, seja devido ao nosso reconhecimento subconsciente do fato de que é ainda mais necessário restringir o desenvolvimento mental do que o encorajar. Não pode haver dúvida de que é isso o que os nossos corpos acadêmicos fazem, e eles fazem isso mais efetivamente porque eles fazem-no apenas subconscientemente. Eles pensam que estão aperfeiçoando a assimilação mental e digestão saudáveis, enquanto que, na realidade, eles são pouco melhores do que câncer no estômago.

Contudo, retornemos aos erewhonianos. Nada me surpreendia mais do que ver os brilhos ocasionais de senso comum com os quais um ramo ou outro de estudo era iluminado, enquanto que nenhum raio de luz caía sobre tantos outros. Eu fiquei particularmente impressionado com isso ao perambular pela Escola de Arte da Universidade. Aqui eu descobri que o curso de estudo era dividido em dois ramos – o prático [170]e o comercial – a nenhum estudante sendo permitido continuar seus estudos na prática atual da arte que ele tinha assumido, a menos que ele tivesse feito progresso igual em sua história comercial.

Dessa forma, quem estava estudando pintura eram examinado, a intervalos frequentes, nos preços que todas as pinturas principais dos últimos cinquenta ou mil anos tinham sido realizadas, e nas flutuações em seus valores, quando (como frequentemente acontece) elas tinham sido vendidas e revendidas três ou quatro vezes. O artista, eles afirmavam, é um negociante de pinturas, e é importante para ele aprender a como adaptar os seus produtos para o mercado, e saber aproximadamente quanto trará um tipo de uma pintura, visto que para ele ser capaz de pintar a pintura. Eu suponho que é isso que o francês quer dizer por colocar tanta ênfase sobre “valores.”

Com respeito à cidade mesma, quanto mais eu via, mais encantado eu me tornava. Eu não me atrevo a confiar-me com nenhuma descrição da beleza exótica dos diferentes colégios e suas alamedas e seus jardins. Verdadeiramente apenas nessas coisas tem de haver uma influência consagradora e refinadora, a qual é, em si mesma, metade de uma educação, e a qual, nenhum montante de erro pode estragar inteiramente. Eu fui apresentado a muitos dos professores, quem me mostraram toda hospitalidade e gentileza; mesmo assim, eu dificilmente pude evitar um tipo de suspeita de que alguns daqueles a qual eu fui levado para ver tinham estado por tanto tempo absorvidos em seu próprio estudo de hipotética que eles tinham se tornado a antítese exata dos atenienses nos dias de São Paulo; pois, enquanto que os atenienses despendiam as suas vidas em nada salvo verem e ouvirem alguma coisa nova, havia alguns aqui quem pareciam se devotar a evitar toda opinião com a qual eles não estavam perfeitamente familiares, e consideravam os seus próprios cérebros como um tipo de santuário, ao qual, se uma opinião uma vez tivesse recorrido, nenhuma outra devia atacá-lo.

Contudo, eu deveria alertar o leitor que eu raramente tinha certeza do que os homens com os quais eu me encontrava enquanto estando com o sr. [171]Thims realmente queriam dizer; pois não havia obtenção de nada deles se eles pressentissem mesmo uma suspeita de que eles poderiam estar o que eles chamam de “entregando a si mesmos.” Como dificilmente há qualquer assunto sobre a qual essa suspeita não pudesse surgir, eu considerei difícil obter opiniões definitivas de qualquer um deles, exceto em assuntos tais como o clima, comida e bebida, excursões de feriado, ou jogos de habilidade.

Se eles não podem torcer a expressão de uma opinião de algum tipo, eles comumente espalharão aquelas de alguém que já escreveu sobre o assunto, e concluem dizendo que, embora eles admitam bastante que há um elemento de verdade no que o escritor disse, há muitos pontos sobre os quais eles eram incapazes de concordar com ele. Que pontos eram esses, eu invariavelmente me encontrei incapaz de determinar; de fato, parecia ser considerado a perfeição da erudição e da boa criação entre eles não ter – muito menos expressar – uma opinião sobre qualquer assunto sobre o qual, posteriormente, poderia ser provado que eles tinham estado enganados. A arte de se sentar graciosamente em cima de um muro, eu deveria pensar, nunca foi trazida a uma perfeição maior do que no Colégio erewhoniana da Insensatez.

Mesmo quando, torcidos como eles possam ser, eles encontram-se presos a alguma expressão de opinião definida, tão frequentemente quanto eles argumentarão em suporte do que sabem perfeitamente ser inverdadeiro. Eu repetidamente encontrei análises e artigos, mesmo em seus melhores jornais, entre as linhas dos quais eu tive pouca dificuldade em detectar um sentido exatamente contrário àquele abertamente proposto. Isso é tão bem entendido,que um homem tem de ser um mero principiante nas arte da polida sociedade erewhoniana, a menos que ele instintivamente suspeite de um “sim” oculto em cada “não” que o encontra. Admitido que se chega exatamente ao mesmo no fim, pois não importa se “sim” é chamado de “sim” ou “não,” enquanto ele for entendido como deve ser; mas o nosso próprio caminho mais direto de chamar uma espada de um espada, em vez de um ancinho, com a intenção de cada um deveria [172]entendê-la como uma espada, parece mais satisfatório. Por outro lado, o sistema erewhoniano empresta-se melhor à supressão daquela franqueza que parece o objetivo da filosofia erewhoniana atrapalhar.

De qualquer maneira que isso possa ser, a doença do medo-de-entregarem-a-si-mesmos era fatal para a inteligência daqueles infectados por ela, e quase todos nos Colégios de Insensatez tinham contraído-a a um grau maior ou menor. Após uns poucos anos a atrofia das opiniões invariavelmente sobrevinha, e o sofredor tornava-se pedra morta para tudo exceto os aspectos mais superficiais daqueles objetos materiais com os quais ele mais entrava em contato. A expressão nos rostos daquelas pessoas era repulsiva; contudo, elas não pareciam particularmente infelizes, pois nenhuma delas tinha a mais fraca ideia de que, na realidade, elas estavam mais mortas do que vivas. Nenhuma cura para essa detestável doença do medo-de-entregarem-a-si-mesmos ainda tinha sido descoberta.


*


Foi durante a minha estada na cidade dos Colégios da Insensatez – uma cidade cujo nome erewhoniano é tão cacofônico que eu evito de o fornecer aqui – que eu aprendi os particulares da revolução que terminou na destruição de tantas invenções mecânicas que anteriormente foram de uso comum.

O sr. Thims levou-me às salas de um cavalheiro que tinha uma grande reputação de conhecimento, mas quem também era, assim o sr. Thims me contou, uma pessoa bastante perigosa, na medida que ele tinha tentado introduzir um advérbio dentro da linguagem hipotética. Ele tinha ouvido sobre o meu relógio e estava excessivamente ansioso para me ver, pois ele era considerado o mais instruído antiquário em Erewhon sobre o assunto do conhecimento maquínico. Nós imediatamente começamos a falar sobre o assunto, e quando eu o deixei, ele deu-me uma cópia reimpressa da obra que causou a revolução.

[173]Isso tinha acontecido há aproximadamente cinco séculos antes da minha chegada: as pessoas há muito tinham se tornado completamente acostumadas com a mudança, embora à época ela fez o país afundar-se na mais completa miséria, e uma reação que se seguiu teve sucesso quase provado. Guerra civil rugiu por muitos nos, e é dito ter reduzido o número de habitantes pela metade. Os partidos eram apelidados como os maquinistas e os antimaquinistas, e no fim, como eu já disse, os últimos obtiveram a vitória, tratando seus oponentes com severidade tão sem paralelo que eles extirparam todo traço de oposição.

O assombro foi que ele admitiram quaisquer utensílios mecânicos permanecerem no reino, nem eu acredito que eles teriam feito isso, não tivessem os professores de Inconsistência e Evasão tomado posição contra realizarem os novos princípios às suas conclusões legítimas. Além disso, esses professores insistiram que, durante o conflito, os antimaquinistas deveriam usar todo aperfeiçoamento conhecido na arte da guerra, e várias novas armas, ofensivas e defensivas, fossem inventados, enquanto ela estivesse em progresso. Eu fiquei surpreso diante dos restos de tantos exemplos maquínicos quanto eram vistos nos museus, e com estudantes tendo redescoberto os seus usos passados tão completamente; pois à época da revolução, os vitoriosos destruíram todas as máquinas mais complicadas, e queimaram todos os tratados sobre mecânica e todas as oficinas de engenheiros – dessa maneira, eles assim pensavam, cortando o estrago a partir da raiz e do galho, a um custo incalculável de sangue e tesouro.

Certamente eles não tinha poupado o seu labor, mas o trabalho dessa descrição nunca pode ser completamente alcançado, e quando, alguns duzentos anos antes da minha chegada, toda paixão sobre o assunto tinha esfriado, e ninguém exceto um lunático teria sonhado com a reintrodução de invenções proibidas, o assunto veio a ser considerado como um curioso estudo antiquário, como aqueles de algumas práticas religiosas há muito esquecidas entre nós mesmos. Então vinha a [174]busca cuidadosa por quaisquer fragmentos que pudessem ser encontrados, e por quaisquer máquinas que pudessem ter ficado escondidas, e também tratados sem números foram escritos, mostrando quais tinham sido as funções de cada máquina redescoberta; tudo sendo realizado sem nenhuma ideia de usar semelhante maquinário novamente, mas com os sentimentos de um antiquário inglês relativos a monumentos druídicos ou pontas de flecha de pedra.

Durante o meu retorno para a metrópole, durante as semanas, ou melhor, dias remanescentes da minha estada em Erewhon, eu fiz um résumé em inglês do trabalho que causou a já mencionada revolução. Indubitavelmente a minha ignorância dos termos técnicos levou-me a muitos erros, e, ocasionalmente, onde considerei a tradução impossível, eu substitui os originais erewhonianos por nomes e ideias puramente ingleses, mas o leitor pode confiar na minha precisão geral. Eu considerei melhor inserir a minha tradução aqui.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 165-174. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/165/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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