O Último Homem
Por Mary Shelley
Volume I
[62]Capítulo III
Felizes, três vezes felizes, foram os meses, e semanas, e horas daquele ano. Amizade, mãos dadas com admiração, ternura e respeito, construíram um caramanchão de deleite em meu coração, até recentemente acidentado como uma região selvagem não trilhada na América, como o vento sem lar ou o mar sem ervas. Sede insaciável por conhecimento, e afeição sem limites por Adrian, combinaram-se para manter tanto meu coração quanto entendimento ocupados, e eu estava consequentemente feliz. Felicidade que é tão verdadeira e desanuviada quanto o deleite exuberante e falante dos jovens. Em nosso bote, sobre o meu lago nativo, ao lado dos córregos e pálidos álamos limítrofes – em vale e através de colina, minha [63]cajado jogado de lado, um rebanho mais nobre para tomar de conta do que ovelhas bobas, até um rebanho de ideias recém-nascidas, eu lia e ouvia Adrian; e o discurso dele, se ele dizia respeito ao seu amor ou às suas teorias para o aperfeiçoamento do homem, igualmente me fascinava. Algumas vezes, meu temperamento sem lei retornaria, meu amor pelo perigo, minha resistência à autoridade, mas isso era na ausência dele; sob o domínio suave dos seus olhos queridos, eu era obediente e bom como um menino de cinco anos de idade, que cumpre as ordem de sua mãe.
Após uma residência de um ano em Ulswater, Adrian visitou Londres e retornou cheio de planos para o nosso benefício. Você tem de começar a vida, ele disse; você tem dezessete anos, e uma demora mais longa tornaria o aprendizado necessário mais e mais penoso. Ele previa que a sua própria vida seria uma de conflito, e que eu teria de tomar parte em seus labores com ele. Para melhor me adaptar para essa tarefa, nós agora temos de nos separar. Ele considerou o meu nome um bom salvo-conduto para nomeação, e ele tinha adquirido para mim a [64]posição de secretário privado do embaixador em Viena, onde eu deveria entrar na minha carreira sob os melhores auspícios. Em dois anos, eu deveria retornar ao meu país, com um nome bem conhecido e uma reputação bem fundada.
E Perdita? - Perdita devia tornar-se a pupila, amiga e irmã mais jovem de Evadne. Com a sua consideração usual, ele tinha providenciado a independência dela nessa situação. Como recusar as ofertas desse amigo generoso? - Eu não desejo as recusar; mas, nos meus sentimentos mais privados, eu fiz um voto para devotar vida, conhecimento e poder, todos os quais, na medida que eles eram de qualquer valor, ele tinha me concedido – tudo, todas as minhas capacidades e esperanças, eu devotaria apenas a ele.
Dessa maneira, eu prometi a mim mesmo, enquanto eu viajava para o meu destino com expectativa excitada e ardente: expectativa da satisfação de tudo que, na infância, nós prometemos a nós mesmos de poder e gozo na maturidade. Pensei que o tempo tinha chegado agora, quando, ocupações [65]infantis deixadas de lado, eu deveria entrar na vida. Mesmo nos Campos Elísios, Virgílio descreve as almas dos felizes como ansiosas para beber da água que devia restaurá-las a este corpo mortal. Os jovens raramente ficam no Elísio, pois os seus desejos, sua possibilidade superadora, deixa-os tão pobres quanto um devedor sem dinheiro. Os filósofos mais sábios contam-nos dos perigos do mundo, os enganos dos homens, e a traição dos nossos próprios corações: mas, mesmo assim, destemidamente cada um adia sua casca frágil do porto, estendem a vela , e esticam seu remo, para alcançar os córregos numerosos do mar da vida. Quão poucos no auge da juventude, atracam suas embarcações sobre as “areias douradas,” e coletaram as conchas pintadas que as espalham. Mas quanto mais próximo o dia, com pranchas dilaceradas e toldos alugadas chegam à costa, e são ou naufragados antes que eles a alcancem, ou encontram algum porto batido pelo vento, alguma costa deserta, na qual se jogarem e morrerem não lamentados.
Uma trégua para a filosofia! - A vida está diante de mim, [66]e eu apresso-me à posse. Esperança, glória, amor e ambição sem culpa são meu guias, e minha alma não conhece temor. O que foi, embora doce, foi-se; o presente é bom apenas porque está prestes a mudar, e o porvir é inteiramente meu próprio. Eu temo as palpitações de meu coração? Altas aspirações causam o fluxo do meu sangue; meus olhos parecem penetrar a nublada meia-noite do tempo, e discernir dentro das profundezas da sua escuridão, a fruição de todos os desejos de minha alma.
Agora pausa! - Durante a minha jornada eu poderei sonhar e, com asas flutuantes, alcançar o topo do alto edifício da vida. Agora que eu cheguei à base dele, minhas asas estão enrolados, as poderosas escadarias estão diante de mim, e passo a passo eu devo ascender ao templo maravilhoso -
Fale! - Qual porta está aberta?
Contempla-se em mim uma nova capacidade. Um diplomata: um entre a sociedade buscadora de prazer de uma cidade alegre; um jovem de promessa; favorito [67]do Embaixador. Tudo era estranho e admirável para o pastor de Cumberland. Com assombro sem fôlego eu entrei na cena alegre, cujos atores eram
------- os lírios gloriosos como Salomão,
Quem não laboram, tampouco eles giram.
Cedo, cedo demais, eu entrei no redemoinho vertiginoso; esquecendo minhas horas estudiosas e a companhia de Adrian. O desejo apaixonado por simpatia, e busca ardente por um objeto desejado ainda me caracterizavam. A visão da beleza fascinava-me, e maneiras atraentes em homem ou mulher conquistavam a minha inteira confiança. Eu chamo isso de êxtase, quando um sorriso fazia meu coração bater; e sentia o sangue da vida arder no meu corpo, quando eu me aproximava do ídolo que, por um tempo, eu adorava. O mero fluxo dos espíritos animais era o paraíso, e, ao final da noite, eu apenas desejava uma renovação da ilusão intoxicante. A luz deslumbrante dos aposentos ornamentados; formas amáveis arrumadas em vestes esplêndidas; os movimentos [68]de uma dança, os tons voluptuosos de música exótica, embalavam meus sentidos em um sono delicioso.
E isso não está em sua felicidade amável? Eu apelo a moralistas e sábios. Eu pergunto se na calma dos seus devaneios calculados, se nas meditações profundas que preenchem suas horas, eles sentem o êxtase de um jovem novato na escola do prazer? Podem os calmos raios de luz dos seus olhos buscadores do céu igualar os clarões da paixão matizada que o cegam, ou a influência da filosofia fria banhar a alma dele em uma alegria igual a dele, engajada
Nessa obra querida de festança juvenil.
Mas em verdade, nem as meditações solitárias do eremita, nem os arrebatamentos tumultuosos do folião, são capazes de satisfazer o coração do homem. A partir de um, nós reunimos especulação inquieta, a partir do outro, saciedade. A mente tomba sob o peso do pensamento, e cai na relação sem coração daqueles cujo [69]único objetivo é diversão. Não há fruição em sua bondade vazia, e rochas afiadas ocultam-se sob as ondulações sorridentes dessas águas rasas.
Dessa maneira eu sentia, quando desapontado, que cansaço e solidão conduziam-me de volta a meu coração, para colher aí a alegria da qual ele tinha se tornado deserto. Meus espíritos enfraquecido pergunta por alguma coisa para falar às afeições; e, não a encontrando, eu caia. Dessa maneira, a despeito do deleite sem pensamento que esperava em seu começo, a impressão que eu tenho da minha vida em Viena é melancólica. Goethe disse que, na juventude, nós não conseguimos ser felizes a menos que nós amemos. Eu não amava; mas eu era devorado por um desejo sem descanso de ser alguma coisa para outros. Eu tornei-me a vítima de ingratidão e coqueteria frio – então eu desanimei, e imaginei que o meu descontentamento dava-me um direito de odiar o mundo. Eu recuei para a solidão; eu recorri aos meus livros, e, novamente, meu desejo para desfrutar da companhia de Adrian tornava-se uma sede ardente.
A emulação, que, em seu excesso, quase assumia [70]as propriedades venenosas da inveja, concedia um ferrão a esses sentimentos. Nesse período, o nome e as proezas de um dos meus concidadãos encheu o mundo com admiração. Relações do que ele tinha realizado, conjecturas sobre as suas ações futuras, eram os tópicos nunca falhantes da hora. Eu não estava com raiva por minha própria causa, mas eu sentia como se os elogios que esse ídolo recebiam eram folhas arrancadas dos louros destinados a Adrian. Mas eu tenho de entrar em alguma consideração desse queridinho da fama – esse favorito do mundo amante de maravilhas.
Lorde Raymond era o único remanescente de uma nobre, mas empobrecida, família. Desde o começo da sua juventude ele tinha considerado a sua linguagem com complacência, e amargamente lamentava a sua falta de riqueza. O seu primeiro desejo era o engradecimento; e os meios que conduziam a esse fim eram considerações secundárias. Altivo, contudo trêmulo a cada demonstração de respeito; ambicioso, mas orgulhoso demais para revelar sua ambição; desejoso de alcançar honra, contudo, um devoto do prazer, - ele entrou na vida. Ele foi encontrado na entrada [71]por algo insulto, real ou imaginário; alguma repulsa, onde ele menos esperava; algum desapontamento, difícil para o seu orgulho suportar. Ele contorcia-se sob uma injúria que ele era incapaz de vingar; e ele deixou a Inglaterra com voto de não retornar até que um bom momento devesse chegar, quanto ela poderia sentir o poder nele que ela agora desprezava.
Ele tornou-se um aventureiro nas guerras gregas. Sua coragem irresponsável e gênio compreensivo trouxeram-lhe a atenção de todos. Ele tornou-se o herói querido desse povo em ascensão. Apenas o seu nascimento estrangeiro, e ele recusava-se a abandonar sua lealdade ao seu país nativo, impedia-lhe de preencher os primeiros cargos público no estado. Mas, embora outros pudessem ranquear mais alto em título e cerimônia, lorde Raymond mantinha uma posição acima e além de tudo isso. Ele liderou os exércitos gregos à vitória; os triunfos deles eram todos seus próprios. Quando ele aparecia, cidades inteiras fluíam sua população em grandes números para o encontrar; novas canções foram adaptadas para os seus ares nacionais, cujos temas eram a glória, o valor e a munificência dele.
[72]Uma trégua foi concluída entre os gregos e turcos. Ao mesmo tempo, lorde Raymond, por alguma chance não procurada, tornou-se o possuidor de uma fortuna imensa na Inglaterra, para onde ele retornou, coroado de glória, para receber o galardão de honra e distinção antes negado às pretensões dele. Seu coração orgulhoso rebelou-se contra essa mudança. No que o despresado Raymond não era o mesmo? Se a aquisição de poder na forma de riqueza causou essa alteração, esse poder eles deveriam sentir como um jugo de ferro. Portanto, o poder era o alvo de todos os seus esforços; engrandecimento era a marca na qual ele sempre atirava. Em ambição aberta ou intriga fechada, o seu fim era o mesmo – alcançar a primeira posição no seu próprio país.
Esse relato me encheu de curiosidade. Os eventos que na sucessão se seguiram ao retorno dele à Inglaterra deram-me sentimentos mais perspicazes. Entre suas outras vantagens, lorde Raymond era supremamente belo; todos o admiravam; ele era o ídolo das mulheres. Ele era cortês, com língua de mel – [73]um adepto nas artes de fascinação. O que esse homem não poderia alcançar no movimentado mundo inglês? Mudança sucedeu mudança; a história inteira não me alcançou; pois Adrian tinha cessado de escrever; e Perdita era uma correspondente lacônica. O rumor seguia de que Adria tinha se tornado – como escrever a palavra fatal – louco: que o lorde Raymond era o favorito da ex-rainha, o esposo destinado da filha dela. Ou melhor, mais, que esse nobre aspirante reviveu a reivindicação da casa de Windsor à coroa, e que, no evento da desordem incurável de Adrian e do casamento dele com a irmã, a testa do ambicioso Raymond poderia ser cercada pelo anel mágico da realeza.
Um semelhante conto enchia a trombeta de fama muito vociferada; um semelhante conto tornou a minha estada mais longa em Viena, longe do amigo da minha juventude, intolerável. Agora eu tenho de cumprir com meu voto; agora eu tenho de me alistar ao lado dele, e ser seu aliado e suportá-lo até a morte. Adeus aos prazeres corteses; à intriga política; ao labirinto de [74]paixão e loucura! Todos saúdem a Inglaterra! Inglaterra nativa, receba teu filho! Tu és a cena de todas as minhas esperanças, o teatro poderoso no qual é encenado o único drama que pode, coração e alma, carregar-me adiante com ele em seu desenvolvimento. Uma voz muito irresistível, um poder onipotente, arrastou-me para cá. Após uma ausência de dois anos, eu desembarquei em suas costas, temeroso de cada observação. Minha primeira visita seria para minha irmã, quem habitava uma pequena cabana, uma parte do presente de Adrian, nas bordas da floresta de Windsor. A partir dela eu deveria aprender a verdade relativa ao nosso protetor; eu deveria ouvir porque ela tinha sido retirada da proteção da princesa Evadne, e ser instruído quanto à influência que esse Raymond que leva a melhor e que se eleva como uma torre exercia sobre as fortunas do meu amigo.
Nunca antes eu tinha estado na vizinhança de Windsor; a fertilidade e beleza da região ao redor agora me impressionavam com admiração, a qual aumentava enquanto eu aproximava-me do [75]bosque antigo. As ruínas de carvalhos majestosos que tinham crescido, florescido e decaído durante o progresso de séculos, marcavam onde os limites da floresta uma vez alcançaram, enquanto as paliçadas estilhaçadas e a vegetação rasteira negligenciada revelavam que esta parte estava foi desertada por plantações mais jovens, as quais deviam o seu nascimento ao começo do século XIX, e agora se erguiam no orgulho da maturidade. A humilde habitação de Perdita situava-se nas bordas da parte mais antiga; antes que ela se estendesse Bishopgate Heath, o qual na direção leste parecia interminável, e era limitado ao oeste por Chapel Wood e o arvoredo de Virginia Water. Por trás, a cabana era ensombreada pelos veneráveis pais da floresta, sob os quais o veado vinha para pastar, e os quais, pela maior partes vazios e decaídos, formavam grupos fantásticos que contrastavam com a beleza regular das árvores mais jovens. Essas, a prole de um período posterior, erguiam-se eretas e pareciam prontas para avançar destemidamente ao tempo vindouro; enquanto aquelas, [76]retardatárias desgastadas, murchas e quebradas, agarravam-se umas às outras, seus fracos galhos suspirando enquanto o vento golpeava-os – uma tripulação batida pelo clima.
Um corrimão leve circundava o jardim da cabana, a qual, de telhado baixo, parecia submeter-se à majestade da natureza, e encolher-se em meio aos restos veneráveis de época esquecida. As flores, as filhas da primavera, adornavam o jardim e caixilhos dela; em meio à humildade havia um ar de elegância que falava do gosto gracioso da habitante. Com um coração batendo eu entrei no cercado; enquanto eu estava de pé na entrada, eu ouvi a voz dela, melodiosa como ela sempre tinha sido, a qual, antes que eu a visse, assegurava-me do bem-estar dela.
Mais um momento, e Perdita apareceu; ele colocou-se diante de mim no florescimento fresco da feminilidade juvenil, diferente de e, contudo, a mesma garota de montanha que eu tinha deixado. Os olhos dela não poderiam ser mais profundos do que eles eram na infância, nem o seu semblante mais expressivo; mas a expressão foi mudada e melhorada; a [77]inteligência assentava-se na fronte dela; quando ela falava, a face dela era embelezada pela sensibilidade mais suave, e a sua voz baixa, modulada, parecia sintonizada afinada pelo amor. A pessoa dela estava formada nas proporções mais femininas; ela não era alta, mas a vida dela na montanha tinha dado liberdade aos movimentos dela, de modo que o passo leve dela escassamente tornou a passada dela ouvida enquanto ela deslocava-se através do salão para me encontrar. Quando nós tínhamos nos separado, eu apertei-a no meu peito com entusiasmo desenfreado; novamente nos encontramos e novos sentimentos foram despertados; quando um contemplou o outro, a infância passou, como atores completamente crescidos nessa cena inconstante. A pausa foi por apenas um momento; a enchente de associação e sentimento natural, as quais tinham sido verificadas, novamente se apressaram em maré cheia sobre nossos corações, e, com a emoção mais tenra, nós rapidamente travamos um ao outro em abraço.
Passada essa irrupção de sentimento apaixonado, com pensamentos acalmados, nós sentamos juntos, conversando sobre o passado e o presente. Eu aludi à frieza das cartas dela; mas os poucos minutos que nós tínhamos despendido [78]juntos explicaram suficientemente a origem disso. Novos sentimentos tinham surgido no interior dela, os quais ela era incapaz expressar na escrita para alguém que ela tinha conhecido apenas na infância; mas nós vimos um ao outro novamente, e a nossa intimidade foi renovada como se nada tivesse intervido para a restringir. Eu detalhei os incidentes de minha estada no estrangeiro e, em seguida, questionei a ela quanto às mudanças que tinham ocorrido em casa, as causas a ausência de Adrian e a vida reclusa dela.
As lágrimas que impregnavam os olhos da minha irmã, quando eu mencionei o nosso amigo, e a sua cor intensificada parecerem atestar a verdade dos relatos que tinham me alcançado. Mas a sua importância era terrível demais para eu conceder crédito instantâneo à minha suspeita. Havia, de fato, anarquia no universo sublime dos pensamentos de Adrian, a loucura dispersou as legiões bem equipadas, e ele não era mais senhor da sua própria alma? Amigo amado, este mundo doente não era clima para o seu espírito gentil; você entregou a sua governança à humanidade falsa, a qual o despiu de [79]suas folhas antes do inverno, e desnudou sua vida trêmula à ministração malignas dos ventos mais difíceis. Aqueles olhos gentis, aqueles “canais da alma” perderam o seu significado, ou eles apenas revelam em seu olhar o conto horrível das suas aberrações? Aquela voz não mais “discursa música excelente?” Horrível, muito horrível! Eu velo meus olhos diante do terror da mudança, e lágrimas jorrando testemunham minha simpatia por essa ruína inimaginável.
Em obediência à minha requisição, Perdita detalhou as circunstâncias melancólicas que levaram a esse evento.
A mente franca e sem malícia de Adrian, dotada, como ela era, de toda graça natural, dotada com poderes transcendentes do intelecto, não manchada pela sombra de defeito (a menos que a sua independência de pensamento fosse construída sobre um), era devotada, até como uma vítima para sacrifício, ao seu amor por Evadne. Ele confiou à guarda dela os tesouros da alma dele, suas aspirações por excelência, e os seus planos para o [80]progresso da humanidade. Conforme a maturidade surgia sobre ele, os seus esquemas e teorias, longe de serem mudados por motivos pessoais e prudenciais, adquiriram nova força a partir dos poderes que ele sentia surgirem dentro dele; e o amor dele por Evadne tornou-se profundamente enraizado, como a cada dia ele tornava-se mais certo de que o caminho que ele perseguia era cheio de dificuldade, e que e ele tem de buscar a sua recompensa, não no aplauso ou na gratidão das suas criaturas companheiras, dificilmente no sucesso dos seus planos, mas na aprovação do seu próprio coração, e no amor e simpatia dela, os quais deviam aliviar cada labor e recompensar cada sacrifício.
Em solidão, e através de muitas errâncias longe dos covis dos homens, ele amadureceu suas visões para a reforma do governo inglês, e para o progresso do povo. Teria sido bom se ele tivesse ocultado os seus sentimentos, até que ele tivesse alcançado a posse do pode que asseguraria o desenvolvimento prático deles. Mas ele era impaciente dos [81]anos que tinham de interferir, ele era franco de coração e destemido. Ele não apenas deu uma negação breve aos esquemas da mãe dele, mas publicizou sua intenção de usar a sua influência para diminuir o poder da aristocracia, para uma efetuar uma maior equalização de riqueza e privilégio, e para introduzir um sistema perfeito de governo republicano na Inglaterra. Inicialmente a mãe dele tratou suas teorias como delírios selvagens da inexperiência. Mas elas estavam tão sistematicamente organizadas, e os seus argumentos tão bem suportados, que, embora ainda na aparência incrédulas, ela começou a temê-lo. Ela tentou raciocinar com ele e, descobrindo-o inflexível, aprendeu a odiá-lo.
Estranho dizer, esse sentimento era infeccioso. O entusiasmo dele pelo bem que não existia; o seu desdém pela sacralidade da autoridade; o seu ardor e imprudência eram todos antipodas da rotina usual da vida; o mundano temia-o; o jovem e inexperiente não entendiam a severidade elevada das suas visões morais, e desgostavam dele como um ser diferente [82]deles mesmos. Evadne entrava apenas friamente em seus sistemas. Ela pensava que ele fazia bem em afirmar sua própria vontade, mas ela desejava que a vontade tivesse sido mais inteligível para a multidão. Ela não tinha nada do espírito de um mártir, e não se inclinava para partilhar a vergonha e derrota de um patriota caído. Ela estava ciente da pureza dos seus motivos, da generosidade das suas disposições, do seu afeto verdadeiro e ardente por ela; e ela entretinha uma grande afeição por ele. Ele retribuía a esse espírito de gentileza com a gratidão mais querida, e tornou-a a tesouraria de todas as esperanças dele.
Nesse momento, lorde Raymond retornou da Grécia. Nenhum par de pessoas poderia ser mais oposto do que ele e Adrian. Com todas as incongruências do seu caráter, Raymond era enfaticamente um homem do mundo. Suas paixões eram violentas; como essas frequentemente obtinham domínio sobre ele, nem sempre ele conseguia conduzir-se para a linha óbvia do interesse próprio, mas, pelo menos, a autogratificação era o objeto [83]preponderante com ele. Ele olhava para a estrutura da sociedade como apenas uma parte do maquinário que suportava a teia sobre a qual a sua vida estava traçada. A terra estava espalhada como um estrada principal para ele, os céus construídos como uma cobertura para ele.
Adrian sentia que ele fazia parte de um grande todo. Ele devia afinidade não apenas à humanidade, mas toda a natureza era semelhante a ele; as montanhas e o céu eram seus amigos; os ventos do céu e a prole da terra, seus companheiros de brincadeira; enquanto ele, o foco único desse espelho poderoso, sentia sua vida misturada com o universo da existência. A alma dele era simpatia e dedicada à adoração de beleza e excelência. Agora Adrian e Raymond entraram em contato, e um espírito de aversão surgiu entre eles. Adrian desprezava as visões estreitas do político, e Raymond considerava com desdém supremo as visões benevolentes do filantropo.
Com a chegada de Raymond formou-se a tempestade que devastou com um golpe grupo os jardins de deleite e caminhos abrigados que [84]Adrian imaginava que ele tinha assegurado para si mesmo, como um refúgio da derrota e contumélia. Raymond, o libertador da Grécia, o soldado gracioso, quem portava em seu semblante um matiz de tudo que, peculiar ao seu clima nativo, Evadne estimava como mais querido – Raymond era amado por Evadne. Subjugada por essas novas sensações, ela não parou para as examinar, ou para regular sua conduta por quaisquer sentimentos exceto o tirânico que subitamente usurpou o império do coração dela. Ela rendeu-se à sua influência, e a consequência natural demais em uma mente não sintonizada com emoções suaves foi que as atenções de Adrian tornaram-se desagradáveis para ela. Ela tornou-se caprichosa; a conduta gentil dela para com ele foi trocada por aspereza e repulsiva frieza. Quando ela percebia o apelo selvagem e patético do seu semblante expressivo, ela abrandaria e assumia sua gentileza antiga. Mas essas flutuações sacudiam às suas profundezas a alma do jovem sensível; ele não mais considerava o mundo sujeito a ele, porque ele possuía o amor [85]de Evadne; ele sentia em cada nervo que as tempestades terríveis do universo mental estavam prestes a atacar o seu frágil ser, o qual tremia diante da expectativa do seu advento.
Perdita, quem então residia com Evadne, viu a tortura que Adrian suportou. Ela amava-o com um gentil irmão mais velho; uma relação para a guiar, proteger e instruir, sem a tirania tão frequente da autoridade parental. Ela adorava as virtudes dele e, com desdém e indignação misturados, ela via Evadne acumular pesar triste sobre a cabeça ele, em prol de alguém quem dificilmente a distinguia. Em seu desespero solitário Adrian frequentemente procuraria minha irmã e, e termos encobertos, expressaria a sua miséria, enquanto fortitude e agonia dividiam o trono da mente dele. Em breve, ai de mim! Um deveria vencer. A ira não fazia parte de sua emoção. Com quem ele deveria irar-se? Não com Raymond, quem era inconsciente da miséria que ocasionava; não com Evadne, pois a alma dela chorava lágrimas de sangue – pobre garota equivocada, escrava, não tirana, ela era, e em meio [86]à sua própria angústia, ele entristecia-se pelo futuro destino dela. Uma vez, um escrito dele caiu nas mãos de Perdita; ele estava manchado de lágrimas – bem poderia qualquer o borrar com o semelhante -
“A vida” – ele começou dessa maneira – “não é a coisa que os escritores de romance descrevem; atravessando as medidas de uma dança e, após várias evoluções, chegando a uma conclusão, quando os dançarinos podem sentar e repousar. Enquanto houver vida há ação e mudança. Nós prosseguimos, cada pensamento vinculado àquele que foi seu pai, cada ato a um ato anterior. Nenhuma alegria ou sofrimento morre estéril de descendência, a qual, para sempre gerando e gerando, entrelaça a cadeia que forma a nossa vida:
Um dia chama outro dia
e assim chama, e acorrenta
choro a choro, e pena a pena.
Desapontamento verdadeiro é a divindade guardiã da vida humana; ele senta-se à entrada do tempo não nascido e ordena os eventos conforme eles aparecem. Uma vez meu coração sentava-se levemente em meu peito; [87]toda beleza do mundo era duplamente bela, irradiada pela luz do sol a partir da minha própria alma. Oh, por que, o amor e a ruína estão para sempre juntos em nosso sonho mortal? De maneira que, quando nós fazemos o nosso coração um covil para aquela besta aparentemente gentil, a sua companheira entra com ela e, sem piedade, devasta o que poderia ter sido um lar e um abrigo.”
Gradualmente a saúde dele foi sacudida por sua miséria e, em seguida, o seu intelecto rendeu-se à mesma tirania. Seus modos tornaram-se selvagens: algumas vezes, ele tornava-se feroz, algumas vezes, absorvido em melancolia sem fala. Subitamente, Evadne trocou Londres por Páris; ele seguiu-a e alcançou-a quando a embarcação estava prestes a zarpar; ninguém soube o que se passou entre ele, mas Perdita nunca mais o viu desde então; ele vivia em isolamento, ninguém sabia onde, auxiliado por aquelas pessoas que a mãe dele selecionou para esse propósito.
ORIGINAL:
SHELLEY, M. W. The Last Man. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1826. p.62-87. Disponível em:<https://archive.org/details/lastman01shel/page/62/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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