Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XIX O Mundo do Não nascido

 Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[141]XIX O Mundo do Não nascido


Os erewhonianos dizem que nós somos arrastados para trás através da vida, ou, novamente, que nós vamos adiante para o futuro como para dentro de um corredor escuro. O tempo caminha ao nosso lado e joga venezianas para trás enquanto nós avançamos; mas a luz dada dessa maneira frequentemente nos ofusca, e aprofunda a escuridão que está à nossa frente. Nós podemos ver apenas um pouco por vez, e prestar atenção nesse pouco menos do que na nossa apreensão do que nós deveremos ver em seguida; sempre encarando curiosamente, através do olhar penetrante do presente, dentro da escuridão do futuro, nós pressentimos as linhas principais daquilo que está diante de nós, através de luzes fracamente refletidas a partir de espelhos foscos que ficam atrás, e tropeçamos adiante enquanto nós podemos, até que o alçapão se abre sob nós e nós desaparecemos.

Em outras ocasiões, eles dizem que o futuro e o passado são como um panorama sobre dois rolos; aquilo que está no rolo do futuro desembrulha-se para o rolo do passado; nós não podemos o apressar, e nós não podemos o obstar; nós temos de ver tudo o que é desdobrado para nós, quer seja bom, quer seja mal; e o que nós vimos uma vez, nós não podemos ver novamente. Ele está sempre se desenrolando e sendo enrolado; nós o agarramos de passagem por um momento, e chamamos isso de presente; nossos sentidos confusos recolhem a impressão que eles podem, e nós adivinhamos o que está vindo pelo teor daquilo que nós vimos. A mesma mão pintou a pintura toda, e os vários pequenos rios, bosques, planícies, montanhas, cidades e pessoas, amor, sofrimento e morte; contudo, o interesse nunca enfraquece, nós procuramos esperançosamente por alguma boa fortuna, ou temerosamente, com medo de que os nossos próprios rostos sejam mostrados para nós como figurando em alguma coisa terrível. Quando a cena é passada, nós pensamos que a conhecemos, embora haja tanto para ver, e tão pouco tempo para ver, que a nossa ideia de conhecimento com respeito ao passado é, pela maior parte, pobremente fundamentada; nem nós nos importamos muito com ela, salvo na medida que ela pode afetar o futuro, no qual o nosso interesse principalmente jaz.

Os erewhonianos dizem que é apenas por acaso que a terra e as estrelas e todos os mundos celestes começaram a rolar do leste para o oeste, e não do oeste para o leste, e de maneira similar [142]eles dizem que o homem é arrastado através da vida com o seu rosto para o passado em vez de para o futuro. Pois o futuro está lá tanto quanto o passado, apenas que nós não podemos o ver. Não está nos lombos do passado, e o passado não deve se alterar antes que o futuro possa fazê-lo?

Algumas vezes, novamente, eles dizem que houve uma raça de homens, testada sobre a terra uma vez, quem conheciam o futuro melhor do que o passado, mas que eles morriam em doze meses a partir da miséria que o conhecimento deles causava-lhes; e se qualquer um devesse nascer presciente demais agora, ele deveria ser eliminado por seleção natural, antes que ele tivesse tempo para transmitir uma faculdade tão destruidora da paz para os seus descedentes.

Estranho destino para o homem! Ele deve perecer se ele obtiver aquilo que ele deve perecer se ele não se esforçar. Se ele não se esforçar por isso, ele não é melhor do que os brutos, se ele obtiver isso, ele é mais miserável do que os demônios.

Tendo avançado com dificuldade através de tantos capítulos quanto os acima, finalmente eu cheguei aos não nascidos mesmos, e descobri que eles eram considerados ser almas puras e simples, não tendo corpos reais, mas vivendo em um tipo de existência gasosa, contudo, mais ou menos antropomórfica, como aquela de um fantasma; dessa forma, eles não tem nem carne, nem sangue, nem calor. Mesmo assim, supõe-se que eles tenham habitações locais e cidades nas quais eles habitem, embora essas sejam tão insubstanciais quanto os habitantes delas; até se considera que eles comam e bebam alguma fina substância ambrosíaca, e geralmente serem capazes de fazer seja o que for que a humanidade pode fazer, apenas segundo uma visionária forma fantasmagórica, como em um sonho. Por outro lado, enquanto eles permanecerem onde estão, eles nunca morrem – a única forma de morte no mundo não nascido sendo o deixar por si mesmo. Acredita-se que eles sejam extremamente numerosos, muito mais do que a humanidade. Eles chegam de planetas desconhecidos, completamente crescidos, em grandes quantidades por vez; mas eles apenas podem deixar o mundo não nascido dando os passos necessários para a sua chegada aqui – o que é, de fato, por suicídio.

[143]Eles devem ter sido um povo excessivamente feliz, pois eles não têm extremos de boa ou má fortuna; nunca se casando, mas vivendo em um estado muito semelhante àquele fabulado pelos poetas como a condição primitiva do gênero humano. A despeito disso, contudo, eles estão incessantemente reclamando; eles sabem que nós neste mundo temos corpos, e, de fato, eles conhecem todas as outras coisas sobre nós, pois eles movem-se entre nós para onde quer que eles desejarem, e podem ler os nossos pensamentos, assim como analisar as nossas ações à vontade. Alguém poderia pensar que isso deveria ser o suficiente para eles; e de fato a maior parte está ciente do risco desesperado que eles correrão ao satisfazerem-se naquele corpo com “movimento quente sensível” que eles desejam tanto; mesmo assim, há alguns para quem o tédio de uma existência desencarnada é tão intolerável que eles tentarão qualquer coisa por uma mudança; assim eles resolveram partir. As condições que eles têm de aceitar são tão incertas que nenhum, exceto o mais tolo dos não nascidos consentirão com elas; e é a partir desses, e desses apenas que as nossas próprias fileiras são recrutadas.

Quando eles finalmente tomaram a decisão de partir, eles devem comparecer diante do magistrado da cidade mais próxima, e assinar uma declaração jurada do seu desejo de abandonarem a sua própria existência. Tendo feito isso, o magistrado lê para eles as condições que eles têm de aceitar, e as quais são tão longas que eu apenas consigo extrair alguns dos pontos principais, os quais são principalmente como se segue:

Primeiro, eles devem tomar uma poção que destruirá sua memória e senso de identidade; eles precisam entrar no mundo desamparados, e sem uma vontade própria; eles devem sortear as suas disposições antes que eles sigam, e levá-las, tais como elas são, para melhor ou pior – nem é permitida a eles nenhuma escolha na questão do corpo que eles desejam tanto; eles são simplesmente alocados por acaso, e sem apelo, para duas pessoas a quem é sua atividade e incomodar até que elas o adotem. Quem essas são, se ricas ou pobres, amáveis ou rudes, [144]saudáveis ou doentes, não há conhecimento; eles têm, de fato, de confiarem a si mesmos, por muitos anos, ao cuidado daqueles da boa constituição e boa mente dos quais eles não têm nenhum tipo de garantia.

É curioso ler as preleções que as cabeças mais sábias dão àqueles que estão meditando uma mudança. Eles falam com eles como nós falamos com um perdulário, e com quase tanto sucesso.

Ser nascido,” eles dizem, “é um crime – é um crime capital, para o qual a sentença pode ser executada a qualquer momento após o cometimento da ofensa. Pode acontecer que você viva por aproximadamente setenta ou oitenta anos, mas o que é isso comparado com a eternidade da qual você agora desfruta? E mesmo que a sentença fosse comutada, e fosse permitido a você viver para sempre, com o tempo você tornar-se-ia tão cansado da vida que a execução seria a maior misericórdia para você.”

Considere o risco infinito; ser nascido de pais miseráveis e treinados em vício! Ser nascido de pais bobos e treinados para irrealidades. De pais quem consideram você como um tipo de bem móvel ou propriedade, pertencendo mais a eles do que a si mesmo! Novamente, você pode atrair pais completamente insensíveis, quem nunca serão capazes de entender você, e que farão o seu melhor para contrariar você (como uma galinha quando ela chocou um patinho), e então chamar-te-ão de ingrato porque você não os ama; ou, novamente, você pode atrair pais que olham para você como uma coisa a ser intimidada enquanto ainda é jovem, com medo de que deva lhes dar problema depois, tendo desejos e sentimentos próprios.”

Na vida posterior, quando você tiver sido permitido a passar-se por um membro completo do mundo, você mesmo se tornará passível às importunações do não nascido – e, em consequência, você pode ser levado a uma vida muito feliz! Pois nós solicitamos tão fortemente que apenas poucos – nem esses os melhores – podem recusar-nos; e contudo, não recusar é exatamente o mesmo que entrar em parceria com uma meia-dúzia de pessoas diferentes sobre [145]quem ninguém pode conhecer absolutamente nada antecipadamente – nem mesmo se alguém está entrando em parceria com homens ou mulheres, nem com quantos de qualquer um. Não se iluda pensando que você será mais sábio do que os seus pais. Você pode estar em uma idade mais avançada do que aqueles a quem você incomodou, mas, a menos que você seja um dos grandes, você ainda estará uma idade atrás daqueles que, por sua vez, importunarão você.”

Imagine o que deve ser ter um não nascido aquartelado sobre você, quem é de um temperamento e uma disposição inteiramente diferentes dos seus; ou melhor, uma meia-dúzia desses, quem não amarão você, embora você tenha atarefado a si mesmo de mil maneiras para os prover com conforto e bem-estar, - quem esquecerão de todo o seu autossacrifício, e de quem você nunca poderá estar certo de que eles não estão portando um rancor contra você por erros de julgamento nos quais você pode ter caído, embora você tenha esperado que aquilo há muito tenha sido expiado. Ingratidão tal como essa não é incomum, contudo, imagine como deve ser suportar! É difícil para o patinho ter sido chocado por uma galinha, mas, também não é difícil para a galinha ter chocado o patinho?”

Considere novamente, nós suplicamos a você, não pelo nosso bem, mas pelo seu próprio. O seu caráter inicial você deve tirar na sorte; mas, seja o que for, ele apenas pode chegar a um desenvolvimento toleravelmente exitoso após longo treinamento; lembre-se de que sobre esse treinamento você não terá controle. É possível, e até provável, que, seja o que for que você possa obter na vida posterior que seja de prazer ou serviços reais para você, terá de ser conquistado a despeito de, em vez de pela ajuda de, aqueles a quem você agora está prestes a incomodar, e que você apenas conquistará a sua liberdade após anos de um esforço doloroso, no qual será difícil dizer se você sofreu a maior parte da injúria ou infligiu-a.”

Lembre também que, se você entrar no mundo, você terá livre-arbítrio; que você será obrigado a tê-lo; que não há fuga disso; que você ficará acorrentado a isso durante a sua vida inteira, e deverá, em cada ocasião, fazer [146]aquilo que, no todo, parece o melhor para você em um dado momento, não importa se você está certo ou errado em o escolher. A sua mente será uma balança para considerações, e a sua ação ficará com a bandeja mais pesada. O que deverá ocorrer dependerá de para qual tipo de bandeja você pode ter atraído ao nascer, do viés que elas terão obtido pelo uso e do peso das considerações imediatas. Se as bandejas forem boas para se começar, e se elas não tiverem sido escandalosamente adulteradas na infância, e se as considerações nas quais você entrar forem médias, você pode dar-se bem; mas há ‘ses’ demais nisso, e com a falha de qualquer um deles a sua miséria está assegurada. Reflita sobre isso, e lembre-se de que deva a doença chegar sobre você, você terá a si mesmo para agradecer, pois é a sua própria escolha ter nascido, e não há compulsão na questão.”

Não que nós neguemos a existência de prazeres em meio ao gênero humano; há uma certa mostra de fases súbitas de contentamento que até podem equivaler à felicidade muito considerável; mas observe como elas sãos distribuídas através da vida do homem, pertencendo, todas as mais vivas delas, para a parte inicial e umas poucas, de fato, para a final. Pode haver algum prazer que valha a pena adquirir com as misérias de uma idade decrépita? Se você for bom, forte e belo, de fato, você terá boa fortuna aos vinte anos, mas quanto disso será deixado aos sessenta? Pois você deve viver sobre o seu capital; não há investimento dos seus poderes de modo que você possa obter uma pequena anuidade de vida para sempre; você deve comer o seu principal pedaço por pedaço; e ser torturado ao vê-lo tornar-se cada vez mais menor e menor, mesmo se acontecer de você escapar sendo rudemente roubado dele por crime ou acidente.”

Lembre, também, que ainda nunca houve um homem de quarenta que não retornaria para o mundo do não nascido se ele pudesse fazê-lo com decência e honra. Estando no mundo ele desejará, como uma regra geral, permanecer até que ele seja forçado a sair; mas você pensa que ele consentiria em ser nascido [147]novamente, e reviver a vida dele, se ele tivesse a oferta para o fazer? Não pense isso. Se ele pudesse tanto quanto alterar o passado de maneira que ele nunca tivesse vindo a ser de qualquer maneira, você não pensa que ele faria isso de bom grado?”

O que foi aquilo que um dos seus próprios poetas quis dizer se não isto, quando ele chorou em consequência do dia no qual ele nasceu, e a noite na qual foi dito que há um menino concebido? ‘Pois agora,’ ele diz, ‘eu deveria ter deitado parado e ficado quieto, eu deveria ter dormido; então tivesse eu estado em descanso com reis e conselheiros da terra, os quais constroem locais desolados para si mesmos; ou com príncipes que tinham ouro, quem enchiam suas casas com prata; ou como um oculto nascimento prematuro, eu não tinha sido; como infantes que nunca viram a luz. Ali o perverso cessou de perturbar, e ali o cansado está em paz.’ Esteja muito certo de que ter nascido às vezes carrega essa punição para todos os homens; mas, como eles podem suplicar por piedade, ou reclamar de qualquer prejuízo que pode acontecer a eles, tendo entrado de olhos abertos na armadilha?”

Mais uma palavra e nós terminamos. Se alguma fraca lembrança, como de um sonho, voar através do seu cérebro em algum momento confuso, e você deva sentir que a poção que deve ser dada a você não deve ter funcionado, e a memória desta existência que você está deixando tentar em vão retornar; nós dizemos em um semelhante momento, quando você se agarra ao sonho mas ele evita o seu aperto, e você observa, como Orfeu observou Eurídice, deslizando de volta para o reino de crepúsculo, voe-voe – se você puder lembrar-se do conselho – para o porto do seu dever presente e imediato, abrigando-se incessantemente no trabalho que você tem em mãos. Talvez desse tanto você possa lembrar-se; e isso, se você imprimi-lo profundamente sobre cada faculdade sua, será o mais provável de trazer você segura e honoravelmente para casa através dos testes que estão diante de você.”1

[148]Essa é a forma através da qual eles raciocinam com aqueles que estariam para os deixar, mas é raramente que eles fazem tanto bem, pois ninguém, exceto o inquieto e irracional alguma vez pensa em nascer, e aqueles que são suficientemente tolos para pensar nisso, geralmente, são suficientemente todos para o fazer. Portanto, descobrindo que eles não pode fazer mais, os amigos seguem chorando para o tribunal do magistrado-chefe, onde aquele quem deseja ser nascido declara solene e abertamente que ele aceita as condições anexadas à sua decisão. Nisso, ele é presenteado com uma poção, a qual imediatamente destrói sua memória e seu senso de identidade, e dissipa o fino cortiço gasoso que ele tem por habitação; ele torna-se um princípio vital nu, não para ser percebido por sentidos humanos, não para ser apreciado em qualquer teste químico. Ele tem apenas um instinto, o qual é que ele deve ir para um tal e tal lugar, onde ele encontrará duas pessoas a quem ele deve importunar até que elas consintam em o aceitar; mas, se ele deve encontrar essas pessoas entre a raça de Chowbok ou entre os erewhonianos mesmos, não é para ele escolher.


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 141-148. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/141/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[147]O mito acima aludido existe em Erewhon com nomes mudados e modificações consideráveis. Eu tomei a liberdade de me referir à história como familiar para nós mesmos.

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