Erewhon: ou, Além da Cordilheira
Por Samuel Butler
[175]XXIII O Livro das Máquinas
O escritor começa: “Houve um tempo quando toda a terra estava, segundo toda aparência, completamente destituída tanto de vida animal quanto de vegetal, e quando, de acordo com a opinião dos nossos melhores filósofos, ela era simplesmente uma bola quente com uma crosta gradualmente esfriando. Agora, se um ser humano tivesse existido enquanto a terra estava nesse estado e tivesse sido permitido a vê-la como se fosse algum outro mundo no qual ele não tivesse interesse, e se, ao mesmo tempo, ele fosse inteiramente ignorante de toda ciência física, ele não teria declarado impossível que criaturas possuidoras de qualquer coisa como a consciência deveriam ser evoluídas a partir da brasa aparente que ele estava contemplando? Ele não teria negado que ela contivesse qualquer potencialidade de consciência? Contudo, no curso do tempo, a consciência surgiu. Portanto, não é possível que possa haver ainda novos canais escavados para a consciência, embora nós não possamos detectar nenhum sinal deles no presente?”
“Novamente. Consciência, em qualquer coisa similar à acepção presente do termo, tendo sido uma vez uma coisa nova – uma coisa, até onde nós podemos ver, subsequente mesmo a um centro individual de ação e a um sistema reprodutivo (o qual nós vemos existindo em plantas sem consciência aparente) – porque não pode surgir ali alguma nova fase de mente que deverá ser tão diferente de todas as fases presentemente conhecidas quanto a mente de animais é daquela de vegetais?”
“Seria absurdo tentar definir um semelhante estado mental (ou seja do que for que ele possa ser chamado), na medida que ele deve ser alguma coisa tão alheia para um homem que a experiência dele não pode lhe fornecer ajuda para conhecer a natureza dela; mas certamente, quando nós refletimos sobre as múltiplas fases de vida e consciência que já evoluíram, seria precipitado dizer que nenhuma outra pode ser desenvolvida, e que a vida animal é o fim do todas as coisas. Houve um tempo quando o fogo foi o fim de todas as coisas: outro quando rochas e água foram.”
O escritor, após se prolongar sobre o acima por várias páginas, prosseguiu para inquirir se traços da aproximação [176]de uma nova forma de vida poderiam ser percebidos no presente; se nós poderíamos perceber quaisquer habitações se preparando, as quais, em uma futuridade remota, poderiam ser adaptados para ela; se, de fato, a célula primordial de um semelhante tipo poderia ser detectada agora sobre a terra. No curso do seu trabalho ele respondeu essa questão no afirmativo e apontou para as máquinas superiores.
“Não há segurança” - para citar suas próprias palavras – “contra o desenvolvimento último de consciência maquínica, no fato das máquinas possuindo um pouco de consciência agora. Um molusco não tem muita consciência. Reflita sobre o avanço extraordinário que as máquinas têm realizado nos últimos poucos séculos, e note quão lentamente os reinos animais e vegetais estão avançando. As máquinas mais altamente organizadas são criaturas nem tanto de ontem, quanto dos últimos cinco minutos, por assim dizer, em comparação com o tempo passado. Assuma, pelo bem do argumento, que seres conscientes existiram por uns vinte milhões de anos: veja que passos largos as máquinas não deram nos últimos milhares de anos! Não pode o mundo durar por mais vinte milhões? Se assim, o que elas não se tornarão? Não é mais seguro apertar o dano no broto e impedir-lhes progresso adicional?”
“Mas quem pode dizer que o motor a vapor não tem um tipo de consciência? Onde a consciência começa e onde termina? Quem pode traçar a linha? Quem pode traçar qualquer linha? Não está tudo entrelaçado com tudo? Não está o maquinário vinculado com a vida animal em uma variedade infinita de maneiras? A casca do ovo de uma galinha é formada por uma louça delicada, tanto quanto o oveiro para suportar a casca: ambos são fases da mesma função; a galinha produz a casca em seu interior, mas isso é pura cerâmica. Ela constrói o ninho dela fora de si mesma pelo bem da conveniência, mas o ninho não é mais uma máquina do que a casca do ovo é. Uma ‘máquina’ é apenas um ‘dispositivo.’”
[177]Em seguida, retornando à consciência e tentando detectar as suas manifestações mais primitivas, o escritor continuou:
“Há um tipo de planta que come comida orgânica com as suas flores: quando uma mosca se estabelece sobre a floração, as pétalas fecham-se sobre ela e seguram-na firme até que a planta tenha absorvido o inseto no seu sistema; mas elas não se fecharão sobre nada, exceto sobre o que é bom para comer; elas não notarão uma gota de chuva ou um pedaço de pau. Curioso! Que uma coisa tão inconsciente deva ter um olho tão aguçado para o seu próprio interesse. Se isso é inconsciência, onde está o uso da consciência?”
“Nós deveríamos dizer que a planta não sabe o que está fazendo meramente porque ela não tem olhos, nem ouvidos, ou cérebros? Se nós dissermos que ela age mecanicamente, e apenas mecanicamente, nós não deveríamos ser forçados a admitir que diversas outras e aparentemente muito deliberadas ações também são mecânicas? Se parece para nós que a planta mata e come uma mosca mecanicamente, não pode parecer para a planta que um homem tenha de matar e comer uma ovelha mecanicamente?”
“Mas pode ser dito que a planta é vazia de razão, porque o crescimento de uma planta é um crescimento involuntário. Dados terra, ar e temperatura devida, a planta tem de crescer: ela é semelhante a um relógio, o qual, uma vez sendo dando corda a ele, seguirá até que ele seja parado ou perca a força: é semelhante ao vento soprando as velas de um barco – o barco tem de seguir quando o vento sopra. Mas, pode um menino saudável evitar de crescer se ele tem boa comida e bebida e roupa? Pode qualquer coisa evitar de seguir enquanto ela for soprada, ou seguir depois de ter perdido a força? Não há um processo de sopragem em todo lugar?”
“Mesmo uma batata1 em um porão escuro tem um uma certa astúcia inferior que lhe serve em proveito excelente. [178]Ela sabe perfeitamente bem o que ela quer e como o obter. Ela vê a luz vindo da janela do porão e envia seus brotos arrastando-se diretamente para lá: eles se arrastarão ao longo do piso, parede acima e para fora da janela do porão; se houver um pouco de terra em algum lugar da jornada ela a encontrará e usará para os seus próprios fins. Que deliberação ela pode exercer sobre a matéria das suas raízes quando ela está plantada na terra, é uma coisa desconhecida para nós, mas nós podermos imaginá-la dizendo, ‘Eu terei um tubérculo aqui e um tubérculo alí, e eu sugarei qualquer vantagem que eu possa do meu ambiente. Este vizinho eu ensombrarei, e aquele eu minarei; e o que eu posso fazer deverá ser o limite do que eu desejo fazer. Aquele que é mais forte e está melhor posicionado do que eu deverá me dominar, e aquele que é mais eu o dominarei.’”
“A batata diz essas coisas ao fazê-las, a qual é a melhor das linguagens. O que é consciência se isso não é consciência? Nós consideramos difícil simpatizar com as emoções de uma batata; o mesmo nós fazemos com aquelas de uma ostra. Nenhuma dessas coisas faz barulho ao ser cozida ou aberta, e o barulho apela para nós mais fortemente do que qualquer outra coisa, porque nós fazemos tanto dele sobre os nossos próprios sofrimentos. Portanto, uma vez que elas não nos incomodam através de qualquer expressão de dor, nós podemos chamá-las de sem emoção; e assim, qua humanidade elas são, mas humanidade não é todo mundo.”
“Se for insistido que a ação da batata é apenas química e mecânica, e que ela se deve a efeitos químicos e mecânicos da luz e do calor, a resposta pareceria jazer em uma investigação de se toda sensação não é química e mecânica em sua operação? De se aquelas coisas que nós consideramos mais puramente espirituais nada são senão perturbações de equilíbrio em uma série infinita de alavancas, começando com aquelas que são pequenas demais para detecção microscópica, e subindo até o braço humano e aqueles utensílios dos quais ele faz uso? De se não há uma ação molecular de pensamento, a partir da qual uma teoria dinâmica [179]das paixões deveria ser dedutível? De se, estritamente falando, nós não deveríamos perguntar de que tipo de alavancas um homem é constituído em vez de qual é o seu temperamento? Como elas estão balanceadas? Quanto de tal e tal se requererá para pesá-las para baixo de maneira a fazê-lo agir assim e assim?”
O autor prosseguiu para dizer que ele antecipava uma época quando poderia ser possível, examinando um único fio de cabelo com um microscópio poderoso, saber se o seu proprietário poderia ser insultado com impunidade. Ele então se tornou mais e mais obscuro, de maneira que eu fui obrigado a desistir de toda tentativa de tradução; nem eu acompanhei o significado do argumento dele. Chegando à próxima parte do texto, a qual eu pude interpretar, eu descobri que ele tinha mudado o seu fundamento.
“Qualquer,” ele prossegue, “grande quantidade de uma ação que tenha sido chamada de puramente mecânica e inconsciente tem de ser admitida conter mais elementos de consciência do que até agora tem sido admitido (e, nesse caso, germes de consciência serão encontrados em muitas ações das máquinas superiores) – ou (assumindo-se a teoria da evolução, mas, ao mesmo tempo, negando-se consciência à ação vegetal e cristalina) a raça do homem descendeu a partir de coisas que, de qualquer maneira, tinham consciência. Nesse caso, não há improbabilidade a priori na descendência de máquinas conscientes (e mais do que conscientes) a partir daquelas que agora existem, exceto aquela que é sugerida para ausência aparente de qualquer coisa semelhante a um sistema reprodutivo no reino mecânico. Contudo, essa ausência é apenas aparente, como eu logo deverei revelar.”
“Não permita que eu seja mal-entendido como vivendo em medo de qualquer máquina efetivamente existente; provavelmente não há nenhuma máquina conhecida que seja mais do que um protótipo de vida mecânica futura. As máquinas presentes estão para o futuro como os sáurios primitivos para o homem. A maior delas provavelmente diminuirá muito em tamanho. Alguns dos vertebrados mais inferiores alcançaram um volume muito maior do que o descendido para os seus representantes mais altamente organizados, e, [180]de uma maneira semelhante, uma diminuição similar no tamanho das máquinas frequentemente tem acompanhado o seu desenvolvimento e progresso.”
“Tome-se o relógio portátil, por exemplo; examine a sua bela estrutura; observe o jogo inteligente dos membros minúsculos que o compõem: contudo, essa pequena criatura é apenas um desenvolvimento dos relógios pesados que a procederam; ela não é uma deterioração a partir deles. Pode chegar um dia quando os relógios pesados, os quais, certamente, no tempo presente, não estão diminuindo em tamanho, serão suplantados devido ao uso universal de relógios portáteis, caso no qual ele se tornará tão extinto quanto ictiossauros, enquanto o relógio pesado, cuja tendência tem sido por alguns anos diminuir em tamanho em vez do contrário, permanecerá o único tipo existente de uma raça extinta.”
“Mas retornando ao argumento, eu repetiria que não temo nenhuma das máquinas existentes; o que eu temo é a rapidez extraordinária com a qual ela estão tornando-se alguma coisa muito diferente do que elas são no presente. Nenhuma classe de seres, em qualquer momento do passado, realizou um movimento tão rápido para frente. Não deveria esse movimento ser invejosamente observado, e reprimido enquanto nós ainda o podemos reprimir? E, para esse fim, não é necessário destruir as mais avançadas das máquinas que estão em uso no presente, embora seja admitido que, em si mesmas, elas são inofensivas?”
“Até agora as máquinas recebem as suas impressões através da ação dos sentidos do homem: uma máquina viajante chama outra em um tom estridente de alarme e a outra instantaneamente se retira; mas é através dos ouvidos do condutor que a voz de uma agiu sobre a outra. Não houvesse condutor, a chamada teria ficado surda para a chamadora. Houve um tempo quando deve ter parecido altamente improvável que máquinas deveriam aprender a tornarem seus desejos conhecidos por som, mesmo se através dos ouvidos do homem; portanto, não pode ser concebido que chegará um dia quando aqueles ouvidos não mais serão necessários, e a audição será realizada pela delicadeza da própria construção da máquina? [181]- quando a sua linguagem deverá ter sido desenvolvida a partir dos gritos dos animais para um discurso tão intrincado quanto o nosso próprio?”
“É possível que, por aquela época, as crianças aprenderão o cálculo diferencial – como elas agora aprendem a falar – das suas mães e cuidadoras, o que elas possam falar na linguagem hipotética, e operarem somas da regra de três, tão logo elas tenham nascido; mas isso não é provável; nós não podemos calcular sobre nenhum avanço correspondente nos poderes intelectuais ou físicos do homem que deverá ser um contra-argumento contra o desenvolvimento maior que parece estar em estoque para as máquinas. Algumas pessoas podem dizer que a influência moral do homem será suficiente para as governar; mas eu não posso considerar que alguma vez será seguro deitar muita confiança no senso moral de qualquer máquina.”
“Novamente, não poderia ser a glória das máquinas consistir em existir sem esse mesmo dom vangloriado da linguagem? ‘O silêncio,’ foi dito por um escritor, ‘é uma virtude que nos torna agradáveis às nossas criaturas companheiras.’”
ORIGINAL:
BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 175-181. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/175/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[177]A raiz aludida não é batata dos nossos próprios jardins, mas uma planta tão quase aparentada a ela que eu me aventurei a traduzi-la dessa maneira. A propósito dessa inteligência, tivesse o escritor conhecido Butler, ele provavelmente teria dito -
“Ele sabe o que é o quê, e que é tão alto,
quanto a inteligência metafísica pode voar.”
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