Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XXI Os Colégios da Insensatez

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[157]XXI Os Colégios da Insensatez


Eu agora tinha sido um visitante com os Nosnibor por aproximadamente por cinco ou seis meses, e, embora eu frequentemente tivesse proposto deixá-los e ter um apartamento meu próprio, eles não me ouviriam fazendo sobre isso. Eu suponho que eles pensassem que deveria ser mais provável que eu me apaixonasse por Zulora se eu permanecesse, mas era o meu afeto por Arowhena que me mantinha.

Durante todo esse tempo, tanto Arowhena quanto eu mesmo tínhamos estado sonhando e deslizando na direção de um afeto declarado, mas não nos atrevemos a encarar as dificuldades reais da posição. Contudo, gradualmente, as coisas chegaram a uma crise a despeito de nós mesmos, e nós conseguimos ver o estado real do caso, tudo muito claramente.

Uma noite nós estávamos sentando no jardim, e eu tinha estado tentando, de toda maneira desviada e estúpida, fazer ela dizer que ela deveria a qualquer custo se entristecer por um homem, se ele realmente amasse uma mulher que não se casaria com ele. Eu tinha estado gaguejando e ruborizando, e ficado tão bobo quanto alguém poderia ficar, e eu suponho que eu tinha causado dor a ela, ao procurar por piedade para mim mesmo de uma maneira tão transparente, e nada dizendo sobre a própria necessidade dela por isso; de qualquer maneira, ela voltou-se para mim com um doce sorriso triste e disse, “Triste? Eu estou triste por mim mesma; eu estou triste por você; e eu estou triste por todos.” Tão logo as palavras tinham cruzado os lábios dela, ela curvou a cabeça, deu-me um olhar como se eu não devesse produzir resposta, e deixou-me.

As palavras foram poucas e simples, mas a maneira com a qual elas foram proferidas foi inefável: de súbito, eu enxerguei claramente e senti que não tinha o direito de tentar e induzi-la a infringir um dos costumes mais invioláveis do país dela, como ela necessita ter de fazer se devesse casar-se comigo. Eu sentei-me por um longo tempo pensando e, quando me lembrei do pecado e da vergonha e da miséria que um casamento iníquo – pois como tal ele seria considerado em Erewhon – implicaria, eu tornei-me completamente envergonhado de mim mesmo por ter me cegado por tanto tempo. Eu escrevo friamente agora, mas eu [158]sofri agudamente à época, e provavelmente deveria reter uma memória muito mais vívida do que eu senti, não tivesse tudo terminado tão alegremente.

Quanto a desistir da ideia de casar com Arowhena, nunca nem mesmo entrou na minha cabeça fazê-lo: a solução deveria ser encontrada em alguma outra direção além dessa. A ideia de esperar até que alguém se casasse com Zulora não devia ser menos sumariamente desconsiderada. Casar com Arowhena imediatamente em Erewhon – isso já tinha sido abandonado: portanto, nessa situação, restava apenas uma alternativa, e era fugir com ela, e chegar com ela a Europa, onde não haveria empecilho à nossa união, exceto a minha própria carência, uma questão que não me concedia nenhuma inquietação.

A esse plano óbvio e simples, eu pude perceber apenas duas objeções que merecessem o nome, - a primeira, que talvez Arowhena não viria; a segunda, que talvez fosse impossível para mim escapar mesmo sozinho, pois o rei mesmo tinha me contado que eu devia considerar a mim mesmo um prisioneiro em liberdade condicional, e que o primeiro sinal da minha tentativa para escapar levar-me-ia a ser enviado para um dos hospitais para incuráveis. Além disso, eu não conhecia a geografia do país, e até que devesse eu tentar e encontrar o meu caminho de volta, eu deveria ser descoberto muito antes que tivesse alcançado a passagem através da qual tinha chegado. Portanto, como eu poderia ser capaz de levar Arowhena comigo? Por dias e dias eu revirei essas dificuldades na minha cabeça e, por fim, inventei um plano tão selvagem quanto alguma vez tinha sido sugerido por medida extrema. Isso devia satisfazer a segunda dificuldade; a primeira deu-me menos inquietação, pois, quando Arowhena e eu nos encontramos depois da nossa entrevista no jardim, eu pude ver que ela não tinha sofrido menos intensamente do que eu mesmo.

Eu resolvi que teria outra entrevista com ela – a ultima, pelo presente – que então eu a deixaria e começaria a trabalhar na maturação do meu plano tão rapidamente quanto possível. Nós conseguimos uma chance de ficarmos juntos sozinhos, e então eu me soltei, e contei a ela quão apaixonadamente e [159]devotamente eu a amava. Ela pouco falou em retorno, mas as lágrimas dela (as quais eu não pude evitar de responder com as minhas próprias) e o pouco que ela disse foi muito suficiente para me mostrar que eu não deveria encontra obstáculo a partir dela. Em seguida, eu perguntei a ela se ela correria um risco terrível, o qual nós deveríamos compartilhar em comum, se, em caso de sucesso, eu pudesse levá-la para o meu próprio povo, para a casa de minha mãe e minhas irmãs, quem a receberiam muito alegremente. Ao mesmo tempo, eu assinalei que as chances de falha eram muito maiores que aquelas de sucesso e que a probabilidade era que, mesmo se eu conseguisse avançar tanto quanto a levar o meu desígnio à execução, isso terminaria em morte para nós ambos.

Eu não estava equivocado sobre ela; ela disse que acreditava que eu a amava tanto quanto ela me amava, e que ela se atreveria a qualquer coisa se eu apenas pudesse assegurar a ela que o que eu propunha não seria considerado desonroso na Inglaterra; ela não poderia viver sem mim, e preferiria morrer comigo a sozinha; que a morte talvez fosse o melhor para nós dois; que eu devo planejar, e que, quando a hora chegar, eu devia convocá-la, e confiar que ela não falharia comigo; e assim, após muitas lágrimas e abraços, nós nos separamos.

Em seguida, eu deixei os Nosnibor, hospedei-me na cidade, e tornei-me melancólico tanto quanto desejava. Arowhena e eu costumávamos nos ver algumas vezes, pois eu tinha me ocupado em ir regularmente aos Bancos Musicais, mas o sr. Nosnibor e Zulora tratavam-me com frieza considerável. Eu tinha certeza de que eles suspeitavam de mim. Arowhena parecia miserável, e eu via que a bolsa dela agora estava sempre quase tão cheia quanto ela poderia enchê-la com dinheiro do Banco Musical – muito mais cheia do que antes. Então o horrível pensamento ocorreu-me de que a saúde dela poderia falhar e que ela poderia ficar sujeita a processo criminal. Oh! Como eu odiei Erewhon naquele momento.

Eu ainda era recebido na corte, mas a minha boa aparência estava começando a falhar-me, e eu não era tão competente na ocultação dos efeitos do sofrimento como eram os erewhonianos. Eu podia [160]ver que meus amigos começavam a olhar-me preocupados comigo, e fui obrigado a seguir o exemplo de Mahaina e fingir ter desenvolvido um gosto por bebida. Eu até consultei um endireitador como se assim o fosse, e submeti-me a muito desconforto. Isso tornou as coisas melhores por um tempo, mas eu podia ver que meus amigos pensavam menos elevadamente da minha constituição conforme a minha carne começava a diminuir em intensidade.

Disseram-me que os pobres faziam um alarido sobre a minha pensão, e eu vi um artigo mordaz em um jornal antiministerial, no qual o escritor foi tão longe quanto a dizer que eu ter cabelo claro refletia pouco crédito sobre mim, na medida que se relatava que eu tinha dito que isso era uma coisa comum no país do qual eu vinha. Eu tenho razão para acreditar que o sr. Nosnibor mesmo inspirou esse artigo. Logo me chegou que o Rei tinha começado a demorar-se no pensamento de que eu tinha um relógio, e dizer que eu devia ser tratado medicamente por lhe ter contado uma mentira sobre os balões. Eu via o infortúnio acumulando-se à minha volta em cada direção, e sentia que eu deveria ter necessidade de toda minha inteligência e muito mais, se eu devesse conduzir a mim mesmo e a Arowhena para uma boa conclusão.

Havia alguns quem continuaram a mostrar-me gentileza, e, estranho dizer, eu recebi mais das pessoas mesmas de quem eu menos deveria ter esperado – eu quero dizer, dos caixas nos Bancos Musicais. Eu tinha me familiarizado com várias dessas pessoas, e agora que eu frequentava o banco deles, eles ficaram inclinados a tratar-me bem. Um deles, vendo que eu estava completamente mau de saúde, embora, é claro, ele fingisse não notar, sugeriu que eu deveria mudar de ares e descer com ele para uma das principais cidades, a qual ficava a uns dois ou três dias de jornada da metrópole, e era o assento principal dos Colégios da Insensatez; ele assegurou-me que eu deveria ficar encantado com o que eu via, e que eu deveria receber boas -vindas muito hospitaleiras. Portanto, eu decidi aceitar o convite.

[161]Nós partimos dois ou três dias depois e, após uma noite na estrada, chegamos ao nosso destino por volta da tarde. Agora era plena primavera, e quase poderiam fazer dez meses desde que eu tinha partido com Chowbok em minha expedição, mas pareciam mais como dez anos. As árvores estavam em sua beleza mais fresca, e o ar estava tinha se tornado cálido sem ser opressivamente quente. Após ter vivido por tantos meses na metrópole, a visão do interior, e das vilas de interior através das quais nós passamos, refrescou-me muito, mas eu não podia me esquecer dos meus problemas. As últimas cinco milhas ou aproximadamente foram a parte mais bela da jornada, pois a região tornou-se mais ondulada e os bosques eram mais extensos; mas a visão inicial da cidade dos colégios mesma foi a mais encantadora de todas. Eu não posso imaginar que possa haver algo mais belo no munto inteiro, e eu expressei meu prazer para meu companheiro e agradeci-lhe por ter me trazido.

Nós nos conduzimos para uma pousada no meio da cidade, e, em seguida, enquanto ainda estava claro, meu amigo, o caixa, cujo nome era Thims, levou-me para um passeio nas ruas e nos pátios dos colégios principais. A beleza e o interesse deles eram extremos; era impossível vê-los sem ser atraído na direção deles; e eu pensei comigo mesmo que deveria ser uma pessoa mal-intencionada e ingrata quem foi um membro de um desses colégios sem reter um sentimento afeiçoado com ele pelo resto da sua vida. Todas as minhas apreensões desapareceram quando eu vi a beleza e aparência venerável dessa cidade encantadora. Por uma meia-hora eu esqueci-me tanto de mim mesmo quanto de Arowhena.

Após a ceia, o sr. Thims contou-me muito sobre o sistema de educação que é praticado aqui. Eu já conhecia uma parte do que eu ouvi, mas muito era novo para mim, e eu obtive uma ideia melhor da posição erewhoniano do que a que eu tinha até então; mesmo assim, havia partes do esquema das quais eu não podia compreender a adequação, [162]embora eu admitisse que essa inabilidade era provavelmente o resultado de eu ter sido treinado muito diferentemente e de eu estar então muito indisposto.

A principal característica no sistema deles é a proeminência que eles concedem a um estudo que eu apenas consigo traduzir com a palavra “hipotética.” Eles argumentam desta maneira – que ensinar a um menino meramente a natureza das coisas que existem no mundo ao redor dele, e com as quais ele terá de ficar familiarizado durante sua vida toda, seria dar a ele apenas uma concepção estreita e rasa do universo, o qual, insistia-se, poderia conter toda forma de coisas que agora não são encontradas ali. Abrir os olhos dele para essas possibilidades e, dessa maneira, prepará-lo para todos os tipos de emergências, é o objeto desse sistema de hipotética. Imaginar um conjunto de contingências completamente estranhas e impossíveis, e requerer dos jovens que deem respostas inteligentes para as questões que surjam daí, é reconhecido como o caminho mais adequado possível de os preparar para a conduta real dos seus negócios na vida posterior.

Dessa maneira, eles eram ensinados o que é chamado da linguagem hipotética por muitos dos seus melhores anos – uma linguagem que foi originalmente composta em uma época quando o país estava em um estado muito diferente de civilização do qual ele está no presente, um estado o qual há muito desde então tinha desaparecido e sido substituído. Muitas máximas valiosas e pensamentos nobres, os quais, em uma época tinham ficado ocultos nela, tinham se tornado correntes na moderna literatura deles, e tinham sido traduzidos uma e outra vez na linguagem agora falada. Então certamente pareceria suficiente que o estudo da linguagem original deveria ser confinado aos poucos cujos instintos conduzissem naturalmente a buscá-la.

Mas os erewhonianos pensam diferentemente; a reserva que eles estabelecem através dessa linguagem hipotética dificilmente pode ser acreditada; eles até concederão a qualquer um manutenção vitalícia se ele obtiver uma proficiência considerável no estudo dela; ou melhor, eles despenderão anos em aprendizagem para traduzir um pouco da sua [163]própria boa poesia para a linguagem hipotética – fazer isso com fluência sendo reconhecido como uma marca distintiva de um erudito e um cavalheiro. Deus me livre que eu deva ser irreverente, mas pareceu-me ser um desperdício injustificado de boa energia humana que homens devam despender anos e anos na perfeição de uma exercício tão estéril, quando a sua própria civilização apresentava problemas às centenas que gritavam alto por solução e teriam pago ao solucionador belamente; mas as pessoas conhecem melhor os seus próprios assuntos. Se os jovens escolhessem isso por si mesmos, eu deveria ter me espantado menos; mas eles não escolhem; eles têm esse exercício jogado sobre eles e, pela maior parte, estão relutantes com relação a ele. Eu apenas posso dizer que tudo que eu ouvi em defesa do sistema foi ineficiente para me fazer pensar muito elevadamente sobre as sua vantagens.

Os argumentos em favor do desenvolvimento deliberado das faculdade da insensatez eram muito mais persuasivos. Mas aqui eles se afastam dos princípios sobre os quais eles justificam seu estudo da hipotética; pois eles baseiam a importância que eles atribuem à hipotética sobre o fato dela ser a sua preparação para o extraordinário, enquanto o estudo deles da Insensatez depende do seu desenvolvimento daquelas faculdades que são requeridas para a conduta cotidiana dos negócios. Consequentemente, suas cátedras de Inconsistência e Evasão, em ambos estudos os quais os jovens são examinados antes de serem autorizados a prosseguirem para o seu grau em hipotética. Os estudantes mais sérios e conscientes alcançam uma proficiência nesses assuntos que é bastante surpreendente; dificilmente há alguma inconsistência tão flagrante, mas eles logo aprendem a defendê-la, ou injunção tão clara que eles não possam encontrar algum pretexto para a desconsiderar.

Eles insistem que a vida seria intolerável se os homens devessem ser guiados em tudo que eles faziam pela razão e apenas pela razão. A razão revela homens para o desenho de linhas duras e rápidas, e para a definição pela linguagem – a linguagem sendo como o sol, o qual cria e então queima. Os extremos são lógicos sozinhos, [164]mas eles são sempre absurdos; o meio é ilógico, mas um meio ilógico é melhor do que a pura absurdidade de um extremo. Não há loucuras nem insensatezes tão grandes como aquelas que aparentemente pode ser irrefragavelmente defendidas pela razão apenas, e dificilmente há um erro ao qual os homens não possam ser facilmente conduzidos se eles baseiam a sua conduta apenas na razão.

A razão poderia muito possivelmente abolir a moeda dupla; ela poderia até atacar a personalidade da Esperança e da Justiça. Além disso, as pessoas têm um viés natural tão forte na direção dela que elas a buscarão por si mesmas e agirão em consequência dela exatamente tanto quanto ou mais do que é bom para elas: não há necessidade de encorajar a razão. Com a insensatez o caso é diferente. Ela é o complemento natural da razão, sem cuja existência a razão mesma seria inexistente.

Portanto, se a razão fosse inexistente não haveria tal coisa como insensatez, certamente se segue que, quanto mais insensatez há, também mais razão deve haver? Consequentemente, a necessidade do desenvolvimento da insensatez, mesmo nos interesses da razão mesma. Os professores de Insensatez negam que eles menosprezem a razão: ninguém pode estar mais convencido do que eles estão de que a moeda dupla não pode ser rigorosamente deduzida como uma consequência necessária da razão humana, a moeda dupla deveria cessar imediatamente; mas eles dizem que ela não deve ser deduzida a partir de uma visão estreita e exclusiva da razão, a qual deveria privar essa faculdade admirável de uma metade da sua própria existência. A insensatez é uma parte da razão; portanto, ela deve ser admitida à sua parte completa na formulação das condições iniciais.


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 157-164. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/157/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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