Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XVII Ydgrun e os Ydgrunitas

 Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[129]XVII Ydgrun e os Ydgrunitas


A despeito de todo o rebuliço que eles fazem sobre os seus ídolos, e dos templos que eles constroem, e os sacerdotes e sacerdotisas que eles mantêm, eu nunca pude considerar que a sua religião professada fosse mais do que superficial; mas eles tinham outra, a qual eles portavam com eles em todas as suas ações; e embora ninguém, a partir de fora das coisas, suspeitaria que ela tivesse absolutamente qualquer existência, na verdade ela era o grande guia deles, a bússola de marinheiro das vidas deles; de maneira que havia muito poucas coisas que eles alguma vez faziam, ou evitavam de fazer, sem referência aos seus princípios.

Agora, eu suspeito de que a fé professada deles não tinha grande influência sobre eles – primeiro, porque eu frequentemente ouvia os sacerdotes reclamarem da indiferença predominante, e eles dificilmente teriam feito isso sem alguma razão; segundo, por causa do manifestação que era feita, pois não havia nada disso sobre o culto da deusa Ydgrun, em quem eles realmente acreditavam; terceiro, porque, embora os sacerdotes estivessem constantemente abusando de Ydgrun como sendo a maior inimiga dos deuses, era bem conhecido que ela não tinha adoradores mais devotos no país inteiro do que essas pessoas mesmas, quem frequentemente eram sacerdotes de Ydgrun em vez de suas próprias divindades. Tampouco, de qualquer maneira, eu estou certo de que esses não eram os melhores dos sacerdotes.

Ydgrun certamente ocupava uma posição muito anômala; ela era considerada ser tanto onipresente quanto onipotente, mas ela não era uma concepção elevada e, algumas vezes, era tanto cruel quanto absurda. Mesmo os seus adoradores mais devotos ficavam um pouco envergonhados dela, e serviam-na mais com coração e feitos do que com suas línguas. O serviço deles não era de boca para fora, pelo contrário, mesmo quando a adorando mais devotamente, eles frequentemente a negariam. Contudo, tomando-a de maneira geral, ela era uma divindade beneficente e útil, quem não se importava com quanto ela era negada, contanto que ela fosse obedecida e temida, e quem mantinha centenas de milhares naqueles caminhos que tornavam a vida toleravelmente feliz, [130]quem, de outra maneira, nunca teriam sido mantidos, e para quem um ideal mais elevado e mais espiritual não teria poder nenhum.

Eu duvido muito de se os erewhonianos já estão preparados por qualquer religião melhor, e embora (considerando a minha convicção gradualmente fortalecida de que eles eram representanes das tribos perdidas de Israel) eu teria começado a convertê-los diante de todas os perigos, tivesse eu percebido a mais remota possibilidade de sucesso, eu dificilmente pude contemplar a substituição de Ydgrun como o grande objeto central da consideração deles sem admitir que ela séria acompanhada por consequências terríveis; de fato, fosse eu um mero filósofo, eu deveria dizer que a ascensão da concepção popular de Ygdrun seria a maior dádiva espiritual que poderia ser conferida a eles, e que nada poderia efetuar esse exemplo excepcional. De forma geral, eu descobri que aqueles que se queixavam mais intensamente de que Ydgrun não era suficientemente elevada para eles dificilmente ainda tinham de alcançar o padrão de Ydgrun, e frequentemente se encontravam com uma classe de homens a quem eu mesmo chamava de “altos ygdrunitas” (o resto sendo ygdrunitas, e baixos ygdrunitas), quem, na questão da conduta humana e nos assuntos da vida, pareceram-me ter se ocupado até onde está na correta natureza do homem ir.

Eles eram cavalheiros no sentido completo da palavra; e o que alguém não dizia ao dizer isso? Eles raramente falavam de Ydgrun, ou até aludiam a ela, mas nunca contrariariam os ditames dela sem ampla razão para o fazer: em tais casos eles iriam além dela com autossuficiência devida, e a deusa raramente os punia; pois eles eram bravos, e Ydgrun não é. A maioria deles tinha um conhecimento superficial da linguagem hipotética, e alguns poucos mais do que isso, mas apenas uns poucos. Eu não penso que essa linguagem contribuiu muito para os tornar o que eles são; mas antes que o fato deles serem geralmente possuidores dos seus rudimentos era uma grande [131]razão para a reverência concedida à linguagem hipotética mesma.

Estando acostumados com exercícios e atletismo de todos os tipos desde a juventude, e vivendo destemidamente sob o olhar dos seus pares, entre quem há um padrão elevado de coragem, generosidade, honra e toda qualidade boa e masculina – que maravilha que eles deveriam ter se tornado, por assim dizer, um lei para eles mesmos; e, enquanto adotando uma visão elevada da deusa Ydgrun, eles de deveriam ter gradualmente perdido todo fé nas divindades reconhecidas do país? Essas eles não desconsideram, pois conformidade até absolutamente intolerável é uma lei de Ydgrun, contudo, eles não têm crença real na existência objetiva de seres que tão prontamente se explicam como abstrações, e cujas personalidades demandam um quase materialismo que confunde a imaginação compreender. Contudo, eles mantêm suas opiniões muito para si mesmos, na medida que a maior parte dos seus concidadãos sente fortemente sobre os deuses, e eles consideram errado causar sofrimento, a menos que para algum bem maior do que parece provável de surgir a partir de eles simplesmente falando.

Por outro lado, certamente aqueles cujas próprias mentes estão seguras de qualquer assunto dado (mesmo se for apenas de que há pouca certeza) deveriam ir tão longe quanto a transmitir essa clareza a outros, quanto a dizer abertamente o que eles pensam e porque eles pensam, sempre que eles puderem fazê-lo apropriadamente; pois eles podem estar certos de que eles devem a sua própria clareza quase inteiramente ao fato de que outros fizeram isso por eles; afinal, eles podem estar errados e, se assim, é pelo seu próprio e geral bem-estar que eles deveriam deixar esse erro ser percebido tão dificilmente quanto possível, de maneira que ele possa ser mais facilmente refutado. Portanto, eu reconheço que, sobre esse único ponto, eu desaprovo a prática até dos altos ydgrunitas, e contesto-a mais porque eu sei que eu deveria encontrar minha tarefa futura mais fácil se os altos ydgrunitas já tivessem enfraquecido a crença que se supõe prevalecer no presente.

[132]Em outros aspectos, eles eram muito mais parecidos com a melhor classe de ingleses do que qualquer um que eu tenha visto em outros países. Eu deveria ter gostado de ter persuadido uma meia-dúzia deles para virem aqui à Inglaterra e subirem ao palco, pois a maioria deles tinha um afiado senso de humor e um gosto para atuar: eles seriam de grande uso para nós. O exemplo de um cavalheiro real é, se eu posso falar assim sem profanidade, o melhor de todos os evangelhos; um semelhante homem sobre o palco torna-se uma potente influência humanizante, um Ideal ao qual todos podem olhar por um xelim.

Eu sempre admirei e gostei desses homens, e, embora eu não conseguisse evitar de me arrepender profundamente da perdição última deles (pois eles não tinham sentido de uma vida futura, e a única religião deles era aquela de autorrespeito e consideração por outras pessoas), eu nunca me atrevi a ter uma liberdade tão grande com eles quanto a tentar colocá-los na posse das minhas próprias convicções religiosas, a despeito do meu saber de que eles eram os únicos que poderiam realmente ser bons e felizes, quer aqui, quer na vida futura. Algumas vezes eu tentei, sendo impelido a fazê-lo por um sentido forte de dever, e pelo meu profundo arrependimento de que, aquilo que era tão admirável, deveria ser condenado a eras, se não a eternidade, de tortura; mas as palavras ficavam pressas na garganta tão logo eu começava.

Se um missionário profissional poderia ter uma chance melhor, eu não sei; sem dúvida, tais pessoas conhecem mais sobre a ciência da conversão; por mim mesmo, eu apenas poderia ser grato que eu estava no caminho correto, e era obrigado a deixar outros até agora se arriscarem. Se o plano pelo qual eu mesmo proponho convertê-los falhar, eu alegremente contribuo com minha migalha para enviar dois ou três missionários treinados, quem têm sido reconhecidos como conversores exitosos de judeus e maometanos; mas tal raramente teve muito para se gloriar na carne, e quando eu penso nos alto ygdrunitas, e na figura que um missionário provavelmente gravaria entre eles, eu não posso me sentir muito otimista de que muito bem seria alcançado. Ainda assim, a [133]tentativa é digna de ser realizada, e o perigo pior para os missionários mesmos seria o de serem enviados para o hospital para onde Chowbok teria sido enviado, tivesse ele entrado comigo em Erewhon.

Portanto, tomando suas opiniões religiosas como um todo, eu tenho de reconhecer que os erewhonianos são supersticiosos, por conta das visões que eles sustentam dos seus deuses professados, e a sua adoração inteiramente anômala e inexplicável de Ydgrun, uma adoração ao mesmo tempo a mais poderosa, contudo, mais destituída de formalismo, do que eu alguma vez encontrei; mas na prática, as coisas funcionavam melhor do que poderia ter sido esperado, e as alegações conflitantes de Ydgrun e dos deuses eram organizadas por compromissos não escritos (em favor de Ydgrun, pela maior parte), os quais, em noventa e nove casos em uma centena, eram muito bem entendidos.

Eu não pude conceber porque eles não deveriam reconhecer abertamente o alto ydgrunismo, e descartar a personalidade objetiva da esperança, da justiça, etc; mas, sempre que eu tanto quanto insinuasse isso, eu descobria que estava em terreno perigoso. Eles nunca aceitariam isso; retornando constantemente à afirmação de que, eras atrás, as divindades eram frequentemente vistas, e que, no momento em que a personalidade delas fosse desacreditada, os homens deixariam de praticar até aquelas virtudes ordinárias que a experiência comum da humanidade tinha concordado como sendo o maior segredo da felicidade. “Quem alguma vez ouviu,” eles perguntam, indignadamente, “de coisas tais como treinamento amável, um bom exemplo e uma consideração iluminada pelo próprio bem-estar, sendo capazes de manterem os homens corretos?” Em minha precipitação, esquecendo-me de coisas que eu deveria ter lembrado, eu respondi que, se uma pessoa não pudesse ser mantida correta por aquelas coisas, não havia nada que poderia endireitá-la, e que se ela não fosse governada pelo amor e medo de homens que ela tinha visto, nem ela o seria por aqueles de deuses que ela não tinha visto.

De fato, em uma ocasião, eu deparei-me com um secto pequeno, mas crescente, [134]que acreditava, segundo uma moda, na imortalidade da alma e na ressurreição dos mortos; eles ensinavam que aqueles que tinham nascido com corpos fracos e doentes, e tivessem passado suas vidas doentes, seriam torturados eternamente depois; mas que aqueles que tivessem nascido fortes e saudáveis e belos seriam recompensados para sempre. Eles não faziam menção às qualidades morais ou conduta.

Ruim como isso era, era um passo adiante, na medida que eles sustentavam um estado futuro de algum tipo, e eu fiquei chocado em descobrir que, pela maior parte, eles encontram-se com oposição, por conta de que a doutrina deles não era baseada em nenhum tipo de fundamento, também que ela era imoral em sua tendência, e não para ser desejada por nenhum ser razoável.

Quando eu perguntei como isso poderia ser imoral, responderam-me que, se firmemente sustentado, levaria as pessoas a baratearem a vida atual, fazendo-a parecer ser um assunto de alguma importância secundária; que, dessa maneira, distrairia as mentes dos homens de aperfeiçoar a economia deste mundo, e era um corte impaciente, por assim dizer, do nó górdio dos problemas da vida, através do qual algumas pessoas poderiam ganhar satisfação presente para si mesmas ao custo de dano infinito para outros; que a doutrina tendia a encorajar o pobre à improvidência, e em uma aquiescência degradante em males que eles poderiam remediar bem; que as recompensas eram ilusórias e o resultado, por fim, de sorte, cujo império deveria ser limitado pelo túmulo; que os seus terrores eram enervantes e injustos; e que a mais abençoada ascensão seria apenas a perturbação de um mais abençoado torpor.

A tudo isso eu apenas pude dizer que a coisa efetivamente tinha sido conhecida acontecer, e que havia várias instâncias bem autentificadas de pessoas tendo morrido e retornado à vida – instâncias das quais nenhum homem, em sua mente sã, poderia duvidar.

[135]“Se for assim,” disse meu oponente, “nós temos de cuidar disso da melhor maneira que nós pudermos.”

Em seguida, eu traduzi para ele, tão bem quanto eu pude, o discurso de Hamlet no qual ele diz que é apenas o temor de males piores que podem nos ocorrer após a morte que nos impede de nos jogar nos braços da morte.

Absurdo,” ele respondeu, “nenhum homem ainda nunca foi impedido de cortar sua garganta por temores tais como o seu poeta atribui a ele – e o seu poeta provavelmente sabia disso muito bem. Se um homem corta a própria garganta, ele está encurralado, e não pensa em nada exceto em escapar, não importa para onde, com a condição de que ele pudesse deixar de lado o seu presente. Não. Os homens são mantidos em seus postos, não pelo temor de que, se eles o abandonassem, eles podem sair da frigideira para o fogo, mas pela esperança de que, se eles se mantivessem firmes, o fogo pode queimar menos ferozmente. ‘O respeito,’ para citar o seu poeta, ‘que torna a calamidade de uma vida tão longa,’ é a consideração de que, embora a calamidade possa viver muito, o sofredor pode viver ainda mais.”

Diante disso, vendo que havia pouca probabilidade de nós chegarmos a um acordo, eu larguei o argumento, e, em pouco tempo, meu oponente deixou-me com tanta desaprovação quanto ele possivelmente poderia revelar sem ser abertamente rude.


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 129-135. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/129/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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