Erewhon: ou, Além da Cordilheira
Por Samuel Butler
[121]XVI Arowhena
Por esta hora, talvez o leitor terá aprendido uma coisa que eu mesmo tinha suspeitado antes que tivesse vinte e quatro horas na casa do sr. Nosnibor – eu quero dizer, que, embora os Nosnibor mostrassem-me toda atenção, eu não poderia cordialmente gostar deles, com exceção de Arowhena, quem era bastante diferente do resto. Eles não eram exemplos justos dos erewhonianos. Eu vi muitas famílias, com quem eles estiveram em termos de visita, cujas maneiras encantaram-me mais do que eu sei como dizer, mas eu nunca pude superar o meu preconceito original contra o sr. Nosnibor por ele ter desviado dinheiro. A sra. Nosnibor, também, era uma mulher muito mundana, contudo, ao ouvir a conversa dela, alguém poderia ter pensado que ela era singularmente o inverso; nem eu conseguia suportar Zulora; contudo, Arowhena era perfeição.
Ela é quem realizava todas as pequenas tarefas para sua mãe e o sr. Nosnibor e Zulora, e dava aquelas mil provas de doçura e altruísmo que geralmente se requer que um membro de uma família dê. Durante todo o dia era, Arowhena isto, e Arowhena aquilo; mas ela nunca parecia saber o que ela estava indo fazer, e sempre estava radiante e de boa vontade da manhã até a noite. Zulora era realmente muito linda, mas Arowhena era infinitamente a mais graciosa das duas e era o exato ne plus ultra de juventude e beleza. Eu não tentarei a descrever, pois qualquer coisa que eu pudesse dizer falharia tanto em descrever a realidade quanto apenas confundiria o leitor. Que se pense no mais amável mesmo que se possa imaginar, e ainda estará abaixo da verdade. Tendo dito isso, dificilmente eu tenho de dizer que eu tinha me apaixonado por ela.
Ela deve ter percebido o que eu sentia por ela, mas eu tentava intensamente não deixar isso aparecer mesmo através do sinal mais leve. Eu tinha muitas razões para isso. Eu não tinha ideia do que o sr. e a sra. Nosnibor diriam sobre isso; e eu sabia que Arowhena não olharia para mim (não ainda, de qualquer maneira) se o pai e a mãe dela desaprovassem, o que eles provavelmente fariam, considerando [122]que eu não tinha nada exceto a pensão de aproximadamente uma libra por dia do dinheiro que o Rei tinha me concedido. Eu ainda não conhecia nenhum obstáculo mais sério.
Entrementes, eu posso dizer que eu tinha sido apresentado à corte, e disseram que a minha recepção tinha sido considerada como singularmente graciosa; de fato, eu tive várias entrevistas tanto com o Rei quanto com a Rainha, nas quais, de tempos em tempos, a Rainha obteve de mim tudo o que eu tinha no mundo, roupas e tudo, exceto os dois botões que eu tinha dado a Yram, a perda dos quais pareceu incomodá-la bastante. Presentearam-me com uma vestimenta de corte, e sua majestade fez com que minhas roupas antigas fossem colocadas em um boneco de madeira, sobre o qual elas provavelmente permanecem, a menos que elas tenham sido removidas em consequência da minha queda subsequente. As maneiras de sua majestade eram aquelas de um educado cavalheiro inglês. Ele ficou muito agradado ao ouvir que o nosso governo era monárquico, e que a massa do povo estava resoluta em que ele não deveria ser mudado; de fato, eu fui tão encorajado pelo prazer evidente com o qual ele me ouviu, que eu me aventurei a citar para ele aquela belas linhas de Shakespeare -
“Há uma divindade que cerca um rei,
Grosseira molda-lhe como nós podemos;”
Mas subsequentemente eu fiquei triste que tenha feito isso, pois não penso que sua majestade admirou as linhas tanto quanto eu poderia ter desejado.
Não há ocasião para eu demorar-me mais em minha experiência da corte, mas talvez eu deva aludir a uma das minhas conversas com o Rei, na medida que ela foi prenhe das consequências mais importantes.
Ele estava perguntando-me sobre meu relógio, e inquirindo se tais invenções perigosas eram toleradas no país do qual eu vinha. Eu reconheci, com alguma confusão, que relógios não eram incomuns; mas, observando a gravidade que surgia no rosto de sua majestade, eu tomei a liberdade [123]dizer que eles estavam rapidamente se acabando, e que nós tínhamos poucas de quaisquer invenções mecânicas que era provável que ele desaprovasse. Em consequência de ele me pedir para nomear algumas de nossas máquinas mais avançadas, eu não me atrevi a contar-lhe dos nossos motores a vapor e ferrovias e telégrafos elétricos, e estava confundindo meu cérebro pensar no que eu poderia dizer quando, de todas as coisas no mundo, os balões sugeriram a si mesmos, e eu fiz-lhe um relato de uma subida muito notável que foi realizada há alguns anos. O Rei foi polido demais para contradizer, mas eu tive certeza de que ele não me acreditou, e a partir daquele dia em diante, embora ele sempre me mostrasse a atenção que era devida ao meu gênio (pois sob essa luz minha compleição era considerada), ele nunca me questionou novamente sobre as maneiras e costumes do meu país.
Contudo, para retornar a Arowhena. Eu logo deduzi que nem o sr. nem a sra. Nosnibor teriam nenhuma objeção ao meu casamento com alguém da família; em Erewhon, uma excelência física é considerada como um contra-argumento contra qualquer outra desqualificação, e meu cabelo claro era suficiente para me tornar uma combinação elegível. Mas junto com esse fato bem-vindo, eu inferi outro que me encheu de desânimo: esperava-se que eu casasse com Zulora, por quem eu já tinha concebido uma grande aversão.
Inicialmente, eu dificilmente notei as primeiras pistas e os artifícios aos quais se recorriam para nos juntar, mas, após um tempo, eles tornaram-se muito evidentes. Zulora, quer ela estivesse apaixonada por mim que não, estava destinada a casar-se comigo, e eu deduzi em uma conversa com um jovem cavalheiro de minha familiaridade, quem frequentemente visitava a casa e de quem eu desgostava grandemente, que era considerada uma regra sagrada e inviolável que, quem quer que se case com alguém da família, tem de se casar com a filha mais velha que à época esteja solteira. O jovem cavalheiro insistia isso comigo tão frequentemente que, por fim, eu percebi que ele mesmo estava apaixonado por Arowhena, e queria que eu tirasse Zulora do caminho; mas outros me contaram a mesma história sobre o costume do país, e eu [124]vi que havia uma séria dificuldade. Meu único conforto era que Arowhena esnobava o meu rival e não olharia para ele. Tampouco ela olharia para mim; mesmo assim, havia uma diferença na forma do desdém dela; isso era tudo que eu podia obter dela.
Não que ela me evitasse; pelo contrário, eu tive muitos tête-à-tête com ela, pois a mãe e a irmã dela estavam muito ansiosas para eu depositar uma parte da minha pensão nos Bancos Musicais, isso estando em concordância com os ditames da deusa Ydgrun, de quem tanto a sra. Nosnibor quanto Zulora eram grandes devotas. Eu não estava certo de seu eu tinha de impedir que o meu segredo fosse descoberto por Arowhena mesma, mas nenhum dos outros suspeitava de mim, assim ela se determinou a fazer com que eu abrisse uma conta e, de qualquer maneira, pro forma, com os Bancos Musicais; e dificilmente eu preciso dizer que ela teve sucesso. Mas eu não me rendi de uma vez; eu aprecei o processo de argumentar muito intensamente para perder por uma concessão imediata; além disso, um pouco de hesitação tornou a concessão mesma mais valiosa. Foi no curso dessas conversas sobre o assunto que eu aprendi as opiniões religiosas mais definidas dos erwhonianos, que coexistem com o sistema do Banco Musical, mas não são reconhecidas por aquelas instituições curiosas. Eu as descreverei tão brevemente quanto possível nos capítulos seguintes antes de eu retornar às aventuras pessoais de Arowhena e de mim mesmo.
Eles eram idólatras, embora de um tipo comparativamente iluminado; mas aqui, como em outras coisas, havia uma discrepância entre a sua crença professada e a atual, pois eles tinham uma fê potente e genuína que existia sem reconhecimento ao longo da sua adoração de ídolos.
Os deuses que eles adoravam eram abertamente personificações de qualidades humanas, tais como justiça, força, esperança, medo, amor, etc, etc. As pessoas pensam que os protótipos dessas têm uma existência real objetiva em uma região muito além das nuvens, sustentando, como fizeram os antigos, que elas eram semelhantes a homens e [125]mulheres tanto em corpo quanto em paixão, exceto que elas são mesmo mais graciosas e mais poderosas, e também que elas podem torna-se invisíveis para a visão humana. Elas são capazes de serem agradadas e de virem em assistência daqueles que pedem sua ajuda. Os interesses delas em assuntos humanos é agudo e, no todo, beneficente; mas elas tornam-se muito raivosas se negligenciadas, e punem antes o primeiro com o qual elas se deparam do que a pessoa real que as ofendeu; a fúria delas sendo cega quando ela é provocada, embora nunca provocada sem razão. Elas não punirão com menos severidade quando as pessoas pecam contra elas por ignorância e sem chance de terem tido conhecimento; elas não aceitarão nenhuma desculpa desse tipo, mas são mesmo como a lei inglesa, a qual se assume ser conhecida por todos.
Dessa forma, eles têm uma lei de que dois pedaços de matéria não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, lei que é presidida e administrada pelos deuses do tempo e espaço conjuntamente, de maneira que, se uma pedra voadora e a cabeça de um homem tentarem ofender esses deuses, “arrogando-se um direito que elas não possuem” (pois assim está escrito em um dos livros deles), e ocuparem o mesmo espaço simultaneamente, uma punição severa, algumas vezes a morte mesma, é certa de se seguir, sem nenhuma consideração de se a pedra sabia que a cabeça do homem estava ali, ou a cabeça, a pedra; pelo menos essa é a visão deles dos acidentes comuns da vida. Além disso, eles consideram suas divindades serem bastantes desinteressadas dos motivos. Com elas, é a coisa realizada que é tudo, e o motivo não vale nada.
Dessa maneira, eles consideram estritamente proibido para um homem seguir sem ar comum em seus pulmões por mais do que uns poucos minutos; e, se de qualquer maneira eles entram na água, o deus do ar fica muito irado e não tolerará isso; não importa se o homem entra na água por acidente ou de propósito, se através da tentativa de salvar uma criança ou através de desdém pretensioso pelo deus do ar, o [126]deus do ar mata-lo-á, a menos que ele mantenha a sua cabeça suficientemente alta fora da água e, dessa forma, conceda ao deus do ar o que lhe é devido.
Isso com respeito às divindades que gerenciavam os assuntos físicos. Suplementarmente eles personificavam a esperança, o medo, o amor e assim por diante, dando-lhes templos e sacerdotes e esculpindo aparências deles em pedra, as quais eles verdadeiramente acreditam serem representações fiéis de seres vivos que não são apenas humanos sendo mais do que humanos. Se qualquer um nega a existência objetiva dessas divindades, e diz que realmente não existe ser tal como uma bela mulher chamada de Justiça, com seus olhos vendados e um par de bandejas, positivamente vivendo e movendo-se em uma região remota e etérea, mas que a justiça é apenas a expressão personificada de certos modos de pensamento e ação humanos – eles dizem que ele nega a existência da justiça ao negar-lha a personalidade, e que ele é um perturbador devasso das convicções religiosas do homem. Eles não detestam nada tanto quanto qualquer tentativa de os conduzir a concepções espirituais mais elevadas das divindades a quem eles professar adorar. Arowhena e eu tivemos uma batalha armada sobre esse ponto, e deveríamos ter tido muitas mais, senão por minha prudência em deixar ela levar a melhor sobre mim.
Eu estou certo em meu coração de que ele suspeitava de sua própria posição, pois ela retornou mais de uma vez ao assunto. “Você não vê,” eu tinha reclamado, “que o fato da justiça ser admirável não será afetado pela ausência de uma crença em ela também ser um agente vivo? Você realmente pensa que os homens serão uma polegada menos esperançosos porque eles não acreditam que a esperança é uma pessoa atual?” Ela sacudiu a cabeça e disse que, junto com a crença dos homens na personalidade, todo incentivo à reverência da coisa mesma, justiça ou esperança, cessaria; a partir dessa hora, os homens nunca mais seriam nem justos nem esperançosos.
Eu não a pude mover, nem, de fato, eu desejava seriamente o fazer. Ela rendia-se a mim na maioria das coisas, mas ela nunca recuava de sustentar suas opiniões se elas fossem colocadas [127]em questão; nem, até hoje, ela abateu uma partícula da crença na religião de sua infância, embora, em concordância com requisições repetidas, ela permitiu-se ser batizada na igreja inglesa. Embora ela tenha feito um disfarce de sua fé original para o efeito de que o bebê dela e eu fossem os únicos seres humanos isentos da vingança das divindades por não acreditarmos em sua personalidade. Ela está bastante certa de que nós estamos isentos. De outra maneira, ela nunca deveria teve uma convicção tão forte nisso. Como isso se originou, ela não sabe, nem ela deseja saber; há coisas que é melhor não conhecer, e essa é uma delas; mas quando eu digo a ela que eu acredito nas divindades dela tanto quanto ela o faz – e que essa é uma diferença de palavras, não coisas, ela torna-se silente com uma leve ênfase.
Eu reconheço que ela quase me conquistou uma vez; pois ela perguntou-me o que eu deveria pensar se ela devesse contar-me que o meu Deus, cuja natureza e atributos eu estive explicando para ela, era apenas a expressão para a concepção mais elevada de bondade, sabedoria e poder do homem; que, para gerar uma concepção mais vívida de um pensamento tão grande e glorioso, o homem a tenha personificado e chamado-a por um nome; que era uma concepção indigna do Deus considerá-Lo pessoal, na medida que escapar das contingências humanas tornou-se, dessa forma, impossível; que a coisa real que os homens deveriam adorar era o Divino, em qualquer lugar que eles a possam encontrar; que “Deus” era apenas uma maneira para o homem expressar a sua sensação do Divino; que justiça, esperança, sabedoria, etc, eram todas partes da bondade, assim, Deus era a expressão que englobava toda bondade e todo bom poder; que as pessoas não deixariam menos de amar a Deus se cessassem de acreditar em Sua personalidade objetiva, do que eles teriam deixado de amar a justiça ao descobrirem que ela não era realmente pessoal; ou melhor, que eles nunca verdadeiramente O amariam até que eles O vissem dessa maneira.
Ela disse tudo isso de sua maneira simples, e sem nada da [128]coerência com a qual eu escrevi aqui; a face dela estava acessa, e ela sentiu-se certa de que tinha me convencido de que eu estava errado, e que a justiça era uma pessoa viva. De fato, eu vacilei um pouco, mas eu recuperei-me imediatamente, e apontei para ela que nós tínhamos livros cuja genuinidade estava além de toda possibilidade de dúvida, visto que nenhum deles tinham menos de 1800 anos de idade; que nesses haviam os relatos mais autênticos de homens com os quais a Divindade Mesma tinha falado, e de um profeta quem tinha sido permitido a ver as costas de Deus, embora a mão estivesse colocada sobre o rosto dele.
Isso foi conclusivo; e eu falei com tanta solenidade que ela ficou um pouco assustada, e apenas respondeu que eles também tinham seus livros, nos quais os ancestrais deles tinham visto os deuses; no que eu percebi que, de maneira alguma, argumentos adicionais seriam prováveis de a convencer; e temendo que ela devesse contar à mãe dela o que eu estive dizendo, e que eu poderia perder o domínio das afeições dela, os quais eu estava começando a sentir-me bastante certo que eu estava obtendo, eu comecei a deixar ela ter vantagem e convencer-me; de nenhuma maneira, antes que nós estivéssemos seguramente casados, eu mostrei o pé rachado novamente.
Mesmo assim, as observações dela assombraram-me, e desde então eu tenho me encontrado com muitas pessoas muito divinas que tinham um grande conhecimento da divindade, mas nenhuma sensação do divino: e novamente, eu tenho visto um esplendor no rosto daqueles que estavam adorando o divino ou na arte ou natureza – em pintura ou estátua – no campo ou nuvem ou mar – no homem, na mulher ou na criança – que eu nunca vi acesso por nenhuma conversa sobre a natureza e os atributos de Deus. Menciona-se apenas a palavra divindade e a nossa sensação do divino é encoberta.
ORIGINAL:
BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 121-128. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/121/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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