Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XV Os Bancos Musicais

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[108]XV Os Bancos Musicais


Em meu retorno à sala de estar, eu descobri que a atualidade de Mahaina tinha se desgastado. As damas estavam meramente guardando o seu trabalho e preparando-se para sair. Eu perguntei a elas onde elas estavam indo. Elas responderam, com um certo ar de reserva, que elas estavam indo ao banco para obter algum dinheiro.

Agora eu já tinha inferido que os assuntos mercantis do erewhonianos eram conduzidos em um sistema totalmente diferente do nosso próprio; contudo, eu tinha concluído pouco até agora, exceto que eles tinham dois distintos sistemas comerciais, dos quais um apelava mais fortemente à imaginação do que qualquer coisa com a qual nós estávamos acostumados na Europa, na medida que os bancos que eram conduzidos nesse sistema eram decorados na mais profusa maneira, e todas as transações mercantis eram acompanhadas por música, de maneira que eles eram chamados de Bancos Musicais, embora a música fosse horrível para um ouvido europeu.

Quanto ao sistema mesmo, eu nunca consegui o entender, nem eu consigo fazer isso agora: eles têm um código em conexão com ele, o qual eu não tenho a mais leve dúvida de que eles entendem, mas nenhum estrangeiro pode ter a esperança de conseguir isso. Uma regra funciona a favor, e contra, outra como em uma gramática mais complicada, ou como na pronúncia chinesa, na qual me contaram que a mais leve mudança em acentuação ou tom de voz altera o significado de uma sentença inteira. O que quer que seja incoerente na minha descrição deve ser referido ao fato de eu nunca ter alcançado uma compreensão completa do assunto.

Contudo, até onde pude inferir qualquer coisa certa, eu deduzi que eles têm duas moedas distintas, cada uma sob o controle dos seus próprios bancos e códigos mercantis. Supunha-se que uma dessas (aquela com os Bancos Musicais) devia ser o sistema, e distribuir a moeda na qual todas as transações monetárias deveriam ser levadas a cabo; e, até onde eu conseguia ver, todos que desejavam ser considerados respeitáveis, mantinham uma balança maior ou menor nesses bancos. Por [109]outro lado, se há uma coisa da qual eu estou mais certo do que outra é que o montante assim mantido não tinha valor comercial direto no mundo externo; eu estou certo de que os gerentes e caixas do Bancos Musicais não eram pagos na sua própria moeda. O sr. Nosnibor costumava ir a um desses bancos, ou melhor, ao grande banco-mãe da cidade, algumas vezes, mas não muito frequentemente. Ele era um pilar de um desses outros tipos de bancos, embora ele parecesse ter também algum cargo menor nos musicais. As damas geralmente iam sozinhas; como de fato era o caso na maioria das famílias, exceto em ocasiões de estado.

Há muito eu desejava conhecer mais sobre esse sistema estranho, e tinha o maior desejo de acompanhar minha anfitriã e suas filhas. Eu tinha visto elas saírem quase toda manhã desde a minha chegada e tinha notado que elas levavam suas bolsas nas mãos, não exatamente ostentosamente, contudo, meramente como aqueles que as encontrassem deveriam ver para onde elas estavam indo. Contudo, eu mesmo ainda nunca tinha sido chamado para ir com elas.

Não é fácil comunicar as maneiras de uma pessoa por palavras, e eu dificilmente posso dar qualquer ideia do sentimento peculiar que me afetou quando eu vi as damas prestes a saírem para o banco. Havia alguma coisa de arrependimento, alguma coisa como se elas desejassem levar-me com elas, mas não quisessem me perguntar, e, todavia, como se eu dificilmente pedisse para ser levado. Contudo, eu estava determinado a trazer a questão de ir com elas à baila com minha anfitriã, e, após uma pequena negociação, e muitas perguntas quanto a se eu estava perfeitamente certo de que eu mesmo desejava ir, foi decidido que eu poderia fazê-lo.

Nós passamos por várias ruas de casas mais ou menos consideráveis e, finalmente virando em um canto, nós descobrimos uma grande praça, no fim da qual ficava um prédio magnificente, de uma arquitetura estranha mas nobre, e de grande antiguidade. Ele não se abria diretamente para a praça, havendo um anteparo, através do qual ficava uma arcada, [110]entre a praça e os recintos reais do banco. Passando sob a arcada nós entramos em um relvado verde, em volta da qual corria uma arcada ou claustro, enquanto, diante de nós erguiam-se as torres majestosas do banco e sua frente venerável, a qual era dividida em três profundos recessos e adornada com todos os tipos de mármores e muitas esculturas. Do outro lado havia belas árvores antigas nas quais os pássaros estavam ocupados à centena, e um número de casas pitorescas mais substanciais de aparência singularmente confortáveis; elas ficavam situadas em meio a pomares e jardins, e deram-me uma impressão de grande paz e abundância.

De fato, não tinha sido um erro dizer que esse prédio era algo que apelava à imaginação; ele fazia mais – ele carregava tanto imaginação quanto julgamento por tempestade. Era um épico em pedra e mármore, e tão poderoso foi o efeito que ele produziu em mim que, enquanto eu o contemplava, eu fiquei encantado e derretido. Eu senti-me mais consciente da existência de um passado remoto. Alguém sempre sabe disso, mas o conhecimento nunca é tão vívido como na presença de alguma testemunha da vida de eras passadas. Eu senti como quão curto, em um espaço de vida humana, era o período da nossa própria existência. Eu fiquei mais impressionado com a minha própria insignificância, e muito mais inclinado a acreditar que as pessoas cujo sentido de aptidão das coisas era igual à elevação de um trabalho manual tão sereno, dificilmente eram prováveis de estarem erradas nas conclusões que elas podem encontrar de qualquer assunto. Meu sentimento foi de que a moeda deste banco deve ser a correta.

Nós cruzamos o relvado e entramos no prédio. Se o exterior tinha sido impressionante, o interior ainda o era mais. Ele era muito alto e dividido em várias partes por paredes que descansavam sobre pilares massivos: as janelas estavam cheias com vitrais descrevendo os principais incidentes comerciais do banco por muitas eras. Em uma parte remota do banco haviam homens e meninos cantando; [111]isso foi a única característica perturbadora, pois como a escala musical ainda era desconhecida, não havia música no país que pudesse ser agradável a um ouvido europeu. Os cantores pareciam ter derivado suas inspirações a partir das canções dos pássaros e do lamento do vento, os quais, por fim, eles tentavam imitar em cadências melancólicas que, às vezes, degeneravam-se em um uivo. Para meu pensamento o barulho era horrendo, mas ele produzia um grande efeito sobre minhas companheiras, quem se declaravam muito tocadas. Tão logo a cantoria terminou, as damas pediram-me para permanecer onde eu estava enquanto elas entravam no lugar a partir do qual o canto parecia ter saído.

Durante a ausência delas, certas reflexões forçaram-se sobre mim.

Em primeiro lugar, surpreendeu-me como estranho que o prédio devesse estar tão quase vazio; eu estava quase sozinho, e os poucos além de mim mesmo tinham sido conduzidos por curiosidade, e não tinham intenção de fazer negócios com o banco. Mas poderia haver mais dentro. Eu movi-me sorrateiramente para a cortina e aventurei-me a puxar a ponta extrema dela de um lado. Não, dificilmente havia alguém ali. Eu vi um grande número de caixas, todos as mesas deles prontas para pagar cheques, e um ou dois que pareciam os parceiros gerentes. Eu também vi minha anfitriã e as filhas dela, e duas ou três outras damas; também três ou quatro mulheres idosas e os meninos de um dos vizinhos Colégios de Insensatez; mas não havia mais ninguém. Não parecia como se o banco estivesse fazendo um negócio muito grande; e, contudo, sempre me contaram que todos na cidade lidam com o estabelecimento.

Eu não posso descrever tudo que ocorria nesses recintos interiores, pois uma pessoa de aparência sinistra em uma toca negra veio e fez gestos desagradáveis para mim por eu estar espiando. Aconteceu de eu ter em meu bolso uma das peças do Banco Musical, a qual tinha sido dada a mim pela sra. Nosnibor, assim eu tentei suborná-lo com ela; mas tendo visto o que era isso, ele [112]ficou tão irado que eu tive de lhe dar uma peça do outro tipo de dinheiro para o pacificar. Quando eu tinha feito isso, ele tornou-se cortês diretamente. Tão logo ele tinha ido embora, eu aventurei-me a dar uma segunda olhada, e vi Zulora no ato mesmo de entregar uma peça de papel, a qual se parecia com um cheque, para um dos caixas. Ele não a examinou, mas, colocando sua mão em um antigo cofre próximo, ele puxou uma quantidade de peças de metal aleatoriamente e entregou-as sem as contar; nem Zulora as contou, mas colocou-as em sua bolsa e retornou ao seu assento após deixar cair umas poucas peças da outra cunhagem dentre de uma caixa de esmolas que ficava ao lado do caixa. A sra. Nosnibor e Arowhena agiram da mesma maneira, mas um pouco depois elas deram tudo (até onde eu pude ver) que elas tinham recebido do caixa de volta para um sacristão, quem, eu não tenho dúvida, colocou de volta dentro do cofre do qual tinha sido tomado. Elas começaram a ir na direção da cortina; onde eu a deixei cair e retirei-me para uma distância razoável.

Logo elas se juntaram a mim. Por alguns minutos todos nós mantivemos silêncio, mas, finalmente, eu aventurei-me a observar que o banco não estava tão ocupado hoje como ele provavelmente frequentemente era. Diante disso, a sr. Nosnibor disse que, de fato, era realmente melancólico ver a pouca atenção que as pessoas concediam a mais preciosa de todas as instituições. Eu não consegui dizer nada em resposta, mas eu sempre fui da opinião de que a maior parte da humanidade conhece aproximadamente onde eles obtém o que lhe faz bem.

A sra. Norsnibor prosseguiu para dizer que eu não devo pensar que havia qualquer falta de confiança no banco porque eu tinha visto tão poucas pessoas lá; o coração do país era completamente devotado a esses estabelecimentos, e qualquer sinal deles estarem em perigo traria suporte dos mais inesperados quartéis. Era apenas porque as pessoas sabiam que eles estavam tão muito seguros que, em alguns casos (como ela lamentava dizer no do sr. Nosnibor), elas sentiam que o seu suporte era desnecessário. Além disso, essas instituições [113]nunca se afastavam muito dos mais seguros e mais aprovados princípios bancários. Dessa forma, eles nunca permitem juros sobre depósito, uma coisa agora frequentemente realizada por certas companhias de bolha, as quais, realizando comércio ilegítimo, afastaram muito consumidores; e mesmo os acionistas agora eram menos do que antes, devido às inovações dessas pessoas inescrupulosas, pois os Bancos Musicais pagavam pouco ou nenhum dividendo, mas dividiam seus lucros através de bônus sobre as ações uma vez em cada trinta mil anos; e como agora eram apenas dois mil anos desde que houve uma dessas distribuições, as pessoas sentiam que elas não poderiam ter esperança de outra em sua época e prefeririam investimentos através dos quais eles obtinham retorno mais tangível; tudo isso, ela disse, era muita melancolia para pensar.

Tendo feito essas últimas confissões, ela retornou à sua afirmação original, a saber, que todos neste país realmente suportava esses bancos. Quanto à escassez das pessoas, e a ausência dos fisicamente aptos, ela indicou para mim, com alguma justiça, que isso era exatamente o que nós deveríamos esperar. Os homens que eram mais familiarizados com a estabilidade das instituições humanas, tais como os advogados, homens de ciência, doutores, estadistas, pintores e semelhantes, eram exatamente aqueles mais prováveis de serem enganados pelas suas próprias realizações fantasiosas, e serem tornados indevidamente suspeitos por seu desejo licencioso por grande retorno presente, o que está na raiz de nove décimos da oposição; pela sua vaidade, a qual os incitaria a simular superioridade para os prejuízos do vulgo; e pelos ferrões da sua própria consciência, a qual estava constantemente os censurando da maneira mais cruel por causa dos seus corpos, os quais geralmente estavam doentes.

Que o intelecto de uma pessoa (ela continuou) não possa nunca ser tão correto, a menos que o corpo dela esteja em saúde absoluta, ele nunca pode formar nenhum julgamento que valha a pena ter em questões desse tipo. O corpo é tudo: talvez ele não tenha de ser um corpo tão forte (ela disse isso porque viu que eu estava pensando nas [114]pessoas velhas e de aparência doente que eu tinha visto no banco), mas ele tem de estar em saúde perfeita; nesse caso, quanto menos força ativa ele tiver, mas livre ele estaria para o trabalho do intelecto e, portanto, mais correta a conclusão. Portanto, na realidade, as pessoas que eu tinha visto no banco eram exatamente aquelas cujas opiniões valia a pena ter; eles declaravam suas vantagens serem incalculáveis, e até professavam considerar o retorno imediato ser muito maior do que aquele ao qual eles tinham direito; e assim ela seguiu, nem ela parou até que nós tínhamos retornado à casa.

Ela poderia dizer o que desejasse, mas os seus modos não transmitiam nenhuma convicção, e posteriormente eu vi sinais da indiferença geral com esses bancos que não deviam ser equivocadas. Os seus apoiadores frequentemente a negavam, mas a negação geralmente era tão oculta quanto a adicionar outra prova da sua existência. Em pânicos comerciais, e em épocas de dificuldade geral, o povo, como uma massa, nem mesmo pensava em se voltar para esses bancos. Alguns poucos poderiam fazê-lo, alguns a partir de hábito e treinamento inicial, alguns a partir de instinto que nos incita a agarrar qualquer bagatela quando nos consideramos afundando, mas alguns poucos a partir da crença genuína de que os Bancos Musicais poderiam salvá-los da ruína, se eles fossem incapazes de satisfazer os seus compromissos com outros tipos de moedas.

Em conversação com um dos gerentes do Banco Musical eu tentei insinuar isso tão evidentemente quanto a polidez permitiria. Ele disse que ultimamente isso tinha sido mais ou menos verdadeiro; mas que agora eles tinham colocado novas janelas com vitrais em todos os bancos do país, e reparado os prédios, e alargado os órgãos; além disso, os presidentes tinham aprendido a deslocar-se de ônibus e a falar agradavelmente com as pessoas nas ruas, e a lembrar-se das idades dos seus filhos e de dar-lhes coisas quando eles eram malcriados, de maneira que, daqui em diante, tudo seguiria tranquilamente.

Mas você não fez nada com o dinheiro mesmo?” disse eu, timidamente.

[115]“Não é necessário,” ele respondeu; “isso não é minimamente necessário, eu asseguro a você.”

E contudo, qualquer um poderia dizer que o dinheiro dado para esses bancos não era aquele com o qual as pessoas compravam o seu pão, comida e roupas. À primeira vista, ele era parecido com ele, e frequentemente era estampado com designs que eram de grande beleza; novamente, ele não era de cunhagem espúria, feito com a intenção de que ele deveria ser confundido com o dinheiro em uso efetivo; era mais como um dinheiro de brinquedo, ou as fichas usadas para certos jogos de cartas; pois, a despeito da beleza dos designs, o material sobre o qual eles eram estampados era quase tão sem valor quanto possível. Alguns eram cobertos com papel laminado, mas, francamente, a maior parte era de um metal base barato, a natureza exata do qual eu fui incapaz de determinar. De fato, eles eram feitos de uma grande variedade de materiais, ou, talvez, mais precisamente, de ligas, algumas das quais eram duras, enquanto outras se curvavam facilmente e assumiam quase qualquer forma que o seu possuidor pudesse desejar no momento.

É claro, todos sabiam que o valor comercial deles era nil, mas todos aqueles que desejavam ser considerados respeitáveis consideravam obrigação deles reter umas poucas moedas em sua posse, e deixarem-nas ser vistas, de tempos em tempos, em suas mãos e bolsas. Não apenas isso, mas ele se fixariam em que a moeda corrente do reino era escória em comparação com a cunhagem do Banco Musical. Contudo, talvez a coisa mais estranha de todas era que, às vezes, essas pessoas mesmas tirariam sarro, de maneiras muito pequenas, do inteiro sistema; de fato, dificilmente havia alguma insinuação contra isso que eles não tolerariam e até aplaudiriam em seus jornais cotidianos, se escrita anonimamente, enquanto que, se a mesma coisa fosse dita sem ambiguidade em suas caras – caso nominativo, verbo e acusativo estando todos em seus locais corretos, e a dúvida impossível – eles se considerariam muito seria e justamente indignados, e acusariam o falante de estar adoentado.

[116]Eu nunca pude entender (nem posso eu agora o fazer completamente, embora eu comece a enxergar melhor o que eles querem dizer) porque uma única moeda não deveria ser suficiente para eles; parecer-me-ia como, dessa maneira, todas as suas negociações teriam sido grandemente simplificadas; mas eu era respondido com um olhar de horror se alguma vez eu me atrevesse a insinuar isso. Mesmo aqueles que, para o meu conhecimento, mantinham apenas dinheiro suficiente pelo qual jurar nos Bancos Musicais, chamariam os outros bancos (onde seus títulos ficavam) de frios, amortecidos, paralisantes e semelhantes.

Contudo, eu notei outra coisa, a qual me impressionou muito. Eu fui levado à inauguração de um desses bancos em uma cidade vizinha, e vi uma grande reunião de caixas e gerentes. Eu sentei-me oposto a eles e examinei atentamente os rostos deles. Eles não me agradaram; com algumas exceções, eles careciam da verdadeira franqueza erewhoniana; e um número igual de qualquer outra classe teria parecido com homens mais felizes e melhores. Quando eu os encontrava nas ruas, eles não se pareciam com outras pessoas, mas, como regra, tinham uma expressão constrangida em seus rostos, a qual me afligia e deprimia-me.

Aqueles que vinham do campo eram melhores; eles pareciam ter vivido menos como uma classe separada, e ser mais livres e mais saudáveis; mas a despeito de eu não ver alguns poucos que parecessem benignos e nobres, eu não pude evitar de perguntar a mim mesmo, relativo ao maior número daqueles a quem eu encontrei, se Erewhon seria um país melhor se a expressão deles devesse ser transferida para as pessoas em geral. Eu respondia-me enfaticamente, não. A expressão nos rostos dos altos Ydgrunitas era aquela que alguém desejava difundir, e não aquela dos caixas.

A expressão de um homem é o seu sacramento; ela é o sinal externo e visível da sua graça interna e espiritual, ou da falta de graça; e conforme eu examinava a maior parte desses homens, eu não pude evitar de sentir que deve haver alguma coisa em [117]suas vidas que tinha tolhido o seu desenvolvimento natural, e que eles teriam sido mais saudavelmente dispostos em qualquer outra profissão. Eu sempre me sentia triste por eles, pois em nove de dez casos eles eram pessoas bem-intencionados; no geral, eles eram muito pobremente pagos; como uma regra, as constituições deles estavam acima de suspeita; e havia instâncias sem número registradas do seu autossacrifício e generosidade; mas eles tinha tido o infortúnio de terem sido traídos em uma falsa posição em uma idade onde, pela maior parte, o julgamento deles não estava maduro e, depois, sido mantidos em ignorância estudada das dificuldades reais do sistema. Mas isso não torna a posição deles uma menos falsas, e os maus efeitos dela sobre eles mesmos eram inconfundíveis.

Poucas pessoas falariam bastante aberta e livremente diante deles, o que me impressionou como um sinal muito ruim. Quando eles estavam na sala, todos falariam como se toda a moeda exceto aquela dos Bancos Musicais devesse ser abolida; e todavia eles sabiam perfeitamente bem que até os caixas mesmos dificilmente usavam o dinheiro dos Bancos Musicais mais do que as outras pessoas. Era esperado deles que eles devessem parecer fazê-lo, mas isso era tudo. Os menos pensativos deles não pareciam particularmente infelizes, mas muitos eram evidentemente doentes no coração, embora talvez eles dificilmente o soubessem, e não teriam admitido sê-lo. Alguns poucos eram oponentes do sistema inteiro; mas esses eram passíveis de serem demitidos do seu emprego em qualquer momento, e isso os tornava muito cuidadosos, pois um homem que uma vez tenha sido caixa em um Banco Musical estava fora de campo para outros empregos, e geralmente era inadequado para eles em razão do curso do tratamento que era chamado de sua educação. De fato, ela era uma carreira da qual se retirar era virtualmente impossível, e dentro da qual jovens homens geralmente eram induzidos a entrar antes que eles pudessem ser razoavelmente esperados, considerando seu treinamento, ter formado quaisquer opiniões próprias. De fato, quietamente eles era induzidos, pelo que nós na [118]Inglaterra deveríamos chamar de influência indevida, dissimulação e fraude. De fato, poucos eram aqueles que tinham a coragem para insistir em verem ambos os lados da questão antes que eles se comprometessem com o que praticamente era um salto no escuro. Alguém teria pensado que cautela nesse aspecto teria sido um princípio elementar, - uma das primeiras coisas que um homem honorável ensinaria para o seu filho entender; mas na prática isso não era assim.

Eu até vi casos nos quais os pais compraram o direito de apresentação ao ofício de caixa em um desses bancos, com a determinação fixa de que algum dos seus filhos (talvez uma mera criança) devesse preenche-lo. Ali estava o rapaz mesmo – crescendo com toda promessa de se tornar um homem bom e honorável – mas completamente sem cautela relativa ao calçado de ferro que o seu protetor natural estava providenciando para ele. Quem poderia dizer se a coisa inteira não terminaria em uma mentira de uma vida e irritação vã para escapar? Eu confesso que havia poucas coisas em Erewhon que me chocaram mais do que isso.

Contudo, nós fazemos alguma coisa não muito diferente disso mesmo na Inglaterra, e, enquanto se diz respeito ao sistema comercial dual, todos os países têm, e têm tido, uma lei da terra, e também outra lei, a qual, embora professadamente mais sagrada, tinha muito menos efeito em sua vida e ações diárias. Parece como se a necessidade de alguma lei suplementar e, algumas vezes, até conflitando com a lei da terra, deve jorrar a partir de alguma coisa que jaz profundamente na natureza do homem; de fato, é difícil pensar que o homem alguma vez poderia ter-se tornado homem em absoluto, exceto através da evolução gradual de uma percepção de que, embora este mundo assome tão grande quando nós estamos neles, ele pode parecer uma coisa pequena quando saímos dele.

Quando o homem cresceu até a percepção que no eterno é e não é da natureza, o mundo e tudo que ele contem, incluindo o homem, é, ao mesmo tempo, visível e invisível, ele sentiu a necessidade de duas regras de vida, uma para [119]o lado visível e outra para o invisível das coisas. Para as leis afetando o mundo visível ele reivindicou a sanção dos poderes visíveis; para o invisível (do qual ele nada conhece, exceto que existe e é poderoso) ele apelou para o poder invisível (do qual, novamente, ele não conhece nada, exceto que existe e é poderoso), ao qual ele dá o nome de Deus.

Algumas observações erewhonianas relativas ao entendimento do embrião não nascido, que eu me arrependo que meu espaço não me permitirá estabelecer diante do leitor, conduziram-me a concluir que os Bancos Musicais erewhonianos, e talvez os sistemas religiosos de todos os países, são agora mais ou menos uma tentativa de suportar a insondável e inconsciente sabedoria instintiva de milhões de gerações passadas, contra o comparativamente raso e consciente raciocínio e as conclusões efêmeras extraídas daquelas dos últimos trinta ou quarenta.

A característica salvadora do sistema do Banco Musical erewhoniano (enquanto distinto das visões quase idolatras que coexistem com ele, e nas quais eu tocarei depois) é que, embora ele testemunhasse a existência de um reino que não é deste mundo, ele não fez tentativa de perfurar o véu que o oculta dos olhos humanos. É aqui que quase todas as religiões erram. Os sacerdotes delas tentam fazer nós acreditarmos que eles conhecem mais sobre o mundo invisível do que aqueles cujos olhos estão cegos pelo visível, podem alguma ver conhecer – esquecendo-se de que, enquanto negar a existência de um reino invisível é ruim, pretender que nós conhecemos mais sobre ele do que a sua simples existência não é melhor.

Este capítulo já é mais longo do que eu pretendia, mas eu devo gostar de dizer que, a despeito da característica salvadora que mencionei há pouco, eu não posso deixar de pensar que os erewhonianos estão na véspera de alguma grande mudança em suas opiniões religiosas ou, pelo menos, naquela parte dela que encontra expressão através dos seus Bancos Musicais. Até onde eu pude ver, completamente noventa por cento da população da [120]metrópole olhava para esses bancos com alguma coisa não muito distante do desdém. Se for assim, qualquer evento tão surpreendente, como é certo de surgir mais cedo ou mais tarde, pode servir como núcleo para uma nova ordem de coisas que estarão mais em harmonia tanto com as cabeças quanto com os corações do povo.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 108-120. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/108/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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