A Múmia! Um Conto do Século XXII
Por Jane C. London
Volume I
Capítulo VIII
[162]A jornada do duque e do seu grupo para Londres não teve nada nela para a distinguir de centenas de outras jornadas, eles não encontraram uma única aventura digna de ser registrada e chegaram em perfeita segurança ao palácio do duque, o qual estava situado na Strand (essa sendo naqueles dias, como nós afirmamos antes, a parte mais elegante de Londres) e tinha lindos jardins declinando-se abruptamente até o Tâmisa.
O duque tinha trazido todo o seu pessoal para a cidade; e seria difícil conceber qualquer um em um alvoroço maior do que a digna sra. Russel, por vários dias após a chegada deles. O afetuoso Abelard não conseguia encontrá-la [163]livre por um único momento, para ouvir as afusões poéticas dele. Contudo em um dia, tendo ficado, como ele concebia, particularmente feliz, ele determinou-se a fazer a si mesmo ouvido. Portanto, ele esperou pela bela Eloisa, quem ele encontrou ocupadamente empregada dando direcionamentos aos servos.
“Sra. Russel!” suspirou ele, na cadência mais suave do amor; mas a sra. Russell não o ouviu; ela estava falando com a cozinheira. “Você tem de alterar bastante o seu estilo, Angelina,” disse ela, “lembre-se, nada pode ser simples demais para grandes pessoas. Fricassés e ragus são apenas devorados pela canaille.”
“Eu fui instruída sobre isso, madame,” respondeu Angelina, uma cozinheira grande, gorda e bonita, “mas eu lisonjeio-me de que saiba como inventar pratos ----”
“Isso é a coisa mesma que você tem de evitar,” interrompeu a Sra. Russel, “qualquer coisa feita pelo país, mas aqui o caso é diferente: a posição social do duque requer um certo grau de estilo, e agora é moda para as pessoas grandes terem apenas um prato, e esse tão simplesmente cozido [164]quanto possível. Um amigo meu contou-me, um que deu uma espiada no grande jantar que a rainha deu outro dia para embaixadores estrangeiros, que não havia absolutamente nada sobre a mesa, exceto uma carne de coxa cozida, e um grande prato de batatas defumadas, ainda com suas cascas.”
“Bem, madame,” retornou Angelina, “eu reunirei igualmente minhas energias físicas e mentais para propiciar a você toda a satisfação em meu poder; a despeito disso, eu estou livre para confessar que, em minha opinião, a ciência gastronômica está agora cruelmente negligenciada, e que eu não penso que os poderes digestivos do estômago podem ser apropriadamente excitados a partir do seu estado dormente por uma comida tão desestimulante quanto você menciona. Ademais, a força muscular do estômago deve ficar constrangida para decompor comidas tão sólidas, e eu deveria considerar o diafragma seriamente machucado-”
“Você, Alphonso,” continuou a Sra. Russel, dirigindo-se ao criado, e cruelmente interrompendo a arenga instruída da cozinheira, “tem de tomar mais cuidado com a limpeza das pinturas. Há [165]uma bela grande pintura de um dos antigos artistas ingleses, sobre a porta, no melhor salão, as cores da qual estão bastante enfraquecidas; eu temo que você tenha usado alguma coisa impropria para a limpar.”
“De fato, madame,” retornou Alphonso, “Eu penso que a falta está na pintura mesma. Ela não secou bem originalmente; eu não penso que o óleo que foi usado em sua composição tinha o carbono e hidrogênio misturados em proporções apropriadas. Você sabe, madame, que o óleo em geral tem afinidade espetacular com o oxigênio e absorve-o rapidamente; agora, embora o óleo dessa pintura tenha estado exposto por anos à ação do ar atmosférico comum, todavia, ele nunca se espessou apropriadamente em um estado concreto.”
“Sra. Russel!” bradou Abelard, aventurando-se a suspirar um pouco mais alto.
“Oh, sr. Abelard!” exclamou a bela Eloisa, com uma bela simulação de confusão, “como você me assustou! Eu declaro que você fez eu erguer o adnato dos meus órgãos visuais, como um dos gênero anas quando as nuvens estão carregadas com fluido elétrico, enquanto meu coração [166]saltou de sua posição transversa em meu diafragma, e pareceu enfiar-se como um grande osso exatamente através do meu esôfago.”
“Quão miserável eu sou por ter ocasionado temores no teu amável seio. Aham, aham! Poderia eu ter a esperança de ser favorecido com uma breve entrevista.”
“Em um momento, querido sr. Abelard! Eu atenderei você; eu apenas concluirei minhas instruções. Você sabe, o duque dá um grande jantar hoje, e meu coração palpita no seio com o temor de que eu deveria cometer algum erro. Essas pessoas criadas na cidade são tão peculiares.”
“Você não tem de temer nenhum escrutínio.”
“Ah, sr. Abelard! Eustace!” dirigindo-se ao mordomo, “você não deve se importar em trazer nenhuma variedade de vinhos para a mesa; nada é bebido agora, exceto vinho do porto e vinho de xerez, e mesmo eles estão saindo de moda. Contudo, eu tenho muita cerveja forte e cerveja preta, pois agora elas são reconhecidas como os licores mais elegantes para as damas.”
“Eu deverei realizar meu esforço máximo para obedecer às suas injunções, madame,” disse Eustace, [167]curvando-se respeitosamente; “mas eu não posso imaginar que qualquer espécie de milho, mesmo se ela tiver passado por fermentação vínica, possa produzir um líquido tão agradável para o paladar, tanto quanto condutivo à sanidade do corpo, como o suco de uva.”
“Você não pode dispôr de um único momento para me ouvir?” suspirou Abelard.
“Eu quase terminei: eu apenas tenho de pedir para vocês, Evelina e Cecilia,” dirigindo-se às criadas, “ vocês superintenderão cuidadosamente o arranjo dos dormitórios: deixem o ar sair das camas e reinflem-nas – examinem os colchões de molas elásticas – varram os carpetes de veludo e cuidem de se os tubos para retirada do ar decomposto e admissão de ar fresco estão em ordem adequada; - também, limpem as banheiras anexadas a cada câmara, e cuidem de se há um suprimento abundante de água.”
“Disseram-me que ablução no fluido aquoso comum está tornando-se de mais bom gosto do que quaisquer banhos medicados,” disse Evelina, “e que algumas pessoas de posição social efetivamente usam uma [168]composição de álcali e óleo para remover as partículas pulverizadas que podem ter se alojado sobre a epiderme delas durante o curso do dia.”
“A partir dos comandos que você proferiu, madame,” regressou Cecilia, “eu temo que você esteve desatenta da alteração que foi efetuada no dormitório superior. O ar lá não é mais mudado através de tubos – mas há um ventilador de pena de leque fixo no teto, o qual, através de suas ondulações gentis, ocasiona uma circulação livre do fluido aeriforme. Contudo, eu não considero que seja muito adequado suprir o lugar com os tubos, visto que, ao entrar no aposento nesta manhã, eu percebi uma forte sensação de azoto, e considerei que a proporção de nitrogênio mais do que triplicou do que aquela de oxigênio através do apartamento todo.”
“Eu sinto por isso, mas, como não pode ser evitado, nós devemos nos submeter. Agora, sr. Abelard, eu estou pronta para o atender.”
“Eu tomei a liberdade de – de – desejar,” disse o mordomo, por sua vez, em sua comovente surpresa, “mostrar a você um pouco de poesia. Estes são alguns versos próprios, no estilo acromonogramático, [169]apenas que cada linha começa com a mesma palavra com a qual a última terminou, em vez de com a mesma letra. Permitir-me-á lê-los para você?”
A sra. Russel graciosamente sorriu consentindo, e Abelard, desdobrando o papel, leu como se segue: -
“SOBRE O AMOR
De todos os poderes no Céu acima,
Acima de todos os outros, triunfa o Amor;
O amor governa a alma – o coração invade,
Invade as cidades e as sombras.
As sombras não formam abrigo do seu poder,
O poder treme em seu caramanchão cortês.
Caramanchão da beleza – tu és livre?
Livre tu não és – nem podes tu ser!
Seja toda outra classe liberada,
Liberada do amor, tua infelicidade intensificada;
Intensificada por todo o peso do cuidado,
Cuidado fluindo a partir do desespero completo.”
“Charmoso!” exclamou a sra. Russel, “eu apenas confesso que não entendo porque o desespero vem na última linha.”
“Desespero – desespero: oh! Para rimar com cuidado, minha Eloisa. Espero que eu não deva ter nenhuma outra razão para falar de desespero.”
[170]“Oh querido sr. Abelard, não tente tirar vantagem indevida da minha ternura.”
“Que os céus proíbam!” exclamou ele, tomando a mão dela, quando a cena de amor deles foi cruelmente interrompida pela visão inesperada de Edric, quem aconteceu de, neste momento, passar no balão de lorde Gustavus de Montfort. O reconhecimento foi mútuo, e Edric, quem ficou tão excessivamente agitado com este encontro, o qual o convenceu que o seu pai estava na cidade, de modo que ele se determinou a não mais adiar a sua jornada, visto que o seu temor do encontro era excessivo. Portanto, ele resolveu procurar seu mentor e, se ele o encontrasse inclinado a procrastinar, a partir sem ele. Contudo, ao alcançar a câmara do doutor, ele encontrou metade de sua inquietação convertida em riso diante da situação ridícula do pobre filósofo, quem, cercado como ele estava por todos os lados por uma multidão de mercadores clamorosos por pedidos, parecia alguma coisa como Mercúrio rodeado por uma tribo de fantasmas descontentes sobre os bancos de areia do Estige.
“Sim, sim, sr. Jones,” disse ele; “Eu vejo que você me entende. Os casacos devem ser aqueles [171]tecidos em máquinas, onde a lã é removida das costas da ovelha por uma extremidade, e casaco sai, completamente produzido, na moda mais recente, na outra.”
“Muito bem, Sir,” disse o sr. Jones, abanando suas orelhas em sinal de assentimento; pois naqueles dias de educação universal, mesmo os músculos da cabeça eram treinados para desempenharem funções que, em dias antigos, era apenas possível que eles pudessem conseguir: “Você está muito certo, Sir, - nenhuma pessoa de moda nunca usa qualquer outra coisa agora.”
“Oh, Edric!” bradou o doutor, “Eu deverei estar pronto para atender você diretamente: - e assim, sra. Celestina, você deve fazer a sopa, se lha agradar, à prova d’água; e você, sr. Crispin, tem de ter as botas prontas para dissolver imediatamente. Oh céus! Oh céus, em que confusão eu estou, minha cabeça está seguindo como um barco a vapor, à razão de sessenta milhas por hora?”
“Acredite em mim, doutor,” disse Edric, olhando em volta, consternado, “se nós devêssemos levar as coisas reunidas aqui, eu não sei [172]onde nós deveríamos encontrar um balão suficientemente grande até para nos elevar do chão.”
“Eu mostrarei a você,” respondeu o doutor, misteriosamente; e solenemente sacando uma chave do seu peito, a qual parecia estar suspensa por uma fita no pescoço dele, ele lentamente abriu, com grande dificuldade, uma gaveta secreta em seu escritório, e expôs dos recessos mais íntimos uma garrafa de borracha indiana. A gravidade de estilo do doutor, e a extensão de tempo que ele tinha empregado nessa operação, excitaram a curiosidade de Edric, e ele irrompeu em um violenta e incontrolável crise de riso quando ele viu o resultado.
“Qual é o problema, Edric?” respondeu o doutor, com a solenidade máxima; “qual pode ser a ocasião dessa leviandade sem cerimônia e inoportuna?”
“Montanhas parturientes, meu cado doutor,” respondeu Edric, ainda rindo, - “você sabe o resto.”
“O ridículo, Edric,” disse o doutor gravemente, “de maneira nenhuma é o teste de verdade. Os tolos frequentemente [173]– ou melhor, geralmente, riem daquilo que eles não podem entender, e quando eu dever ter explicado os motivos da minha conduta, eu confio que você se sentirá envergonhado da sua presente hilaridade fraca e irracional. A borracha, Edric, é uma substância capaz de dilatação e contração surpreendentes; ao passo que a elasticidade e tenacidade peculiares das suas fibras dão-lhe uma força e solidez, muito raras em corpos quando em um estado de tensão extrema. Mas antes que eu informe a você o novo uso ao qual eu intenciono aplicá-la; há vários fenômenos extraordinários relacionados aos corpos elásticos, os quais eu estou feliz de ter uma oportunidade apropriada de explicar a você.” (Edric bocejou.) “Você sabe, as substâncias elásticas têm o poder de resistir maravilhosamente a uma força que aniquilaria sólidos, aparentemente infinitamente mais fortes do que elas mesmas, como uma cama de penas resistiria a uma bola de canhão que penetraria facilmente através de uma mesa espessa. Agora, a razão para isso é evidente: o corpo elástico tem o poder de convocar todas as suas forças para a sua assistência, pois o efeito de um golpe pode ser traçado até a sua extremidade mais remota; ao passo que a substância sólida pode apenas [174]se opor ao seu inimigo pela mera resistência da idêntica parte golpeada.”
“Certamente,” disse Edric, esperando para suprimir um bocejo; “nada pode ser mais claro.”
“Nada,” resumiu o doutor. “Eu estava certo que você admiraria a força do meu raciocínio; de fato, eu vejo o excesso da sua admiração nos bocejos involuntários aos quais você esteve cedendo. Em algumas ocasiões, Edric, o homem livra-se das restrições sociais da sociedade, e irrompe na liberdade completa da natureza honesta e não sofisticada: - dessa forma é com você, Edric. Em tempos antigos, a extensão das mandíbulas era considerada sinônima da extensão do entendimento, e a abertura da boca e dos olhos era considerada como o maior sinal possível de prazer que poderia ser dado. Nas obras de um antigo autor, cuja poesia uma vez, sem dúvida, foi considerada muito fina, uma vez que agora é bastante ininteligível, nós encontramos a passagem seguinte: - ”
‘E Hodge permaneceu perdido em especulação de boca aberta.’
Novamente,
[175]‘Seu olhos e boca o heroi arreganhou.’
- e diversas outras, as quais -”
“Nós deixaremos isso para uma oportunidade mais conveniente, se você desejar,” disse Edric, interrompendo-o. “No presente, favoreça-me com a sua atenção por cinco minutos. Nós não podemos levar todas essas coisas.”
“Por que não?” perguntou o doutor, encarando o seu pupilo com sua surpresa; “pela minha parte, eu não penso que nós possamos dispensar um único artigo.”
“Esses mantos,” disse Edric, “e aquelas cestas, por exemplo, não podem ser da menor utilidade.”
“Eu suplico o seu perdão,” retornou o doutor: “Os mantos são de abesto, e serão necessários para nos proteger de ignição, se nós devemos encontrar qualquer matéria elétrica nas nuvens; e os cestos estão cheios com tampões elásticos para nossos ouvidos e narizes, e tubos e barris de ar comum, para nós respirarmos quando nós chegarmos além da atmosfera da terra.”
“Mas que ocasião nós deveremos ter para ir além disso?”
“Como pode ser de outra maneira? Certamente você [176]não quer dizer viajar a distância toda no balão? É claro, eu pensei que você adotaria a presente forma da moda de viajar, e, após montar as dezessete milhas ou aproximadamente, o que é necessário para se livrar da atração mundana, esperar lá até que o giro do globo deva trazer o Egito diretamente sob os nossos pés.”
“Mas não é a mesma latitude.”
“Verdadeiro, eu não pensei nisso! Bem, então,” suspirando profundamente, “eu suponho que nós temos de conseguir sem o cesto?”
“Certamente; e sem aquelas caixas e garrafas, também, eu espero.”
“Oh não! Nós não podemos conseguir sem aquelas. Aquelas garrafas contêm o meu elixir mágico, que curas todas as doenças meramente pelo odor: - uma nova ideia essa. Você sabe que foi há muito descoberto que a inteira matéria médica poderia ser transportada em um anel, e que todos os instrumentos de cirurgia poderiam ser comprimidos dentro de uma bengala. Mas a ideia de farejar saúde em uma pitada de rapé, eu lisonjeio-me, é exclusivamente minha própria.”
[177]“Muito provável; mas não podemos ficar sobrecarregados com a sua panaceia em nossa viagem aérea.”
“Então aquela caixa contém minha bateria galvânica portátil; aquela, meu aparato para produzir e coletar ar inflamável; e aquela, minha máquina para produzir e concentrar o vapor mercúrio, o qual deve servir como o poder propulsor para nos impulsionar adiante, no lugar do vapor; e essas bexigas estão cheias com gás do riso, para o único propósito de manter nossos espíritos elevados.”
“Os três primeiros serão úteis,” disse Edric; “mas eu positivamente não aceitarei mais.”
“Adieu! Adieu! Então, meus tesouros preciosos!” exclamou o doutor, olhando tristemente ao redor: “Querida prole dos meus cuidados! Filhos da minha mente! E eu tenho de abandonar vocês em alguma mão rude, a qual, descuidada do seu valor inestimável, pode dispersar vocês aos ventos? Ai de mim! Ai de mim!”
“O café da manhã está pronto, e meu lorde está esperando!” Interrompeu a voz esganiçada de um dos servos de lorde Gustavus.
[178]“Então nós temos de ir!” disse o doutor; e o resto dessa lamentação patética permaneceu para sempre enterrado em seu próprio peito.
lorde Gustavus já estava sentado, quando eles entraram no aposento, com dois cavalheiros, quem ele introduziu aos nossos viajantes como lorde Noodle e lorde Doodle. Esses nobres lordes eram ambos conselheiros de estado, assim como o seu ilustre anfitrião, e tinham alcançado essa alta honra exatamente da mesma maneira, a saber, eles ambos tinham sucedido aos seus respectivos pais. Não é fácil ser muito difuso na descrição deles, visto que eles eram membros daquela fraternidade honorável e numerosa, quem nunca aceitam o problema de julgar por si mesmos, mas, satisfeitos, nadam com a corrente, em qualquer direção que ela possa fluir, e não têm nada sobre eles para os distinguir no grau mais leve da multidão. No presente, lorde Gustavus era a sua estrela-líder e eles, muito apropriadamente, poderiam ser denominados de satélites dele. Dessa forma, quando qualquer nova ideia aparecia, eles cautelosamente evitavam dar uma opinião até que eles descobrissem o que ele pensava dela: - então eles pareceriam sábios, [179]sacudiriam suas cabeças, e diriam, “Exatamente assim!” “Certamente!” “Ninguém pode duvidar disso!” ou alguma dessas outras convenientes frases ripieno, as quais preenchem tão agradavelmente as pausas na conversação, sem requerer nenhum exercício dificultoso dos poderes mentais, quer do ouvinte, quer do falante. Esses cavalheiros agora tinham visitado lorde Gustavus, com o propósito de o acompanhar e a Edric à recepção da Rainha, e, tinham tomado café da manhã, o grupo todo, com a exceção do Dr. Entwerfen, prosseguiu para a corte.
Contudo, quando chegaram, eles descobriram que a Rainha ainda não tinha se levantado. “Sua majestade está atrasada nesta manhã,” observou lorde Maysworth, um cavalheiro carregado de ordens e decorações, dirigindo a lorde Gustavus: - “Eu não estou surpreso,” disse sua senhoria, “pois sua mais graciosa Majestade me disse outro dia que ela dormiu mal por algum tempo.”
“É claro, o que lhe causou grande tristeza?” perguntou o dr. Hardman, um pequeno cavalheiro, de aparência satírica, em uma peruca curta.
[180]“Pensando como eu penso,” disse lorde Gustavus gravemente, “e como eu estou certo de que cada um aqui deve pensar, ou, pelo menos, deveria pensar, a falta de sono de sua Majestade é uma circunstância de importância muito séria.”
“Oh! Muito!” exclamou lorde Noodle, sacudindo a cabeça. “Muito certamente!” exclamou lorde Doodle, sacudindo a dele.
“Por quê?” demandou o doutor; “de que possível consequência isso pode ser para os súditos dela, se sua Majestade dorme corretamente ou tem pesadelos?”
“Da maior consequência,” respondeu lorde Gustavus, solenemente.
“Nada pode ser maior!” ecoaram seus satélites.
“Bem!” observou lorde Maysworth, “de minha parte, eu sou um traidor tão grande quanto a pensar que nós poderíamos existir, mesmo se a Rainha não dormisse de qualquer maneira.”
“Ou se ela dormisse para sempre,” ressurgiu o doutor, significativamente.
“Oh, nossa!” exclamou lorde Gustavus; “o que [181]se tornaria de nós se o grande sol do hemisfério político estivesse para se pôr!”
“Nós temos de observar a ascensão de outro, eu suponho,” disse lorde Maysworth.
“Sim,” continuou o dr. Hardman: “e então as energias das pessoas seriam excitadas. Eles querem despertar do seu torpor presente – eles dormiram por tempo demais sob os efeitos paralisantes da tirania. O governo carece de reforma; a corrupção comeu raiz dele, e ela deve ser erradicada antes que a Inglaterra possa ser livre, ou o seu povo feliz. Quisessem os céus que eu pudesse viver para auxiliar no esforço glorioso; para que eu pudesse ver o povo afirmar o direito dele, e o demônio, o Despotismo, afundar sob seus golpes!”
“Eu sempre admirei,” disse lorde Maysworth, “a elevada integridade e os princípios finos do digno doutor, os quais não apenas obtiveram para ele o aplauso da Inglaterra, mas a admiração da Europa. A coragem, sabedoria e pureza da mente dele não podem ser exaltadas altamente demais; e todos quem [182]o conhecem concordam em o chamar de amigo firme e devotado do gênero humano. Eu também fui um apoiador humilde dos planos de economia e cerceamento; e fui eu quem teve a honra de sugerir ao conselho, em outro dia, que uma petição humilde deveria ser apresentada a sua Majestade, requisitando, respeitosamente, a ela ordenar uma diminuição das luzes se seu salão, provando incontestavelmente, que haviam, pelo menos, seis mais do que o absolutamente necessário.”
“Pensando como eu penso, e como eu estou certo que cada um aqui deve pensar,” começou lorde Gustavus, - mas, antes que ele tivesse tempo de terminar o seu exórdio, as portas dobráveis nos fundos da câmara de audiência forma abertas, e a Rainha apareceu, sentando-se sobre um trono deslumbrante e cercada pelos oficiais da sua casa, todos esplendidamente vestidos.
As cerimônias usuais ocorreram: - Claudia sorriu graciosamente para Edric enquanto ele beijava a mão dela, e inquiriu quando ele intencionava partir. Edric informou-a, pela manhã; quando, condescendendo para expressar arrependimento, e desejando ver-lhe em seu retorno, [183]ela desejou-lhe uma viagem agradável e dispensou-o.
É um dos mais gloriosos atributos da grandeza, ter o poder da conceder grande prazer dizendo muito poucas palavras; todavia, como durante a viagem deles para casa, o lorde Gustavus não pode falar sobre nada exceto sobre a graciosidade da Rainha, sobre a qual ele ainda estava expandindo, quando o balão parou; Edric, embora ele se sentisse agradecido pela gentileza dela, ficou aborrecido por ouvir tanto sobre ela, e apressou-se para o deixar, tão logo ele pudesse, com propriedade. No caminho para o seu apartamento, ele ouviu um barulho estranho e assustador, como a voz de alguém gritando em uma agonia de ira e dor, o qual parecia provir da câmara apropriada pelo seu instruído tutor; e ele estava indo para lá para determinar a causa, quando a forma agitada do filósofo infeliz irrompeu sobre ele.
Triste, de fato, era a condição na qual esse ornamento esplêndido do século XXII agora se apresentava diante dos olhos do seus pupilo assombrado. O rosto dele brilhava como fogo; [184]o chapéu dele foi tirado, e água fluía de cada parte do seu corpo, até que ele parecia a efígie de uma divindade da água em uma fonte.
“Aqui está a administração!” bradou ele, tão logo a sua ira permitiu-lhe falar; “aqui está o tratamento para alguém dedicado ao serviço do gênero humano! Mas eu serei vingado, e séculos ainda por vir deverão tremer diante da minha ira.”
Ele continuou dessa maneira; e, estando ocupado demais com essas denúncias horríveis para ser capaz de dar qualquer informação quanto a qual calamidade o tinha trazido a essa situação imprópria, será necessário retornar um pouco para explicar isso para ele.
Quando o dr. Entwerfen deixou a sala do café da manhã de lorde Gustavus, o que ele não fez até um tempo considerável depois do resto do grupo ter saído, ele estava tão absorvido em meditação que ele não sabia exatamente por qual caminho ele estava indo; e, acontecendo infelizmente de ele virar para a direita quando ele deveria ter ido para a esquerda, para sua surpresa infinita, ele descobriu-se na cozinha, em vez do seu próprio escritório.
Contudo, ausente como o doutor estava, a atenção [185]dele logo foi excitada pela cena diante dele. Sendo, como muitos de sua irmandade instruída, um pouco guloso, a indignação dele foi violentamente excitada ao encontrar a cozinheira confortavelmente adormecida em um sofá em um lado do cômodo; enquanto que a carne planejada para o banquete, uma refeição que era então da moda tomar por volta do meio-dia, estava tão confortavelmente descansando dos seus labores no outro. O substituto químico para o fogo, o qual a deveria ter cozido, tendo se esgotado, e o cochilo da cozinheira excluindo toda expectativa razoável de sua reiluminação, a ira do doutor foi acessa, embora o fogo não o fosse, e, em uma ira violenta, ele agarrou o ombro da gentil Celestina, e sacudiu-a até que ela despertou.
“Onde eu estou?” exclamou ela, abrindo os olhos.
“Em qualquer lugar, exceto onde você deveria estar,” bradou o doutor, em uma fúria. “Olhe, petulante! Olhe para a bela junta de carne, jazendo bastante fria e encharcada em seu próprio vapor.”
“Céus!” retornou Celestina, bocejando, “eu realmente estou muito desafortunada hoje! Um acidente infeliz já aconteceu a uma perna de [186]carneiro, a qual devia ter formado parte dos alimentos de hoje; e agora esta peça de bife também está destruída. Eu temo que não haverá nada para o jantar, exceto alguns vegetais sacarinos mucilaginosos, e eles, muito provavelmente, serão fervidos a uma consistência viscosa.”
“E que desculpa você pode oferecer para tudo isso?” exclamou o doutor, a voz dele tremendo de paixão.
“Era inevitável,” respondeu Celestina, friamente. “Enquanto eu estava lidando um aspecto do Apolo Belvidere nesta manhã, tendo aplicado descuidadamente calórico ao recipiente contendo a perna de carneiro, o fluido aquoso no qual ela estava imersa, evaporou, e a comida tornou-se completamente calcinada; ao passo que o outro assunto-”
“Quieta, quieta!” interrompeu o doutor; “Eu não posso suportar ouvir você mencionar isso. Oh, certamente Jó mesmo nunca sofreu um tal teste da sua paciência. De fato, as dificuldades dele eram escassamente dignas de serem mencionadas, pois ele nunca foi amaldiçoado com servos instruídos!”
Dizendo isso, o doutor retirou-se, lamentando o seu [187]destino difícil por não ter nascido naqueles dias idílicos quando os cozinheiros não obtinham nada exceto suas aves; enquanto que o peito de Celestina arquejava com indignação diante da reclamação dele. Logo uma oportunidade para vingança ofereceu-se; e, vendo o manobrista a vapor do doutor, ela traiçoeiramente aplicou uma porção dupla de calórico: em consequência da qual a máquina explodiu no ato de escovar a gola do casaco, e descarregando toda água escaldante contida em seu caldeirão sobre ele, reduziu-o ao estado melancólico que nós já mencionamos.
O medo do ridículo acrescido a esse incidente, em uma grande medida reconciliou o doutor com o projeto de Edric de uma partida rápida, e, na manhã seguinte, eles desejavam adieu a lorde Gustavus e, entrando em seu balão, navegaram para o Egito.
ORIGINAL:
LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.162-187. Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n176/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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