Erewhon: ou, Além da Cordilheira
Por Samuel Butler
[136]XVIII Fórmulas de Nascimento
Eu ouvi o que se segue não de Arowhena, mas do sr. Nosnibor e de alguns dos cavalheiros que ocasionalmente jantavam na casa: eles disseram-me que os erewhonianos acreditavam na pré-existência; e não apenas isso (sobre o que eu escreverei mais completamente no capítulo seguinte), mas eles acreditam que é por causa do seus próprios ato e feito livres em um prévio estado que eles vem a nascer neste mundo de qualquer maneira. Eles sustentam que os não nascidos estão perpetuamente empesteando e atormentado os casados de ambos os sexos, flutuando ao vento sobre eles incessantemente, e não lhes dando paz de mente ou de corpo até que eles tenham consentido em os tomar sob sua proteção. Se isso não fosse assim (pelo menos é nisso que eles insistem), seria uma liberdade monstruosa para um homem tomar com outro, dizer que eles deveriam passar pelas mudanças e mudanças desta vida mortal sem qualquer opção no assunto. Nenhum homem teria nenhum direito de se casar de qualquer maneira, na medida que ele nunca pode dizer qual miséria terrível o seu agir assim pode forçosamente implicar sobre um ser que não pode ser infeliz enquanto ele não existe. Eles sentem isso tão fortemente que estão resolvidos a deslocar a culpa para outros ombros; e deram forma a uma longa mitologia quanto ao mundo no qual o povo não nascido vive, e o que eles fazem, e as artes e maquinações às quais eles recorreram para entrar em nosso próprio mundo. Mas sobre isso mais em breve: o que eu relacionaria aqui é maneira deles de lidar com aqueles que chegam.
É uma peculiaridade distinta dos erewhonianos que, quando eles professam a si mesmos estarem muito certos de qualquer assunto, e admitem-no como uma base sobre a qual eles devem construir um sistema de prática, eles raramente acreditam nele. Se eles cheirassem um rato em torno dos recintos de uma instituição querida, eles sempre suprimirão os narizes deles para ele, se eles puderem.
Isso é o que a maioria deles faz nessa questão do não nascido, pois eu não posso (e nunca poderia) pensar que eles seriamente acreditavam na sua mitologia relativa à [137]pré-existência: eles acreditavam e não acreditavam; eles mesmos não sabiam no que eles acreditavam; tudo que eles sabiam era que era uma doença não acreditar como eles acreditavam. A única coisa da qual eles estavam bastante certos era que era a importunação do não nascido que os levava a serem trazidos a esse mundo, e que eles não teriam estado aqui se eles tivessem deixado as pessoas em paz sozinhas.
Seria difícil negar essa posição, e eles poderiam ter um bom caso se eles apenas deixassem isso como está. Mas isso eles não farão; eles têm de ter garantias devidamente certas; eles têm de ter a palavra escrita da criança mesma tão logo ela tenha nascido, concedendo aos pais isenção legal de toda a responsabilidade por causa do nascimento dela e asseverando a sua própria pré-existência. Portanto, eles conceberam alguma coisa que chamam de uma fórmula de nascimento – um documento que varia em palavras de acordo com a cautela dos pais, mas é muito o mesmo praticamente em todos os casos; pois tem sido a ocupação dos advogados erewhonianos durante muitas eras exercitarem os seu talento aperfeiçoando-o e provisionando para cada contingência.
Essas fórmulas são impressas em papel comum, a um custo moderado, para o pobre; mas o rico tinha-as escritas sobre pergaminho e lindamente encadernado, de maneira que chegar à fórmula de nascimento de uma pessoa é um teste da sua posição social. Elas começam estabelecendo, Que, considerando que A. B. era um membro do reino dos não nascidos, onde ele era bem provisionado de toda forma, e não tinha causa de descontentamento, etc., etc., ele concebeu a partir de sua própria depravação e inquietação devassas um desejo de entrar no mundo presente; que, depois disso, tendo dado os passos necessários como estabelecidos nas leis do reino não nascido, ele decidiu-se, com malícia premeditada, a incomodar e azucrinar duas pessoas infelizes que nunca tinham errado com ele, e quem estavam bastante contentes e felizes até que ele concebeu o seu desejo básico contra a paz delas; erro pelo qual ele agora humildemente suplica o perdão delas.
[138]Ele reconhece que é responsável por todos os defeitos e as deficiências físicas que podem tornar-lhe responsabilizável perante as leis do seu país; que os seus país não tem nada que seja a ver com nenhuma dessas coisas; e que eles têm um direito de o matar de uma vez se eles assim estiverem dispostos, embora ele suplique que eles mostrem sua bondade e clemência maravilhosas poupando sua vida. Se eles fizerem isso, ele promete ser a criatura mais obediente e abjeta durante os seus anos iniciais e, de fato, durante toda a sua vida, a menos que eles devam considerar adequado, em sua generosidade abundante, perdoar alguma porção do seu serviço futuramente. E assim a fórmula contínua, entrando algumas vezes em detalhes muito minúsculos, de acordo com as imaginações de advogados de família, quem não a tornaram nada mais curta do que eles podem ajudar.
O feito sendo preparado dessa maneira, no terceiro ou quarto dia após o nascimento da criança, ou como eles o chamam, a “importunação final,” os amigos reunem-se, e há um banquete realizado, onde todos eles estão muito melancólicos – como uma regra, eu acredito, bastante verdadeiramente dessa maneira – e apresentam presentes para o pai e a mãe da criança para os consolar pela injúria que há pouco foi feita a eles pelo não nascido.
Após um curto período, a criança mesma é humilhada por sua cuidadora, e a comitiva começa a reclamar sobre ela, censurando-a por sua impertinência, e perguntando a ela quais emendas ela propõe fazer para o erro que ela cometeu, e como ela pode procurar por carinho e alimentação a partir daqueles que talvez já tenham sido prejudicados pelo não nascido em algumas dez ou vinte ocasiões; pois eles dizem das pessoas com grandes famílias que elas sofreram prejuízos terríveis dos não nascidos; até que, finalmente, quando isso ocorreu por tempo suficiente, alguém sugere a fórmula, a qual é apresentada e solenemente lida para a criança pela família do endireitador. Esse cavalheiro sempre é convidado nessas ocasiões, pois o fato mesmo da intrusão em uma família pacífica mostra uma depravação da parte da criança que requer os serviços profissionais dele.
[139]Sendo provocada pela leitura e ajustada pela cuidadora, a criança comumente começará a chorar, o que é reconhecido como um bom sinal, como revelando uma consciência de culpa. Depois disso, pergunta-se a ela, Ela consente com a fórmula? No que, como ela ainda continua chorando e obviamente não pode produzir resposta, algum dos amigos vem à frente e encarrega-se de assinar o documento em seu nome, sentindo-se certo de que (assim ele diz) a criança faria isso se ela apenas soubesse como, e que ela liberará o signatário presente do seu compromisso ao chegar à maturidade. O amigo então inscreve a assinatura da criança na base do pergaminho, o qual é considerado vincular tanto a criança como ela mesma tivesse assinado-o.
Contudo, mesmo isso não os satisfaz completamente, pois eles sentem-se um pouco apreensivos até que eles tenham obtido finalmente a própria assinatura da criança. Assim, quando ela está perto de quatorze, essas boas pessoas parcialmente a subornam com promessas de maior liberdade e boas coisas, e parcialmente a intimidam através do seu grande poder para se tornarem ativamente desagradáveis para ela, de maneira que, embora haja uma exibição de liberdade feita, realmente não há nenhuma; eles também usam os cargos dos professores dos Colégios da Insensatez, até o último, de uma maneira ou de outra, ele tomam muito cuidado para ela deva assinar o pepel pelo qual ela professa ter sido um agente livre em sua entrada no mundo, e assumir toda a responsabilidade de ter feito isso sobre os seus próprios ombos. E contudo, embora esse documento seja o mais importante que qualquer um pode assinar em sua inteira vida, eles a terão fazê-lo em uma idade quando nem eles nem o direito permitirão, por muitos anos, que ninguém mais a vincule à menor das obrigações, não importa quão corretamente ela possa devê-la, porque eles a consideram jovem demais para conhecer no que ela está envolvida, e não consideram justo que ela deva comprometer-se com qualquer coisa que a possa prejudicar em anos seguintes.
Eu admito que tudo isso pareceu bastante difícil, e não do mesmo tipo que muitas das instituições admiráveis existentes entre eles. [140]Uma vez eu me aventurei a dizer uma parte do que eu pensava sobre isso para um dos professores de Insensatez. Eu fiz isso muito ternamente, mas a justificação do sistema por ele foi muito fora da minha compreensão. Eu lembro de perguntar a ele se não causaria prejuízo aos princípios de um rapaz, ao enfraquecer o seu senso de santidade de sua palavra e da verdade de modo geral, que ele deveria ser conduzido a entrar em uma declaração solene quanto à verdade de coisas sobre as quais tudo o que ele pode conhecer certamente é que ele não conhece nada – se, de fato, os professores que o conduziram, ou quem ensinaram qualquer coisa com uma certeza da qual eles mesmos estavam incertos, não estavam se sustentando ao prejudicar o senso de verdade dos seus pupilos (uma organização principalmente delicada), e ao viciar um dos seus instintos mais sagrados.
O professor, quem era uma pessoa agradável, pareceu muito surpreso diante da visão que eu adotei, mas isso não teve nenhuma influência que fosse sobre ele. Ninguém, ele respondeu, esperava que o menino ou desejaria ou poderia conhecer tudo que ele disse que conhecia; mas o mundo era cheio de compromissos; e dificilmente havia qualquer afirmação que suportaria ser interpretada literalmente. A linguagem humana também era um veículo grosseiro de pensamento – o pensamento sendo incapaz de tradução absoluta. Ele acrescentou que, uma vez que não pode haver tradução de uma linguagem para a outra, a qual não deverá limitar o significado um pouco, ou alargá-lo, assim não há linguagem que possa tornar o pensamento sem uma discordância e uma severidade em algum lugar – e assim por diante; tudo isso pareceu chegar a esse fim, que era o costume do país, e que os erewhonianos eram um povo conservador; que o rapaz teria de começar a comprometer-se mais cedo ou mais tarde, e isso era parte da sua educação na arte. Talvez devesse ser lamentado que o compromisso devesse ser tão necessário quanto era; ainda assim ele era necessário, e quão mais cedo o rapaz chegasse a entender isso, melhor para ele mesmo. Mas eles nunca contam isso ao rapaz.
A partir do livro da mitologia deles sobre o não nascido, eu extrai o que formará o capítulo seguinte.
ORIGINAL:
BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 136-140. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/136/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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