O Último Homem - Volume I - Capítulo IV-I

O Último Homem


Por Mary Shelley


Volume I


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[88]Capítulo IV-I


No dia seguinte, lorde Raymond foi chamado à cabana de Perdita, em seu percurso para o castelo de Windsor. A cor intensificada e os olhos brilhantes de minha irmã revelaram o segredo dela para mim. Ele estava perfeitamente senhor de si; ele cumprimentou-nos ambos com cortesia, e imediatamente pareceu entrar em nossos sentimentos, e fazer-se um conosco. Eu examinei a fisionomia dele, a qual variava conforme ele falava, contudo, era bela em cada mudança. A expressão usual dos olhos dele era suave, embora, às vezes, ele pudesse fazê-los resplandecer com ferocidade; a compleição dele era incolor; e cada traço falava de obstinação predominante; o sorriso dele era agradável, embora o desdém muito frequentemente frisava [89]os lábios deles – lábios que, para olhos femininos, eram o trono mesmo de beleza e amor. A voz dele, usualmente gentil, frequentemente chocava você com uma aguda nota discordante, a qual revelava que o seu usual tom baixo era antes a obra de estudo que natureza. Cheio de contradições dessa forma, inflexível contudo altivo, gentil contudo feroz, suave e ainda negligente, ele, através de alguma arte estranha, encontrava entrada fácil para a admiração e afeição das mulheres; agora acariciando e agora tiranizando sobre elas, mas, em cada momento, um déspota.

No momento presente, Raymond evidentemente desejava parecer amigável. Sagacidade, hilaridade e observação profunda estavam misturadas em sua conversa, tornando cada sentença que ele proferia como um brilho de luz. Ele conquistou meu desgosto latente; eu tentei observá-lo e a Perdita, e manter em mente cada coisa que eu tinha ouvido para a desvantagem dele. Mas tudo parecia tão engenhoso, e tudo era tão fascinante, que eu esqueci tudo, exceto o prazer que a sociedade dele propiciava-me. Sob a ideia de me iniciar na [90]cena da política e sociedade inglesas, das quais eu logo me tornei uma parte, ele narrou um número de anedotas, e esboçou muitos personagens; o discurso dele, rico e variado, fluiu, invadindo todos os meus sentidos com prazer. Exceto por uma coisa ele teria sido completamente triunfante. Ele aludiu a Adrian, e falou dele com aquele menosprezo que o sábio mundano sempre atribui ao entusiasmo. Ele percebeu a nuvem acumulando-se e tentou dissipá-la; mas a força dos meus sentimentos não me permitiria passar tão levemente sobre esse assunto sagrado; assim eu disse enfaticamente, “Permita-me observar que eu estou devotamente unido ao Conde de Windsor; ele é o meu melhor amigo e benfeitor. Eu reverencio a bondade dele, e concordo com as opiniões dele e lamento amargamente a sua doença presente e, eu confio, temporária. Essa doença, por causa da sua peculiaridade, torna doloroso além das palavras para mim ouvi-lo mencionado, a menos que em termos de respeito e afeição.”

Raymond respondeu; mas não havia nada [91]conciliador em sua resposta. Eu vi que no coração dele ele despreza aqueles dedicados a qualquer coisa exceto ídolos mundanos. “Todo homem,” ele disse, “sonha sobre alguma coisa, amor, honra e prazer; você sonha com amizade, e devota a si mesmo a um maníaco; bom, se essa for a sua vocação, sem dúvida você está no direito de a seguir.”

Um pouco de reflexão pareceu ferroá-lo, e o espasmo de dor que, por um momento, convulsionou o seu semblante, restringiu a minha indignação. “Felizes são os sonhadores,” ele continuou, “de modo que, não eles sejam despertados! Eu gostaria de poder sonhar! Mas ‘o dia alto e berrante’ é o elemento no qual eu vivo; o brilho deslumbrante do dia inverte a cena para mim. Mesmo o fantasma deixou-me e o amor” – ele parou; nem eu pude adivinhar se o desdém que frisava os lábios dele era dirigido contra a paixão, ou contra ele mesmo por ser escravo dela.

Esse relato pode ser tomado como uma amostra do [92]meu relacionamento com lorde Raymond. Eu tornei-me íntimo dele, e cada dia propiciava-me ocasião para admirar mais e mais seus talentos poderosos e versáteis, que, juntos com a sua eloquência, a qual era graciosa e espirituosa, e sua riqueza agora imensa, levaram-no a ser temido, amado e odiado além de qualquer outro homem na Inglaterra.

A minha ascendência, a qual reivindicava interesse, senão respeito, a minha antiga conexão com Adrian, o favorecimento do embaixador, o secretário de quem eu tinha sido, e agora a minha intimidade com lorde Raymond, concediam acesso fácil aos círculos da moda e políticos da Inglaterra. Para a minha inexperiência, nós inicialmente parecíamos na véspera de uma guerra civil; cada partido era violento, acrimonioso e inflexível. O parlamento estava dividido por três facções, aristocratas, democratas e realistas. Depois de Adrian ter declarado predileção pela forma republicana de governo, o último partido quase tinha morrido, sem chefe, sem [93]guia; mas, quando lorde Raymond veio à frente como seu líder, ele reviveu com força redobrada. Alguns eram realistas a partir de preconceito e afeição antiga, e havia muitos moderadamente inclinados que temiam igualmente a tirania caprichosa do partido popular e o despotismo inflexível dos aristocratas. Mais de um terço dos membros organizavam-se sob Raymond, e os números deles estavam perpetuamente aumentando. Os aristocratas construíam suas esperanças sobre sua riqueza e influência preponderantes; os reformadores, sobre a força da nação mesma; os debates foram violentos, mais violentos os discursos sustentados por cada grupo de políticos conforme eles se reuniam para arranjar suas medidas. Epítetos injuriosos eram cogitados, resistência mesmo à morte, ameaçada; reuniões do populacho perturbavam a ordem quieta do país; exceto em guerra, como tudo isso poderia terminar? Exatamente quando as chamas destrutivas estavam prestes a irromper, eu vi-as recuar; acalmadas pela ausência dos militares, pela aversão concebida [94]por cada um a qualquer violência, exceto aquela do discurso, e pela polidez cordial e mesmo amizade dos líderes hostis quando eles se encontravam em sociedade privada. A partir de mil motivos, eu fui induzido a atentar minuciosamente para o curso dos eventos, e observar cada mudança com ansiedade intensa.

Eu não pude senão perceber que Perdita amasse Raymond; também me pareceu que ele considerava a bela filha de Verney com admiração e ternura. Contudo, eu sabia que ele estava insistindo em seu casamento com a herdeira presuntiva do condado de Windsor, com forte expectativa das vantagens que, a partir daí, acumular-se-iam para ele. Todos os amigos da ex-rainha eram seus amigos; nenhuma semana se passava que ele não realizasse consultas com ela em Windsor.

Eu nunca tinha visto a irmã de Adrian. Eu tinha ouvido que ela era amável, amigável e fascinante. Portando, eu deveria vê-la? Há momentos quando nós temos um sentimento indefinível de mudança iminente para melhor ou para [95]pior, para surgir a partir de um evento; e, seja para melhor ou para pior, nós tememos a mudança, e evitamos o evento. Por essa razão, eu evitava a donzela de nascimento elevado. Para mim, ela era tudo e nada; o nome dela mesmo, mencionado por outro, fazia-me sobressaltar e tremer; a discussão sem fim relativa à união dela com lorde Raymond era agonia real para mim. Parecia-me que, Adrian retirado da vida ativa, e essa bela Idris, provavelmente uma vítima dos esquemas ambiciosos da sua mãe, eu deveria vir adiante e protegê-la de influência indevida, guardá-la contra infelicidade, e assegurar a ela a liberdade de escolha, o direito de todo ser humano. Contudo, como eu deveria fazer isso? Ela mesma desdenharia da minha interferência. Desde então eu tenho de ser um objeto de indiferença ou desdém para ela, melhor, muito melhor evitá-la, não me expôr diante dela e do mundo desdenhoso à chance de jogar o jogo louco de um Ícaro apaixonado, tolo.

[96]Um dia, vários meses após o meu retorno à Inglaterra, eu sai de Londres para visitar minha irmã. A sociedade dela era o meu alívio e deleite principais; e meus espíritos sempre se elevavam diante da expectativa de a ver. A conversação dela era cheia de observação penetrante e discernimento; em sua alcova agradável, perfumada com as flores mais doces, adornada por elencos magníficos, vasos antigos e cópias das pinturas mais finas de Raphael, Correggio e Claude, pintadas por ela mesmo, eu fantasiava a mim mesmo em um retiro feérico não maculado por e inacessível a disputas barulhentas de políticos e pelas buscas frívolas da moda. Nesta ocasião, minha irmã não estava sozinha; nem eu pude falhar em reconhecer a companhia dela; era Idris, o objeto até agora não visto de minha idolatria louca.

Em que termos adequados de maravilha e deleite, em que expressão escolhida e fluxo suave de linguagem, posso eu anunciar a melhor, mais sábia mais amável? Como, em pobre reunião de palavras, transmitir o [97]halo de glória que a circundava, as mil graças que esperavam incansáveis nela. A primeira coisa que me impressionou ao contemplar aquele semblante charmoso foi a sua bondade e franqueza perfeitas; a candura assentava-se sobre a fronte dela; a simplicidade, nos olhos dela; a benignidade celestial, no sorriso dela. A alta figura esbelta dela inclinava-se graciosamente como um álamo ao ventoso oeste, o andar dela, semelhante ao de uma deusa, era aquele de um anjo alado recém-pousado do alto piso do céu; a beleza perolada da compleição dela era manchada por uma sufusão pura; a voz dela assemelhava-se ao tenor baixo, subjugado de uma flauta. Talvez seja mais fácil descrever por contraste. Eu tenho detalhada as perfeições da minha irmã; e contudo, ela era completamente diferente de Idris. Perdita, mesmo onde ela amava, era reservada e tímida; Idris era franca e confiante. Uma recolhia-se à solidão, para que ela pudesse entrincheirar-se ali contra desapontamento e injúria; a outra caminhava adiante em dia aberto, acreditando que ninguém a machucaria. Wordsworth comparou uma mulher amada a dois belos objetos [98]na natureza; mas as linhas dele sempre me parecerem antes um contraste que uma semelhança:


Uma violeta perto de uma pedra musgosa

Meio oculta do olho,

Bela como uma estrela quando apenas uma

Está brilhando no céu.


Uma violeta tão doce era Perdita, trêmula para lançar a si mesma ao fino ar, encolhendo-se de observação, contudo, revelada por suas excelências; e retribuindo com mil graças o labor daqueles que a procuravam em seu solitário caminho alternativo. Idris era como a estrela, colocada em esplendor solitário no anadema sombrio da noite amena; pronta para iluminar e deleitar o mundo sujeito, protegida ela mesma de toda mácula pela sua distância não imaginada de tudo que não fosse como ela mesma semelhante ao céu.

Eu encontrei essa visão da beleza na alcova de Perdita, em conversação séria com sua habitante. Quando minha irmã me viu, ela levantou-se e, tomando minha mão, disse, “Aqui está ele, mesmo ao seu desejo; este é Lionel, meu irmão.”

[99]Idris também levantou, e inclinou seus olhos de azul celestial sobre mim e, com graça peculiar, disse – “Você dificilmente necessita de uma introdução; nós temos um retrato, altamente valorizado pelo meu pai, o qual declara imediatamente o seu nome. Verney, você reconhecerá esse vínculo, e, como amigo do meu irmão, eu sinto que posso confiar em você.”

Então, com as pálpebras úmidas com uma lágrima e voz trêmula, ela continuou – “Queridos amigos, não considerem estranho que agora, visitando vocês pela primeira vez, eu peço-lhes a sua assistência, e confidencie meus desejos e medos para vocês. A vocês apenas eu me atrevo a falar; eu tenho ouvido vocês recomendados por espectadores imparciais; vocês são os amigos do meu irmão, portanto, vocês devem ser os meus. O que eu posso dizer? Se vocês recusarem-se a ajudar-me, eu estou verdadeiramente perdida!” Ela ergueu os olhos, enquanto a surpresa mantinha os seus ouvintes mudos; então, como levada por seus sentimentos, ela chorou – “Meu irmão! Adrian amado, malfadado! Como falar dos seus infortúnios? Sem dúvida vocês dois têm ouvido o conto corrente; talvez acreditem na calúnia; [100]mas ele não está louco! Devesse um anjo do pé do trono de Deus afirmá-lo, nunca, nunca eu o acreditaria. Ele foi enganado, traído, aprisionado – salve-o! Verney, você tem de fazer isso; procure-o em qualquer parte da ilha que ele esteja encerrado entre paredes; encontre-o, resgate-o dos perseguidores dele, restaure-o a si mesmo, a mim – sobre a ampla terra eu não tenho ninguém para amar senão a ele!”

O sério apelo dela, tão doce e apaixonadamente expresso, encheu-me de maravilha e simpatia; e quando ela acrescentou, com voz e aparência emocionadas, “Você consente em aceitar o empreendimento?” Eu jurei, com energia e verdade, devotar a mim mesmo em vida e morte à restauração e ao bem-estar de Adrian. Nós então conversamos sobre o plano que eu deveria seguir, e discutimos os meios prováveis de descobrir a residência dele. Enquanto nós estávamos em discurso firme, lorde Raymond chegou não anunciado: eu vi Perdita tremer e tornar-se mortalmente pálida, e as bochechas de Idris brilharem com os rubores mais puros. Ele deve ter ficado surpreso diante do nosso conclave, perturbado [101]por ele como eu deveria ter ficado; mas nada disso apareceu; ele saudou minhas companheiras, e dirigiu-se a mim com um comprimento cordial. Idris pareceu surpresa por um momento, e então, com extrema doçura, ela disse, “Lorde Raymond, eu confio em sua bondade e honra.”

Sorrindo altivamente, ele curvou a cabeça e respondeu com ênfase, “Você realmente confia, senhora Idris?”

Ela tentou ler o pensamento dele e, em seguida, respondeu com dignidade, “Como lhe agradar. Certamente é melhor não comprometer a si mesmo por qualquer segredo.”

Perdoe-me,” ele respondeu, “se eu ofendi. Quer ou não você confie em mim, depende de mim fazer o meu máximo para promover os seus desejos, sejam eles quais forem.”

Idris sorriu em agradecimento e levantou-se para sair. Lorde Raymond requisitou permissão para a acompanhar ao castelo de Windsor, com o que ela consentiu, e eles deixaram juntos a cabana. Minha irmão e eu formos deixados – verdadeiramente como dois tolos, [102]quem fantasiavam que tinham obtido um tesouro dourado, até que a luz do dia revelou-o ser chumbo – duas moscas bobas, sem sorte, quem tinham brincado aos raios de sol e foram capturadas na teia da aranha. Eu inclinei-me contra a janela, e observei aquelas duas criaturas gloriosas, até que elas desaparecessem nas clareiras na floresta; e então eu virei-me. Perdita não tinha se movido; os olhos dela fixos no chão, as bochechas delas pálidas, seus lábios brancos, imóvel e rígida, cada característica marcada por aflição, ela sentou-se. Meio assustado, eu teria segurado a mão dela; mas ela, estremecendo, retirou-a, e esforçou-se para se recuperar. Eu supliquei a ela para falar comigo: “Não agora,” ela respondeu, “nem você fale comigo, meu querido Lionel; você não pode dizer nada, pois você não sabe nada. Eu verei você amanhã; entrementes, adieu!” Ela ergueu-se e caminhou para fora da sala; mas, parando à porta, inclinando-se contra ela, como se seus pensamentos excessivamente ocupados tivessem tomado dela o poder de suportar a si mesma, ela disse, “Lorde Raymond provavelmente retornará. Você dirá a ele que ele tem de [103]me desculpar hoje, pois eu não estou bem. Eu verei ele amanhã, se ele deseja, e você também. Você faria melhor em retornar a Londres com ele; lá você pode realizar as investigações acordadas, relativas ao conde de Windsor, e visitar-me novamente amanhã, antes de você prosseguir em sua jornada, até então, adeus!”

Ela falou vacilantemente e concluiu com um suspiro pesado. Eu concedi meu assentimento à requisição dela; e ela deixou-me. Eu senti como se, a partir da ordem do mundo sistemático, eu tivesse sido mergulhado dentro de caos, obscuro, contrário, ininteligível. Que Raymond devesse casar com Idris era mais do nunca intolerável; todavia, a minha paixão, embora um gigante desde o seu nascimento, era estranha, selvagem e impraticável demais para eu sentir imediatamente a miséria que eu percebi em Perdita. Como eu deveria agir? Ela não tinha me confidenciado; eu não poderia exigir uma explicação de Raymond sem perigar revelar o que talvez fosse o segredo mais valioso dela. Eu obteria a verdade dela no dia seguinte – entrementes – [104]Mas, enquanto eu estava ocupado com múltiplas reflexões, lorde Raymond retornou. Ele perguntou por minha irmã; e eu transmiti a mensagem dela. Depois de meditar sobre ela por um momento, ele perguntou-me se eu estava prestes a retornar a Londres, e se eu o acompanharia; eu consenti. Ele estava cheio de pensamentos, e permaneceu silente durante parte considerável da nossa viajem; finalmente ele falou, “Eu tenho de me desculpar com você por minha distração; a verdade é que a moção de Ryland chega hoje, e eu estou considerando minha resposta.”

Ryland era o líder do partido popular, um homem teimoso e, à sua maneira, eloquente; ele tinha obtido permissão para propor uma lei para tornar traição tentar mudar o estado presente dos governo inglês e das leis vigentes da república. Esse ataque foi dirigido contra Raymond e suas maquinações pela restauração da monarquia.

Raymond perguntou-me se eu o acompanharia à Casa do Parlamento naquela tarde. Eu lembrei de minha busca por informação relativa a Adrian; [105]e, sabendo que o meu tempo estaria completamente ocupado, eu desculpei-me. “Não,” disse meu acompanhante, “Eu posso livrar você do seu impedimento presente. Você fará investigações sobre o conde de Windsor. Eu posso respondê-las de uma vez, ele está na propriedade do duque de Athol em Dunkeld. Na aproximação inicial de sua desordem, ele viajou de um lado para outro; até que, chegando àquele retiro romântico, ele recusou-se a abandoná-lo, e nós realizamos arranjos para ele continuar lá.”

Eu fiquei magoado pelo tom descuidado com o qual ele comunicou essa informação, e respondi friamente: “Eu estou obrigado com você pela sua informação, e eu me aproveitarei dela.”

Você deverá, Verney,” ele disse, “e se você continuar com o mesmo ânimo, eu facilitarei suas visões. Mas primeiro, eu suplico a você, testemunhe o resultado da disputa desta noite, e o triunfo que eu estou prestes a alcançar, se eu posso assim o chamar, embora eu tema que vitória deva ser derrota para mim. O que eu posso [106]fazer? Minhas esperanças mais queridas parecem estar próximas da sua realização. A ex-rainha concede-me Idris; Adrian está totalmente incapacitado para suceder ao condado, e aquele condado, em minhas mãos, tornar-se-á um reino. Pelo Deus reinante é verdadeiro; o condado insignificante de Windsor não deverá mais contentar aquele que herdará os direitos que para sempre pertencem à pessoa que o possui. A condessa nunca poderá esquecer que ela foi uma rainha, e ela despreza deixar uma herança diminuída para os filhos dela; o poder dela e a minha sagacidade reconstruirão o trono, e esta testa será abraçada por um diadema régio. - Eu posso fazer isso – Eu posso casar-me com Idris.” -

Ele parou abruptamente, o seu semblante escureceu, e a expressão dele mudou repetidas vezes, sob influência de paixão interna. Eu perguntei, “A senhora Idris ama você?”

Ora que questão,” respondeu ele rindo. “Ela amará, é claro, como eu deverei amá-la, quando nós estivermos casados.”

Você começou tarde,” eu disse, ironicamente, [107]“o casamento geralmente é considerado o túmulo, e não o berço do amor. Assim, você está prestes a amá-la, mas não já ama?”

Não me catequize, Lionel; eu cumprirei meu dever para com ela, esteja seguro. Amor! Eu devo fortificar-me contra isso; expulsá-lo da sua torre de poder, exclui-lo a barricadas: a fonte do amor deve cessar de jogar, que suas águas sequem, e todos os pensamentos apaixonados que o auxiliam morram – quero dizer, o amor que me governaria, não, que eu governe. Idris é uma gentil, bela, doce, pequena garota; é impossível não tem uma afeição por ela, e ter uma algo muito sincero; apenas não fale de amor – amor, o tirano e subjugador de tiranos; o amor, até agora meu conquistador, agora meu escravo; o fogo faminto, a besta indomável, a cobra com presas – não – não – eu não terei nada com esse amor. Diga-me, Lionel, você consente com que eu deva casar com essa jovem senhora?”

Ele inclinou seus olhos aguçados sobre mim, e meu coração descontrolado inchou em meu peito. Eu [108]respondi em uma voz calma – mas quão longe de calmo era o pensamento imaginado por minhas palavras calmas – “Nunca! Eu nunca consentiria que a senhora Idris devesse ser unida com alguém quem não a ama.”

Porque você mesmo a ama.”

Vossa senhoria poderia ter poupado essa provocação; eu não, não me atrevo a amá-la.”

Pelo menos,” ele continuou altivamente, “ela não ama você. Eu não me casaria com uma soberana reinante, não estivesse eu certo de que o coração dela estivesse livre. Mas, oh, Lionel! Um reino é uma palavra de força, e soando gentilmente são os termos que compõem o estilo da realeza. Não foram os homens mais poderosos dos tempos antigos reis? Alexandre foi um rei, Salomão, o mais sábios dos homens, foi um rei; Napoleão foi um rei; César morreu na tentativa de se tornar um, e Cromwell, o puritano e assassino de reis, aspirou à realeza. O pai de Adrian rendeu o já quebrado cetro da Inglaterra; mas eu levantarei a planta caída, juntarei seu corpo desmembrado e exalta-lá-ei acima de todas as flores do campo.”

[109]“Você não tem de se preocupar que eu descubra livremente a morada de Adrian. Não suponha que eu seja perverso ou tolo o suficiente para fundamentar minha soberania proposta sobre uma fraude, e uma tão facilmente descoberta como a verdade ou falsidade da insanidade do conde. Eu acabei de vir dele. Antes que eu decidisse sobre meu casamento com Idris, eu resolvi vê-lo novamente, e julgar a probabilidade da sua recuperação. - Ele está irrecuperavelmente louco.”

Eu ofeguei por fôlego-

Eu não detalharei para você,” continuou Raymond, “os particulares melancólicos. Você deverá vê-lo, e julgar por si mesmo; embora eu tema que essa visita, inútil para ele, será intoleravelmente dolorosa para você. Ela tem pesado sobre meus espíritos desde então. Excelente e gentil como ele é, mesmo na decadência da razão ele, eu não o adoro como você faz, mas eu concederia todas as minhas esperanças e minha mão direita para o ajudar, para o ver restaurado a si mesmo.”

A voz dele expressou a mais profunda compaixão: “Tu, mais inexplicável ser,” eu bradei, [110]“para onde tuas ações tenderão, em todo esse labirinto de propósito no qual tu pareces perdido?”

Para onde, de fato? Para uma coroa, uma dourada coroa adornada, eu espero; e embora eu não me atreva a confiar e embora eu sonhe com uma coroa e esteja vigilante por uma, sempre e anonimante um demônio sussurra para mim, que é apenas uma touca de tolo que eu busco, e que fosse eu sábio, eu deveria pisotear nela, e tomar em seu lugar aquilo que vale todas as coroas do oriente e todas as presidências do oeste.”

E o que é isso?”

Se eu fizer minha escolha, então você deverá saber; no presente, eu não me atrevo a falar, nem mesmo a pensar, nisso.”

Novamente, ele ficou silente e, após uma pausa, virou-se para mim rindo. Quando desprezo não inspira a alegria dele, quando era a alegria genuína que pintava suas características com uma expressão alegre, a beleza dele tornava-se excessivamente eminente, divina. “Verney,” disse ele, “meu primeiro ato quando eu me tornar Rei da Inglaterra, será uni-la com os gregos, tomar Constantinopla, e subjugar [111]toda a Ásia. Eu pretendo ser um guerreiro, um conquistador; o nome de Napoleão deverá submeter-se ao meu; e entusiastas, em vez de visitarem o seu tumulo rochoso, e exaltar os méritos do caído, deverão adorar minha majestade, e magnificar minhas realizações ilustres.”

Eu escutei Raymond com interesse intenso. Poderia eu ser outra coisa do que todo ouvido, para alguém que parecia governar a terra inteira em sua imaginação ávida, e que apenas vacilava quando ele tentava governar a si mesmo. Então, da palavra e vontade dele dependia minha própria felicidade – o destino de tudo querido para mim. Eu tentei adivinhar o sentido oculto das palavras dele. O nome de Perdita não foi mencionado; contudo, eu não podia duvidar de que o amor por ela causou o vacilo de propósito que ele exibia. E quem era tão digna de amor quanto minha irmã de mente nobre? Quem merecia a mão deste autoexaltado rei mais do que ela cujo o olhar pertencia a uma rainha de nações? Quem o amava, como ele a amava; [112]a despeito daquele desapontamento que reprimia a paixão dela, e a ambição mantinha combate forte com a dele.

Nós fomos juntos à Casa do Parlamento à tarde. Raymond, embora ele soubesse que seus planos e prospectos deviam ser discutidos e decididos durante o debate esperado, estava alegre e despreocupado. Um zumbido, como aquele de dez mil colmeias de abelhas enxameando, atordoava-nos enquanto nós entrávamos na sala de café. Grupos de políticos foram reunidos com ansiosos frontes e vocês altas ou profundas. O partido aristocrático, os mais ricos e influentes homens na Inglaterra, pareciam menos agitados do que outros, pois a questão devia ser discutida sem a interferência deles. Perto da lareira estavam Ryland e seus apoiadores. Ryland era um homem de nascimento obscuro e de riqueza imensa, herdada do seu pai, quem tinha sido um manufatureiro. Ele tinha testemunhado, quando um homem jovem, a abdicação do rei, e o amalgama das duas casas dos [113]Lordes e dos Comuns; ele tinha simpatizado com essas usurpações populares, e tinha sido o negócio da vida dele consolidar e intensificá-las. Desde então, a influência dos proprietários de terra tinha aumentado; e inicialmente Ryland não ficou triste ao observar as maquinações de lorde Raymond, quem retirou muito dos partidários do seu oponente. Mas a coisa estava indo longe demais. A nobreza mais pobre aclamava o retorno da soberania, como um evento que os restauraria ao seu poder e direitos, agora perdidos. O meio extinto espírito da realeza excitou-se nas mentes do homens; e eles, escravos desejosos, súditos autoconstituídos, estavam prontos para dobrarem seus pescoços à corrente. Alguns espíritos eretos e masculinos ainda permaneciam, pilares do estado; mas a palavra república tinha se tornado obsoleta para o ouvido vulgar; e muitos – o evento provaria se era uma maioria – ansiava pelo ouropel e pela manifestação da realeza. Ryland ficou animado para a resistência; ela afirmava que o sofrimento dele [114]tinha permitido o crescimento desse partido; mas o tempo para indulgência tinha passado, e com um movimento do seu braço, ele varreria as teias de aranha que cegavam seus cidadãos.

Quando Raymond entrou na sala de café, a presença dele foi saudada por seus amigos quase com um brado. Eles reuniram-se ao redor dele, contaram seus números, e detalharam as razões de porque agora eles deviam receber uma adição de tais e tais números, quem ainda não tinham se declarado. Alguns negócios insignificantes da Casa tendo levados a cabo, os líderes tomaram seus assentos na câmara; o clamor das vozes continuou, até que Ryland se ergueu para falar, e então a mais leve observação sussurrada era audível. Todos os olhos estavam fixos sobre ele enquanto ele estava de pé – grave de corpo, sonoro de voz, e com uma maneira que, embora não graciosa, era impressionante. Eu voltava-me do seu semblante marcado, de ferro, para Raymond, cujo rosto, velado por um sorriso, não revelaria seu cuidado; contudo os lábios dele [115]tremiam um pouco, e a mão dele agarrava o banco no qual ele se sentava, com uma força convulsiva que faziam os músculos saltarem novamente.

Ryland começou elogiando o estado presente do império britânico. Ele convocou os anos passados à memória deles; as disputas miseráveis que no tempo dos nossos país ergueram-se quase à guerra civil, a abdicação do falecido rei, e a fundação da república. Ele descreveu essa república; mostrou como ela concedeu privilégio a cada indivíduo no estado, para ascender à consequência, e mesmo a soberania temporária. Ele comparou o espírito régio e republicano; mostrou como o primeiro tendia a escravizar as mentes dos homens; enquanto todas as instituições da outra serviam para elevar mesmo o mais insignificante entre nós a alguma coisa grande e boa. Ele mostrou como a Inglaterra tinha se tornado poderosa, e seus habitantes valentes e sábios, através da liberdade da qual eles desfrutavam. Enquanto ele falava, cada coração inchava com orgulho, e cada bochecha brilhava com deleite para lembrar, que cada um que ali era inglês, [116]e que cada um suportava e contribuía para o estado feliz de coisas agora comemorado. O fervor de Ryland aumentou – seus olhos iluminaram-se – a voz dele assumiu o tom de paixão. ‘Havia um homem,’ ele continuava, ‘quem desejava alterar tudo isso, e trazer de volta aos nossos dias de impotência e disputa:- um homem, quem se atreveria a apropriar-se da honra que era devida a todos que reivindicavam a Inglaterra como sua terra natal, e colocar seu nome e estilo acima do nome e do estilo do seu país.’ Nessa conjuntura, eu vi que Raymond mudou de cor; os olhos dele retiraram-se do orador, e dirigiram-se ao chão; os ouvintes viravam-se de um para o outro; mas entrementes a voz do orador enchia os ouvidos deles – o trovão das suas denúncias influenciava seus sentidos. A própria ousadia da sua linguagem concedia-lhe peso; cada um sabia que ele falava a verdade – uma verdade conhecida, mas não reconhecida. Ele arrancou da realidade a máscara com a qual ela tinha sido trajada; e os propósitos de Raymond, o qual antes tinha [117]se movido sorrateiramente ao redor, enredando furtivamente, agora se erguia um veado caçado – mesmo na baía – como todos percebiam quem observavam as mudanças irrepreensíveis do semblante dele. Ryland terminou incitando que qualquer tentativa de re-erigir o poder régio deveria ser declarado traição, e traidor aqueles que deveria tentar mudar a forma presente de governo. Aplausos e intensas exclamações seguiram-se ao encerramento do discurso dele.

Após sua moção ter sido secundada, lorde Raymond levantou-se, seu semblante suave, sua voz suavemente melodiosa, suas maneiras suavizantes, sua graça e doçura vinham como a calma respiração de uma flauta, após a voz intensa, semelhante a um órgão, do seu adversário. Ele ergueu-se, ele disse para falar em favor da moção do membro honorável, com uma leve emenda subconjunta. Ele estava pronto a retornar aos tempos antigos, e comemorar as disputas dos nossos país, e a abdicação do monarca. ‘Nobre e grandiosamente,’ ele disse, ‘o ilustre e último soberano da Inglaterra sacrificou-se ao bem aparente dos seu país, [118]e desfez-se de um poder que apenas poderia ser mantido pelo sangue dos seus súditos – esses súditos nomeados assim sem mais, esses, seus amigos e iguais, tinham em gratidão conferido certos favores e distinções sobre ele sua família para sempre. Uma ampla propriedade foi atribuída a eles, e eles tomaram a primeira posição entre os pares da Grã-Bretanha. Contudo, poderia ser conjecturado que eles não tinham esquecido da sua antiga herança; e era difícil que o herdeiro dele deveria sofrer da mesma maneira com qualquer outro pretendente, se ele tentasse reconquistar o que por direito antigo e herança pertencia a ele. Ele não diz que ele deveria favorecer uma semelhante tentativa; mas ele diz que uma semelhante tentativa seria perdoável; e, se o aspirante não fosse tão longe quanto a declarar guerra, e erigir um estandarte no reino, a sua falta deveria ser considerada com um olho indulgente.’ Em sua emenda, ele propós que uma exceção deveria ser feita na legislação em favor de qualquer pessoa que reivindicasse o poder soberano no direito dos condes de Windsor.

Tampouco Raymond chegou a um fim sem desenhar em cores vívidas e brilhantes, o esplendor de um reino, em oposição ao espírito comercial do republicanismo. Ele asseverou que cada indivíduo sob a monarquia inglesa era, então como agora, capaz de alcançar posição social e poder – com apenas uma única exceção, aquela da função do magistrado-chefe; posição mais elevada e mais nobre, do que uma comunidade política de trocas, tímida poderia propiciar. E quanto a essa única exceção, ao que ela equivalia? A natureza das riquezas e da influência forçosamente confinava a lista de candidatos a uns poucos dos mais ricos; e havia muito a ser temido, para que o mau humor e a disputa gerados por esse conflito trienal, contrabalancearia suas vantagens para olhos imparciais. Eu posso registrar mal o fluxo de linguagem e viradas graciosas de expressões, a inteligência e zombaria fácil que concediam vigor e influência ao discurso dele. Sua maneira, tímida no começo, tornou-se firme – seu rosto mudado foi iluminado [119]ao brilhantismo super-humano; a voz dele, variada como a música, era como aquele encantamento.

Seria inútil registrar o debate que se seguiu a essa arenga. Discursos de partido foram comunicados, os quais trajavam a questão em jargão, e velavam os seu sentido simples em um vento entrelaçado de palavras. A moção foi perdida; Ryland retirou-se em fúria e desespero; e Raymond, alegra e exultante, retirou-se para sonhar com seu reino futuro.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SHELLEY, M. W. The Last Man. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1826. p.88-120. Disponível em:<https://archive.org/details/lastman01shel/page/62/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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