Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XXV O Livro das Máquinas (concluído)

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[192]XXV O Livro das Máquinas (concluído)


Aqui se seguiu uma digressão muito longa e intraduzível sobre as diferentes raças e famílias das máquinas então existentes. O escritor tentou apoiar essa teoria apontando as similaridades existentes entre muitas máquinas de um caráter amplamente diferente, o que serviu para mostrar a descendência a partir de um ancestral comum. Ele dividiu as máquinas em seus gêneros, subgêneros, variedades, subvariedades e assim por diante. Ele provou a existência de ligações de conexão entre máquinas que pareciam ter muito pouco em comum, e mostrou que muitos mais ligações tinha existido, mas agora tinham perecido. Ele apontou as nossas tendências para reversão, e a presença de órgãos rudimentares que existiam em máquinas fracamente desenvolvidas e perfeitamente inúteis, contudo servindo para marcar a descendência a partir de um ancestral para quem a função era realmente útil.

Eu deixei a tradução dessa parte do tratado, a qual, a propósito, era muito mais longa de tudo do que eu ofereci aqui, para uma oportunidade posterior. Infelizmente, eu deixei Erewhon antes que eu pudesse retornar ao assunto; e embora eu salvasse minha tradução e outros papeis ao perigo de minha vida, eu fui obrigado a sacrificar o trabalho original. Afetou-me profundamente ter de o faz; mas, dessa maneira, eu ganhei dez minutos de tempo inestimável, sem o qual tanto Arowhena quanto eu mesmo deveríamos certamente ter perecido.

Eu lembro-me de um incidente que é relevante para essa parte do tratado. O cavalheiro quem a deu para mim tinha me pedido para ver meu cachimbo; ele examinou-o cuidadosamente e, quando ele chegou a ver a pequena protuberância na base da cavidade, ele pareceu ficar encantado e exclamou que isso tem de ser rudimentar. Eu perguntei-lhe o que ele quis dizer.

Senhor,” ele respondeu, “esse órgão é idêntico ao aro no fundo de um copo; é apenas outra forma da mesma função. O seu propósito deve ter sido evitar que o calor do cachimbo marcasse a mesa sobra a qual ele [193]descansava. Você descobriria, se você devesse procurar na história dos cachimbos, que nas espécies iniciais essa protuberância era de uma forma diferente da qual ela é agora. Ela terá sido ampla na base, e plana, de maneira que o cachimbo estivesse sendo fumado, a concavidade poderia descansar sobre a mesa sem a marcar. Uso e desuso devem ter entrado em jogo e reduzido a função à sua presente condição rudimentar. Eu não deveria ficar surpreso, senhor,” ele continuava, “se, no curso do tempo, devesse ter se tornado ainda mais modificada, e para assumir a forma de uma folha ou pergaminho ornamental, ou até uma borboleta, enquanto, em alguns casos, tornar-se-á extinta.”

No meu retorno para a Inglaterra, eu examinei o assunto, e descobri que o meu amigo estava correto.

Contudo, retornando ao tratado, minha tradução recomeça como se segue:

Nós não podemos imaginar que, se no período geológico mais remoto, alguma forma inicial da vida vegetal tivesse sido dotada com poder de reflexão sobre a vida nascente de animais, a qual estava vindo à existência ao lado de si mesma, teria considerado a si mesma excessivamente perspicaz se ela tivesse presumido que animais um dia se tornariam vegetais reais? Contudo, isso seria mais equivocado do que seria da nossa parte imaginarmos que, porque a vida das máquinas é uma muito diferente da nossa própria, portanto, não há desenvolvimento possível da vida mais alto do que a nossa; ou, que porque a vida mecânica é uma coisa muito diferente da nossa, portanto, ela absolutamente não é vida?”

Mas eu ouvi isto dito, ‘admitido que isso seja assim, e que o motor a vapor tenha uma força própria, certamente ninguém dirá que ele tem uma vontade própria?’ Ai de mim! Se nós olharmos mais de perto, nós deveremos descobrir que isso não funciona contra a suposição de que o motor a vapor é um dos germes de uma nova fase de vida. O que existe neste mundo inteiro, ou nos mundos além dele, que tenha uma vontade sua própria? O Desconhecido e o Incognoscível, apenas!”

[194]“Um homem é o resultado e expoente de todas as forças que foram trazidas para o influenciar, quer antes do seu nascimento, quer depois. Em qualquer momento, a ação dele depende da sua constituição, e da intensidade e direção das várias ações às quais ele está, e tem estado, sujeito. Algumas dessas contra-atacarão uma a outra; mas, como ele é por natureza, e como ele tem sofrido ação, e como ele agora sofre ação a partir de fora, assim ele agirá, tão certamente e tão regularmente como se ele fosse uma máquina.”

Geralmente nós não admitimos isso, porque nós não conhecemos a natureza completa de ninguém, nem as forças inteiras que agem sobre ele. Nós vemos apenas uma parte e sendo dessa maneira incapazes de generalizar a conduta humana, exceto muito aproximadamente, nós negamos que ela esteja de qualquer maneira sujeita a quaisquer leis fixas, e atribuímos muito tanto do caráter quanto das ações de um homem à chance, ou sorte, ou fortuna; mas essas são apenas palavras através das quais nós escapamos da admissão da nossa própria ignorância; e um pouco de reflexão ensinar-nos-á que o voo mais ousado da imaginação, ou o exercício mais sútil da razão, é precisamente a coisa que tem de surgir, e a única coisa que pode por qualquer possibilidade surgir, no momento do seu surgimento, como a queda de uma folha morta quando o vento a sacode da árvore.”

Pois o futuro depende to presente, e o presente (cuja existência é apenas um daqueles compromissos menores dos quais a vida humana está cheia – pois ele vive apenas sobre o consentimento tácito do passado e do futuro) depende do passado, e o passado é inalterável. A única razão pela qual nós não podemos ver o futuro tão evidentemente quando o passado, é porque nós conhecemos pouco do passado real e do presente real; essas coisas são grandes demais para nós, de outra maneira, o futuro, em seus detalhes mais minúsculos, estender-se-ia diante dos nossos olhos, e nós deveríamos perder o nosso senso de tempo presente em razão da clareza com a qual nós deveríamos ver passado e futuro; talvez nós não devêssemos nem mesmo ser capazes de distinguir o tempo de qualquer maneira; mas isso é estranho. O que nós sabemos é que, [195]quanto mais do passado e do presente são conhecidos, mais do futuro pode ser predito; e que ninguém sonha em duvidar da fixidez do futuro em casos onde ele está completamente ciente tanto do passado quanto do presente, e teve experiência das consequências que se seguiram a partir de um tal passado e um tal presente em ocasiões prévias. Ele sabe perfeitamente bem o que acontecerá e apostará sua inteira fortuna nisso.”

E isso é uma grande benção; pois é o fundamento sobre o qual moralidade e ciência são construídas. A segurança de que o futuro não é coisa arbitrária e mutável, mas que futuros semelhantes invariavelmente se seguirão a presentes semelhantes, é o fundamento sobre o qual nós estabelecemos todos os nossos planos – a fé sobre a qual nós realizamos toda ação consciente das nossas vidas. Se isso não fosse assim, nós deveríamos ficar sem guia; nós deveríamos não ter confiança em agir e, consequentemente, nós nunca deveríamos agir, pois não haveria conhecimento de que os resultados que agora se seguirão serão os mesmos que aqueles que antes se seguiram.”

Quem lavraria e colheria se descresse da imutabilidade do futuro? Quem deveria jogar água em uma casa em chamas se a ação da água sobre o fogo fosse incerta? Os homens apenas farão o seu máximo quando eles têm certeza de que o futuro se descobrirá contra eles se o máximo não tiver sido realizado. O sentimento de uma tal incerteza é uma parte constituinte da soma das forças em ação sobre ele, e agirá mais poderosamente sobre os homens melhores e mais morais. Aqueles que estão mais firmemente persuadidos de que o futuro está imutavelmente ligado ao presente no qual o trabalho deles está estendendo-se, cuidarão melhor do seu presente, e o cultivarão com o maior cuidado. O futuro tem de ser uma loteria para aqueles que pensam que as mesmas combinações algumas vezes antecedem um conjunto de resultados e algumas vezes, outro. Se a crença deles fosse sincera eles especulariam em vez de trabalhar: esses deveriam ser os homens imorais; os outros têm o impulso mais forte para esforço e moralidade, se a crença deles for uma viva.”

[196]“A influência de tudo isso sobre as máquinas não é imediatamente aparente, mas logo se tornará assim. Entrementes, eu devo lidar com amigos que dizem que, embora o futuro seja fixo com respeito à matéria inorgânica e, em alguns aspectos, com respeito ao homem, contudo, há muitas maneiras através das quais ele não pode ser considerado como fixo. Dessa forma, eles dizem que fogo aplicado a aparas de madeira, e bem alimentado com gás oxigênio, sempre produzirá uma chama, mas que um covarde trazido em contato com um objeto terrível nem sempre resultará em um homem fugindo. Mesmo assim, se houvesse dois covardes perfeitamente similares em todos os aspectos, e se eles fossem sujeitados de uma maneira perfeitamente similar a dois agentes terríveis, os quais são, eles mesmos, perfeitamente similares, há poucos que nós esperarão uma similaridade perfeita na fuga, mesmo se mil anos intervinhessem entre a combinação original e a repetição dela.”

A regularidade aparentemente maior nos resultados das combinações químicas do que nas humanas surge a partir da nossa inabilidade para percebermos as diferenças sutis nas combinações humanas – combinações que nunca são identicamente repetidas. Fogo nós conhecemos, e aparas de madeira nos conhecemos, mas nenhuma dupla de homens alguma vez foi ou alguma vez será exatamente igual; e a menor diferença pode mudar as inteiras condições do problema. O nosso registro dos resultados tem de ser infinito antes que nós possamos chegar a uma previsão completa das combinações futuras; a maravilha é que haja tanta certeza relativa à ação humana quanto há; e certamente quanto mais velhos nos tornamos, mais certos nós sentimos quanto ao que um tipo tal e tal de pessoa fará em circunstâncias dadas; mas esse nunca poderia ser o caso a menos que a conduta humana estivesse sob a influência de leis, com o funcionamento das quais nós nos tornamos mais e mais familiares através da experiência,”

Se o acima está correto, segue-se que a regularidade com a qual o maquinário age não é prova da ausência de vitalidade, ou, pelo menos, de germes que podem ser desenvolvidos em uma [197]nova fase de vida. À primeira vista, de fato pareceria que o motor a vapor não poderia evitar de seguir quando colocado sobre uma linha de trilhos com o vapor pronto e o maquinário em plena ação; ao passo que o homem cuja tarefa é pilotá-lo pode evitar fazê-lo em qualquer momento que lhe agradar; de maneira que o primeiro não tem espontaneidade e não é possuidor de nenhum tipo de livre-arbítrio, enquanto que o segundo tem e é.”

Isso é verdadeiro até um certo ponto; o condutor pode parar o motor em qualquer momento que ele deseje, mas ele apenas pode desejar fazê-lo em certos pontos que foram fixados por outros para ele, ou no caso de obstruções inesperadas que o forcem a desejar fazê-lo. A vontade dele não é espontânea; há um coro invisível de influências em torno dele, o qual torna impossível para ele agir de qualquer outra maneira que aquela. É conhecido antecipadamente quanta força deve ser dada a essas influências, exatamente como é conhecido antecipadamente quanto carvão e água são necessários para o motor a vapor mesmo; e será considerado suficientemente curioso que as influências trazidas para influenciar o condutor são do mesmo tipo que aquelas trazidas para influenciar o motor – quer dizer, comida e calor. O condutor é obediente aos seus mestres porque ele obtém comida e calor deles, e, se esses forem retirados ou dados em quantidades insuficientes, ele cessará de pilotar; de uma maneira similar, o motor cessará de funcionar se ele for insuficientemente alimentado. A única diferença e que o homem é consciente dos seus desejos, e o motor (além da recusa em funcionar) não parecer o ser; mas isso é temporário, e foi tratado acima.”

Portanto, a força necessária sendo dada aos motivos para dirigir o condutor, nunca houve, ou dificilmente alguma vez, uma instância de um homem parando o seu motor através de devassidão. Mas um tal caso poderia ocorrer; sim, e poderia ocorrer que o motor devesse quebrar; mas se o trem fosse parado a partir de alguma motivo trivial será descoberto o que a força das influências necessárias foi mal calculada, ou que o homem foi [198]mal calculado, da mesma maneira que um motor pode quebrar a partir de uma falha insuspeita; mas, mesmo em caso semelhante, não terá havido espontaneidade; a ação terá tido sua verdadeiras causas paternas: a espontaneidade é apenas um termo para a ignorância dos deuses pelo homem.”

Portanto, não há espontaneidade da parte daqueles que dirigem o condutor?”

Aqui se seguiu um argumento obscuro sobre esse assunto, o qual eu considerei melhor omitir. O escritor continua: “Portanto, depois de tudo, chega-se a isto, que a diferença entre a vida de um homem e aquela de uma máquina é uma antes de grau do que tipo, embora diferenças em grau não sejam faltantes. Um animal tem mais provisão para emergência do que uma máquina. A máquina é mais versátil; a sua variação de ação é estreita; a sua força e precisão são sua própria esfera super-humana, mas ela revela-se mal em um dilema; algumas vezes, quando a sua ação normal é perturbada, ela perderá sua cabeça, e irá de mal para pior como um lunático em um frenesi irado; mas aqui, novamente, nós encontramos a mesma consideração que antes, a saber, que as máquinas ainda estão em sua infância; elas são meros esqueletos sem músculos e carne.”

Para quantas emergências uma ostra é adaptada? Para tantas quanto são prováveis de acontecer a ela, e não mais. Assim são as máquinas; e assim é o homem mesmo. A lista de acidentes que diariamente ocorrem ao homem por causa de sua carência de adaptabilidade é provavelmente tão grande quanto ocorrendo às máquinas; e cada dia concede-lhes alguma provisão maior do imprevisto. Que qualquer um examine as maravilhosas invenções de autorregulação e autoajuste que agora estão incorporadas ao motor a vapor, que se observe a maneira através da qual ele supre a si mesmo com óleo; através da qual ele indica as suas carências para aqueles que cuidam dele; através da qual, através do regulador, ele regula sua aplicação de sua própria força; que se examine aquele armazém de inércia e impulso do volante, ou os amortecedores em uma carruagem [199]de ferrovia; que se veja como esses aperfeiçoamentos estão sendo selecionados para perpetuidade que contém provisão contra as emergências que podem surgir para incomodar as máquinas, e, em seguida, que se pense em cem mil anos, e no progresso acumulado que elas trarão, a menos que o homem possa ser despertado para um senso da sua situação, e do destino que ele está preparando para si mesmo.”1

A miséria é que o homem tem estado cego já por tanto tempo. A sua dependência do uso do vapor tem sido revelada crescente e multiplicando-se. Retirar subitamente o poder a vapor não terá o efeito de nos reduzir ao estudo no qual nós estávamos antes da sua introdução; haverá um rompimento geral e tempo de anarquia, tais como nunca foram conhecidos; será como se a nossa população fosse subitamente dobrada, sem nenhum meio acional de alimentar o número aumentado. O ar que nós respiramos dificilmente é mais necessário para a nossa vida animal do que o uso de qualquer máquina, sobre a força da qual nós aumentamos os nossos números, é para a nossa civilização; são as máquinas que agem sobre o homem e criam-no um homem, tanto quanto um homem agiu e cria as máquinas; mas nós temos de escolher entre a alternativa de passarmos por um sofrimento muito presente, ou vermos a nós mesmos gradualmente substituídos pelas nossas próprias criaturas, até que nós não mais tenhamos sido ranqueados mais alto em comparação com elas do que as bestas do campo conosco.”

[200]“Aqui jaz o nosso perigo. Pois muitos parecem inclinado a aquiescer com um futuro tão desonroso. Eles dizem que, embora o homem deva tornar-se para as máquinas o que o cavalo e o cão são para nós, contudo, ele continuará a existir, e provavelmente se sairá melhor em um estado de domesticação sob o governo beneficente das máquinas do em sua presente condição selvagem. Nós tratamos nossos animais domésticos com muita benevolência. Nós concedemos a eles seja o que for que nós acreditamos que é o melhor para eles; e não pode haver dúvida de que o nosso uso de carne aumentou a felicidade deles em vez de a depreciar. De maneira simila, há razão para se ter esperança de que as máquinas nos usarão amavelmente, pois a existência delas será, em uma grande medida, dependente da nossa; elas governarão sobre nós com uma barra de ferro, mas elas não nos comerão; elas não apenas requererão nossos serviços na reprodução e educação dos seus jovens, mas também em os esperar como servos; em recolher comida para elas e alimentá-las; em restaurá-las à saúde quando elas estiverem doentes; e em, ou enterrar seus mortos, ou em trabalhar seus membros mortos em novas formas de existência mecânica.”

A natureza mesma do poder motor que opera o desenvolvimento das máquinas evita a possibilidade da vida do homem ser tornada miserável assim como escravizada. Os escravos são toleravelmente felizes se eles têm bons mestres, e a revolução não ocorrerão em nossa época, nem, dificilmente, em dez mil anos, ou dez vezes isso. É sábio ficar perturbado por uma contingência que está tão remota? O homem não é um animal sentimental onde se diz respeito aos seus interesses materiais, e, embora aqui e ali alguma alma ardente possa olhar para si mesma e amaldiçoar o seu destino porque ele não nasceu um motor a vapor, todavia, a massa da humanidade aquiescerá com qualquer arranjo que lhe dê comida e roupa melhores a uma taxa mais barata, e abster-se-á de se render a inveja irracional meramente porque há outros destinos mais gloriosos do que o seu próprio.”

O poder do costume é enorme, e tão gradual [201]será a mudança, que o sentido do homem do que é devido a si mesmo em nenhum momento será rudemente sacudido; a nossa sujeição mover-se-á sorrateiramente sobre nós, silenciosamente e através de aproximações imperceptíveis; nem haverá um conflito tão grande de desejos entre o homem e as máquinas que levará a um conflito entre eles. Entre elas, as máquinas guerrearão eternamente, mas elas ainda requererão o homem, como o ser através da ação do qual o conflito será principalmente conduzido. No ponto de fato não há ocasião para ansiedade sobre a felicidade futura, enquanto ele continuar a ser, de alguma maneira, proveitoso para as máquinas; ele pode tornar-se a raça inferior, mas ele estará infinitamente melhor do que ele agora está. Portanto, não é tanto absurdo quanto irracional ser invejoso dos nossos benfeitores? E nós não deveríamos ser culpados de loucura consumada se nós devêssemos rejeitar o que nós não poderíamos obter de outra maneira, meramente porque isso envolve uma dor maior para outros do que para nós mesmos?”

Com esses que podem argumentar dessa maneira, eu não tenho nada em comum. Eu recuo com tanto horror de crer que a minha raça possa alguma vez ser substituída e superada, como eu deveria de acreditar que mesmo no período mais remoto meus ancestrais foram outros que seres humanos. Pudesse eu acreditar que, há dez mil, um único dos meus ancestrais foi de outro tipo que o meu, eu deveria perder todo autorrespeito e não ter mais prazer ou interesse na vida. Eu tenho o mesmo sentimento com respeito aos meus descendentes, e acredito-o ser um que será sentido de maneira tão geral que o país resolverá colocar um ponto final imediato em todo progresso mecânico adicional, e destruir todos os aperfeiçoamentos que tenham sido realizados pelos últimos trezentos anos. Eu não insistiria em mais do que isso. Nós podemos confiar em nós mesmos para lidar com aquelas que restam e, embora eu devesse preferir ter visto a destruição incluir outros duzentos anos, eu estou ciente da necessidade de compromisso, e sacrificaria até agora [202]minhas próprias convicções individuais para ficar contente com três séculos. Menos do que isso será insuficiente.”

Essa foi a conclusão do ataque que levou à destruição do maquinário por toda Erewhon. Houve apenas uma tentativa séria para o responder. O seu autor disse que as máquinas deviam ser consideradas como uma parte da própria natureza física do homem, sendo realmente nada mais que membros extracorporais. O homem, ele disse, era uma mamífero maquinado. Os animais inferiores mantêm todos os seus membros em casa em seus próprios corpos, mas muitos daqueles do homem são soltos, e jazem ao redor destacados, agora aqui e agora ali, em várias partes do mundo – alguns sendo sempre mantidos prontos para uso contingente, e outros estando ocasionalmente a centenas de milhas de distância. Uma máquina é meramente um membro suplementar; isso é a razão de ser do maquinário. Nós não usamos os nossos próprios membros além das máquinas; e uma perna é apenas muito melhor do que uma perna de madeira do que qualquer um pode manufacturar.

Observe um homem cavando com uma espada; o seu antebraço direito tornou-se artificialmente estendido, e a sua mão tornou-se uma articulação. O cabo da espada é como o punho ao final do úmero; a haste é o osso tradicional e a parte de ferro oblonga é a nova forma da mão que possibilita o seu possessor a mexer com a terra de uma maneira para a qual a sua mão original era inferior. Tendo modificado a si mesmo dessa forma, não como os outros animais são modificados, por circunstâncias sobre as quais eles não têm nem mesmo a aparência de controle, mas tendo, por assim dizer, tomado premeditação e acrescentado um côvado à sua estatura, a civilização começou a dar-se conta da corrida, os bons cargos sociais, a companhia genial dos amigos, a arte da insensatez, e todos aqueles hábitos da mente que mais elevam o homem acima dos animais inferiores, no curso do tempo seguido.”

Dessa maneira, progresso civilizacional e mecânico avançaram de mãos dadas, cada um desenvolvendo e sendo desenvolvido pelo outro, o primitivo uso acidental do bastão tendo colocado a bola rolando, e o prospecto de vantagem mantendo-a [203]em movimento. De fato, as máquinas devem ser considerados como um modo de desenvolvimento através do qual o organismo humano está agora especialmente avançando, cada invenção passada sendo uma adição aos recursos do corpo humano. Dessa maneira, até uma comunidade de membros é tornada possível para aqueles que têm tanto comunidade de alma quanto a possuírem dinheiro suficiente para pagar por uma viagem de trilho; pois um trem é um pé de sete léguas que quinhentos podem ter de uma vez.”

O único perigo sério que este escritor compreendeu foi que as máquinas igualariam tanto os poderes dos homens e baixariam tanto a severidade da competição, que muitas pessoas de físico inferior escapariam de detenção e transmitiriam a sua inferioridade para os seus descendentes. Ele temia que a remoção da pressão presente poderia causar uma degeneração da raça humana e, de fato, que o corpo todo poderia tornar-se puramente rudimentar, o homem mesmo sendo nada exceto alma e mecanismo, um princípio inteligente mas sem paixão da ação mecânica.

Quão grandemente,” ele escreveu, “nós agora não vivemos com nossos membros externos? Nós variamos o nosso físico com as estações, com a idade, com a riqueza avançando e diminuindo. Se está molhado, nós estamos providos de um órgão comumente chamado de um guarda-chuva, o qual é projetado para o propósito de proteção das nossas roupas e peles dos efeitos prejudiciais da chuva. O homem tem agora muitos membros extracorporais, os quais são mais importante para ele do que um bom tufo do seu cabelo, ou, de qualquer maneira, do que seus bigodes. A sua memória vai em seu livro de apontamentos. Ele torna-se mais e mais complexo conforme envelhece; ele então será visto com motores de ver, ou, talvez, dentes e cabelo artificiais; se ele for um espécime realmente bem desenvolvido da sua raça, ele estará provido com uma grande caixa sobre rodas, dois cavalos, e um cocheiro.”

Ele foi o escritor quem originou o costume de classificar os homens pelos seus cavalos de potência, e quem os dividiu em gêneros, espécies, variedades e subvariedades, dando-lhes [204]nomes a partir da linguagem hipotética que expressavam o número de membros que eles poderiam comandar em qualquer momento. Ele mostrou que os homens tornaram-se mais alta e delicadamente organizados quanto mais próximos eles aproximavam-se do cume da opulência e que ninguém, exceto milionários, possuíam o complemento completo de membros com o qual a humanidade poderia tornar-se incorporada.

Aqueles poderosos organismos,” ele continuou, “os nossos principais banqueiros e mercadores, falam com seus congêneres através do comprimento e da largura da terra em um segunda de tempo; as almas sutis e ricas deles podem desafiar todo impedimento material, enquanto que as almas dos pobres estão entupidas e embaraçadas pela matéria, a qual se aperta firme ao redor delas como o melaço para as asas de uma mosca, ou como alguém lutando em areia movediça: seus ouvidos estúpidos levam dias ou semanas para ouvir o que outro lhes contaria a partir de uma distância, em vez de o ouvir em um segundo, como é feito pelas classes mais altamente organizadas. Quem deverá negar que alguém quem pode aderir um trem especial a sua identidade, e ir para onde quer que ele deseje sempre que ele desejar, é mais altamente organizado do que aquele quem, devesse ele desejar o mesmo poder, poderia desejar as asas de um pássaro com uma chance igual de as obter: e cujas pernas são os seus únicos meios de locomoção? Aquele antigo inimigo filosófico, a matéria, a inerente e essencialmente má, ainda pende em torno do pescoço do pobre e estrangula-o: mas para o rico, a matéria é imaterial; a organização elaborada do seu sistema extracorporal libertou a alma dele.”

Esse é o segredo da homenagem que nós vemos os homens ricos receberem daqueles que são mais pobres do que eles mesmos: seria um erro grave supor que essa deferência procede a partir de motivos dos quais nós temos de nos envergonhar: é o respeito natural que todas as criaturas vivas pagam para aqueles a quem elas reconhecem como superiores a si mesma na escala da vida animal, e é análogo à veneração que um cão sente por um homem. Entre as raças selvagens é [205]considerado altamente honorável ser o possuidor de uma arma, e através de toda a história conhecida tem havido um sentimento de que aqueles que valem mais são os mais valorosos.”

E assim ele prosseguiu a uma extensão considerável, tentando mostrar que mudanças na distribuição da vida vegetal e animal por todo o reino tinham sido causadas por estas e aquelas invenções do homem, e de que maneira cada uma esteve conectada com o desenvolvimento moral e intelectual da espécie humana: ele até atribuiu a algumas o quinhão que elas tinham tido na criação e modificação, e aquele que elas subsequentemente teriam em sua destruição; mas considerava-se que o outro escritor tinha se saído melhor e, no final, ele teve sucesso na destruição de todas as invenções que tinham sido descobertas pelos 271 anos anteriores, um período sobre o qual foi concordado por todas as partes, após vários anos de disputa, quanto a se um certo tipo de calandra, a qual estava muito em uso entre as lavadeiras, deveria ser salva ou não. Por fim, ela foi decidida ser perigosa, e foi apenas excluída pelo limite de 271 anos. Em seguida, vieram as guerras civis reacionárias que quase arruinaram o país, mas que estaria além do escopo presente descrever.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 192-205. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/192/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[199]Desde o meu retorno à Inglaterra, disseram-me que aqueles que são familiares com máquinas usam muitos termos referentes a elas que mostram que a vitalidade delas é aqui reconhecida, e que uma coleção de expressões em uso entre aqueles que cuidam dos motores a vapor não seria menos surpreendente do que instrutiva. Eu também estou informado de que quase todas as máquinas têm seus truques e idiossincrasias; que elas conhecem seus condutores e mantendedores; e que elas pregam peças em um estranho. É minha intenção, em uma ocasião futura, reunir exemplos tanto das expressões em uso comum entre os mecânicos quanto de quaisquer exibições extraordinárias de sagacidade e excentricidade mecânicas que eu posso encontrar – não como acreditando na teoria do professor erewhoniano, mas a partir do interesse no assunto.

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