Erewhon: ou, Além da Cordilheira
Por Samuel Butler
[234]XXIX Conclusão
O navio era o Princípe Umberto, destinado de Callao para Gênova; ele tinha levado um número de imigrantes para o Rio, tinha ido de lá para Callao, para onde ele tinha levado uma carga de guano, e agora estava retornando para casa. O capitão era um certo Giovanni Gianni, um nativo de Sestri; ele gentilmente admitiu que eu me referisse a ele em caso de que a verdade da minha história devesse ser disputada; mas eu lamento dizer que o tolerei enganar a si mesmo em alguns particulares importantes. Eu deveria acrescentar que, quando nós fomos recolhidos, nós estávamos mil milhas da terra.
Assim que nós estávamos a bordo, o capitão começou a questionar-nos sobre o cerco de Páris, cidade a partir da qual ele tinha assumido que nós devíamos ter vindo, a despeito da nossa imensa distância da Europa. Como se pode supor, eu não tinha ouvido nem uma silaba sobre a guerra entre França e Alemanha, e estava doente demais para fazer mais do que consentir com tudo que ele escolhia colocar na minha boca. Meu conhecimento de italiano é muito imperfeito, e eu inferi pouco do que ele disse; mas eu estava contente em ocultar o nosso verdadeiro ponto de partida, e resolvi aceitar qualquer pista que ele escolhesse me dar.
Dessa maneira, a linha que sugeriu a si mesma foi que tinham havido outros dez ou doze no balão, que eu era um milorde inglês, e Arowhena, uma condessa russa; que todos os outros tinham se afogado, e que os despachos que nós tínhamos carregado foram perdidos. Depois eu cheguei a aprender que essa história não teria sido crível, não tivesse o capitão estado por algumas semanas no mar, pois eu descobri que quando nós fomos recolhidos, os alemães há muito tinham sido mestres de Páris. Por assim dizer, o capitão estabeleceu a história inteira para mim, e eu fiquei bem contente.
Em uns poucos dias, nós avistamos uma embarcação inglesa destinada de Melbourne para Londres com lã. Diante da minha requisição séria, a despeito do clima tempestuoso que tornava perigoso para um bote levar-nos de um barco para o outro, o capitão [235]consentiu em sinalizar para a embarcação inglesa, e nós fomos recebidos a bordo, mas nós fomos transferidos com dificuldade tão grande que nenhuma comunicação ocorreu quanto à maneira de nós sermos encontrados. De fato, eu ouvi o amigo italiano que estava encarregado do bote gritar alguma coisa em francês para o significado de que nós tínhamos sido recolhidos de uma balão, mas o barulho do vento era tão grande, e o capitão entendia tão pouco de francês, que ele não compreendeu nada da verdade, e assumiu-se que nós eramos duas pessoas que tinham sido salvas de um naufrágio. Quando o capitão perguntou-me em qual navio eu tinha naufragado, eu disso que uma parte de nós tinha sido levada pelo mar em um bote recreacional por uma corrente forte, e que apenas Arowhena (a quem eu descrevi como uma dama peruana) e eu fomos salvos.
Havia vários passageiros, cuja bondade para conosco nós nunca poderemos retribuir. Eu lamento pensar que eles não podem falhar em descobrir que nós não confiamos completamente neles; mas, tivéssemos nós contado tudo a eles, eles não acreditariam em nós, e foi determinado que ninguém deveria ouvir sobre Erewhon, ou ter a chance de chegar lá antes de mim, enquanto eu pudesse evitar isso. De fato, a memória das muitas falsidades que então eu fui obrigado a contar, tornaria minha vida miserável, não fosse eu sustentado pelas consolações da minha religião. Entre os passageiros havia um clérigo muito estimado, por quem Arowhena e eu fomos casados dentro de uns poucos dias de nós chegarmos a bordo.
Após uma viagem próspera de aproximadamente dois meses, nós avistamos ao Land’s End, e, em outra semana, nós desembarcamos em Londres. Uma contribuição monetária liberal foi feita para nós a bordo da embarcação, para que nós não nos encontrássemos em nenhuma dificuldade imediata sobre dinheiro. Por conseguinte, eu levei Arowhena para Somersetshire, onde minha mãe e irmãs tinham residido quando eu ouvi sobre elas pela última vez. Para meu grande sofrimento, eu descobri que minha mãe estava morta, e que a morte dela tinha sido acelerada pelo relato de eu ter [236]sido morto, o qual tinha sido trazido até a fazenda do meu empregador por Chowbok. Parecia que ele deve ter esperado uns poucos dias para ver se eu retornava, para que então ele considerasse seguro assumir que eu nunca o deveria fazer, e, portanto, inventou uma história sobre eu ter caído dentro de um redemoinho de águas ferventes enquanto descendo o vale na direção de casa. Busca foi realizada pelo meu corpo, mas o patife tinha escolhido atrair-me para um lugar onde não havia nenhuma chance dele alguma vez ser recuperado.
Minhas irmãs estavam ambas casadas, mas nenhum dos seus esposos era rico. Ninguém parecia muito alegre com o meu retorno; e eu logo descobri que, quando os parentes de um homem prantearam-no como morto, eles raramente gostam da perspectiva de terem de o prantear uma segunda vez.
Portanto, eu retornei a Londres com minha esposa e, através da assistência de um antigo amigo, eu sustentei-me escrevendo boas histórias curtas para revistas, e para uma sociedade de panfletos. Eu era bem pago; e confio que eu não posso ser considerado presunçoso ao dizer que algumas das brochuras mais populares que eram distribuídas nas ruas, e que devem ser encontradas em salas de espera de estações ferroviárias, tinham prosseguido da minha caneta. Durante o tempo que eu pude poupar, eu organizei minhas notas e diário até que eles assumiram a sua forma presente. Ali não resta nada a acrescentar, exceto revelar o esquema que eu proponho para conversão de Erewhon.
Esse esquema apenas bastante recentemente foi decidido, em consequência de ser um que parece mais provável de ser exitoso.
Será visto de uma vez que seria loucura para eu ir com dez ou doze missionários subordinados pelo mesmo caminho que aquele que me levou a descobrir Erewhon. Eu deveria ser aprisionado por tifo, além de ser entregue aos endireitadores por ter fugido com Arowhena: um destino ainda mais sombrio, ao qual eu dificilmente [237]me atrevo a aludir novamente, seria reservado para os meus devotos trabalhadores companheiros. Portanto, é evidente que alguma outra forma tem de ser descoberta para chegar aos erewhonianos, e eu fico grato de dizer que uma outra maneira não está em falta. Um dos rios que descia a partir das Montanhas Nevadas, e passava através de Erewhon, é conhecido ser navegável por várias milhas a partir da sua boca. Suas águas superiores ainda nunca foram exploradas, mas eu tenho pouca dúvida de que será considerado possível levar uma leve canhoneira (pois nós temos de proteger a nós mesmos) aos arredores do país erewhoniano.
Portanto, eu proponho que uma dessas associações deveria ser formada na qual o risco de cada um dos membros esteja confinado ao montante da sua aposta no interesse. O primeiro passo seria desenhar um prospecto. Nesse, eu aconselharia que nenhuma menção devesse ser feita ao fato de que os erewhonianos são as últimas tribos. A descoberta é uma de interesse absorvente para mim mesmo, mas ela é de valor sentimental em vez de comercial para mim, e negócio é negócio. O capital a ser levantado não deveria ser de menos do que cinquenta mil libras esterlinas, e poderia ser em quotas de libras esterlinas de cinco ou em dez como subsequentemente determinado. Isso deveria ser amplamente suficiente para as despesas de uma viagem experimental.
Quando o dinheiro tiver sido contribuído, seria o nosso dever contratar um navio a vapor de aproximadamente doze ou quatorze mil toneladas de carga, e com acomodações para um carregamento de passageiros de terceira classe. Ele deveria carregar dois ou três armas, no caso dele ser atacado por selvagens na boca do rio. Botes de tamanho considerável também deveriam ser providenciados, e eu penso que seria desejável que também esses deveriam carregar dois ou três canhões de seis libras. O navio deveria ser levado rio acima até onde fosse considerado seguro, e um grupo deveria ser escolhido para subir nos botes. A presença tanto de Arowhena quanto de mim mesmo seria necessária nesse estágio, na medida que o nosso conhecimento da linguagem desarmaria suspeitas e facilitaria negociações.
[238]Nós deveríamos começar representando as vantagens proporcionados ao labor na colônia de Queensland, e apontar para os erewhonianos que, ao emigrarem para lá, eles seriam capazes de acumular, cada um e todos eles, fortunas enormes – um fato que seria facilmente provável através de uma referência às estatísticas. Eu não tenho dúvida de que, dessa forma, um número muito grande poderia ser induzido a retornar conosco em grandes botes, e que nós poderíamos encher nossas embarcações com emigrantes em duas ou três jornadas.
Devêssemos nós sermos atacados, o nosso curso de ação seria ainda mais simples, pois os erewhonianos não têm pólvora, e ficariam tão surpresos com os seus efeitos que nós deveríamos ser capazes de capturar tantos quantos nós escolhêssemos; nesse caso, nós deveríamos ser capazes de nos engajar com eles em termos mais aventurosos, pois eles seriam prisioneiros de guerra. Mas mesmo se nós não devêssemos encontrar violência, eu não duvido de que um carregamento de sete ou oito centenas de erewhonianos poderiam ser induzidos, uma vez que eles estivessem a bordo, a assinarem um acordo, o qual deveria ser mutuamente vantajoso para nós e eles.
Então nós deveríamos prosseguir para Queensland, e dispor do nosso engajamento com os erewhonianos para os cultivadores de açúcar daquele assentamento, quem estão em grande carência labor; acredita-se que o dinheiro realizado dessa maneira possibilitaria que nós declarássemos um belo dividendo, e deixaria uma balança considerável, o qual poderia ser gasto repetindo nossas operações para trazer mais outros carregamentos de erewhonianos, com consequentes lucros frescos. De fato, nós poderíamos ir e voltar enquanto houvesse uma demanda por labor em Queensland, ou, de fato, em qualquer outra colônia cristã, pois o suprimento de erewhonianos seria ilimitado, e eles poderiam ser amontoados e alimentados a um custo muito razoável.
Seria o meu dever e o de Arowhena cuidar para que os nossos emigrantes devessem ser embarcados e alojados nos lares de produtores de açúcar religiosos; essas pessoas conceder-lhes-iam [239]o benefício de instrução da qual eles estão tão intensamente em necessidade. A cada dia, tão logo eles pudessem ser dispensados do seu trabalho nas plantações, eles seriam reunidos para prece, e estariam completamente fundamentados no catecismo da igreja, enquanto cada sábado inteiro deveria ser devotado ao cântico de salmos e à ida à igreja.
Deve-se insistir sobre isso, tanto para colocar um fim em qualquer sentimento de desconforto que poderia se mostrar ou em Queensland ou na pátria quanto aos meios através dos quais os erewhonianos foram obtidos, quanto também porque isso daria aos nossos próprios acionistas o conforto de refletirem que eles estavam salvando almas e enchendo os seus próprios bolsos em um e mesmo momento. Pela época que os imigrantes tivessem se tornado velhos demais para trabalhar, eles estariam completamente instruídos em religião; então eles poderiam ser embarcados de volta para Erewhon e levar a boa semente com eles.
Eu não posso ver nenhum impedimento nem dificuldade sobre o assunto, e confio que este livro anunciará suficientemente o esquema para assegurar a subscrição do capital necessário; tão logo isso esteja prestes a ser publicado, eu garantirei que eu converto os erewhonianos não apenas em bons cristãos, mas também em uma fonte de lucro considerável para os acionistas.
Eu deveria acrescentar que não posso reivindicar o crédito por ter originado o esquema acima. Por meses eu tinha estado no limite de minha inteligência, formando plano depois de plano para a evangelização de Erewhon, quando, através de uma daquelas interposições especiais que deveriam ser uma resposta suficiente para o cético, e tornar até o mais confirmado racionalista irracional, meu olhar foi dirigido para o seguinte parágrafo no jornal Times, de um dos primeiros dias de janeiro de 1872:
“POLINÉSIOS EM QUEENSLAND. - O marquês de Normanby, o novo governador de Queensland, completou sua inspeção dos distritos norte da colônia. É afirmado que em Mackay, um dos melhores distritos cultivadores de açúcar, [240]sua excelência viu uma grande quantidade de polinésios. No curso de um discurso para aqueles que lá o entreteram, o marquês disse: ‘Disseram-me que os meios através dos quais os polinésios foram obtidos não foram legítimos, mas eu tenho falhado em perceber isso, na medida que, pelo menos, até onde se diz respeito à Queensland; e se alguém pode julgar pelos semblantes e maneiras dos polinésios, eles não experienciam nenhum arrependimento diante de sua posição.’ Mas sua excelência apontava a vantagem de lhes conceder instrução religiosa. Tenderia a colocar em repouso um sentimento desconfortável que no presente existia no país saber que eles eram inclinados a reter os polinésios e ensinar-lhe religião.”
Eu sinto que o comentário é desnecessário e, portanto, eu concluirei com uma palavra de agradecimento ao leitor, quem teve a paciência de me seguir através das minhas aventuras sem perder a sua calma; mas com dois, para qualquer um quem possa escrever de uma vez para o Secretário da Companhia de Evangelização de Erewhon, Limitada (no endereço que depois deverá ser anunciado), e requisitar ter seu nome colocado como um acionista.
P.S. - Eu acabei de receber e corrigir a última prova do volume anterior, e estava caminhando o Strand abaixo do Temple Bar para a Charing Cross, quando, ao passando pelo Exeter Hall, eu vi um número de pessoas de aparência devota aglomerando-se com rostos cheios de interesse e antecipação complacente. Eu parei, e vi uma anúncio de que um encontro de missionários devia ser realizado imediatamente, e que o missionário nativo, o rev. William Habakkuk, de ----- (a colônia a partir da qual eu tinha partido em minhas aventuras), seria apresentado, e fazer um breve discurso. Após alguma dificuldade, eu obtive admissão, e ouvi dois ou três discursos, os quais foram prefácios à introdução do sr. Habakkuk. Um desses me impressionou como talvez o mais pretensioso [241]que eu alguma vez tinha ouvido. O orador disse que as raças de quem o sr. Habakkuk era um exemplo, eram, com toda probabilidade, as dez tribos perdidas de Israel. Eu não me atrevi a contradizê-lo então, mas eu senti-me irado e injuriado ouvir que orador pulou para uma conclusão tão irracional em consequência de fundamentos tão insuficientes. A descoberta das dez tribos era minha, e minha apenas. Eu ainda estava no auge mesmo de indignação quanto houve um murmúrio de expectativa no salão, e o sr. Habakkuk foi trazido à frente. O leitor pode julgar sobre minha surpresa ao descobrir que ele não era outro senão meu velho amigo Chowbok!
Meu queixo caiu, e meus olhos quase saltaram da minha cabeça com espanto. O pobre camarada estava terrivelmente assustado, e a tempestade de aplauso que saudou sua introdução parecia apenas adicionar à sua confusão. Eu não me atrevo a confiar em mim mesmo para relatar o seu discurso – de fato, eu dificilmente consegui ouvi-lo, pois eu estava quase chocado tentando suprimir meus sentimentos. Eu estou certo de que eu entendi as palavras “Adelaide, a Rainha Viúva,” e eu acho que logo depois eu ouvi “Maria Madalena,” mas então eu tive de deixar o salão, por medo de ser revelado. Enquanto na escadaria, eu ouvi outra irrupção de aplausos prolongados e entusiasmados, assim, eu suponho que a audiência ficou satisfeita.
Os sentimentos que surgiram em primeiro lugar em minha mente dificilmente foram de uma caráter muito solene, mas eu pensei na minha experiência com Chowbok, na cena no galpão de lã, nas inumeráveis mentiras que ele me contou, nas suas investidas repetidas sobre o conhaque, e nas muitos incidentes nos quais eu não considerava que vale a pena demorar-me; e eu não pude senão derivar alguma satisfação a partir da esperança de que meus próprios esforços poderiam ter contribuído para a mudança que sem dúvida tinha sido operada sobre ele, e que o rito que eu tinha realizado, por mais que amadoramente, sobre aquele selvagem leito de rio em terras altas, não foi inteiramente sem efeito. Eu confio que o que escrevi [242]sobre ele na parte inicial do meu livro pode não ser difamatório, e que isso não pode causar nenhum prejuízo com seus empregadores. Ele era então não regenerado. Certamente eu tenho de o encontrar e ter uma conversa com ele; mas, antes que eu deva ter tempo para o fazer, estas páginas estarão nas mãos do público.
Finalmente, eu vejo a probabilidade de uma complicação que me causa muita inquietação. Por favor, contribua rapidamente. Dirija-se a Mansion House, aos cuidados do lorde prefeito, a quem eu instruirei para receber nomes e contribuições para mim até que eu possa organizar um comitê.
FIM
ORIGINAL:
BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 234-242. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/234/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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