A Múmia! Um Conto do Século XXII - Volume I - Capítulo X

A Múmia! Um Conto do Século XXII


Por Jane C. London


Volume I


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Capítulo X


[226]No último capítulo, nós deixamos o dr. Entwerfen proferindo uma exclamação muito moral, se não uma muito nova, sobre a vaidade das expectativas humanas; a qual escassamente tinha escapado dos seus lábios, antes que o destino cruel, resolvendo não ser acusado em vão, supriu-o com causa ainda mais abundante para lamentação. Nós mencionamos antes que o doutor tinha tropeçado enquanto ele ia embora das pirâmides, e que os amigos dele ergueram-no do chão; mas, quais foram a consternação e desânimo dele, quando, olhando ao redor para os agradecer, ele descobriu que estava cercado por homens armados, quem lhe ordenavam, pelo nome real, a render-se! Tristemente o doutor virou seus olhos lamentáveis para Edric, mas, ai de mim! Ele estava no mesmo [227]dilema que ele mesmo; e, a despeito das suas súplicas, eles foram marchados para a prisão, sem serem informados de qualquer maneira de qual crime eles tinham cometido.

Tristemente a noite passou, e sombriamente amanheceu o dia sobre os viajantes infelizes, cujas mentes eram perturbadas e desorientadas pelo sucesso extraordinário do seu terrível experimento, e cuja miséria era infinitamente intensificada pelo suspense que eles tinham de suportar, tanto por conta da sua ignorância do crime pelo qual eles estavam sendo acusados, quanto da punição provável, se eles devessem ser considerados culpados. Logo depois do amanhecer, uma convocação para eles comparecerem em juízo chegou, e eles foram conduzidos diante do mesmo magistrado quem, no dia anterior, tinha tratado-os com gentileza tão oficiosa.

Contudo, muito diferente foi o solene juiz, quem, envolto em todas as insígnias da dignidade magistral, agora se sentava sobre o banco, distante do cavalheiro agradável e de bom temperamento das pirâmides; e os viajantes sem sorte viram em um instante que não era provável de que eles experienciassem [228]qualquer favor a partir de sua familiaridade anterior com ele. A corte estava lotada de pessoas, e os prisioneiros viram que eles eram considerados com curiosidade misturada com horror e medo sobrenatural. Não é agradável sentir a si mesmo um objeto do desgosto de ninguém; e, embora Edric magnanima e frequentemente repetisse para si mesmo que era bastante indiferente para ele o que miseráveis tão ignorantes como os egípcios pensavam dele; contudo, se ele tivesse confessado a verdade, ele teria ficado bastante bem contente de ter encontrado a si mesmo o objeto da admiração em vez do ódio deles; e ele teria ficado muito contente de ter renunciado a ambos para estar seguramente em casa novamente; enquanto o doutor, aberta e intensamente, lamentava os confortos muito lamentados do seu próprio escritório agradável na casa de sir Ambrose. Contudo, pouso tempo foi permitido para reflexão; pois, tão logo os prisioneiros foram posicionados no tribunal, o exame deles começou.

Então, cavalheiros!” disse o instruído juiz, “vocês estão condenados – não, eu quero dizer, são acusados, de uma ofensa muito horrível, hedionda e sacrílega [229]– uma ofensa que faz o nosso cabelo saltar da cabeça com horror, e cada cacho separado erguer-se em vingança contra vocês.” O juiz parou, para que os prisioneiros pudessem admirar a sua eloquência; mas, aí de mim! Tal era a natureza absorvente do amor-próprio que eles estavam apenas pensando no que será feito com eles, e ao que aquele exórdio terrível era provável de levar. Após uma breve pausa, Edric, supondo que se esperava que eles fossem falar, dirigiu-se ao juiz, e suplicou para saber de qual crime eles estavam sendo acusados.

Nós somos estrangeiros,” ele disse, “e cavalheiros. Nós fomos atraídos para o seu país por um relato das maravilhas que ele continha; nós declaramos nossos propósitos abertamente; nós não empregamos nenhuma dissimulação; e nós não fizemos nada que nós tenhamos de ruborizar ao confessar –”

Um murmúrio confuso correu através da corte enquanto ele falava, expressivo do desgosto e da aversão máximos; Edric sentiu-se indignado, e ele olhou orgulhosamente ao redor enquanto acrescentava: -

Sim, eu repito que nós não fizemos nada do que nós necessitemos ruborizar ao confessar, e nada derrogatório [230]para os nossos caráteres como ingleses e cavalheiros.”

Feiticeiros! Bruxos! Demônios disfarçados!” bradou a multidão. “Destruam-nos! Queimem-nos! Guilhotinem-nos! Destruam-nos!”

Isso é justo? Isso é generoso?” perguntou Edric. “Se nós fizemos algo errado, que nossos crimes sejam provados, e nós estamos prontos para nos submeter a qualquer punição que você possa considerar apropriada infligir; mas não nos condene não ouvidos. Na Inglaterra, todo homem é considerado inocente até que seja provado culpado. Você vangloria-se de ter importado e aperfeiçoado todos os regulamentos úteis da mãe-pátria e certamente não pode ter omitido a sua lei mais gloriosa. Então, permita-nos ter um julgamento justo, e que Deus me livre que o curso da justiça deva ser impedido!”

Você fala bem, senhor,” disse o juiz; “mas isso não é útil aqui. A minha cadeira, senhor, é feita de olmo-bruxo, e toda a corte é revestida com madeira consagrada; assim você pode levar os seus familiares para outro mercado, pois aqui eles não lhe servirão de nada.”

Bom Deus!” exclamou Edric, apertando [231]as mãos, “que ignorância! Que superstição grosseira! Sob o poder desse homem estão as nossas vidas!”

Oh! Oh!” disse o juiz, quem viu o seu desespero, embora ele não conhecesse exatamente a causa; “Eu trouxe vocês, trouxe? Sim, sim; eu digo a vocês, nenhum encantamento será de nenhuma utilidade aqui; e assim, escriturário, chame as testemunhas.”

A primeira pessoa examinada foi o homem quem tinha sido deixado encarregado do balão, e ele depôs como se segue: - “Porque, senhor,” disse ele, coçando a cabeça, como se ele supusesse que a sabedoria habitasse em seus dedos, e que o toque deles pudesse conceder um pouco ao cérebro, “vossa excelência disse-me para chamar o posse comitatus, e estabelecer uma guarda de policias ao redor do giratório dos cavalheiros; mas eu pensei que, como, vendo que era apenas uma coisa de aparência estranha, e não provável de tentar ninguém a roubá-la, eu também poderia poupar os cavalheiros de jogarem seu dinheiro fora em uma parcela de camaradas preguiçosos, e mantive vigilância sobre ela eu mesmo.”

E assim obter a recompensa em vez deles,” observou o juiz.

[232]“Porque, vossa excelência,” disse o camarada, sorrindo sombriamente. “Eu pensei que eles poderiam dar alguma coisa que poderia me fazer bem, mas que não seria nada em meio a tantos.”

Muito verdadeiro!” observou o juiz; “Prossiga, Gregory.”

Bem,” continuou Gregory, “enquanto eu estava sentado lá, pensando em absolutamente nada, de alguma maneira, eu acredito, eu tinha caído em um pouco de soneca, eu ouvi um tipo estranho de zumbindo e eu abri meus olhos, e ali vi o giratório dos cavalheiros zumbindo e soprando como um motor a vapor em chamas, e, em meio à fumaça, eu jurarei que vi a múmia do rei Quéops tão claramente quanto vejo sua adoração ali, sentada em seu trono.”

Oh!” gemeu a multidão horrorizada; “Oh!” gemeram o juiz e o júri.

Sim,” continuou o homem; “eu jurarei, se esta for a última palavra que tinha de falar, que eu o vi lá vomitando fogo, e seus grandes olhos queimando como uma fornalha ardente.”

Oh!” gemeram o juiz, a multidão e o júri, um grau mais alto do que antes.

[233]“E então,” retomou Gregory, “alguma coisa zumbiu, e de lá tudo desapareceu rapidamente, como um clarão de relâmpago –”

Oh!” Gritou a corte inteira, em uma convulsão de terror. Em particular, algumas do belo sexo gritaram e cobriram suas faces, como se elas temessem que a próxima façanha dos mágicos temíveis seria explodir a corte e enviar todos eles voando em busca da múmia ressuscitada.

Com a sua permissão, senhor,” disse Edric, assim que o tumulto tinha se abatido um pouco, “isso não prova nada, quer contra o meu amigo, quer contra mim mesmo. De fato, nós estamos prejudicados por isso, e temos uma alegação contra você em vez de você ser capaz de substanciar uma acusação contra nós. Nós deixamos o nosso balão, contendo artigos valiosos, e dinheiro a um montante considerável, sob seus cuidados, ou, pelo menos, sob a custódia do homem a quem você recomendou. Quando nós saímos da pirâmide, nós, é claro, perguntamos pelo nosso balão – ele tinha desaparecido; e, em vez de nos fazer reparações pela nossa perda, você joga-nos dentro da prisão e conta-nos uma história selvagem, extravagante do desaparecimento [234]da nossa propriedade, na qual nenhum homem em seu bom senso pode possivelmente acreditar.”

Outro murmúrio confuso, embora muito diferente em seu caráter do anterior, correu através do tribunal na conclusão desse discurso; e o juiz, se tal expressão não for profana quando falando de um representante da justiça, pareceu excessivamente muito tolo.

Não faria melhor vossa adoração chamar a outra testemunha?” Sussurrou o escriturário, tendo pena do dilema do seu superior hierárquico.

Verdadeiro, verdadeiro!” disse o Licurgo do Angloegito; “a sua observação é prematura, jovem; quando o caso tiver sido provado contra você, haverá tempo suficiente para você pensar na sua defesa.”

Edric curvou-se em assentimento, e o exame continuou. O guia foi a próxima testemunha.

Bem, Samuel,” disse o juiz; “o que você sabe sobre esse assunto?”

Por que, senhor,” respondeu Samuel, “vós percebeis, minha dama e eu estávamos sentado perto do fogo, e nós [235]obtivemos uma salsicha negra, visto que nós estávamos indo jantar. E assim disse a dama, ‘Eu gosto isso cortado e frito,’ e assim eu disse –”

Espere, rapaz!” exclamou o juiz, com grande dignidade. “Não abuse da paciência da Corte. Nós não temos nada a ver com a sua dama ou a salsicha negra; isso é bastante irrelevante para a questão diante de nós. Prossiga.”

Mas Samuel não conseguiu prosseguir; e, como o seu predecessor no lugar da testemunha, ele apenas permaneceu parado e coçou a cabeça.

Por que você não fala, rapaz?” perguntou o escriturário.

Porque eu não sei o que dizer,” respondeu Samuel.

Você tem de contar tudo o que você sabe sobre esse assunto,” prosseguiu o escriturário.

Mas eu não sei por onde começar!” Respondeu a testemunha perplexa; “vossa adoração diz que não é respeitoso.”

Comece com a pirâmide,” disse o juiz; “e, se você puder, forneça um relato claro de tudo [236]que aconteceu depois que você deixou a antiga passagem pelo bloco móvel na parede que foi descoberto por último.”

Porque eu não posso dizer que houve qualquer coisa muito particular acontecida, que eu saiba, senhor,” disse Samuel, “depois disso, até que nós chegamos ao abismo e, em seguida, descemos, senhor, você sabe, até que nós chegamos à tumba do Rei Quéops; e então eu voltei-me para os cavalheiros mesmos, como nós sempre fazemos, para o perfeito, como Parson Snorum o chama. E então eu sento-me na cripta funerária, para esperar por eles, e eu apenas me enrolei, e estava cochilando, quando eu ouvi um barulho tão grande como se as pirâmides estivessem todas tombando ao redor dos meus ouvidos. Assim eu pulei e esfreguei os olhos, pois eu não sabia muito bem onde estava; e nesse momento eu vi alguma coisa que parecia bater nas tochas que estavam nas mãos das duas grandes figuras sentadas, e extingui-las; e então eu vi uma figura alta aproximar-se de mim planando; e quando ele veio até a luz, eu vi seus grandes olhos em chamas; e então eu caí de joelhos, e ele agarrou meu ombro e apertou. Veja, [237]vossa excelências!” desnudando seu ombro enquanto falava, e mostrando as marcas profundamente dentadas dos dedos ossudos da Múmia. Novamente um gemido de horror e indignação correu através da Corte; e quando outra testemunha provou que o sarcófago de Quéops tinha sido examinado e foi encontrado vazio, o juiz pareceu pensa que era um caso fácil, e convocou triunfantemente Edric para a sua defesa.

Eu não vejo que o que foi provado,” disse Edric, estremeceu a despeito de si mesmo, “possa afetar meu tutor ou a mim mesmo. Essas pessoas dizem que uma múmia foi revivida, e, saindo da pirâmide na qual ele tinha estado por tanto tempo emparedado, fugiu com o nosso balão: mas, supondo o conto ser verdadeiro, que prova você tem de que nós estivemos de qualquer maneira implicados na atividade? Nós estivemos na pirâmide, é verdadeiro; mas assim também esse homem, a quem você trouxe à frente como uma testemunha contra nós. Supondo que foi a intervenção de algum auxílio humano que ergueu a múmia da tumba dela – um fato, a propósito, de maneira alguma provado, porque não pode ele ser o agente em vez de nós? [238]O que há lá para estabelecer a acusação contra nós? Nós ganhamos alguma coisa através dessa aventura? Pelo contrário, nós não fomos sérios perdedores por causa dela? Onde está o nosso balão, e os artigos valiosos que ele continha? Se nós fôssemos feiticeiros, deve ser confessado que nós somos uns muito tolos; pois nós perdemos a nossa propriedade e jogamos a nós mesmos na prisão, sem colher a menor vantagem possível? E se nós temos o poder que você parece atribuir a nós, porque nós permanecemos aqui para sermos questionados, quando nós poderíamos, tão facilmente, voar para longe em uma chama de fogo, ou transformar todos vocês em estátuas, e caminhar quietamente para fora sem você ser capaz de nos seguir?”

Todos estremeceram, e muitos empalideceram diante desse discurso, parecendo temer que Edric estivesse prestes a colocar suas sugestões em execução; enquanto o juiz parecia firme, e em vasta perplexidade quanto ao que ele faria melhor em determinar; - e as pessoas estavam terrivelmente assustadas, como medo de que, afinal, elas pudessem perder o espetáculo edificante de um auto-de-fé, pelo qual elas tinham estado tão impacientemente ansiando.

[239]Edric acompanhou a hesitação do juiz, e aventurou-se a aumentá-la para a sua própria vantagem. - “De minha parte,” continuou ele, “eu sou um súdito britânico e, como tal, estou sobre a proteção da minha própria Corte; minha Soberana tem um cônsul aqui, e a ele eu faço meu apelo. Eu não sou nem ignóbil, nem desconhecido em meu próprio país, - meu nome é Montagu, e eu sou irmão do general celebrado daquela família, - cujas vitórias, sem dúvida, alcançaram até esta província remota!”

Meu caro sr. Montagu!” disse o juiz, “Eu realmente suplico o seu perdão: por que você não me familiarizou mais cedo com a sua dignidade? Eu atrevo-me a dizer que não há verdade nenhuma na acusação:- apenas me assegure, em consequência de vossa honra, que você não tocou a múmia, e que você não sabe nada do ocorreu com ela no presente, e eu ordenarei instantaneamente que você seja colocado em liberdade.”

Eu certamente não sei o que aconteceu com aquilo,” respondeu Edric.

Não!” interrompeu o dr. Entwerfen, vindo à frente com o ar de um mártir determinado, [240]“eu não tolerarei semelhante equívoco. - Eu antes prefereria perecer na estaca do que negar por um momento, as minhas opiniões, ou trair os interesses sagrados da ciência com os quais eu sinto que eu estou confiado. Não, senhor! Meu pupilo não pode fazer a declaração pública que você requer. Eu sei que ele não quer – e ele não poderia se ele quisesse; - pelo contrário, eu confesso o fato. Nós viemos aqui com o propósito expresso de tentar ressuscitar a múmia de Quéops, e eu regozijo-me com o pensamento orgulhoso que nós tivemos sucesso.” (um gemido de horror.) “Sim, senhor, eu não hesito em confessar abertamente que o grande objetivo de minha vida, por vários anos sucessivos, tem sido detectar no que consistia o estranho e inexplicável segredo da vida. Nós vivemos, senhor, - nós morremos: nós nascemos, e nós somos enterrados: nós sabemos que tempo, doença ou violência podem matar-nos; mas quem pode dizer em que princípio misterioso a vida consiste? Várias teorias têm sido abordadas, com as quais, sem dúvida, um cavalheiro da sua inteligência e informação extensa está bem familiarizado; - e tem-se declarado sucessivamente que a vida depende do coração, do cérebro, da [241]circulação do sangue e da respiração dos pulmões. Contudo, todos são falaciosos; o coração tem sido ferido, e o cérebro tem sido removido, e, contudo, o paciente tem vivido, enquanto que as operações de respiração e circulação têm sido mantidas por horas, em um corpo do qual o espírito vital partiu. Pesando todos esses e outros argumentos diversos em minha mente, tem-me impressionado, e de fato eu posso dizer que, após madura deliberação, eu confiantemente cheguei à conclusão de que ambas faculdades que nós chamamos de vida e alma dependem inteiramente do sistema nervoso. Todos os filósofos não concordam que nós recebemos as nossas ideias meramente através do meio dos sentidos? E podem os nossos sentidos ser operados de outra maneira que não através da influência dos nervos? Ergo, apenas os nervos comunicam ideias e sensações para a mente – ou antes, os nervos sozinhos são a mente. Eu acredito que nenhuma única instância seja conhecida de que a vida permaneceu depois do sensório ter sido destruído, ou até seriamente machucado. Portanto, o que pode ser mais simples do que supor que a vida reside ali? Perseguindo essa ideia, eu há muito [242]tenho estado convencido de que, onde o sistema nervoso permaneceu ileso, e a aparência de morte foi ocasionada apenas por uma suspensão da operação das funções animais, a vida poderia ser restaurada, se, através da intervenção de alguma agência poderosa, o sistema nervoso pudesse ser excitado à reação; e como é claro que isso não poderia ser efetuado onde qualquer tipo de decomposição tivesse ocorrido, pareceu-me que uma múmia era o único corpo sobre o qual o experimento poderia ser tentado com a mínima perspectiva de sucesso. Contudo, a partir de várias circunstâncias, nunca até agora esteve sob o meu poder realizar meus desejos sobre esta cabeça; mas por umas poucas semanas passadas, meu pupilo cogitou anseios similares aos meus; e ontem nós vimos nossas esperanças alcançadas. Sim; eu agora me vanglorio de que não pode restar uma sombra de dúvida para o mundo de que, em casos ordinários, antes que a decomposição ocorra, a ressurreição não é apenas possível, mas provável, e que os corpos mortos podem ser facilmente restaurados à vida.”

O horror e a consternação produzidos por esse discurso extraordinário, em meio aos [243]angloegípcios que o ouviram, em muito excederam quaisquer poderes humanos de descrição. O terror deles diante do que eles consideravam como a impiedade atrevida do doutor, sendo consideravelmente aumentado por eles não entenderem uma décima parte do que ele disse, - e quando ele tinha terminado, houve uma pausa morta que ninguém se atreveu a interromper, até que um súbito sopro de vento aconteceu de abrir a porta da sala de repouso da justiça, a multidão terrificada caiu para trás horrorizada, um depois do outro, pálidos e trêmulos, como se eles esperassem que sua Majestade Infernal fosse aparecer diante dele em propria persona.

Quando a tranquilidade foi restaurada em algum grau, o juiz ordenou que os prisioneiros fossem reconduzidos à prisão.

Após o discurso perigoso e ímpio que nós acabamos de ouvir,” disse ele, “seria loucura confiar em tais pessoas suspeitas à solta; e contudo, eu de bom grado tomaria tempo para considerar o caso, e para determinar se, de fato, esse jovem é a pessoa que ele se representa; como eu reconheço que eu deveria sentir muito ao infligir a penalidade completa sobre o irmão [244]do comandante-em-chefe de sua britânica Majestade.”

Protesto foi inútil, e os prisioneiros foram novamente conduzidos ao seu calabouço, onde eles foram pesadamente acorrentados, e deixados para ruminar sobre as calamidades que tinham acontecido a eles. Longe de agradáveis foram essas meditações; pois Edric estava com muita raiva da candura inoportuna do doutor; e o doutor estava muito envergonhado com o efeito já produzido pela eloquência dele, para desejar fazer qualquer exibição adicional dela. Finalmente, conforme os olhos dele acostumaram-se com a fraca luz brilhante permitida no calabouço, ele percebeu que a parede na qual ele estava acorrentado estava coberta com hieróglifos, e tentou afastar o seu desgosto examinando-os.

Eu congatulo você, senhor,” disse Edric, quando ele percebeu isso, sentindo-se bastante indignado diante da frieza do tutor – “Eu congratulo você muito sinceramente em consequência de sua filosofia, e muito sinceramente eu desejaria que eu pudesse imitá-la.”

Ah, Edric!” retornou o doutor, “todos os homens não são igualmente dotados.”

[245]“Quer com a arte de produzir tolices, quer de as esquecer,” disse mordazmente.

Esses hieróglifos são muito curiosos,” observou o doutor, quem tinha suas próprias razões para não querer perseguir o assunto; “veja como os antigos egípcios trabalhavam lindamente em granito. O polimento fino que eles se esforçavam para dar a essa substância dura seria perfeitamente surpreendente, se nós não nos lembrarmos que eles sempre afiavam as ferramentas deles com pó de esmeralda.”

Aham!” disse Edric, em um tom que parecia implicar “e o que me importa se eles o fizessem?” Contudo, o doutor estava ousado e continuou: “Veja você, como usual, a figura do touro é frequentemente repetida aqui. Evidentemente esta parede foi construída a partir de pedras recolhidas de alguma ruína. A propósito, Edric, eu não penso que eu alguma vez tenha explicado para você porque os antigos egípcios escolherem um touro como uma das usa divindades, ou, em vez disso, como a sua divindade principal. Você sabe que antigamente o ano começava em Touro, embora, pela precessão do equinócio, ele tenha avançado além de Áries. Bem, como os antigos egípcios descobriram que o sol [246]começava a sua carreira em Touro, o que poderia ser mais natural do que eles devessem identificar um touro com o princípio vivificador? A mesma teoria pode explicar a lenda dos caldeus a qual supõe o mundo ter começado por um touro golpeando o caos com o seu Chifre – chifre que, a propósito, foi provavelmente a origem da fábula de Amalteia, ou do Chifre da Abundância.

Edric não respondeu, e o doutor, temendo um pausa, a qual poderia conceder ao seu pupilo uma oportunidade para o repreender, prosseguiu:-

Embora os egípcios tivessem um número de divindades, eles claramente adoravam apenas duas, a saber, os princípios do bem e do mal. Osíris, Ísis, Kneph, Ptá, Hórus, e toda a sua legião de divindades inferiores, e luz e vida eram sua essência; enquanto Tifão, Campsa e as divindades malignas, exemplificavam o segundo, e os seus atributos eram invariavelmente escuridão e morte.”

Pelo amor de Deus!” exclamou Edric, “não diga mais nada sobre o assunto, pois não está no poder da linguagem descrever o horror que eu tenho diante do [247]mero pensamento de qualquer coisa egípcia. Escapemos deste país terrível, e eu muito sinceramente espero que nada nunca possa acontecer para mesmo me lembrar da memória dele para minha imaginação.”

Tão grandes e tão mutáveis são os desejos da vida humana!” disse o doutor. “Mas há apenas umas curtas semanas, o Egito era o objetivo dos seus desejos, e a perspectiva de reanimar um cadáver -”

Oh! Não mencione isso!” exclamou Edric, estremecendo. “Oh Deus! Quão justamente eu sou punido pela satisfação mesma das minhas esperanças profanas! - Mesmo agora os olhos terríveis daquela múmia horrenda parecem encarar-me; e mesmo agora eu sinto o agarrão dos seus hórridos dedos ossudos no meu braço!”

Oh sim, sem dúvida!” exclamou o doutor, “ele apertou forte. Ele era um rei, e reis deveriam ter braços forte, você sabe.”

Pelo amor de Deus! Não faça piadas sobre um tal assunto,” retornou Edric; “um sujeito tão selvagem e terrível, que eu ainda escassamente acredito que tudo que se passou não foi apenas um sonho.”

Se for,” disse o doutor, “é um do qual eu livremente confesso que eu deveria estar muito feliz para [248]despertar, pois eu tenho de confessar que essa prisão absolutamente não é do meu gosto.”

E contudo, não é sua falta –?” começou Edric.

A recriminação, Edric, sempre é loucura,” interrompeu o doutor, quem agora não se sentia muito orgulhoso do papel que ele interpretou diante do magistrado, nem muito ansioso para a ter aludida; - “e em vez de perder tempo arrependendo-se de erros passados, é o papel de um homem sábio tentar descobrir meios de os remediar e evitá-los no futuro.”

Concordo!” retornou Edric; “e como agora eu presumo que você esteja convencido de que você aprendeu que dissertação sobre o assunto da vida foi, para dizer o mínimo, inoportuna, nós abandonaremos o assunto. Mas, mesmo se nós sairmos da prisão, o que será de nós? Nosso dinheiro e valores estavam todos no balão, e aqui estamos nós, em um país estrangeiro, inteiramente destituídos.”

Não inteiramente, Edric – não inteiramente!” exclamou o doutor, um brilho de satisfação espalhando-se novamente sobre o rosto dele. “não, não; eu guardei-me contra isso; ah, que coisa é [249]ser previdente! Bem! Algumas pessoas certamente são singularmente dotadas nessa direção, e é uma coisa feliz para você que tenha alguém para pensar por você. Veja aqui!” Mostrando as coisas enquanto ele falava; “aqui estão uma cama, almofada e travesseiros, prontos para serem inflados; uma cama portável, roupas de cama, sabonete, canetas, tinta, papel, velhas, fogo, facas, garfos, colheres e dinheiro; tudo confortavelmente empacotado em minha bengala!”

Seu apoiador,” retornou Edric, sorrindo, “como você costumava chamá-lo; e como ele agora parece provável de se provar, em mais sentidos do que um.”

Sim, sim!” exclamou o doutor, “que apenas saímos da prisão, e todo o resto será fácil.”

Mas isso apenas, doutor.”

Sobre isso, nós temos de levar tempo para considerar.”

Bem, é algum conforto que é provável que tempo suficiente seja concedido a nós, visto que minha insinuação a respeito do cônsul britânico não parece ter sido jogada fora sobre o juiz. Oh, doutor, se você não tivesse falado!”

Por que, certamente você não teria lhe concedido a declaração que ele requereu?”

[250]“Não houve ocasião. Ele nem desejava nem esperava mais do que o já tinha dito. Depois de que eu tinha mencionado a minha família, ele apenas desejava um pretexto decente para nos colocar em liberdade.”

De qualquer maneira,” disse o doutor, como forma de mudar de assunto, “você percebe que a minha doutrina está completamente provada pela ressurreição da Múmia, pois ela deve ter sido perfeitamente restaurada à vida e consciência, ou ela não poderia fugir com o nosso balão.”

De minha parte,” retornou Edric, “Eu escassamente posso acreditar que o que aconteceu foi real: deve haver alguma ilusão. E contudo, por quem uma ilusão pode ter sido praticada, e para qual propósito? Em resumo, eu estou bastante confuso.”

O doutor, estando muito na mesma condição, apenas conseguia simpatizar com seu pupilo; e, nesse estado, nós temos de os deixar, enquanto nós investigamos com respeito aos objeto misterioso das especulações deles.

A múmia dessa maneira estranhamente reconvocada à vida, foi de fato Quéops! E horríveis eram as [251]sensações que latejavam através de cada nervo, enquanto a consciência retornante trazia consigo todas as dores de sua existência anterior, e a circulação renovada vibrava através de cada veia. O seu primeiro impulso foi de sair da tumba na qual ele tinha ficado emparedado por tanto tempo e buscar novamente pelas regiões de luz e dia. O instinto parecia guiá-lo para isto; pois, até agora, uma névoa pendia sobre as duas faculdades, e as ideias aglomeravam-se em confusão dolorosa através da mente dele, a qual incapaz de organizar ou analisar.

Contudo, quando ele alcançou a planície, a luz e o ar parecerem revivê-lo e restaurar seus sentidos fragmentados; e, encarando selvagemente em volta, ele exclamou, “Onde eu estou? Que lugar é este? Parece-me que tudo parece maravilhoso, novo e estranho! Onde está meu pai? E onde! Oh, onde, está minha Arsinöe? Aí de mim, Aí de mim!” continuava ele, selvagemente; “Eu tinha esquecido – eu esperava que fosse um sonho, um sonho terrível, pois me parece que eu estive adormecido por muito tempo. De fato, foi realidade? Todos se foram? E foi a terrível cena verdadeira? - aqueles horrores, os quais ainda assombram minha memória como uma visão medonha? Fala! Fala!” [252]continuou ele, sua voz elevando-se em energia arrebatadora – “Fale! Deixe-me ouvir o som de outra voz, antes que o meu cérebro esteja perdido em loucura. Eu entrei no Hades, ou eu ainda estou na terra? - Sim, sim, ainda é a terra, pois ali a poderosa pirâmide que eu fiz erigida levanta-se como uma torre atrás de mim. Contudo, onde está Mênfis? Onde, meus fortes e palácios? Que massa escura, esfumaçada de construções agora rodeia-me! - Esta pode ser a uma vez vez orgulhosa Rainha das Cidades? Eu não vejo palácios, nem templos – Mênfis caiu. A poderosa barreira que protegia o esplendor dela da devastação das águas, deve ter sido varrida pelos desgastes invasores do dilatado Nilo. Mas este é o Nilo?” continuou ele, olhando selvagemente sobre o rio; “certamente eu devo estar enganado. É o rio fatal dos mortos. Nenhum bote papiruno flutua velozmente sobre a sua superfície; mas embarcações estranhas, infernais, vomitando volumes de fogo e fumaça. Sagrado Osíris, defenda-me! Onde eu estou? Onde eu estive? Um véu nebuloso parece ter sido jogado sobre a face da natureza. Desperta, desperta!” [253]Exclamou ele, com um grito de agonia; “liberte-me; eu não pretendia o matar!” Em seguida, jogando-se violentamente ao chão, ele deitou-se por alguns momentos, aparentemente, insensível. Então, erguendo-se lentamente, ele olhou para si mesmo, e um tremor profundo, não natural, convulsionou seu corpo inteiro. As suas sensações de identidade tornaram-se confusas, ele recuou com horror de si mesmo: “Esses são os ornamentos de uma múmia!” murmurou ele, em um sussurro vazio. “Então, eu estou morto?” Contudo, no instante seguinte, ele irrompeu em um riso selvagem de escárnio: - “Miserável pobre e fraco!” exclamou ele; “O que eu temo? Necessito eu tremer, em cujo peito habita fogo eterno? Em vez disso, que eu me regozije. Eu não posso me tornar mais miserável; por que eu deveria temer uma mudança? Eu aceito isto com êxtase e desafio meu destino futuro.”

Nesse momento, o cesto do balão capturou o seu olhar: “Ah, o que é isso?” exclamou ele; “Eu fui convocado! É o bote de Hecate, pronto para me levar de barco através do lago Maerian, para conhecer meu destino final. Eu venho! Eu venho! Eu não temo nenhum [254]julgamento! Meu inferno é aqui!” e, batendo no peito, ele saltou para dentro do cesto e bateu-se violentamente contra os seus lados.

Neste instante, Gregory despertou, e o seu terror não foi surpreendente. Os traços secos e distorcidos da múmia pareciam ainda mais horrendos do que antes, quando animados por paixões humanas, e a sua profunda voz vazia, falando em uma língua que ele não entendia, caía pesadamente sobre o ouvido dele, como os gemidos de espíritos malignos. Gregory tentou gritar, mas ele não conseguiu proferir um som. Ele tentou fugir, mas o seu pé parecia pregado no ponto no qual ele estava de pé, e ele permaneceu com os olhos fixos sobre a múmia, arquejando para respirar, enquanto um suor gélido destilava-se a partir de cada poro. Entrementes, Quéops tinha tropeçado na caixa contendo o aparato para a produção de ar inflamável, e, acertando-o violentamente, não intencionalmente colocou a máquina em movimento. O canos, tubos e foles instantaneamente começaram a trabalhar; e a garrafa de borracha indiana gradualmente tornou-se inflada, até que ela inchou a uma magnitude enorme, e flutuou no ar como um pássaro aprisionado, [255]batendo-se contras as paredes massivas às quais ela ainda estava amarrada.

Ainda assim não se segue,” exclamou Quéops, novamente pisando impacientemente. A garrafa de vapor de mercúrio tinha caído debaixo dos pés dele, e quebrou enquanto ele pisava nela. O vapor irrompeu a partir dele com violência inconcebível e, rasgando o balão das suas amarras, enviou-o através do ar, como uma flecha arremessada a partir de um arco.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

LONDON, J.C. The Mummy! A Tale of the Twenty-Second Century. London: Henry Colburn, New Burlington Street, 1828. p.226-255. Disponível em:<https://archive.org/details/mummyataletwent02jangoog/page/n240/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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