Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XXVIII Fuga

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


Capítulo anterior


[223]XXVIII Fuga


Embora ativamente ocupado com a tradução dos extratos fornecidos nos cinco últimos, eu também estava colocando as coisas nos trilhos para minha fuga com Arowhena. E de fato já era hora, pois eu recebi uma intimação de um dos caixas os Bancos Musicais, que eu devia ser processado em uma corte criminal, aparentemente por sarampo, mas realmente por ter possuído um relógio, e tentado a reintrodução do maquinário.

Eu perguntei, por que sarampo? E disseram que havia um temor de que circunstâncias atenuantes devessem impedir um júri de me condenar, se eu fosse indiciado por tifo ou varíola, mas que um veredito provavelmente seria obtido por sarampo, uma doença que poderia ser suficientemente punida em uma pessoa de minha idade. Fizeram-me entender que, a menos que alguma mudança inesperada devesse ocorrer a sua Majestade, eu poderia esperar o golpe ser desferido dentre de uns poucos dias.

Meu plano era este – que Arowhena e eu deveríamos escapar juntos em um balão. Eu temo que o leitor desacreditará desta parte da minha história, contudo, em nenhuma outra eu tenho tentado aderir mais conscientemente aos fatos, e posso apenas me abandonar à caridade dele.

Eu já tinha ganho o ouvido da Rainha, e tinha trabalhado tanto sobre a sua curiosidade que ela prometeu conseguir licença para eu ter um balão construído e inflado; eu indiquei a ela que nenhum maquinário complicado seria necessário – nada, de fato, exceto uma grande quantidade de seda oleada, um cesto, umas poucas cordas, etc, etc, e algum tipo de gás leve, tal como os antiquários, quem eram familiarizados com os meios empregados pelos antigos para a produção de gases mais leves facilmente poderiam instruir os seus artífices como fornecer. A avidez dela por ver uma vista tão estranha quanto a ascensão de um ser humano ao céu superou qualquer escrúpulo de consciência que, de outra maneira, ela poderia ter sentido, e ela incumbiu os antiquários de mostrarem aos artífices deles como produzir o gás, e enviou suas criadas para comprar óleo, uma grande [224]quantidade de seda (pois eu estava determinado de que o balão deveria ser grande) antes mesmo que ela começasse a tentar obter e obter a permissão do rei; contudo, isso ela se colocou a fazer, pois eu tinha enviado a ela notícia de que o meu processo era iminente.

Quanto a mim mesmo, dificilmente preciso dizer que eu nada conhecia sobre balões; nem eu via meu caminho para colocar Arowhena sorrateiramente dentro do cesto; mesmo assim, sabendo que nós não tínhamos outra chance de escapar de Erewhon, eu extrai inspiração da dificuldade na qual nós estávamos colocados, e criei um modelo a partir do qual os trabalhadores da Rainha foram capazes de trabalhar exitosamente. Entrementes, os construtores de carruagens da Rainha ocuparam-se com a construção do cesto, e foi com as ligações desse com o balão que eu tive a maior dificuldade; de fato, eu duvido de se eu deveria ter sucedido aqui, exceto pela grande inteligência de um capataz, quem se jogou de coração e alma no problema, e frequentemente tanto previu requerimentos, a necessidade dos quais me escapou, quanto sugeriu os meios de se preparar para eles.

Aconteceu que tinha havido uma longa seca, durante a parte mais recente da qual preces tinham sido oferecidas em vão em todos os templos do deus do ar. Quando eu primeiro contei a sua Majestade que eu precisava de um balão, eu disse que a minha intenção era subir ao céu e levar a melhor sobre o deus do ar através de uma entrevista pessoal. Eu reconheço que essa proposição borda a idolatria, mas há muito eu me arrependi dela, e é pouco provável que eu alguma vez repita a ofensa. Além disso, o engano, como se fosse sério, provavelmente levará à conversão do país inteiro.

Quando a Rainha contou minha proposta a sua Majestade, ele inicialmente não apenas a ridicularizou, mas ficou inclinado a vetá-la. Contudo, sendo um esposo uxório, ele finalmente consentiu – como ele sempre eventualmente fazia com tudo no que a rainha tinha colocado o coração dela. Ele rendeu-se ainda mais prontamente agora, porque não acreditava na possibilidade [225]da minha ascensão; ele estava convencido de que, mesmo se o balão devesse subir uns poucos pés no ar, ele imediatamente colapsaria, onde eu deveria cair e quebrar meu pescoço, e ele deveria livrar-se de mim. Ele demonstrou isso para ela tão convincentemente que ela ficou alarmada, e tentou falar comigo para desistir da ideia, mas ao descobrir que eu persistia no meu desejo de ter o balão construído, ela apresentou uma ordem do Rei para o efeito de todas as instalações que eu pudesse requerer devessem ser concedidas a mim.

Ao mesmo tempo, sua Majestade contou-me que minha ascensão tentada seria tornada em um artigo de impedimento contra mim, no caso de eu não suceder em leva a melhor sobre o deus do ar para parar a seca. Nem o Rei nem a Rainha tinha nenhuma ideia de que eu pretendia sumir imediatamente se eu pudesse fazer com que o vento me levasse, nem tinham nenhuma concepção da existência de uma certa firme corrente superior de ar que estava sempre determinada em uma direção, como poderia ser visto pela forma das nuvens superiores, a qual invariavelmente apontava do sudeste para o noroeste. Há muito eu tinha notado essa peculiaridade no clima, e atribui-a, justamente, eu acredito, a um alísio que era constante alguns milhares de pés acima da terra, mas era perturbado por influências locais em elevações inferiores.

Minha próxima atividade foi revelar o plano para Arowhena, e conceber os meios de a colocar dentro do cesto. Eu tinha certeza de que ela viria comigo, mas tinha me convencido de que se a coragem dela falhasse, a coisa toda deveria resultar em nada. Arowhena e eu tínhamos estado em comunicação constante através da criada dela, mas eu tinha considerado melhor não contar a ela todos os detalhes do meu esquema até que tudo estivesse resolvido. Agora o tempo tinha chegado, e eu organizei com a criada que eu deveria ser admitido por uma porta privada no jardim do sr. Nosnibor por volta da crepúsculo da tarde seguinte.

Eu cheguei no momento marcado; a garota deixou eu entrar no jardim e ordenou que eu esperasse em um beco isolado até que [226]Arowhena devesse chegar. Agora era quase verão, e as folhas estavam tão espessas sobre as árvores, que mesmo se mais alguém tivesse entrado no jardim, eu facilmente poderia ter ocultado a mim mesmo. A noite era uma de beleza extrema; o sol há muito tinha se posto, mas ainda havia um brilho rosado no céu sobre as ruínas da estação ferroviária; abaixo de mim estava a cidade, já cintilando com luzes, enquanto que, além dela, estendiam-se as planícies por muitas léguas até que elas se misturavam com os céus. Eu apenas observei essas coisas, mas eu não pude prestar atenção a elas. Eu não pude prestar atenção a nada até que, enquanto eu espiava na escuridão do beco, eu percebi uma figura branca deslizando velozmente na minha direção. Eu saltei na direção dela e, antes que o pensamento pudesse ou impelir ou verificar, eu tinha pego Arowhena para o meu coração e cobrido sua bochecha sem resistência com beijos.

Tão cheios de alegria nós estávamos que não sabíamos como falar; de fato, eu não sei quando nós deveríamos ter encontrado palavra e retornado aos nossos sentidos, se a criada não tivesse saído em uma crise histérica e despertado-nos para a necessidade de autocontrole; eu mostrei a ela o pior lado, pois eu tinha certeza de que quanto pior a perspectiva, mais provável era que ela devesse vir. Eu contei a ela que o meu plano provavelmente terminaria em morte para nós dois, e que eu não me atrevia a pressioná-lo – que a uma palavra dela, ele deveria ser abandonado; ainda que existisse apenas uma possibilidade de nós escaparmos juntos para alguma parte do mundo onde não haveria empecilho a casarmo-nos, e que eu não conseguia ver nenhuma outra esperança.

Ela não fez resistência, nem um sinal ou pista de dúvida ou hesitação. Ela faria tudo que eu dissesse a ela, e viria para onde quer que eu estivesse pronto; assim eu mandei que ela enviasse sua criada para me encontrar à noite – disse-lhe que ela tem de parecer bem, parecer tão brilhante e feliz quanto ela poderia, de maneira a fazer o pai e a mãe dela, assim como Zulora, pensarem que ela estava esquecendo de mim – e estivesse pronta para, a um aviso súbito, vir para as oficinas [227]da Rainha e ficar escondida em meio ao lastro e sobre as mantas de viagem no carro do balão; e assim nos separamos.

Eu apressei minhas preparações, pois eu temia chuva e também que o Rei pudesse mudar de ideia; mas o clima continuava seco, e em outra semana, os artífices da Rainha tinham terminado o balão e cesto, enquanto o gás estava pronto para ser colocado no balão em qualquer momento. Tudo estando preparado, eu agora estava preparado para ascender na manhã seguinte. Tinham estipulado que eu seria permitido a levar abundância de mantas de viagem e agasalhos como proteção contra o frio da alta atmosfera, e também dez ou doze sacolas de bom tamanho com lastro.

Eu tinha quase um quarto de pensão em mãos, e com isso recompensei a criada de Arowhena e subornei o capaz da Rainha – quem, eu acredito, teriam me concedido assistência mesmo sem um suborno. Ele ajudou-me a esconder comida e vinho nas sacolas do lastro e, na manhã da minha ascensão, ele manteve os outros trabalhadores fora do caminho, enquanto eu colocava Arowhena dentro do carro. Ela chegou cedo, coberta, e nas vestes da sua criada. Supunha-se que ela tinha ido para uma performance cedo nos Bancos Musicais, e disse-me que não se deveria sentir falta dela até o café da manhã, mas nesse momento a ausência dela deveria ser descoberta. Eu arrumei o lastro ao redor dela, de maneira que ele deveria ocultá-la enquanto ela ficasse na base do carro, e cobriu-a com envoltórios. Embora ainda faltassem algumas horas para a hora fixada para minha ascensão, eu não poderia confiar em mim mesmo um momento longe do cesto, assim eu entrei nele de uma vez, e assisti à inflação do balão. Bagagem eu não tinha nenhuma, exceto as provisões nas sacolas de lastro, o livro de mitologias e os tratados sobre máquinas, com meus próprios diários e traduções manuscritas.

Eu sentei-me quietamente, e esperei a hora marcada para minha partida – quieto externamente, mas internamente eu estava em uma agonia de suspense com medo que a ausência de Arowhena deveria ser descoberta antes da chegada do Rei e da Rainha, quem deviam [228]testemunhar a minha ascensão. Eles não eram esperados por outras duas horas, e durante esse tempo uma centena de coisas poderiam ocorrer, qualquer uma das quais me arruinaria.

Finalmente, o balão estava cheio; o cano que o tinha enchido foi removido, o escapamento do gás tendo sido primeiramente cuidadosamente bloqueado. Nada restava para impedir o balão de ascender, exceto as mãos e o peso daqueles que estavam o segurando com cordas. Eu esforcei meus olhos para ver a chegada do Rei e da Rainha, mas não pude ver sinal da aproximação deles. Eu olhei na direção da casa do sr. Nosnibor – não havia nada para indicar distúrbio, mas ainda não era hora do café da manhã. A multidão começou a reunir-se; eles estavam cientes de que eu estava sob a desaprovação da corte, mas eu não pude detectar sinais de eu ser impopular. Pelo contrário, eu recebi muitas expressões amáveis de consideração e encorajamento, com bons desejos quanto ao resultado da minha jornada.

Eu estava falando com um cavalheiro da minha familiaridade, e contando-lhe a substância do que pretendia fazer quando eu chegasse na presença do deus do ar (o que ele pensava de mim, eu não posso acreditar, pois estou certo de que ele não acreditava na existência objetiva do deus do ar, nem que eu mesmo acreditava nela), quando eu me tornei ciente de uma pequena multidão correndo tão rapidamente quanto eles podiam a partir da casa do sr. Nosnibor para as oficinas da Rainha. No momento, meu pulso deixou de bater, e então, sabendo que a hora tinha chegado quando eu tinha ou de agir ou de morrer, eu chamei veementemente aqueles que estavam segurando as cordas (aproximadamente trinta dele) para me deixarem ir de uma vez, e fiz gestos significando perigo, e que haveria prejuízo se eu fosse segurado por mais tempo. Muitos obedeceram; o resto era fraco demais para segurar as cordas, e foram forçados a soltá-las. Nisso, o balão subitamente saltou para cima, mas o meu próprio sentimento era que a terra tinha caído de mim, e estava afundando-se rapidamente no espaço aberto debaixo.

[229]Isso aconteceu no exato momento em que a atenção da multidão estava dividida, uma metade prestando atenção aos gestos ansiosos daqueles vindo da casa do sr. Nosnibor, e a outra às minhas exclamações. Mais um minuto e, sem dúvida, Arowhena teria sido descoberta, mas antes que o minuto passasse, eu estava em uma altura tão grande sobre a cidade que nada poderia me machucar, e a cada segundo tanto a cidade quanto a multidão se tornavam menores e mais confusas. Em um tempo incrivelmente curto, eu podia ver pouco exceto uma vasta parede de planícies azuis subindo contra mim, na direção de qualquer que seja o lado para o qual eu olhasse.

Inicialmente, o balão subiu verticalmente para cima, mas após aproximadamente cinco minutos, quando nós já tínhamos chegado a uma grande elevação, eu fantasiei que os objetos sobre a planície abaixo começaram a mover-se para longe de mim. Eu não senti nem mesmo um sopro de vento, e não pude supor que o balão mesmo estava viajando. Portanto, eu estava ponderando sobre o que esse movimento estranho de objetos fixos poderia significar, quando me ocorreu que as pessoas em um balão não sentem o vento, na medida que elas viajam com ele e não oferecem nenhuma resistência. Então fiquei feliz ao pensar que eu agora tenho de ter alcançado o aliseu da atmosfera superior, e que muito possivelmente eu deveria ser flutuado para centenas ou até milhares de milhas, muito longe de Erewhon e dos erewhonianos.

Eu já tinha removido os envoltórios e libertado Arowhena; mas logo eu a cobri com eles novamente, pois já estava muito frio, e ela estava meio estupefata com a estranheza da situação dela.

E agora começou um momento, como um sonho e delirante, do qual não suponho que eu alguma vez deverei recuperar uma memória distinta. De algumas coisas eu posso lembrar-me – como que logo nós estávamos envelopados em vapor, o qual congelava sobre o meu bigode e suíças; então vem a memória de sentar por horas e horas dentro uma neblina espessa, não ouvindo nenhum som exceto a minha própria respiração e a de Arowhena (pois ela dificilmente falava) [230]e não vendo nenhuma vista exceto o carro debaixo de nós e ao nosso redor e o balão escuro acima.

Talvez o sentimento mais doloroso quando a terra ficou oculta foi que o balão ficou imóvel, ainda que a nossa única esperança estivesse em ir adiante com uma velocidade extrema. De tempos em tempos, através de uma brecha nas nuvens, eu podia capturar um vislumbre de terra, e ficava grato de perceber que nós estávamos voando adiante mais rapidamente do que um trem expresso; mas, logo que a brecha se fechava, a antiga convicção de nós estarmos estacionários retornava com força total, e não se conseguia raciocinar com ela: havia outro sentimento que era quase tão ruim; pois, como uma criança que teme que tenha se tornada cega em longo túnel se não houver luz, assim, antes que a estivesse oculta por muitos minutos, eu tornei-me quase aterrorizado que nós pudéssemos não ter fugido dele limpos e para sempre. Agora e novamente, eu comia e dava comida a Arowhena, mas por conjectura com respeito ao tempo. Então chegou a escuridão, uma hora terrivelmente seca, sem nem mesmo a lua para nos alegrar.

Com a aurora, a cena foi mudada; as nuvens tinham desaparecido e as estrelas da manhã estavam brilhando; a ascensão do esplêndido sol ainda me impressionava como a mais gloriosa que eu alguma vez vi; debaixo de nós havia uma cadeia de montanhas marcadas com neve fresca caída sobre elas; mas nós estávamos muito acima delas; nós dois sentimos a nossa respiração seriamente afetada, mas eu não permitiria o balão descer uma única polegada, não sabendo por quanto tempo nós não necessitaríamos de toda flutuabilidade que nós pudéssemos comandar; de fato, eu fiquei grato em descobrir que, após quase vinte e quatro horas, nós ainda estávamos a uma distância tão grande acima da terra.

Em algumas horas, nós tínhamos passado das cordilheiras, as quais devem ter sido de aproximadamente cento e cinquenta milhas de lado a lado, e novamente eu vi uma extensão de terra plana estendendo-se muito distante para o horizonte. Eu não sabia onde nós estávamos, e não me atrevia a descer com medo de que eu devesse desperdiçar o poder do balão, mas [231]eu estava meio esperançoso de que nós poderíamos estar acima do país a partir do qual eu tinha originalmente partido. Eu procurei ansiosamente por qualquer sinal pelo qual eu poderia reconhecê-lo, mas não pude ver nada, e temi que nós poderíamos estar acima de alguma parte distante de Erewhon, ou de um país habitado por selvagens. Enquanto eu ainda estava em dúvida, o balão foi novamente envolto por nuvens, e nós fomos deixados para espaço vazio e conjecturas.

O tempo cansativo arrastou-se. Como eu ansiei pelo meu relógio infeliz! Eu senti como se nem mesmo o tempo estivesse se movendo, tão monótonos e confundidos estavam os nossos arredores. Algumas vezes, eu sentiria meu pulso, e contava os seus batimentos por meia-hora um com o outro; qualquer coisa para marcar o tempo – para provar que ele estava lá, e para me assegurar que nós estávamos dentro do alcance abençoado da sua influência, e não ficado à deriva na atemporalidade da eternidade.

Eu estive fazendo isso pela vigésima ou trigésima vez, e tinha caído em um sono leve; eu sonhei descontroladamente com uma viagem em um trem expresso, e com a chegada em uma estação ferroviária onde o ar estava cheio do som de motores de locomotiva soprando vapor com um assobio horrível e tremendo; eu despertei assustado e inquieto, mas os barulhos de assobio e batida perseguiam agora que eu estava desperto, e forçaram-me a admitir que eles eram reais. O que eram eles, eu não sei, mas eles tornaram-se cada vez mais fracos e, após um tempo, foram perdidos. Em umas poucas horas as nuvens desapareceram, e eu vi debaixo de mim aquilo que fez o sangue frio correr mais frios em minhas veias. Eu vi o mar, e nada exceto o mar; no principal, escuro, mas salpicado com as cabeças brancas de ondas raivosas, jogadas por tempestade.

Arowhena estava dormindo quietamente no fundo do cesto, e enquanto eu olhava para a doce e santificada beleza dela, eu gemi e amaldiçoei a mim mesmo pela miséria para a qual eu a tinha trazido; mas não havia alternativa agora.

Eu sentei-me e esperei pelo pior, e logo eu vi sinais de como se logo aquele pior estaria à mão, pois o [232]balão tinha começado a afundar. À vista do mar, eu tinha ficado impressionado com a ideia de que nós devemos ter estado caindo, mas agora não poderia haver erro, nós estávamos afundando, e rapidamente. Eu joguei fora uma sacola de lastro, e, por um momento, nós subimos novamente, mas, no curso de umas poucas horas, o afundamento recomeçou, e eu joguei fora outra sacola de lastro.

Então a batalha começou a sério. Ela durou por toda a tarde e através da noite até a tarde seguinte. Eu nunca tinha visto uma vela nem um sinal de uma vela, embora eu tivesse quase cegado a mim mesmo tensionando meus olhos incessantemente em cada direção; nós tínhamos partido com tudo, exceto as roupas que nós tínhamos sobre nossas costas; comida e água tinham acabado, tudo jogado para os albatrozes rondando, para nos salvar por umas poucas horas ou mesmo minutos do mar. Eu não joguei fora os livros até que nós estávamos a uns poucos pés da água, e agarrei-me aos meus manuscritos até o último momento. Não parecia haver qualquer esperança que fosse ali – contudo, de maneira suficientemente estranha, nenhum de nós estava completamente sem esperança, e mesmo com o mal que nós temíamos que estivesse sobre nós, e aquele que nós muito temíamos que tivesse chegado, nós sentamos no cesto do balão com as águas até o meio dos nossos corpos, e ainda sorríamos, com esperança livida, um para o outro.


*


Aquele que cruzou o São Gothard lembrar-se-á de que debaixo do Andermatt há um daqueles vales alpinos que se estendem até os limites máximos mesmos do sublime e terrível. Os sentimentos do viajante tornavam-se mais e mais altamente esgotados a cada passo, até que, finalmente, os precipícios nus e salientes pareciam fechar-se acima da cabeça, enquanto ele cruzava uma ponte suspensa em pleno ar sobre uma queda d’água rugindo, e entra na escuridão de um túnel, escavado na rocha.

O que pode estar guardado para ele ao emergir? Certamente alguma coisa ainda mais selvagem e desolada do que aquela que ele já tinha visto; mesmo que a imaginação dele esteja paralisada, e [233]não possa sugerir nenhuma fantasia ou visão de nada para superar a realidade que ele há pouco testemunhou. Intimidado e sem fôlego, ele avança; quando, ai de mim!, a luz do sol da tarde dá boas vindas a ele enquanto ele deixa o túnel, e contempla um vale sorrindo – um riacho borbulhante, uma vila com altos campanários, e campinas de verde brilhante – essas são as coisas que o cumprimentam, e ele sorri para si mesmo enquanto o terror passa e, em outro momento, é esquecido.

Assim aconteceu agora conosco. Nós tínhamos estado na água por aproximadamente duas ou três horas, e a noite tinha chegado sobre nós. Nós tínhamos dito adeus pela centésima vez, e tínhamos nos resignado a encontrar o nosso fim; de fato, eu mesmo estava lutando contra a sonolência, a partir da qual era apenas muito provável que eu alguma vez deveria despertar; quando subitamente, Arowhena tocou-me o ombro, e apontou para uma luz e para uma massa escura que a estava suportando exatamente sobre nós. Um grito por ajuda – alto e claro e estridente – irrompeu de nós dois de uma vez; e, em outros cinco minutos, nós levados por mãos gentis e tenras para o convés de uma embarcação italiana.


Próxima capítulo


ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 223-233. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/223/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O Último Homem - Volume I - Capítulo IV-II

O Último Homem Por Mary Shelley Volume I Capítulo anterior [121] Capítulo IV-II Há um sentimento tal como amor à primei...