Erewhon: ou, Além da Cordilheira - XXVI As Visões de um Profeta Erewhoniano a respeito dos Direitos dos Animais

Erewhon: ou, Além da Cordilheira


Por Samuel Butler


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[206]XXVI As Visões de um Profeta Erewhoniano a respeito dos Direitos dos Animais


Será percebido a partir dos capítulos acima expostos que os erewhonianos são um povo manso e resignado, facilmente conduzido pelo nariz, e rápido para sacrificar o senso comum no altar da lógica, quando um filósofo surge em meio a eles, quem os arrebata através de sua reputação por conhecimento especial, ou convencendo-os de que suas instituições existentes não são baseadas nos princípios mais estritos de moralidade.

A série de revoluções na qual eu agora deverei tocar brevemente mostra isso ainda mais evidentemente do que a maneira (já considerada) na qual, em um dia posterior, eles cortaram suas gargantas na questão do maquinário; pois, se o segundo dos dois reformadores de quem eu estou prestes a falar tivesse tido sucesso – ou antes tivesse tido o sucesso que ele professou ter – a raça inteira teria morrido de fome dentro de um período doze meses. Afortunadamente, o senso comum, embora ele seja por natureza a criatura viva mais gentil, quando sente a faca no pescoço, fica inclinado a desenvolver poderes inesperados de resistência e expulsar os doutrinários, mesmo quando eles o têm a mercê deles. O que aconteceu, até onde eu pude reunir a partir das melhores autoridades, foi como se segue:

Há alguns dois mil e quinhentos os erewhonianos ainda eram incivilizados, e viviam através de caça, pesca, um rude sistema de agricultura, e saqueando aquelas poucas nações que eles ainda não tinham conquistado completamente. Eles não tinham escolas ou sistemas de filosofia, mas, por um tipo conhecimento canino, faziam aquilo que era certo aos seus próprios olhos e àqueles dos seus vizinhos; portanto, o senso comum do público ainda não estando viciado, o crime e a doença eram considerados muito como eles eram em outros países.

Mas com o avanço gradual da civilização e intensificação da prosperidade material, as pessoas começaram a perguntar questões sobre coisas que, até então, tinham sido tomadas como coisas [207]naturais, e um velho cavalheiro, quem tinha grande influência sobre eles em razão da santidade da vida dele, e de sua suposta inspiração por um poder invisível, cuja existência estava começando agora a ser sentida, foi dominado pela ideia súbita de se inquietar sobre os direitos dos animais – uma questão que, até então, não tinha incomodado ninguém.

Todos os profetas são mais ou menos temperamentais, e esse velho cavalheiro parecer ter sido um dos mais temperamentais. Sendo sustentado às despesas públicas, ele tinha amplo tempo livre, e, não contente com limitar sua atenção aos direitos dos animais, ele quis reduzir o certo e o errado a regras, para considerar os fundamentos do dever e do bem e do mal, e, de outra forma, colocar todos os tipos de questões sobre uma base lógica, as quais as pessoas cujo o tempo é dinheiro estão contentes em aceitar sem absolutamente nenhuma base.

Como uma coisa natural, a única base sobre a qual ele decidiu que o dever poderia descansar foi uma que não propiciava sala de espera para muitos dos hábitos antigamente estabelecidos do povo. Esses, ele assegurava, estavam todos errados, e sempre que qualquer um se atrevia a diferir dele, ele referia a questão ao poder invisível com o qual apenas ele tinha comunicação direta, e o poder invisível invariavelmente lhe assegurava que ele estava certo. Com respeito aos direitos dos animais, ele ensinava o seguinte:

Você sabe,” ele dizia, “quão perverso é para vocês matarem um ao outro. Há muito tempo, os seus antepassados não tinham escrúpulo sobre não matar, mas também comiam aqueles com quem tinham relações. Ninguém agora retornaria a práticas tão detestáveis, pois é notório que nós temos vivido muito mais felizmente desde que elas foram abandonadas. A partir dessa prosperidade intensificada, nós podemos confiantemente deduzir a máxima de que nós não deveríamos matar e comer as nossas criaturas companheiras. Eu tenho consultado o poder superior por quem você sabem que eu sou inspirado, e ele tem me assegurado que essa conclusão é irrefragável.”

Agora, não pode ser negado que ovelha, gado, veado, [208]pássaros e peixes são as nossas criaturas companheiras. Eles diferem de nós em alguns aspectos, mas aqueles nos quais eles diferem são poucos e secundários, enquanto que aqueles que eles têm em comum conosco são muitos e essenciais. Meus amigos, se é errado para vocês matarem e comerem os seus companheiros humanos, também é errado matar e comer peixe, carne e frango. Pássaros, bestas e peixes têm um pleno direito a viverem tão longamente sem ser molestados pelo homem quanto eles podem, como o homem tem de viver sem ser molestado por seus vizinhos. Essas palavras, deixem-me assegurar-lhes, não são minhas, mas daquele poder superior que me inspira.”

Eu concedo,” ele continuou, “que animais molestam um ao outro, e que alguns vão tão longe quanto a molestarem o homem, mas eu ainda tenho de aprender que nós deveríamos modelar a nossa conduta a partir daquela dos animais inferiores. Em vez disso, nós deveríamos tentar instrui-los e trazê-los a uma disposição melhor. Matar um tigre, por exemplo, que tem vivido da carne de homens e mulheres a quem ele matou, é reduzir-nos ao nível do tigre, e é indigno de pessoas que buscam ser guiadas em tudo pelos mais elevados princípios, tanto em seus pensamentos quanto em suas ações.”

O poder invisível que se revelou apenas para mim mesmo entre vocês, disse-me para contar a vocês que, por esta época, vocês deveriam ter superado os hábitos bárbaros dos seus ancestrais. Se, como vocês acreditam, você conhecem melhor do que eles, vocês deveriam agir melhor. Portanto, ele comanda vocês a absterem-se de matar qualquer ser vivo para o comer. A única comida animal que vocês podem comer é a carne de alguns pássaros, bestas, ou peixes, com a qual vocês podem deparar-se como tendo morrido uma morte prematura, ou qualquer uma que possa ter nascido prematuramente, ou tão deformada que é uma misericórdia livrá-la da dor; vocês também podem comer todos aqueles animais que tenham cometido suicídio. Com respeito aos vegetais, vocês podem comer todos aqueles que os permitirão comê-los com impunidade.”

Tão sabiamente e tão bem o antigo profeta argumenta, e tão terríveis foram as ameaças que ele lançou contra aqueles que deveriam desobedecê-lo, que, no fim, ele levou a parte mais altamente [209]educada do povo com ele e logo as classes mais pobres seguiram o exemplo, ou professaram fazê-lo. Tendo visto o triunfo dos seus princípios, ele reuniu-se com seus padres e, sem dúvida, entrou imediatamente em comunhão plena com aquele poder invisível cujo favor ele já tinha tão preeminentemente desfrutado.

Contudo, ele não tinha estado morto por muito tempo antes que alguns dos mais ardentes dos seus discípulos tomassem para si aperfeiçoar a instrução do mestre deles. O antigo profeta tinha permitido o uso de ovos e leite, mas os discípulos dele decidiram que comer um ovo fresco era destruir uma galinha em potencial, e que isso equivalia exatamente ao mesmo que matar uma viva. Ovos velhos, se fosse bastante certo que eles estavam muito velhos para serem capazes de serem chocados, eram permitidos a contragosto, mas todos os ovos oferecidos para venda tinha de ser submetidos a um inspetor, quem, estando satisfeito que eles eram podres, etiquetá-los-ia “Postos há não menos do que três meses” a partir da data, seja qual for que ela pudesse ser. Esses ovos, eu dificilmente tenho de dizer, eram usados apenas em pudins, e como um remédio em certos casos onde um emético era urgentemente requerido. O leite era proibido, visto que ele não poderia ser obtido em roubar algum bezerro do seu sustento natural, e, dessa maneira, colocar a vida dele em perigo.

Será facilmente acreditado que, inicialmente, houve muitos que concediam às novas regras observância exterior, mas abraçavam cada oportunidade de secretamente se satisfazerem naquelas panelas de carne como as quais eles tinham estado acostumados. Foi descoberto que animais estavam continuamente morrendo de mortes naturais sob circunstâncias mais ou menos suspeitas. A mania de suicídio, novamente, a qual, até então, tinha estado confinada a burros, tornou-se alarmantemente predominante mesmo entre aquelas criaturas, pela maior parte, autorrespeitantes, como ovelha e gado. Era surpreendente como alguns desses animais infelizes, que farejariam a faca de um açougueiro se houvesse uma a uma milha deles, mas correriam diretamente contra ela se o açougueiro não a tirasse do caminho a tempo.

[210]Os cães, novamente, que tinham sido bastante obedientes à lei com respeito às aves domésticas, coelhos domesticados, leitões ou ovelhas e cordeiros, começaram, subitamente, a escapar do controle dos seus mestres, e a matar tudo que se disse a eles para não tocarem. Foi considerado que qualquer animal morto por um cão tinha morrido de uma morte natural, pois era da natureza do cão matar coisas, e ele apenas tinha se abstido até agora de molestar criaturas de fazenda porque a sua natureza tinha adulterada. Infelizmente, quanto mais essas tendências desobedientes tornavam-se desenvolvidas, mais o povo comum parecia deleitar-se em criar os animais mesmos que colocariam tentação no caminho do cão. Há pouca dúvida, de fato, que eles estavam deliberadamente se evadindo da lei; mas, se isso era ou não era assim, eles vendiam ou comiam tudo que os cães deles tinham matado.

A evasão era muito mais difícil no caso dos animais maiores, pois os magistrados não podiam de qualquer maneira fechar os olhos diante dos pretensos suicídios de porcos, ovelha e gado que eram trazidos diante deles. Algumas vezes eles tinham de condenar, e umas poucas condenações tinham um efeito aterrorizador – enquanto que, no caso dos animais mortos por um cão, as marcas dos dentes do cão poderiam ser vistas, e era praticamente impossível provar malícia da parte do proprietário do cão.

Outra fonte fértil de desobediência da lei foi fornecida por uma decisão de um dos juízes que gerou um grande tumulto entre os mais ferventes discípulos do antigo profeta. O juiz considerou que era legal matar qualquer animal em autodefesa, e que essa conduta era tão natural da parte de um homem que encontrasse a si mesmo atacado, que a criatura atacante deveria ser considerada ter morrido de uma morte natural. De fato, os altos vegetarianos tinham boa razão para ficarem alarmados, pois, dificilmente essa decisão tinha se tornado publicamente conhecida antes que um número de animais, até então inofensivos, aproveitaram-se para atacar seus proprietários com ferocidade tão grande que se tornou necessário sujeitá-los a uma morte natural. Novamente, foi bastante comum à época ver a [211]carcaça de um bezerro, cordeiro ou cabrito exposta para a venda com uma etiqueta de um inspetor certificando que ela tinha sido morta em autodefesa. Algumas vezes, até a carcaça de um cordeiro ou bezerro era exposta como “natimorto autorizado,” quando ela apresentada toda aparência de ter desfrutado de menos de um mês de vida.

Quanto à carne de animais que genuinamente tinham morrido de uma morta natural, a permissão para comer era sem valor, pois ela geralmente era comida por algum outro animal antes que o homem obtivesse posse dela; ou, falhando isso, ela frequentemente era venenosa, de modo que as pessoas eram praticamente forçadas a evadirem-se da lei através de alguns dos meios falados acima, ou tornarem-se vegetarianas. Essa última alternativa era tão pouco do gosto dos erewhonianos que as leis contra matar animais estavam caindo em desuso, e muito provavelmente teriam sido repelidas, mas, devido a erupção de uma pestilência, a qual foi atribuída por sacerdotes e profetas da época à ilegalidade do povo na questão de comer carne. Nisso, houve uma reação; leis rigorosas foram passadas, proibindo o uso de carne em qualquer forma ou formato, e não se permitindo nenhuma comida a ser vendida em lojas e mercados, exceto grão, frutas e vegetais. Essas leis foram promulgadas aproximadamente duzentos anos depois da morte do antigo profeta que primeiramente perturbou as mentes das pessoas sobre os direitos dos animais; mas, mal elas tinham sido passadas antes que, novamente, as pessoas começassem a infringi-las.

Dizia-se que a consequência mais dolorosa de toda essa loucura não estava no fato de que as pessoas obedientes à lei tinham de seguir sem comida animal – muitas nações faziam isso e não pareciam piores em nada, e mesmo em países comedores de carne tais como Itália, Espanha e Grécia, os pobres raramente veem carne durante todo o ano. O dano está no sobressalto que proibição indevida dava às consciências de todos exceto aqueles que eram suficientemente fortes para saberem que, embora a consciência, como uma regra, beneficia, ela também pode prejudicar. Frequentemente, a consciência desperta de um indivíduo leva-lo-á a fazer coisas com presa, as quais ele faria melhor em ter deixado não feitas, mas [212]a consciência de uma nação, desperta por um respeitável velho cavalheiro quem tem um poder invisível na manga, pavimentará o inferno com uma vingança.

Dizia-se aos jovens que era um pecado fazer o que seus pais tinha feito incólumes por séculos; além disso, aqueles que pregavam para eles sobre a maldade de comer carne, eram uma gente acadêmica pouco atraente, e, embora eles intimidassem todos exceto os jovens mais ousados, havia poucos que, em seus corações, não desgostassem deles. Por mais que os jovens pudessem ser protegidos, logo se tornou conhecido que homens e mulheres do mundo – frequentemente pessoas muito mais agradáveis do que os profetas que lhes pregavam abstinência – continuamente falavam zombeteiramente das novas leis doutrinárias, e acreditava-se que eles as colocavam de lado em segredo, embora eles não se atrevessem a fazê-lo abertamente. Portanto, pouca surpresa de que os mais humanos entre as turmas de estudantes eram provocados pelos preceitos de não toque, não prove, não manuseie dos seus governantes, para questionarem muito daquilo que, de outra maneira, eles tinham aceitado sem hesitação.

Uma triste história que está no registro é sobre um rapaz de promissora disposição amigável, mas amaldiçoado com mais consciência do que cérebro, quem tinha sido contado pelo seu médico (pois, como eu disse acima, doença ainda não era considerada ser criminosa) que ele deveria comer comer, com ou sem lei. Ele ficou muito chocado e, por um tempo, recusou-se a sujeitar-se ao que ele considerava como conselho injusto dado a ele por seu médico; contudo, finalmente, descobrindo que ele se tornava cada vez mais fraco, em uma noite escura, ele entrou secretamente em um daqueles covis nos quais carne era sorrateiramente vendida, e comprou um quilo de bife de primeira. Ele levou-o para casa, cozinhou-o em seu quarto quando todos na casa tinham ido descansar, comeu-o e, embora ele dificilmente conseguiu dormir de remorso e vergonha, sentiu-se tão muito melhor na manhã seguinte que ele dificilmente conhecia a si mesmo.

Três ou quatro dias depois, ele novamente se encontrou irremediavelmente atraído para esse mesmo covil. Novamente ele comprou um quilo de bife, novamente ele o cozinhou e comeu, e novamente, a [212]despeito de muita tortura mental, na manhã seguinte, ele sentiu-se um homem diferente. Para abreviar a história, embora ele nunca fosse além dos limites da moderação, atormentava a mente dele que ele deveria estar, como certamente estava, escorregando para as fileiras dos infratores habituais.

Durante todo esse tempo, a saúde dele continuou melhorando, e, embora ele tivesse certeza de que ele devia isso aos bifes, quando melhor ele se tornava de corpo, mais a consciência dele não lhe dava descanso; duas vozes estavam para sempre ressoando nos ouvidos dele – uma dizendo, “Eu sou o Senso Comum e a Natureza; presta atenção em mim, e eu te recompensarei como eu recompensei seus pais antes de você.” Mas a outra dizia: “Que nenhum espírito plausível atraia-te para tua ruína. Eu sou o Dever; presta atenção em mim, e eu te recompensarei como recompenseis seus pais antes de você”

Algumas vezes ele até parecia ver os rostos dos falantes. O Senso Comum parecia tão fácil, genial e sereno, tão franco e destemido, que, fizesse o que ele pudesse, ele não poderia desconfiar dele; mas, conforme ele ficava a ponto de o seguir, ele seria impedido pelo rosto austero do Dever, tão grave, mas, contudo, tão amável; e corta-lhe o coração que, de tempos em tempos, ele deveria ver a vez dele lastimando-se para longe dele enquanto ele seguiu o seu rival.

O pobre rapaz continuamente pensava na classe melhor dos seus companheiros estudantes, e tentava modelar a sua conduta no que ele pensava que era a deles. “Eles,” ele disse a si mesmo, “comem um bife? Nunca.” Mas a maioria deles comia um, às vezes, a menos que fosse uma costeleta de carneiro que os tentasse. E eles usavam-lhe como um modelo muito como ele os usava. “Ele,” eles diriam para si mesmos, “come uma costeleta de carneiro? Nunca.” Contudo, uma noite, ele foi seguido por uma das autoridades, quem estava sempre perambulando em busca de infratores da lei, e foi pego saindo do covil com meio ombro de carneiro oculto em vola da sua pessoa. Sobre isso, mesmo se ele não tivesse sido colocado na prisão, ele teria sido mandado embora com suas perspectivas na vida irremediavelmente arruinadas; portanto, ele enforcou-se tão logo ele chegou em casa.


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ORIGINAL:

BUTLER, S. Erewhon: or, Over the Range. IN:______. The Shrewsbury Edition of the Work of Samuel Butler. Volume II. London: Jonathan Cape, New York: E. P. Dutton & Company, 1923. p. 206-213. Disponível em: <https://archive.org/details/shrewsburyeditio02butl/page/206/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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