A Máquina do Tempo - Capítulo VI A Máquina é Perdida

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[79]“Em outro momento eu estava em um sentimento de medo e correndo com grandes, saltitantes, longos passos descendo a encosta. Uma vez eu cai de cabeça para baixo e cortei meu rosto. Eu não perdi tempo estancando o sangue, apenas pulei e corri, com uma gota quente descendo por minha bochecha e queixo. Durante todo o tempo em que corri, eu dizia a mim mesmo: ‘Eles moveram-na um pouco – empurraram-na para fora do caminho sob os arbustos.’ Mesmo assim eu corria com toda a minha força. O tempo todo, com a certeza que algumas vezes surge com o pavor excessivo, eu sabia que semelhante garantia era loucura, sabia instintivamente que a máquina fora removida para fora de meu alcance.”

Minha respiração vinha com dor. Eu [80]suponho que cobri a distância inteira, do cume da colina até o pequeno gramado, duas milhas talvez, em dez minutos. E eu não sou um homem jovem. Enquanto corria, eu amaldiçoava em voz alta a loucura confiante de deixar a máquina, desse modo desperdiçando bom fôlego. Eu bradei em voz alta, e ninguém respondeu. Nenhuma criatura parecia estar mexendo-se naquele mundo iluminado pela lua.

Quando eu alcancei o gramado, meus piores medos estavam realizados. Nem um traço da coisa havia para ser vista. Eu senti síncope e frio quando encarei o espaço vazio em meio ao emaranhado negro de arbustos. Eu corri em volta dele furiosamente, como se a coisa pudesse estar oculta em um canto, e então abruptamente parei com as mãos agarrando o cabelo. Acima de mim elevava-se a esfinge, sobre o pedestal de bronze, branca, brilhante, leprosa à luz da lua ascendente. Ela parecia sorrir em zombaria de meu desalento.

Eu poderia ter consolado a mim mesmo ao imaginar que o pequeno povo colocara [81]o mecanismo em algum abrigo para mim, não tivesse eu assegurado-me da insuficiência física e intelectual deles. Isto é o que me consternava: a sensação de algum poder, até agora insuspeitado através, da intervenção do qual minha invenção desaparecera. Contudo, de uma coisa eu sentia-me seguro: a menos que alguma outra era produzira sua exata duplicata, a máquina não poderia ter movido-se no tempo. A ligação das alavancas – depois eu mostrarei o método a vocês – impedia qualquer um de mexer com ela dessa maneira quando elas eram removidas. Ela fora removida, e oculta, somente no espaço. Mas então, onde ela poderia estar?”

Penso que eu devo ter tido um tipo de frenesi. Eu lembro de correr violentamente, para dentro e para fora, em meio aos arbustos iluminados pela lua em volta da esfinge, e provocando algum animal branco que, à luz sombria, eu tomei por um pequeno cervo. Igualmente eu lembro-me, mais tarde naquela noite, de bater nos arbustos com meus punhos cerrados até que os nós dos meus dedos ficaram cortados [82]e sangrando dos galhos quebrados.

Então, soluçando e delirante em minha angústia de mente, eu desci ao grande prédio de pedra. O grande salão estava escuro, silencioso e deserto. Eu escorreguei no chão irregular e caí sobre uma das mesas de malaquita, quase quebrando meu queixo. Eu acendi um fósforo e prossegui ao longo das cortinas poeirentas das quais eu contei a vocês.

Lá eu encontrei um segundo grande salão com almofadas, sobre as quais talvez uma vintena ou aproximadamente do pequeno povo estava dormindo. Eu não tenho dúvida de que eles consideram meu segundo aparecimento suficientemente estranho, saindo subitamente da escuridão quieta com barulhos inarticulados e o crepitar e a labareda de um fósforo. Pois eles esqueceram-se de fósforos. ‘Onde está minha Máquina do Tempo?’ Eu comecei, berrando como uma criança zangada, colocando as mãos sobre eles e sacudindo-os juntos. Isso deve ter sido muito estranho para eles. Alguns riram, a maioria deles parecia [83]intensamente assustada. Quando eu vi-os de pé à minha volta, veio a minha cabeça que eu estava fazendo uma coisa tão tola quanto era possível para fazer sob as circunstâncias, ao tentar reviver a sensação de medo. Pois, raciocinando a partir do comportamento à luz do dia, eu pensei que o medo devia ter sido esquecido.

Abruptamente eu destruí o fósforo e, lançando uma das pessoas através de meu percurso, novamente saí, tropeçando através do grande salão de jantar, sob a luz da lua. Eu ouvi clamores de terror e seus pequenos pés correndo e tropeçando por aqui e por ali. Eu não me lembro de tudo que fiz enquanto a lua arrastava-se no céu. Eu suponho que foi a natureza inesperada de minha perda que me enfureceu. Eu sentia-me sem esperança separado de minha própria espécie, um animal estranho em um mundo desconhecido. Eu devo ter delirado para lá e para cá, gritando e exclamando sobre Deus e Destino. Eu tenho uma memória de horrível fadiga, enquanto a longa noite de [84]desespero consumia-se, de olhar para este lugar impossível e de tal maneira, do tatear em meio às ruínas iluminadas pela lua e tocar criaturas estranhas nas sombras escuras; e, afinal, de me deitar no chão próximo à esfinge e chorar com absoluta miséria, até de raiva diante da loucura de deixar a máquina tendo escoado para longe com minha força. Eu não tinha mais nada, apenas miséria.”

Então eu dormi, e quando eu acordei era dia pleno, e uma dupla de pardais estavam saltitando à minha volta, sobre a relva, dentro do alcance de meu braço.”

Eu sentei na frescura da manhã tentando lembrar de como chegara ali, e do porque tinha uma tal profunda sensação de abandono e desespero. As coisas vieram claras à mente. Com a clara e razoável luz do dia eu pude olhar minhas circunstâncias na face. Eu vi a loucura selvagem de meu frenesi durante a noite eu pude raciocinar comigo mesmo.”

[85]“‘Suponha o pior,’ eu disse, ‘suponha a máquina inteiramente perdida – talvez destruída. Compete-me ficar calmo e paciente, aprender os modos do povo, obter uma ideia clara do método de minha perda e dos meios de obter materiais e ferramentas; de modo que, no final, talvez, eu possa construir outra. Essa seria minha única esperança, uma pobre esperança, talvez, mas melhor do que desespero. E, afinal, era um mundo belo e curioso.’”

“‘Mas provavelmente a máquina apenas fora removida. Eu preciso ficar calmo e paciente, encontrar seu esconderijo, e recuperá-la por força ou astúcia.’ E com isso eu coloquei-me de pé e olhei à minha volta, perguntando-me onde poderia banhar-me. Eu sentia-me cansado, teso e sujo de viajem. A frescura da manhã fez-me desejar uma frescura igual. Eu exaurira minha emoção. De fato, enquanto eu cuidava de meu assunto, eu encontrei-me refletindo sobre minha excitação intensa durante a noite.

[86]“Naquela manhã eu realizei um exame cuidadoso do solo em torno do pequeno gramado. Eu consumi algum tempo em fúteis questionamentos, tão bem quanto eu era capaz de tal, das pessoas pequenas conforme elas aproximavam-se. Todos eles falharam em entender meu gestos – alguns deles ficaram simplesmente impassíveis; alguns pensaram que era uma brincadeira e riram de mim. Eu tinha a tarefa mais difícil do mundo para manter minhas mãos longe de suas belas faces sorridentes. Foi um impulso tolo, mas o diabo gerado de medo e raiva cega estava mal controlado, e ainda ansioso para tirar proveito de minha perplexidade. A relva deu melhor conselho. Eu encontrei um sulco aberto nela, aproximadamente no meio do caminho entre o pedestal da esfinge e as marcas de meus pés onde, na chegada, eu debatera-me com a máquina derrubada. Havia outros sinais da remoção de um corpo pesado em volta, de estranhas, estreitas pegadas como aquelas que eu podia imaginar feitas por uma preguiça. Isso dirigiu minha atenção mais estreita ao pedestal. Ele [87]era, como eu achei que vi, de bronze. Não era um mero bloco, mas levemente decorado com painéis de molduras profundas em cada lado. Eu caminhei e bati levemente nesses. O pedestal era oco. Examinado os painéis com cuidado, eu descobri-os descontínuos com as molduras. Não havia nem alças nem buracos de fechadura, mas apenas os painéis, se eles fossem portas, como eu supus, abriam-se a partir de dentro. Uma coisa ficou suficientemente clara na minha mente. Não requereu um efeito mental muito grande para inferir que minha Máquina do Tempo estava dentro do pedestal. Mas como eu chegaria ali era um problema diferente.”

Eu vi as cabeças de duas pessoas vestidas de laranja atravessando os arbustos e sob algumas árvores de maçãs cobertas de flores na minha direção. Eu virei-me sorrindo para eles, e acenei-lhes para mim. Eles vieram, e então, apontando para o pedestal de bronze, eu tentei declarar minha vontade de o abrir. Mas, diante de meu primeiro gesto na direção disso, eles comportaram-se muito estranhamente. Eu não sei como [88]transmitir a expressão deles a vocês. Suponham que estivessem para usar um gesto grosseiramente impróprio para uma mulher de mente delicada – é como ela pareceria. Eles saíram como se eles tivessem recebido o último insulto possível.”

Contudo, eu queria acesso à Máquina do Tempo; então, eu tentei um pequeno indivíduo de branco, de aparência doce, com exatamente o mesmo resultado. De alguma maneira, os modos deles fizeram-me envergonhar-me de mim mesmo. Mas, como eu digo, eu queria a Máquina do Tempo. Eu tentei mais uma vez. Enquanto ele rejeitava-me como os outros, meu temperamento dominou-me. Em três passos largos eu estava depois dele, alcançava-o pela parte folgada de seu robe em volta do pescoço, e comecei a arrastá-lo na direção da esfinge. Então eu vi o horror e repugnância no rosto dele e, de repente, deixei-o ir.”

Mas eu ainda não estava derrotado. Eu bati com meu punhos nos painéis de bronze. Eu pensei que ouvi alguma coisa mexer-se dentro – para ser explícito, eu pensei que ouvi um som como o de uma risada – mas [89]devo ter estado enganado. Então eu peguei um grande seixo do rio, vim e malhei até que eu achatara [a forma de] uma moeda nas decorações, e o verdete saiu em flocos quebradiços. O delicado pequeno povo deve ter ouvido o batimento em explosões irascíveis a uma milha de distância de cada lado, mas nada veio dele. Eu vi uma aglomeração deles sobre as encostas, olhando furtivamente para mim. Finalmente, quente e cansado, eu sentei-me para observar o lugar. Mas eu estava inquieto demais para observar por muito tempo, e, além disso, eu sou muito ocidental para uma longa vigília. Eu podia trabalhar em um problema por anos, mas esperar inativo por vinte quatro horas – isso é outra questão.

Após um tempo, eu levantei-me e comecei a caminhar sem rumo através dos arbustos na direção da colina novamente.

“‘Paciência,’ disse eu a mim mesmo. ‘Se você quer sua máquina de volta, precisa deixar essa esfinge sozinha. Se eles pretendem levar sua máquina embora, é pouco benéfico a sua destruição [90]dos painéis de bronze deles, e, se eles não pretendem, você consegui-la-á de volta tão logo peça por ela. Sentar em meio a todas essas coisas desconhecidas diante de um quebra-cabeça como este é sem esperança. Dessa maneira estende-se a monomania. Encarar este mundo. Aprender seus caminhos; observá-lo; ser cuidadoso de suposições muito precipitadas diante de seu sentido. No fim, você encontrará pistas para tudo isso.’”

Então subitamente o humor da situação entrou em minha mente: o pensamento dos anos que eu despendera no estudo e labor para chegar à era futura, e agora minha paixão de ansiedade para sair dela. Eu construíra para mim mesmo a mais complicada e mais sem esperança armadilha que alguma vez um homem imaginou. Apesar de ser à minha própria custa, eu não podia ajudar. Eu ri alto.

Atravessando o grande palácio, parecia-me que o pequeno povo evitava-me. Pode ter sido minha imaginação, ou pode ter tido alguma coisa a ver com meu batimento dos portões de bronze. Contudo, eu tive [91]toleravelmente certeza da evasão. Todavia, eu fui cuidadoso, para não mostrar preocupação, e para me abster de qualquer perseguição deles e, no curso de um dia ou dois, as coisas voltaram à sua antiga condição.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.79-91. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/79/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Depois de Londres: ou, A Inglaterra Selvagem - Parte I A Recaída no Barbarismo - Capítulo IV Os Invasores

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[32]Aqueles que vivem através de agricultura ou em cidades, e são descendentes dos remanescentes dos antigos, estão divididos, como eu disse anteriormente, em numerosas províncias, reinos e repúblicas. Na parte central do país, as cidades ficam quase todas nas margens do Lago, ou dentro de uma distância curta da água, e portanto há mais tráfego e comunicação entre elas por meio de embarcações do que é o caso nas cidades interiores, cujo comércio precisa ser conduzido por caravanas e carroções. [33]Esses não apenas se movem lentamente, mas estão sujeitos a serem estorvados por romani e por grupos de bandidos, ou pessoas que, por crimes morais ou políticos, foram banidas de suas casas.

É nas cidades que se aglomeram em volta do grande lago central que toda a vida e civilização de nosso tempo é encontrada; lá também começam aquelas guerras e convulsões sociais que causam tanto sofrimento. Quando esteve a Península em paz? E quando não houve algum dano e fermentação de mudança nas repúblicas? Quando não houve um perigo oriundo das terras do norte?

Até anos recentes havia pouco conhecimento de, e escassamente qualquer comércio ou relação diretos entre, a parte central e os distritos quer do extremo oeste ou norte, e é somente agora que o norte e o leste estão começando a abrir-se para nós; pois, às costas do estreito círculo de terra cultivada, a faixa em torno do lago, ali se estendiam imensas florestas em todas as direções, através das quais, até muito tarde, nenhum caminho viável fora cortado. Até na parte mais civilizada, até hoje não é fácil viajar, pois nas barreiras, conforme você aproxima-se dos territórios de cada príncipe, eles exigem seus assuntos e seus papéis; nem mesmo se você estabelecer o fato de que você é inocente de desígnios contra o Estado, você dificilmente deverá entrar sem satisfazer a ganância dos oficiais.

Dessa maneira, uma taxa é exigida no portão de cada província e reino, e novamente na entrada das cidades. A diferença de moeda, como ela é, também causa grande perda e dificuldade, pois o dinheiro de um reino [34](embora se passando por corrente por comando naquele território) não é recebida em seu valor nominal no próximo sob a explicação da liga que ela contém. De fato, em muitos reinos, é impossível obter dinheiro genuíno. Há pouco ou nenhum ouro em qualquer parte, mas a prata é o padrão de troca, e cobre; bronze e latão, algumas vezes estanho, são os metais com os quais a maior parte das pessoas realizam seus negócios.

A justiça é corrupta, pois, onde há um rei ou um príncipe, ela depende do capricho de um tirano, e, onde há uma república, do grito da multidão, de modo que muitos, se eles pensam que podem ser colocados em julgamento, em vez disso encaram imediatamente o risco de escapar para os bosques. A Liga, embora baseada ostensivelmente em princípios dos mais exaltados e benéficos para a humanidade, é conhecida por ser pervertida. Os membros juraram honrar e a mais elevada virtude é jurada por motivos vis, ódios políticos, paixões privadas e até por dinheiro.

Homens sempre pisaram em homens, cada um empurrando para a costa; nem há segurança em permanecer em retiro, uma vez que esses são acusados de esperarem seu tempo e de desígnios ocultos. Embora a população dessas cidades, todas contadas juntas, não seja igual à população que uma vez habitou em uma única cidade de segunda ordem dos antigos, contudo, quão muito maiores são a amargura e a contenda!

Todavia, não contentes com o derramamento de sangue que eles mesmos causam, os tiranos convocaram o auxílio de soldados mercenários para os assistir. E, para completar a desgraça, essas repúblicas que proclamam a si mesmas a casa mesma [35]das virtudes patrióticas, têm recorrido aos mesmos meios. Dessa maneira nós vemos cidades inglesas mantidas em terror por tropas de galeses, irlandeses e até de escocês ocidentais, quem abundam nas câmaras de conselho das repúblicas e, abrindo as portas das casas, servem-se livremente do que eles desejarem. Isso, também, na face do fato notório de que essas nações juraram vingar-se de nós, que as embarcações delas navegam de um lado para o outro do Lago cometendo atos terríveis de pirataria, e que já por duas vezes vastos exércitos exploraram juntos ameaçando destruir completamente toda a comunidade.

Que loucura admitir bandos desses mesmos homens exatamente nos baluartes e no coração da terra! Como se, sob a aproximação de seus compatriotas, eles permaneceriam verdadeiros aos juramentos que eles juraram por pagamento e não, em vez disso, admiti-los-iam de braços abertos. Nenhuma culpa, sob uma justa consideração, deve ser atribuída a qualquer uma dessas nações que tentam oprimir-nos. Pois, como eles assinalam, os antigos de quem nós descendemos mantiveram-nos em sujeição por muitas centenas de anos, e tomaram deles todas as suas liberdades.

Dessa maneira, os galeses, ou, como eles chamam a si mesmo, os cymry, dizem que uma vez a ilha toda foi deles, e que ainda é deles por direito de herança. Eles eram o povo original que a possuíram por eras antes da chegada desses a quem nós chamamos de antigos. Embora eles fossem impelidos para as montanhas do muito distante oeste, eles nunca se esqueceram de sua língua, abandonaram seus costumes, ou desistiram de suas aspirações a recuperarem a si mesmos. Esse é seu objetivo agora [36]e, até recentemente, parecia como eles estivessem perto de o alcançar. Pois eles possuíram toda aquela região antigamente chamada de Cornualha, tendo atravessado o rio Severn e marchado até a costa sul. A rica terra de Devon, parte de Dorset (de fato, tudo que é habitado), a maior parte do Somerset, reconheceram seu governo. Worcester e Hereford e Gloucester eram deles; eu quero dizer, aquelas partes que não eram floresta.

Os postos avançados deles foram impulsionados adiante para o centro de Leicestershire, e desceram em direção a Oxford. Mas lá por perto eles encontraram-se com as forças das quais eu falarei em breve. Então os navios deles, a cada verão navegando a partir do Severn, entravam no Lago, e, desembarcando onde quer que houvesse uma oportunidade, eles destruíam todas as coisas e levavam embora a pilhagem. É necessário dizer mais para demonstrar a loucura que possui aqueles príncipes e repúblicas que, para suportarem sua própria tirania, convidaram bandos desses homens para seus próprios palácios e fortes?

Enquanto eles aproximavam-se do que uma vez foi Oxford e agora é Sypolis, os exércitos dos cymry vieram a colidir com outros de nossos invasores, e, dessa maneira, o seu curso adiante para o sul foi reprimido. Os irlandeses, quem previamente lhes estimularam, viraram-se para defender suas próprias usurpações. Também eles dizem que ao conquistar e despojar meu compatriotas eles estão cumprindo uma vingança divina. A terra deles da Irlanda fora por séculos enfraquecida por uma tirania de ferro de nossos ancestrais, quem fecharam seus lábios com uma focinheira, e conduziam-nos com uma rédea, como os poetas deles dizem. Mas agora, os odiosos saxões [37](pois dessa maneira tanto eles quanto os galeses designam-nos) estão submissos, e entregues a eles para seu saque.

Não é possível negar muitas das declarações que eles fazem, mas isso não deveria impedir-nos de batalhar com poder e energia contra a sujeição ameaçada. Que crime poderia ser maior do que a admissão de semelhantes estrangeiros como guardas de nossas cidades? Agora os irlandeses têm seu principal ponto de encontro e capital perto da antiga cidade de Chester, a qual fica à beira-mar, e no topo e ângulo mesmo do País de Gales. Esse é o grande povoado deles, seu paiol e seu lugar de reunião, e daí as expedições deles prosseguiram. É um porto conveniente e bem oposto à terra nativa deles, a partir da qual continuamente chegam reforços, mas os galeses nunca consideraram sua possessão dele como inveja.

No período quando os cymry quase penetraram em Sypolis ou Oxford, os irlandeses, por sua parte, invadiram toda a região cultivada e habitada em uma linha do sul ai sudeste a partir de Chester, através de Rutland para Norflolk e Suffolk, e até tão longe quanto Luton. Eles teriam espalhado-se para o norte, mas, naquela direção, eles foram opostos pelos escoceses, quem tinham toda Nortúmbria. Quando o galês aproximou-se de Sypolis, os Irlandeses acordaram para a posição das questões.

Sypolis é a maior e mais importante cidade na costa norte do Lago, e está situada na entrada para o istmo de terra que se alonga a partir dos estreitos. Se os galeses uma vez estivessem bem posicionados ali, os irlandeses nunca poderiam esperar encontrar seu caminho para o rico e [38]cultivado sul, pois é exatamente abaixo de Sypolis que o Lago contrai-se e forma um estreito em um lugar de largura de apenas um furlong. Dessa maneira, as duas forças entraram em colisão, e, enquanto eles lutaram e destruíram um ao outro, Sypolis foi salva. Após o que, descobrindo que eles estavam equilibradamente equiparados, os irlandeses retiraram-se em uma marcha de dois na direção do norte, e os cymry tão longe na direção do oeste.

Mas agora os irlandeses, navegando em torno da parte externa do País de Gales, da mesma forma subiram através das Red Rocks e, assim, entraram no Lago, bem como, por sua vez desembarcando, assediaram as cidades. Frequentemente, embarcações galesas e irlandesas, pretendendo atacar o mesmo lugar, discerniam a aproximação umas das outras, e, mudando de sua ação proposta, voavam nas gargantas umas das outras. Os escoceses não nos assediaram tanto no sul, sendo muito distante, e aqueles que vaguearam para lá vêm por pagamento, tomando serviço como guardas. De fato, eles são os melhores dos homens, e os mais difíceis de se batalhar. Eu esqueci de mencionar que é possível que os irlandeses pudessem ter repelido os galeses, não houvesse o reino de York subitamente revivido, por meios que deverão ser relatados, valentemente expulso seus mestres e caído sobre sua retaguarda.

Mas ainda essas nações estão sempre no limite e margem de nosso mundo, e aguardam apenas uma oportunidade para agir rapidamente sobre ele. Nossos compatriotas gemem sob o jugo deles, e novamente eu digo que a infâmia deveria ser o quinhão daqueles governantes entre nós que encheram seus lugares fortificados com mercenários derivados de tais fontes.

A terra, também, é fraca, por causa da multidão de [39]escravos. Nas províncias e reinos em volta do Lago dificilmente há uma cidade onde os escravos não excedem em número os homens livres em dez para um. As leis são concebidas para reduzirem a maior parte do povo à servidão. Para toda ofensa a punição é a escravidão, e as ofensas são diaria e artificialmente aumentadas, para que a riqueza de poucos entre os seres humanos possa crescer com elas. Se um homem em sua fome rouba um pão, ele torna-se um escravo; quer dizer, é proclamado que ele precisa fazer bem ao Estado pela ofensa que ele cometeu, e precisa resolver sua transgressão. Isso não é avaliado conforme o valor do pão, nem suposto ficar confinado ao indivíduo de quem ele foi tomado.

O roubo é dito causar dano ao Estado em geral, porque ele corrompe a moralidade da comunidade; é como se o ladrão roubasse um pão, não de um, mas de cada membro do Estado. Portanto, a restituição precisa ser feita a todos, e o valor do pão retornado em trabalho mil vezes maior. O ladrão é o escravo do Estado. Mas como o Estado não pode empregá-lo, ele é arrendado àqueles que pagarão ao tesouro do príncipe o dinheiro equivalente ao trabalho que ele é capaz de realizar. Dessa maneira, sob a cobertura da mais elevada moralidade, a maior iniquidade é perpetrada. Pelo roubo de um pão, o homem é reduzido a escravo; então sua esposa e filhos, incapazes de sustentarem a si mesmos, tornam-se um ônus para o Estado; quer dizer, eles mendigam em vias públicas.

Isso também, verdadeiramente, corrompe a moralidade, e da mesma maneira eles são capturados e arrendados para qualquer um que gostaria de os levar. [40]Nem podem ele ou eles tornarem-se livres novamente, pois eles precisam pagar aos seus proprietários a soma que eles deram por eles, e como isso pode ser feito, uma vez que eles não recebem salários? Por atacar outro, um homem pode ficar na mesma situação, como eles denominam isso, confiscado pelo Estado, e ser vendido ao maior licitante. Um forte fio de latão é então folgadamente torcido em volta de seu punho esquerdo, e as extremidades soldadas juntas. Então uma barra de ferro colocada através, uma meia volta dada nela, o que força o fio agudamente contra o braço, fazendo-o caber justamente, muitas vezes dolorosamente, e formar um anel menor do lado de fora. Através desse anel menor, uma vintena de escravos podem ser amarrados juntos com uma corda.

Falar desrespeitosamente do príncipe ou seu conselho, dos nobres, ou da religião, sair dos limites sem permissão, comerciar sem licença, omitir-se a saudar o grande, todos esses e mil outros são crimes merecedores do bracelete de latão. Fosse um homem estudar durante todo o dia o que ele precisa fazer, e o que ele precisa não fazer, para escapar da servidão, não seria possível para ele mover-se um passo sem tornar-se confiscado! E contudo, eles hipocritamente dizem que essas coisas são feitas para o bem da moralidade pública, e que não há escravos (não permitindo a palavra ser usada), e que nenhum homem nunca foi vendido.

De fato, é verdadeiro que nenhum homem é vendido em mercado aberto, em vez disso ele é arrendado; e, através de uma hipocrisia refinada, o proprietário de escravos não pode vendê-los para outro proprietário, mas ele pode colocá-los nas mãos do notário, presenteando-os [41]com a liberdade deles, até onde lhe diz respeito. O notário, sob o pagamento de uma taxa do comprador, transfere-lhes para ele, e a maior parte da taxa vai para o príncipe. Sob essas leis, o débito sozinho deveria abarrotar a terra com escravos, pois, como os salários mal são conhecidos, uma criança desde o seu nascimento frequentemente é declarada estar em débito. Pois seu alimento é extraído de sua mãe, e a mãe miserável é esposa de um retentor quem é alimentado por seu senhor. A um tal grão essa tirania é transmitida! Se alguém deve um centavo, seu destino está selado; ele torna-se um escravo e, dessa maneira, as propriedades dos nobres estão cheias de homens que trabalharam a vida inteira para o lucro dos outros. Dessa maneira, também, os bosques estão cheios de bandidos, pois aqueles que encontram uma oportunidade nunca falham em escapar, a despeito da caçada que invariavelmente é feito por eles, e da punição cruel que espera a recaptura. E as pessoas, prevendo que elas devem tornar-se escravos, antes que elas sejam proclamados confiscadas saem sorrateiramente à noite, e vivem como elas podem nas florestas.

Então, como homem algum permanece livre? Apenas pelo favor dos nobres, e apenas se ele puder acumular riqueza para eles. Os mercadores, e aqueles que têm licença para comerciar por terra ou água, são todos protegidos por alguma casa nobre, a quem eles pagam pesadamente pela permissão de viverem em suas próprias casas. O tirano principal é suportado pelos nobres, para que eles, por sua vez, possam tiranizar sobre os mercadores, e eles, novamente, sobre todos os trabalhadores de suas lojas e bazares.

Sobre os próprios servos deles (pois assim eles chamam os escravos, [42]para que a palava mesma não seja usada), quem trabalha nas propriedades deles, os nobres são mestres absolutos, e muitos até podem enforcá-los na árvore mais próxima. E aqui eu não posso observar quão estanho é, primeiro, que qualquer homem possa permanecer escravo em vez de morrer; e segundo, quão muito mais estanho é que qualquer outro homem, ele mesmo um escravo, possa ser encontrado para caçar ou enforcar seu semelhante; contudo, os tiranos nunca carecem de executores. Os castelos deles estão lotados com retentores que desencadeiam as vontades deles sobre os indefesos. Esses retentores não usam o bracelete de bronze; eles são livres. Então, eles não são pedintes? Sim, eles sentam-se a cada canto, e em torno dos portões das cidades, pedindo esmolas.

Embora mendigar torne um homem confiscado pelo Estado, é apenas quando ele tem músculos e tendões, e pode trabalhar. O doente e velho, o desamparado e débil, podem quebrar a lei, e morrer de fome na beira da estrada, porque não dá lucro a ninguém fazê-los escravos. E todas essas coisas são feitas em nome da moralidade, e pelo bem da raça humana, como constantemente eles anunciam em seus conselhos e parlamentos.

Há duas razões pelas quais os mercenários têm sido convocados; primeiro, porque só príncipes consideraram os grandes nobres tão poderosos, e apenas podem mantê-los sob controle com o auxílio desses estrangeiros; e segundo, porque o número de fora da lei nos bosques tornou-se tão grande que os nobres mesmos estão com medo de que seus escravos revoltem-se e, com a ajuda dos fora da lei, subjuguem-nos.

[43]Agora, a marca do nobre é que ele pode ler e escrever. Quando os antigos dispersaram-se, o remanescente que foi deixado para trás era, pela maior parte, o ignorante e o pobre. Mas, entre eles, havia aqui e ali um homem que possuía alguma pouca educação e força de mente. Primeiro, não houve ordem; mas, após uns trinta anos ou aproximadamente, após uma geração, alguma ordem cresceu, e esses homens, então envelhecidos, foram naturalmente escolhidos como líderes. De fato, eles não tinham nenhum poder então, nem guardas nem exércitos; mas o povo comum, quem não tinha nenhum conhecimento, vinha a eles para a decisão de suas disputas, por conselho sobre o que fazer, para o pronunciamento de alguma forma de casamento, para a guarda de alguma nota de propriedade, para ser unido contra um perigo mútuo.

Esses homens, por sua vez, ensinaram seus filhos a lerem e escreverem, desejando que alguma parte da sabedoria dos antigos pudesse ser preservada. Eles mesmos escreveram o que eles conheciam, e esse manuscritos, transmitidos para seus filhos, foram salvos com cuidado. Alguns deles permanecem até os dias de hoje. Essas crianças, crescendo à virilidade, tomaram mais sobre si, e assumiram autoridade mais alta que o passado esquecera, e a igualdade original de todos os homens foi perdida na antiguidade. As pequenas fazendas cercadas dos pais deles cresceram em propriedades, as propriedades tornaram-se cidades e, dessa maneira, por graus, a ordem da nobreza foi formada. Como se casavam apenas entre si mesmos, eles preservaram uma certa individualidade. Atualmente, imediatamente um nobre é reconhecido, não importa quão grosseiramente ele possa estar vestido, ou quão brutais seus hábitos, pela delicadeza de [44]traço, seu ar de comando, até por sua macies de pele e delicadeza de cabelo.

Até agora, a arte da leitura e escrita é escrupulosamente transmitida a todos os seus filhos legítimos, e escrupulosamente confinada a eles apenas. É verdadeiro que eles não a usam exceto em raras ocasiões, quando a necessidade exige, sendo inteiramente abandonada em favor de caça, guerra e política, mas eles retêm o conhecimento. De fato, fosse um nobre ser reconhecido não ser capaz de ler e escrever, o príncipe imediatamente o degradaria, a sentença seria apoiada pela casta inteira. Ninguém mais, com exceção dos nobres, é permitido adquirir essas artes; se qualquer um tentar fazê-lo, eles são escravizados e punidos. Mas nenhum tenta; de que utilidade seria para eles?

Dessa maneira, todo o conhecimento é retido na posse dos nobres. Eles não o usam, mas os médicos, por exemplo, quem são famosos, são porque, pelo favor de algum barão, eles aprenderam receitas nos antigos manuscritos que foram mencionados. Uma virtude, e apenas uma, adorna essa casta exclusiva: eles são corajosos à beira da loucura. Eu quase omiti de declarar que os mercadores sabem como ler e escrever, tendo licença especial para o fazer, sem o que eles não podem corresponder-se uns com os outros. Há uns poucos livros, e ainda menos [pessoas] para os ler; e todos esses em manuscritos, pois, embora a maneira de imprimir não está perdida, ela não é empregada uma vez que ninguém quer livros.


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ORIGINAL:

JEFFERIES, R. After London; or, Wild England. London: Duckworth & Co, 1905. p.32-44Disponível em: <https://archive.org/details/afterlondonorwil00jeffuoft/page/32/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Máquina do Tempo - Capítulo V Pôr do Sol

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[63]Eu logo descobri uma coisa estranha sobre meus pequenos anfitriões, e era a sua falta de interesse. Ele viriam a mim com berros ansiosos, como crianças, mas, como crianças, eles logo parariam de me examinar, e vagueariam para longe em busca de algum outro brinquedo. Acabados o jantar e minhas primeiras conversas, eu pela primeira vez notei que quase todos aqueles que inicialmente me rodearam foram-se. É estranho, também, quão velozmente eu vim a desconsiderar essa gente pequena. Eu saí através do portal para o mundo iluminado pelo sol tão logo minha fome foi satisfeita. Eu continuamente estava encontrando mais desses homens do futuro, quem me seguiriam [64]por uma pequena distância, tagarelando e sorrindo a minha volta, e, tendo sorrido e gesticulado de uma maneira amigável, novamente me deixariam sozinho.

A calma da noite estava sobre o mundo conforme eu saía do grande salão, e a cena era iluminada pelo brilho quente do sol poente. Primeiramente as coisas ficaram muito confusas. Tudo era tão inteiramente diferente do mundo que eu conhecera – até as flores. O grande prédio que eu deixara era situado na encosta de um grande vale de rio, mas o Tamisa mudara de posição, talvez uma milha de sua posição presente. Eu resolvi escalar para o cume de uma crista, possivelmente a uma milha e meia de distância, a partir de onde eu poderia obter uma visão mais ampla de nosso planeta no ano de 802.701 a.C. Pois essa, eu deveria explicar, é a data que os pequenos mostradores de minha máquina registraram.

Enquanto eu andava, fiquei atento para cada impressão que possivelmente poderia explicar a condição de [65]esplendor em ruínas na qual eu encontrei o mundo – pois em ruínas ele estava. A uma pequena distância da colina, por exemplo, ficava uma grande pilha de granito, presa junta por massas de alumínio, um vasto labirinto de paredes precipitadas e montes desmoronados, em meio ao qual ficavam grossos montes de plantas semelhantes a pagodes – urtigas possivelmente, mas maravilhosamente matizadas com marrom em volta das folhas, e incapazes de ferroar. Eram evidentemente os restos abandonados de alguma estrutura vasta, construídas para que fim eu não podia determinar. Era aqui que eu estava destinado, em uma data posterior, a ter uma experiência muita estranha – a primeira sugestão de uma descoberta ainda estranha – mas sobre isso eu falarei em seu lugar apropriado.

Olhando em volta, a partir de um terraço no qual eu descansara por um tempo, com um pensamento súbito, eu compreendi que não havia pequenas casas para serem vistas. Aparentemente, a casa individual, e possivelmente até a família, [66]desaparecera. Aqui e ali em meio à vegetação ficavam prédios semelhantes a palácios, mas a casa e a cabana, as quais formam um aspecto tão característico de nossa própria paisagem inglesa, desapareceram.

“‘Comunismo,eu disse a mim mesmo.

E no encalço desse veio outro pensamento. Eu olhei para meia dúzia de pequenas figuras que estavam seguindo-me. Então, em um instante, eu percebi que todos tinham a mesma forma de vestir, o mesmo macio aspecto sem pelos e a mesma rotundidade feminina de membro. Talvez possa parecer estranho que eu não notara isso antes. Mas tudo era tão estranho. Agora eu vejo o fato suficientemente claro. No vestuário, e em tordas as diferenças de texturas e atitude que agora separam um sexo do outro, essas pessoas do futuro eram parecidas. E as crianças pareciam a meus olhos ser apenas miniaturas dos pais delas. Então eu julguei que as crianças daquele tempo eram extremamente [67]precoces, fisicamente pelo menos, e mais tarde eu encontrei abundante verificação de minha opinião.

Vendo a tranquilidade e segurança na qual essas pessoas estavam vivendo, eu senti que essa estreita semelhança dos sexos era, afinal, o que alguém esperaria; pois a força de um homem e a suavidade de uma mulher, a instituição da família, e a diferenciação de ocupações são meras necessidades militantes de uma era de força física. Onde a população seja balanceada e abundante muito da gravidez torna-se um mal em vez de uma benção para o estado; onde a violência surge apenas raramente e a prole está segura, há menos necessidade – de fato, não há necessidade – de uma família eficiente, e a especialização dos sexos em referência às necessidades das crianças deles desaparece. Nós vemos o começo disso até em nosso próprio tempo e, nesta era futura, está completo. Essa, eu preciso lembrar a você, foi minha especulação no momento. [68]Posteriormente, eu deveria apreciar quão longe ela foi inadequada com relação à realidade.

Enquanto eu estava meditando sobre essas coisas, minha atenção foi atraída por uma linda pequena estrutura, como um poço sob uma cúpula. Eu pensei, de uma transitória maneira, na estranheza de poços ainda existindo, e então retomei o fio de minhas especulações. Não havia construções grandes perto do topo da colina e, como meus poderes de caminhar eram evidentemente miraculosos, eu logo fui deixado sozinho pela primeira vez. Com um estranho sentimento de liberdade e aventura eu subi ao cume.”

Lé eu encontrei um assento de algum metal amarelo que não reconheci, corroído em pontos com um tipo de ferrugem rosada e meio oculto em musgo macio, o braço descansa projetado e cheio com a imagem de cabeças de grifos. Eu sentei-me nele, e inspecionei a ampla vista de nosso velho mundo sob o pôr do sol daquele dia longo. Foi uma visão tão doce e bela como [69]eu alguma vez vi. O sol já havia desaparecido sob o horizonte e o oeste estava dourado flamejante, tocado com algumas barras horizontais de roxo e carmesim. Abaixo ficava o valo do Tamisa, no qual o rio estende-se como uma faixa de aço polido. Eu já falei dos grandes palácios pontilhados de um lado para o outro em meio à vegetação variada, alguns em ruínas e alguns ainda ocupados. Ocasionalmente se erguia uma figura branca ou prateada no jardim desolado da terra, aqui e ali surgia a afiada linha vertical de alguma cúpula ou obelisco. Não haviam cercas, nem sinais de propriedade, nem evidência de agricultura; a terra inteira tornou-se um jardim.

Assim assistindo, eu comecei a determinar minha interpretação das coisas que eu vira e, como se configurou para mim naquela noite, minha interpretação era alguma coisa desta maneira (mais tarde eu descobri que eu compreendera apenas uma meia verdade, ou apenas um vislumbre de uma faceta da verdade):

[70]Parecia-me que eu deparava-me com a humanidade no declínio. O pôr do sol vislumbrado colocou-me pensando no pôr do sol da humanidade. Pela primeira vez eu comecei a compreender uma consequência estranha do esforço social no qual nós estamos empenhados no presente. E contudo, vim a pensar, é uma consequência suficientemente lógica. A força é o resultado da necessidade; a segurança estabelece um prêmio sobre a fraqueza. O trabalho de aperfeiçoamento das condições de vida – o verdadeiro processo civilizador que torna a vida mais e mais segura – avançara firmemente a um clímax. Um triunfo de uma humanidade unida sobre a natureza seguira-se a outro. Coisas que agora são meros sonhos tornaram-se projetos deliberadamente colocados na mão e transportados. E a colheita foi o que eu vi!

Afinal, o saneamento e a agricultura de hoje ainda estão em estágio rudimentar. A ciência de nosso tempo atacou apenas um pequeno departamento do campo da doença [71]humana, ainda assim, espalha suas operações muito firme e persistentemente. Nossa agricultura e horticultura apenas aqui e ali destroem uma erva daninha e talvez cultivem uma vintena ou aproximadamente de plantas saudáveis, deixando o número maior para lutar por um equilíbrio como elas podem. Nós aperfeiçoamos gradualmente nossas plantas e animais favoritos – quão poucos ele são – por reprodução selecionada; agora um pêssego novo e melhor, agora uma uva sem semente, agora uma flor mais doce e maior, agora uma raça de gado mais conveniente. Nós aperfeiçoamo-los gradualmente, pois nossos ideais são vagos e experimentais, e nosso conhecimento da natureza é muito limitado; porque a natureza, também, é tímida e lenta em nossas mãos desajeitadas. Algum dia tudo isso será melhor organizado, e ainda melhor. Quer dizer, o movimento da corrente a despeito dos redemoinhos. O mundo inteiro será inteligente, educado e cooperante; as coisas mover-se-ão mais e mais rápidas na direção da sujeição da natureza. No fim, [72]sabia e cuidadosamente, nós deveremos reajustar o equilíbrio da vida animal e vegetal para se adequarem às nossas necessidades humanas.

Esse ajuste, eu digo, deve ter sido feito, e bem-feito: de fato, feito por todo o tempo, no espaço através do tempo no qual minha máquina do tempo saltara. O ar estava livre de mosquitos, a terra, de ervas daninhas ou fungos; por toda parte existiam frutos e flores doces e encantadoras; borboletas brilhantes voavam aqui e ali. O ideal de medicina preventiva foi alcançado. As doenças foram erradicadas. Eu não vi nenhuma evidência de nenhuma doença contagiosa durante toda a minha permanência. E depois eu deverei ter de contar a vocês que até o processo de putrefação e apodrecimento fora profundamente afetado por essas mudanças.

Triunfos sociais também foram efetuados. Eu vi a humanidade hospedada em abrigos esplêndidos, gloriosamente vestida e, até agora, eu não encontrara-os engajados em nenhum trabalho pesado. Não havia sinais de conflito, nem social nem econômico. [73]A loja, a propaganda, tráfego, todo esse comércio que constitui o corpo de nosso mundo, desaparecera. Foi natural naquela noite dourada que eu deveria ter pulado para a ideia de um paraíso social.

A dificuldade da população crescente fora satisfeita, eu imaginei, e a papulação cessou de aumentar.

Mas com essa mudança de condição inevitavelmente surgem adaptações à mudança. Qual é, a menos que a ciência biológica seja uma massa de erros, as causas da inteligência e vigor humanos? Dificuldade e liberdade: condições sob as quais o ativo, forte e sútil sobrevivem e os mais fracos falham; condições que colocam um prêmio sobre a aliança leal de homens capazes, sobre autodomínio, paciência e decisão. E a instituição da família, e as emoções que surgem nela, o ciúme feroz, a ternura com a prole, o parental sacrifício de si mesmo; todas encontravam sua justificação e suporte nos perigos [74]iminentes ao jovem. Agora, onde estão aqueles perigos iminentes? Há um sentimento surgindo, e crescerá, contra ciúme conjugal, contra maternidade feroz, contra paixões de todos os tipos; coisas agora desnecessárias, e coisas que nos tornam desconfortáveis, sobreviventes selvagens, discórdias numa vida refinada e agradável.

Eu pensei na leveza física do povo, na sua carência de inteligência, e nessas abundantes grandes ruínas, e isso fortaleceu minha crença numa conquista perfeita da natureza. Pois após a batalha vem a calma. A humanidade tem sido forte, energética e inteligente, e usado toda essa abundante vitalidade para alterar as condições sob as quais ela viveu. E agora surge a reação às condições alteradas.

Sob essas novas condições de conforto e segurança perfeitos, aquela energia sem descanso, que conosco é força, tornar-se-ia fraqueza. Até em nosso próprio tempo, certas tendências e [75]desejos, uma vez necessário para sobreviver, são uma fonte constante de falha. Coragem física e o amor pela batalha, por exemplo, não são de grande ajuda – talvez até sejam obstáculos – para um homem civilizado. E, em um estado de equilíbrio e segurança físicos, o poder, tanto intelectual quanto físico, estaria fora de lugar. Por anos sem conta eu julguei que não havia perigo de guerra ou violência solitária, nenhum perigo das feras selvagens, nenhuma doença debilitante para requerer força de constituição, nenhuma necessidade de trabalho pesado. Para uma semelhante vida, o que nós deveríamos chamar de fraco estão tão bem equipados como os fortes, são, de fato, não mais fracos. De fato, melhor equipados eles estão, pois o forte estaria afligido por uma energia para a qual não havia canal. Sem dúvida a beleza esquisita das construções que eu vi foi resultado das últimas ondas da energia, agora sem propósito, da humanidade antes que ela estabelecesse-se em harmonia perfeita com as condições sob as quais ela [76]vivia – o florescimento daquele triunfo que iniciou a última grande paz. Esse sempre tem sido o destino da energia em segurança, adapta-se à arte ao erotismo e, em seguida, vêm o langor e decadência.

Até esse ímpeto artístico finalmente morreria – já tinha quase morrido na época que eu vi. Adornar-se com flores, dançar, cantar à luz do sol; tanto foi deixado do espírito artístico e não mais. Até isso desvaneceria em uma inatividade satisfeita. Nós eramos mantidos afiados no mó da dor e necessidade, e parecia-me que aqui aquele odioso mó finalmente quebrou!

Enquanto eu permanecia ali, no escuro, eu pensei que, nessa simples explicação, eu dominara o problema do mundo – dominara o inteiro segredo dessas pessoas deliciosas. Possivelmente as restrições que ele inventaram para o aumento da população sucederam muito bem, e os números [77]deles diminuíram em vez de manterem-se estacionários. Isso explicaria as ruínas abandonadas. Muito simples era minha explicação, e suficientemente plausível – como são a maioria das teorias erradas.

Enquanto eu permanecia ali meditando sobre esse triunfo perfeito demais do homem, a lua cheia, amarela e gibosa, surgiu a partir de um transbordamento de luz no nordeste. A brilhante pequena figura parou de se mover abaixo, uma coruja silenciosa voou perto, e tremia com o frio da noite. Eu decidi descer e encontrar onde eu poderia dormir.

Eu olhei para o prédio que conhecia. Então meus olhos viajaram ao longo da figura da esfinge branca até o pedestal de bronze, distinguindo-se conforme a luz da lua ascendente tornava-se mais brilhante. Eu podia ver a bétula branca contra ela. Havia o emaranhado de arbustos de rododendros, negros à luz pálida, e havia um pequeno gramado. Eu olhei novamente para o gramado. Uma dúvida estranha esfriou minha [78]complacência. ‘Não,’ disse eu fortemente para mim mesmo, ‘aquele não era o gramado.’

Mas era a gramado. Pois a branca face leprosa da esfinge estava direcionada a ele. Você pode imaginar o que eu senti enquanto essa convicção retornava a mim? Mas você não pode. A Máquina do Tempo desaparecera.

Imediatamente, como uma chicotada através da face, surgiu a possibilidade de perda de meu próprio tempo, de ser deixado sem esperança neste estranho mundo novo. O simples pensamento disso foi uma sensação física real. Eu podia senti-lo pegar-me na garganta e parar minha respiração.


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ORIGINAL:

WELLS, H.G. The Time Machine; An Invention. New York: Henry Holt and Company, 1895. pp.63-78. Disponível em: <https://archive.org/details/timemachineinven00well/page/63/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Eidonet

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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